Manifesto aos fura-greves que foram impedidos de trabalhar pelos piquetes e barricadas:


A todos os indignados que não puderam furar a greve geral e reclamam do “direito de ir e vir” inscrito numa Constituição que não vige (pois vivemos numa ditadura informal, capitaneada por uma casta política corrupta, medíocre e subserviente ao capital internacional) desde o golpe paraguaio de 2016:

OS PIQUETES E BARRICADAS EXISTEM JUSTAMENTE POR TUA CAUSA. PARA QUE O TRABALHADOR EQUIVOCADO, QUE SERÁ REDUZIDO À CONDIÇÃO DE ESCRAVO E SE APOSENTARÁ SOMENTE COM A MORTE, ATRAVÉS DAS REFORMAS DE TEMER, NÃO PREJUDIQUE A LEGÍTIMA GREVE COM QUE SE PRETENDE BARRÁ-LAS E IMPEDIR O TEU MASSACRE.

NÃO FOSSE TUA POSTURA MASOQUISTA DE INSISTIR EM TRABALHAR E FURAR A GREVE FEITA POR TEUS COMPANHEIROS EM FAVOR DE 99% DOS BRASILEIROS E CONTRA OS PRIVILÉGIOS DE UMA MINORIA QUE QUER AUMENTAR NOSSO SACRIFÍCIO RETOMANDO O TRABALHO DE ATÉ 12 HORAS DIÁRIAS E OUTRAS TANTAS MAZELAS SEM NENHUM DIREITO NEM NINGUÉM PARA RECORRER, COMO SÓ OCORRIA COM OS ESCRAVOS NESTE PAÍS;

NÃO FOSSE TEU ERRO E NÃO HAVERIA PIQUETES.
NÃO FOSSE TUA COLABORAÇÃO INVOLUNTÁRIA COM A INTENÇÃO SÁDICA DOS ALTOS PATRÕES, E A VITÓRIA DA GREVE E A RETIRADA DAS NEFASTAS “REFORMAS” SERIA CERTA.

ANTES DE ENTRAR NO PAPO DOS “LIBERAIS DE PLANTÃO” E RECLAMAR DOS PIQUETES E DA PARALISAÇÃO DO TRANSPORTE COLETIVO, PARE UM MINUTO, REFLITA E SE JUNTE ÀS MANIFESTAÇÕES!

Ubirajara Passos

Paixões, Asneiras e Tristezas finalmente publicado


Jamais usei este blog para promover minha vaidade (que simplesmente não existe, por questões meramente técnicas e não por inclinação emocional, é claro). Tanto que, quando uma crônica deste blog (A foda sagrada de Drukpa Kunley) foi ao ar, na primavera de 2011, com direito a comentários efusivos e sacanas de mais de meia hora em programa noturno da KFK, rádio web de meu amigo Barata Cichetto, não dei a notícia aqui.

Mas este velho livro de poemas foi tão maltratado nas tentativas feitas, no século passado e neste, pelas editoras nacionais, que sua autopublicação no site da multinacional Amazon (em versões e-book e impressa) e no nacional Clube de Autores (versão impressa sob encomenda que pode ser paga com boleto), merece o registro neste blog, no qual seus poemas foram integramente publicados.

Não há no livro, portanto (com exceção da profunda revisão ortográfica e gramatical) grande novidades para os leitores do Bira e as Safadezas, além do possível prazer de ter os poemas reunidos num único volume impresso ou num prático e-book.

Mas, para que a frustração não seja completa, reproduzo abaixo alguns trechos da biografia constante no final, que mencionam alguns fatos ainda não mencionados neste blog sobre a “República” do Alemão Valdir no bairro Petrópolis, em Porto Alegre:

“Com a chegada do sobrinho de Valdir, Rogério Seibt, de Santa Rosa, que se hospedou no apartamento para realizar o curso pré-vestibular, em abril de 2002, se constituiria, no Edifício Morumbi da Rua Amélia Telles, a lendária “República do Alemão Valdir” (que durou até janeiro de 2004, quando o alemão retornou a Santa Rosa), frequentada, entre outros, por Alexandre Vorpagel (o “Gordo Ale”), amigo e conterrâneo de Rogério, que cursava Radiologia na capital, e por Luiz Miranda Pedreira do Couto Ferraz (o “Baiano Luiz”), emigrado de Salvador, formado em Física e Filosofia e emérito boêmio, blogueiro e colecionador de falenas, que Valdir conhecera no Hotel Elevado, na Avenida Farrapos, quando viera morar em Porto Alegre, em 1996, e se tornaria parceiro de cachaçada, boemia e sacanagem de Bira e Valdir na sauna La Luna, na rua Barão do Amazonas.

