LAMENTO DO POETA ACABRUNHADO


No fim do beco,
Na tarde que morre

Flutua, cinza,
Fundindo céu e terra,
Uma tristeza imprecisa,
O chuvisqueiro

Divide o espaço com uma listra evanescente
De luz oblíqua,
O ar parado

Recende à terra úmida, indecisos
Espectros cruzam a esquina,
O pensamento
Suspenso, o livro
No regaço abandonado,

Sou sensação pura e não verbalizada,
Sou grama, sombra, transparências,
Sou cordilheiras muito além do horizonte,

Sou noite que nasce amalgamada
Ao branco véu que desce dentre as nuvens,
Sou um nada imenso, um todo espremido
Nos meandros da ruela irregular;

Sou um objeto mudo e inominado,
Um detalhe
No abandono do cenário,
Sou desejos,

Que ao nascer se esvaem,
Sobretudo,
Sou um inerme irmão da solidão.

Gravataí, 31 de julho de 2007

Ubirajara Passos

O QUE É UM PELEGO?


Em janeiro de 2005 corria solto o renhido debate que antecedeu a desfiliação dos Sindjus-RS da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em espaço especialmente criado para isto no site da entidade, a que tinham acesso todos os trabalhadores da justiça que quisessem postar seus comentários.

Pois, em meio ao embate com a pelegada cutista que pretendia manter o Sindjus atrelado à central fascista e caudatária do governo do Inácio (e hoje, infelizmente, dirige o sindicato), escrevi a mensagem abaixo transcrita, que transcende as circunstâncias em que foi elaborada e é um verdadeiro paradigma para análise da prática petista, tanto do grupo de sindicalistas a que se refere imediatamente, quanto de toda a militância e politicalha detentora de cargos públicos do partido que, se pretendendo vermelho, desbotou e não é nem mais cor-de-rosa (mas já está tão “verde” quanto as camisas do uniforme integralista dos seguidores de Plínio Salgado, o führer tupiniquim dos anos 30):

O QUE É UM PELEGO?

Diante da preocupação terrível (que chega às raias da fúria), externada pelo companheiro Valdir Bueira, quanto ao adjetivo utilizado em nossas manifestações relativas à questão da CUT, venho esclarecer, com o auxílio científico, neutro e irrefutável do velho “amansa-burro” (espero que o Dicionário não se sinta injuriado), qual o significado, consagrado na língua, do termo, que além de artefato de pele de carneiro, quer dizer: “Pelego (ê) s.m. Denominação dada a sindicalistas que atuam em conformidade com interesses de patrões, governantes, etc.” (Dicionário da Língua Portuguesa Laurousse Cultural, Editora Nova Cultural, 1992).

Como se pode ver, a odiada palavrinha não possui nada de ofensivo, nem foi utilizada com o intuito de xingamento, difamação ou intimidação, como supõe o ilustre companheiro. Ela apenas corresponde, como se viu do texto do dicionário acima, a uma opção clara e objetiva de atitude do sindicalismo que, no caso da CUT (que se omitiu no episódio da Reforma Previdenciária, apóia o governo entreguista e burguês de Lula nas reformas sindical e trabalhista, e abriu mão da defesa do Salário Mínimo do Dieese, para se contentar com parcos R$ 300,00), evidentemente, cai como uma luva. Como ensina a velha lógica da matemática algébrica, se A=B e B=C, A é igual a C. Conseqüentemente, salvo a absurda hipótese de ignorância ou ingenuidade (nas quais creio que um ex-Presidente do Sindjus certamente não se encaixa), quem defende a CUT, uma central pelega, só pode ser pelego. Nada há aí de espantoso ou que possa causar comoção.

Da mesma forma, ao contrário da prática do grupo que o companheiro Bueira representa (que sempre agiu, no Sindjus, como se fosse proprietário da entidade, não admitindo qualquer oposição forte, sob pena de demonização dos opositores), jamais utilizei o vocábulo “pelego”, contra qualquer adversário, pelo simples fato de discordar do meu pensamento. Se o usei contra o companheiro e seus seguidores, foi na estrita acepção do termo, que, como foi cabalmente demonstrado acima, lhes é merecido, na mais elementar e imparcial das lógicas.

Na verdade, toda a preocupação externada, com a pretensa ofensa, oculta uma atitude que é típica do grupo petista que dirigiu o Sindjus de novembro de 1992 a junho de 2004, dos membros da Esquerda Democrática, da Democracia Socialista (DS) e dos fascistas travestidos de esquerda do país em geral. Diante da impossibilidade de refutar, no terreno da lógica e da verdade, seus adversários, eles partem para o falso moralismo, procurando desqualificar quem fala para que seu discurso não seja ouvido e entendido por quem acompanha o debate. Se a CUT é defendida por militantes deste quilate, isto é suficiente para tê-la bem longe de nosso sindicato.

Porto Alegre, 19 de janeiro de 2005

Ubirajara Passos

SERÁ QUE A TAM É RACISTA?


O meu amigo Moah (o jornalista mais pirado e revolucionário que já conheci) me enviou, ontem, um e-mail, sob o título “A TAM não gosta de negros”, em que alerta que ” um querido jornalista branco e de cabeça igualmente branca me avisa que para a TAM não existe religiosidade negra no Brasil. Para isso, basta ler o anúncio da Empresa publicado hoje nos jornais, informando que realizará um culto ecumênico em memória das vítimas no acidente com o vôo 3054. Diz o anúncio que estarão presentes autoridades religiosas representando os budistas, católicos, luteranos, judeus, assim como os anglicanos, evangélicos e os muçulmanos. Nenhum representante das distintas matizes da religiosidade da maioria da população brasileira foi mencionada. E nada mais foi escrito ou dito, sequer o local e a data do ato. Também não se sabe se foi solicitado algum enterro de sapo, com a boca devidamente costurada, em alguma cabeceira de pista de pouso e decolagens de aviões.”

Mas a coisa é muito pior do que supõe o Moah. A verdade pura e simples é que, no Brasil, umbanda e candomblé (as duas correntes predominantes da religião africana) são tidas não na conta de religiões, mas como curiosidade folclórica ou, no máximo, manifestações “primitivas” e “animistas” ou “feitiçaria”, pela maior parte da população (ainda que muito branco oficialmente católico, e devidamente endinheirado, que comunga publicamente deste pensamento, não resista à tentação e se utilize, às escondidas, das “mandingas” do batuque para derrotar seus inimigos, se vingar de chifre ou recuperar o seu objeto de amor extraviado).

Sou ateu, e ex-católico, e para mim, anarquista professo, as religiões, como qualquer forma de pensamento padronizado e dogmático, não passam de sistemas de condicionamento profundo da mentalidade dos indivíduos, destinado o mais das vezes a manter as criaturas sob o jugo da classe dominante (quando não do próprio clero, como é o caso da vigarice pura e sem intermediário das igrejas “pentecostais” do estilo “Igreja Universal do Reino do Deus”). Mas, apesar deste aspecto, não se pode negar que as diferentes correntes religiosas atendem a profundas dimensões transcendentes da sensibilidade humana, além de qualquer discurso formal racionalista, e canalizam, muitas vezes, as capacidades extra-sensoriais e parapsicológicas da criatura humana.

Tanto é verdade que eu mesmo, ateu libertário e branquérrimo descendente de portugueses (com um nariz que não deixa disfarçar uma certa influência genética semita, provavelmente arábe, como supõe meu pai), já freqüentei bastante as terreiras de umbanda de Gravataí e lá pude constatar a grande vantagem da religião dos orixás, exus, caboclos e preto velhos sobre os credos judaico-ocidentais, islâmicos, indianos ou do Extremo-Oriente. Ao contrário destas religiões, as divindades africanas não são seres abstratos e inacessíveis, em nome dos quais o “sacerdote” organiza o pensamento e o comportamento dos fiéis para os fins da moral autoritária exploratória, mas se apresentam como entes vivos e palpáveis, manifestados no “cavalo” (o membro da terreira que o “incorpora”) em transe, com os quais é possível dialogar e encaminhar os problemas do consulente “ao vivo”.

Não há (salvo nos casos de vigarice do “pai ou filho de santo”, de que os cultos africanos, assim como as crenças cristãs ou outras, infelizmente não estão isentos) oráculo mais eficaz e legítimo do que a clarividência, a pré-cognição e telepatia manifestadas por um religioso africano em transe hipnótico.