Aí, na “República” (como Valdir constatara se parecer o apartamento, numa súbita inspiração num almoço de domingo), os fins de semana, e às vezes os dias úteis, eram agitados pelas infindáveis conversas, anedotas e histórias rocambolescas dos frequentadores, sempre devidamente regadas à cerveja, com exceção do “dono da casa”, que mantinha, desde 2001, tratamento com antidepressivos e raramente bebia. Às vezes, na ausência do Luís, em noites entediadas, muitos poemas amorosos deste livro vieram à tona pela primeira vez na internet, nos “chats” do alemão Ale com suas namoradas virtuais, enquanto Bira os lia em voz alta. E aí nasceram uns quantos poemas datados de Porto Alegre, aqui publicados, como “!” , Amargo Mate da Amargura , Embriaguez e Menestrel Equívoco.”

Ubirajara Passos

Pacotaço de Sartori: por que não aconteceu a greve geral do funcionalismo gaúcho e o que lhe resta fazer diante da sanha privativista e anti-trabalhador dos governos estadual e federal


Diante do questionamento de combativos companheiros servidores do judiciário gaúcho sobre a razão que impediu o funcionalismo do Rio Grande do Sul de deflagar a greve geral contra o pacotaço privativista (com absurdos como a venda da Sulgás, da Cia. Riograndense de Mineração e da CEEE, extinção da Cientec, da Fundação Zoobotânica e da fundação Piratini, que mantém a TVE e a Fm Cultura) e anti-servidor do governador Sartori, votado na correria e sob forte repressão miltar às manifestações de protesto na praça da matriz, publicamos, a guisa de resposta, as seguintes reflexões no grupo de facebook “Greve no Judiciário Gaúcho”:

Nem medo, nem falta de união, mas simplesmente peleguismo puro de lideranças sindicais burocratizadas e incapazes de comandar a rebeldia necessária. Discursos infantis e desgastados como o da direção do Cpers, que tratava o apocalipse do serviço público como um mero “pacote de maldades” (algo como uma “birrinha pueril do governador) e não como uma política coerentemente pensada (embora radicalmente absurda) e determinada de enxugamento e desmonte do serviço público, e entrega de setores estratégicos ao capita privado, deixam clara uma inércia abobalhada diante da hecatombe que está nos reduzindo a todos à condição de escravos sem nenhum direito, atê mesmo à representação sindical! (vide o fim de triênios, adicionais, licença-prêmio e licença remunerada para cumprimento do mandato sindical), na liquidação do estoque e patrimônio da lojinha falida do budegueiro gringo (tal é a natureza das “medidas de gestão” de Don Sartori).

No Sindjus não se deve nem falar, visto que dirigido por agentes expressos e teleguiados do patrão.

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fotos: Inezita Cunha
A heróica resistência das manifestações durante a votação propositalmente de inopino, feita a ferro e fogo e garantida pela repressão militar truculenta, é o derradeiro ato desesperado, e absurdamente insuficiente, que mesmo que contasse com a presença de dezena milhares de servidores não surtiria o efeito necessário que somente poderia advir da greve geral por tempo indeterminado.

No já longínquo ano de 1987, atitudes bem menos drásticas do governador peemedebista Pedro Simon foram exemplarmente rechaçadas e detidas por uma greve sem precedentes, liderada por sindicatos com brios.

Naquela época os servidores da justiça fizeram sua primeira grande greve sob a liderança, recém eleita então, do Paulo Olímpio da ASJ (!), que nem o Sindjus então existia!

É inacreditável a domesticação a que chegamos nestes trinta anos, que é extremamente perigosa quando ocorre simultaneamente ao avanço raivoso e impiedoso do fascismo privativista e predatório que comanda o país desde Brasília.

As “reformas” de Sartori e Temer não coincidem com a lógica da liquidação de lojinha falida por acaso, nem são mero reflexo da índole partidárias de tais governos, casualmente peemedebistas.


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fotos: Inezita Cunha

Elas servem concretamente aos interesses do capital financeiro internacional, cuja sanha cada vez maior se garante pela implantação de ditaduras informais, escudadas numa legalidade aparente e no mais furibundo e falso moralismo fascista.