As próprias “entidades” são manifestações típicas dos arquétipos profundos do inconsciente humano (como Ogum, o “guerreiro heróico”, Oxum, a “grande mãe”, Xangô, o orixá da justiça e das letras, ou os “Exus” – pomba-gira, zé pelintra, ciganas, o Exu-Rei e outros -, representantes dionisíacos da sensualidade, da irreverência e da liberdade indomável), exatamente como os deuses e mitos da antiga religião greco-romana e celta (em que a psicanálise freudiana e a psicologia junguiana identificaram os grandes conflitos e padrões emocionais da psiquê humana). Ou como os mistérios do mundo dos espíritos dos índios do Novo Mundo.

Entretanto, ao inverso de mitos e deuses gregos, nórdicos e druídicos, até da bruxaria e da magia ocultista ocidental (seriamente estudados e enaltecidos em seus conteúdos piscológicos e antropológicos pelos “intelectuais” profissionais do Ocidente), a “macumba” é vista pela mentalidade oficial e dominante como uma manifestação menor da espiritualidade. Muito embora tenha conteúdo paralelo, e bem mais rico e expontâneo, a tais religiões xamânicas e/ou politeístas (classificação a que a própria Igreja Católica, oficialmente monoteísta, não escapa, com sua constelação de “santos”, que não são mais do que “deuses” menores, daí o sincretismo óbvio que se estabeleceu com as religiões africanas), o “saravá” é relegado ao desconhecimento e à caricatura por não pertencer ao universo do imperialismo político-cultural.

Qual a diferença entre Ares (ou Marte) e Ogum? Hermes (ou Mercúrio) e Xangô? Afrodite (ou Vênus) e “Iemanjá”? É que os primeiros (decantados na cultura oficial ensinada nas escolas) são brancos, europeus e paridos pelas nações imperialistas (que praticaram o escravismo explícito, nos primeiros séculos de desenvolvimento do capitalismo). Os orixás, além de não pertencerem à cultura “escrita” (e não terem sido celebrados por empolados poetas gays como Homero – não sei se era puto, mas a veadagem era moda entre os gregos antigos), são deuses de povos oprimidos e explorados à exaustão, cujas multidões de gerações e gerações foram queimadas na fornalha da engrenagem colonial, no continente americano e na própria África, para “adoçar a boca de europeu” (como dizia Darcy Ribeiro) e propiciar o luxo de balofos e imbecis aristocratas e burgueses ocidentais. Para que estes senhores pudessem descansar seus ilustres traseiros em fofas almofadas, sem o incômodo de suar ao sol escaldante para “enricar” e brincar de deuses, desgraçando a vida da “ralé” numa penada (quando sabiam escrever!)

Ubirajara Passos

DIREÇÃO PELEGA DO SINDJUS FOI AO TRIBUNAL COM OS BRAÇOS ESTENDIDOS E VOLTOU DE MÃOS VAZIAS!


Como eu já havia previsto no último comentário (e qualquer moleque que recém aprendeu o be-a-bá concluiria) o resultado da audiência dos intimoratos pelegos da direção do Sindjus-RS com o Presidente do Tribunal de Justiça foi nenhum!

Conforme notícia divulgada no site do sindicato, no final do expediente (e que parece ter sido redigida pelo fedelho que estuda o be-a-bá), “os dirigentes da entidade entregaram ao Desembargador Leal um ofício com as perdas salariais da categoria e colocaram a necessidade de um reajuste” (grifo nosso). Ao que o Marcão respondeu que “mandará um projeto à Assembléia Legislativa depois que o Conselho de Política Salarial do órgão fizer um estudo a cerca do índice de reposição para os servidores do judiciário“, e que “mandará o projeto ainda este ano para o Legislativo estadual.”

*Dinheiro, pra que dinheiro?
Ou seja, a nossa cordada diretoria foi devidamente enrolada e tem a cara de pau de assumir o fato publicamente. Cabe perguntar: que estudo pretende a administração do Judiciário fazer a respeito das perdas? Por acaso investigará se estas realmente montam a 44%? quem sabe são inferiores a este índice? (o mais provável em se tratando de uma gestão que privilegia os interesses da refinada magistratura, em detrimento da peonada de bolsos furados que sua nos cartórios e na entrega de mandados) Ou são bem maiores? (esta hipótese só é plausível se Cristo aparecer nos céus amanhã, em horário nobre)

Não é preciso pensar muito (coisa que poderá lesar os cérebros dos nossos dirigentes pelegos, devido ao esforço repetitivo) para concluir que os tais estudos prévios se resumem a inventariar os cofres do Judiciário para se ver se, contemplado o projeto que vincula os salários dos juízes gaúchos aos “subsídios” dos ministros do Supremo Tribunal Federal (propiciando aumentos de até 60% nos vencimentos dos nossos pobres magistrados) e a política de arrocho da governadora Yeda Crusius, sobrará algumas moedinhas para a diversão dos servidores da justiça. E nada mais vago do que a promessa de que o reajuste será enviado “ainda este ano” (de que já decorram quase sete meses), enquanto a inflação corrói, como camundongos, o poder aquisitivo dos servidores. Que não vêem um centavo de reposição há mais de três anos! Mas os nossos dirigentes sindicais apresentam este resultado como uma façanha e comemoram a conquista que foi a “quebra do isolamento” do sindicato, com a realização da produtiva audiência.

Qualquer direção sindical que se preze teria, no mínimo, diante desta resposta, exposto a indignação dos servidores com a desvalorização cada vez maior e progressiva de seus salários e estaria convocando a categoria a exercer pressão pública e forte pelo envio imediato de reposição que contemple a inflação decorrida desde 2004. Mas os ilustres pelegos cutistas não tecem o menor comentário a respeito da posição do TJ, mantendo-se educadamente neutros, o que corrobora os argumentos patronais.

Chegaram mesmo (e ainda admitem!), segundo a notícia, a utilizar como argumento para solicitar o reajuste o fato de que “mais de 50% da categoria não está recebendo mais a URV, o que rebaixa ainda mais os salários”. Ou seja, admitem que a indenização de direitos impagos (e legalmente incontestáveis) há mais de uma década, que deveriam ser ressarcidos de uma única (ou, no máximo algumas) parcela, seja utilizada como forma de tapar o rombo orçamentário (decorrente da inexistência de reposição) dos servidores e respectivas viúvas e viúvos (que muito companheiro morreu desde 1994, o ano em que ocorreu o expurgo na conversão dos salários para Real, sem ver a cor do dinheiro), em troca de reajuste!

*Ei, você, aí, me dá uma promoção aí!
O restante da reunião é de uma monotonia e imprecisão de dar dó! Conforme a notícia, “Além da questão salarial, os dirigentes falaram do plano de Carreira” e “Leal disse que o órgão está estudando o tema” (o que chega a ser deboche, pois, nos últimos treze anos, duas comissões oficiais, uma das quais eu fui membro – representando o Sindjus, em 1994 -, e um especialista da UFRGS elaboraram três versões diferentes de plano, todas engavetadas pelo TJ) e “reconheceu (sic) a defasagem de 1.612 cargos nas primeira e segunda instâncias do Judiciário” (sem apresentar, evidentemente, nenhuma solução para o descalabro de processos acumulados e servidores esgualepados ao tentarem acabar com as pilhas).

Sobre estes temas (que parecem constar da matéria somente como resposta à crítica deste blog à falta de objetividade da diretoria ao mencionar que iria “apresentar a pauta de reivindicações” ao presidente do TJ), novamente não se vê a menor crítica. Simplesmente citam as afirmações de Barbosa Leal, de forma textual e ingênua, de maneira a suscitar alguma vaga esperança de atendimento das reivindicações pela arbitrária boa vontade de sua excelência (sem qualquer mobilização dos diretores ou da categoria, que isto de fazer passeata e discursar nas ruas cansa muito, além de ser coisa de gente sem educação!). Os audaciosos sindicalistas parecem mesmo estar “emocionados” com o “reconhecimento” do Marcão da falta de mais de 1600 servidores na justiça. O Presidente do TJ sequer pensou em falar a palavra “concurso” (a única solução para o massacre diário que a categoria vive diante das montanhas invencíveis de processos atrasados e das reclamações da população que vai ao foro), mas, uma vez que “reconheceu” o problema, tudo está solucionado. Aquele trabalhador da justiça que está à beira de um ataque de nervos e já se estropiou na tendinite, de tanto trabalhar como um louco furioso, pode dormir tranqüilo. Vai continuar se esfalfando até ir pro hospício ou perder os braços, mas o excelentíssimo chefe-maior reconhece o seu sacrifício. E os pelegos diretores do sindicato vertem lágrimas pela preocupação de sua excelência!

* Alguém disse que os diretores são pelegos?
Mas a maior peróla é o final da matéria, que dá conta de que “o Sindjus afirmou a intenção de manter um diálogo institucional” com o Tribunal de Justiça, enfatizando a autonomia da entidade”. Coisa muito estranha para um órgão da natureza de um sindicato, que deve ser um movimento “vivo” e combativo da massa de trabalhadores e não uma entidade “oficial” (ou será que os nossos diretores receberam seus mandatos do Estado e não têm qualquer relação de representação com a categoria?).

Aliás, esta coisa de “enfatizar a autonomia” da entidade é uma gracinha. Do sindicato a coisa mais óbvia e pueril que se pode esperar é que seja independente do patrão, que não esteja subordinado ou atrelado a ele, caso contrário perde sua própria razão de ser. E isto é um fato que, se corresponde à realidade, deve ser tão natural como respirar. Não é preciso que seus dirigentes saiam gritando por aí, aos quatro ventos, que o “Sindjus é autonômo” do patrão! Ao menos, é claro, que haja alguma dúvida. E, neste caso, tanto empenho e ênfase em afirmar a autonomia é preocupante! Se ninguém perguntou para aquela dondoca namoradeira sobre sua conduta sexual, por que ela insiste tanto em afirmar que é virgem?

A coisa me faz lembrar um velho pelego candidato a presidente do Sindjus, que, financiado por uma empresa de seguros que pretendia obter o rico filão de contribuições, via convênio obscuro, da categoria, repetiu, “peremptoriamente”, em uma reunião em uma mesa de bar, há uns seis anos, três vezes a frase: “eu sou honesto”.

Mas, seja como for, se algum servidor ingênuo ainda acreditava que os “irmãos mais velhos” (a direção do Sindjus) iriam obter algum avanço de salário e condições de trabalho, suplicando, educada e humildemente ao “grande pai” (a administração do TJ) por seus “irmãos menores” (a categoria), pode tirar o cavalo manco da chuva. O encontro pode ser resumido da seguinte forma: nele os sindicalistas cutistas fingiram reivindicar (sem falar muito alto, para não machucar os augustos ouvidos presidenciais) e o Tribunal de Justiça, em recompensa a tão comportada gurizada, prometeu que vai pensar se é possível estudar alguma solução para encaminhar, quem sabe, não se sabe quando, para tão graves e complexos problemas (em tailandês a tradução da última frase é: blá-blá-blá-blá). Hasta la vista!

Ubirajara Passos

DIRETORES PELEGOS DO SINDJUS-RS VÃO TOMAR CAFEZINHO COM MARCÃO!


Este será, com certeza, o único fato concreto e efetivo da audiência com o Presidente do Tribunal de Justiça obtida pela gestão “Pra Somar”, que deverá se realizar, conforme noticiado hoje no site do sindicato, na próxima terça-feira, 24 de julho, às 14h 30 min.

Embora festejada como uma grande conquista pela mídia sindical (afinal, há mais de dois anos o Sindjus não era recebido pelo patrão) a grande verdade é que as simples reuniões com o chefe do poder Judiciário jamais resultaram em avanço salarial ou de condições de trabalho para a categoria. Nem mesmo as reuniões com o pretensamente esquerdista Osvaldo Stefanello (nas quais, ao contrário da atual, a diretoria anterior não comparecia sozinha, mas acompanhada de comissão de trabalhadores das comarcas do interior) renderam qualquer avanço nas reivindicações.

É um fato histórico e inegável que só a mobilização da massa dos trabalhadores do Judiciário (e muitas vezes a greve, como em 1995, quando tínhamos perdas de 77%, o TJ oferecia 46% e o governador Antônio Britto rechava qualquer reajuste) foi capaz de forçar a recuperação (sempre atrasada e parcial) de nossas perdas salariais.

E, como jamais tivemos uma maioria convicta de que só a pressão radical dos próprios trabalhadores surte efeito sobre a postura propositadamente surda e autoritária da administração do Poder (cujo único compromisso é com os privilégios da casta chamada magistratura), e portanto, nunca fomos, nos últimos dez anos, capazes de sustentar um dia inteiro de paralisação na maioria absoluta das comarcas do Estado, jamais conseguimos impor ao patrão a recuperação total, ainda que a médio prazo das perdas inflacionárias, ou o avanço na alteração e diminuição da carga horária (as “sete horas sem parar”), por exemplo.

Mas, para manter a expectativa da parcela amedrontada, subserviente e paternalista que a elegeu, a nova diretoria apresenta como um grande feito o que deveria ser um fato corriqueiro (reuniões com o patrão – a Presidência doTribunal) e, dada a postura refratária de Marco Antônio Barbosa Leal ao diálogo com a combativa gestão anterior, apenas confirma o caráter pelego da nova liderança, cujas atitudes “bem comportadas” e alheias aos interesses dos servidores são muito confortáveis e benéficas para o Judiciário Estadual, onde grassa o nepotismo, a priorização dos cargos de confiança em detrimento do concurso para os cargos cartorários necessários, entre outras mazelas (que sempre denunciamos na gestão anterior, e contra as quais, até o momento, os “combativos” diretores que vieram “Pra Somar” não emitiram um pio).

Não é casual que os ilustres líderes pelegos tenham se esmerado na política de boa vizinhança com o patrão e distanciamento dos servidores, ao solicitarem uma audiência, sem qualquer participação da base sindical, nem a convocação dos representantes de comarca para discutirem e organizarem a pressão a ser exercida na reunião, para obter pelo menos a negociação de nossas reivindicações com o TJ. Afinal, levar trabalhadores comuns da justiça ao pomposo palácio poderia ser inconveniente, além de “radical” – o patrão poderia ter um ataque de asma com o cheiro de povo empesteando o olímpico recinto.

E, para ter certeza de que continuarão a merecer a estima da chefia do Poder (a que muito convém a presença de tão pacíficas e compreensivas ovelhas na direção do Sindjus), a programação prevista para a audiência não poderia ser mais vaga e inócua. Nela, segundo a notícia, a Diretoria pretende apresentar ao Tribunal a “pauta de reivindicações” da categoria. Tenham dó! Quando amargamos perdas de mais de 43% (que estendem há mais de uma década) nos nossos bolsos furados, quando tivemos frustrada até mesmo a recuperação de metade da inflação de 2004 (três anos de atraso), com a manutenção do veto de Yeda ao projeto de reajuste de 6,09%, pela Assembléia Legislativa, em março passado, o mínimo que se esperaria da diretoria mais pelega possível seria, numa ocasião destas, a exigência concreta do envio de novo projeto de lei ao legislativo, que não só recupere a defasagem salarial dos últimos anos de imediato, mas também a perda histórica, no médio prazo, e garanta uma política salarial de reposição integral da perda a cada ano!

Mas os nossos ilustres pelegos pretendem, infatilmente, apresentar ao Presidente do Tribunal uma lista de reivindicações que o patrão está careca de conhecer há mais de quinze anos, que já foram exaustivamente discutidas e exigidas desde 1992, como o Plano de Carreira, a Isonomia de salários entre os cargos de diferentes entrâncias (que apenas extinguiria uma discriminação inconstitucional), e outras questões que o TJ jamais atendeu por má vontade, interesse em privilegiar os salários e as condições de trabalho da magistratura, e por nossa falta de coragem em levar a luta à maior radicalização necessária (a grande maioria dos servidores tem verdadeiro pavor da palavra “greve”). E que não será uma mera conversinha, regada a muito cafezinho (cuidado com a hipertensão, pelegada!), que garantirá o atendimento.

Não quero ser desmancha-prazeres, nem sou profeta, mas a tal audiência (em que o Presidente do Tribunal, como diz a própria palavra, faz o óbvio: ouve quem a ele se dirige), já tem um resultado previsto. Nela, Barbosa Leal dirá aos diretores do Sindjus que tem dificuldades políticas e orçamentárias para encaminhar novo reajuste ou atender a qualquer item da “pauta”, mas reconhece – simplesmente reconhece (nada pode fazer) a situação financeira e a preocupação dos servidores. E os nossos pelegos, com cara de bundão, responderão em coro: “Sim senhor, sim senhor!”

 

Ubirajara Passos

ATOS


Desde o sábado o tédio me invadiu de tal modo, que não me sobrou a mínima gota de inspiração. Mas, para que os leitores não fiquem a seco, publico o último poema constante do “Paixões, Asneiras e Tristezas”, que nem sei por aqui não o cortei do livro, tão empolado (e até meio moralista) é. Seja como for, representava, na época em que foi escrito, o mais aproximado possível dos meus sentimentos. Vamos a ele.

ATOS

Não é preciso que de nossas vidas
Façamos um infindo mar de glórias
Ou uma constelação imensa de vitórias.
Não é preciso que ao público olhar brilhe
A fulgurante luz de nossos triunfos,
Nem que ela ofusque os grandes feitos de outrora.
Só é preciso que os nossos atos
Ao nosso íntimo,
À racional, profunda consciência satisfaçam.

Gravataí, 8 de outubro de 1990

Ubirajara Passos

LULA FOGE DAS VAIAS COM O RABO ENTRE AS PERNAS!


Até parece sonho, mas no Brasil ainda há esperança. Nem mesmo a constrangida megalomania demagógica do prefeito carioca e do governador do Estado do Rio de Janeiro (batendo palmas como um par de retardados furiosos) foi capaz de salvar o Inácio das vaias populares e de impedi-lo de sair correndo, às escondidas, do Maracanã, rumo à Brasília, fazendo ar de surdo para a mídia!

O fato é que o descontentamento (e a suprema arma contra o fascismo empolado, o deboche) do povo presente à cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos foi capaz não só de romper o protocolo oficial e tradicional do evento (que sempre é declarado aberto, em cada em país em que os jogos realizam-se, pelo chefe de Estado local), mas de mandar ao diabo que o carregue a teimosia histriônica do fanfarrão Inácio – que, mesmo vaiado pelos milhares de brasileiros presentes, insistiu em pegar o microfone e só não sofreu a suprema “humilhação” de ser “ovacionado” na barba grisalha pela gema da “mulher do galo”, porque salvo a tempo pelos zelosos puxa-sacos do protocolo, que recorreram ao chefe do comitê organizador do “Pan”, fazendo-o abrir o evento.

Oito meses após sua reeleição, parece que o tiranete Lula começa, definitivamente, a sofrer o rechaçamento de uma população que não suporta mais tomar no cu e engolir a perspectiva, a cada dia, de perder os últimos instrumentos de amenização de sua miséria e brutalização que a lei trabalhista e previdenciária, porca e miseravelmente, lhe garante!

Enquanto a oposição, o desmascaramento, e a intenção de limpar o Brasil da versão medíocre e popularesca da ditadura gorila de 1964 (o governo do Lulinha) se restringia às altas cúpulas partidárias oportunistas, aos intelectualóides da mídia ou à meia dúzia de revolucionários extraviados, como eu, não havia dúvida. Nem os oceanos de corrupção de seus apaniguados, ou a contradição de um PT que chegou ao poder na onda do moralismo mais cretino possível, e se revelou o maior refinamento da sacanagem política da era pós-ditadura militar, seriam capazes de abalar o poderio do Inácio. Tanto que se reelegeu!

Mas, no momento em que os gaiatos perdem o temor e correm o “grande chefe” às vaias, podemos concluir que ainda há uma saída. Quando as gargantas, entaladas até o gogó de revolta e violentação diária, extravasam o seu grito de protesto, na forma, propositalmente, mais envergonhante e forte (a vaia) é porque a dor de ver frustrado o mínimo de condições de vida acima do totó que fuça lixo e vira mundo, a contrariedade em se sentir mero gado a mourejar sem dó em nome da abastança dos senhores burgueses e seus aliados demagogos de palhaçada (Dom Luís Inácio e sua corte) tomou corpo consciente e se converteu em gesto de inconformidade! Não contra as glórias pátrias e o orgulho substitutivo (que faz das conquistas dos campeões do esporte o lenitivo para a vida sem graça do brasileiro comum), mas contra os que, solapando na base (nas próprias condições mínimas de sobrevivência – comida, moradia, emprego, transporte, educação e dignidade de gente) a vida quotidiana de 90% dos brasileiros, tentam brilhar sobre o espetáculo esportivo que ainda constitui a última referência de identificação válida do nosso povo!

Lula e sua corte de palhaços corruptos de todos os matizes (que, como convém a todo sistema fascista, engloba dos “socialistas de pantomima” aos furiosos beatos mensaleiros e puros putanheiros utilizadores de moleques de recado de empreteiras) podem até não ser apeados do poder e continuar a nos impingir a cada dia o seu chicote, mas o caminho para a sua derrubada está iniciado e uiva agudo e forte no país a fora. Viva a vaia popular!

 

Ubirajara Passos