E para implantá-las nada melhor que governos fantoches dirigidos pela velha lógica feudal, entreguista e subserviente das aristocracias latino-americanas. As mesmas que apearam Perón e Jango do poder, “suicidaram” Getúlio e Allende e assassinaram Che Guevarapara que a burguesia americana pudesse continuar sugando cada vez mais o produto do sacrifício diário dos trabalhadores do continente.

Contra este massacre econômico e social deliberado, que nos chicoteia o lombo e nos tritura o corpo até o tutano, não resta, tanto para servidores públicos quanto para o povo trabalhador brasileiro em geral, outra saída que a única e derradeira resposta plausível ao encurralamento irresistível em que estamos sendo jogados. E ela não é somente a resistência pela greve geral, mas a derrubada, a pau e pedra de tais governos ilegítimos.

Estão nos retirando até o último direito e nos conduzindo à miséria definitiva. Logo não teremos mais nada a perder. E aí, quem sabe, ganharemos o ímpeto para virar a mesa e mandar esta ordem social e econômica, e todos seus beneficiários, inclusive os mandaletes corruptos travestidos de defensores democratas da moralidade, ao lugar que merecem (que não é exatamente o colo de suas genitoras)!

Ubirajara Passos


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foto: Inezita Cunha

O sono nosso de cada dia


No próximo dia 11 de abril este blog completa exatos dez anos de existência. Pra variar, me parece que foi ontem ainda que postei o primeiro texto (o meu breviário poético anarquista) e este tempo passou como se fosse apenas alguns meses. 

Nos primeiros tempos escrevia freneticamente, porém, desde o início dos anos 2010, este pobre site tem sido cada vez mais relegado  à eventualidade e, ultimamente, quando alguma inspiração desperta, tem sido mais fácil digitar rapidamente algumas frases ao teclado do smartphone (nome fresco para os nossos celulares mais modernos).

Assim, como o leitor atento perceberá, esta crônica nasceu no facebook, hoje, sábado de amanhã, enquanto eu curtia com a Isadora a modorra de estar desperto mas não ter a menor vontade de sair da cama. Mas tão caro me é o tema que rompi o meu jejum bloguístico e aí está o texto, escrito como comentário ao link que divulgava mais uma destas pesquisas americanas, sob o título “Acordar cedo é equivalente a ser torturado, diz estudo

Sempre desconfiei imensamente do discurso de “saúde” e boa disposição dos madrugadores, normalmente pendurado aos lábios dos piores exemplares da falsa moral edificante, que não tem a menor experiência prática com sua pregação (o que se dá, em geral, com ilustres burgueses – ou os lacaios de luxo destes que atendem pela designação de “executivos” metidos a doutrinadores), ou padecem justamente de uma secura própria das vítimas da peste emocional, substituindo, em suas vidas, o prazer genuíno (que é a própria expressão concreta do bem-estar e da saúde) pela compulsão sado-masoquista do trabalho penoso e embrutecedor, de cujo compromisso compulsivo não podem se afastar um único instante para não cair na “pecaminosa” e desestruturadora “gandaia” tão temida.

Creio firmemente que a obrigatoriedade de acordar cedo é, como tudo que é compulsório no mundo, infelicitante, anti-natural e escravizante e serve à redução da maioria da humanidade ao triste e frustrante papel de gado ou máquina a serviço de uns poucos amos cuja vigarice  e vadiagem é protegida em lei e agraciada com os louros da virtude institucional.

Mas não me parece que o início do ciclo biológico humano diário às 10 h da manhã, apontado na pesquisa, seja resultado necessário da natureza humana, cuja essência é justamente a capacidade das pessoas de se desvincular dos condicionamentos rotineiros mais comuns e, subvertendo, na medida do possível, a própria ordem de sua condição animal, criar seus próprios ritmos e modos de vida.

Ele, antes do que uma duvidosa, mas provável,  derivação de nossa condição biológica, é a consequência das bases tecnológicas e ideológicas do nosso quotidiano, onde a imensa maioria da humanidade vive espremida na urbe permanentemente iluminada e vinte e quatro bombardeada pela mídia, que dentro da casa do sujeito mais recluso e avesso à diversão, cria atrativos para que dificilmente durmamos antes da meia-noite ou do início da madrugada.

Como hábito social correspondente a um ciclo natural, o acordar cedo fazia parte de um mundo em que, inexistindo luz elétrica, a imensa maioria de nós vivia no campo, na economia rural, onde é imprescindível se adaptar aos horários dos animais de criação para cuidá-los,  e se dirigir à lavoura nas horas mais frescas, para evitar o trabalho por si só penoso sob as agruras do tórrido sol do meio do dia.

Não havendo o que fazer, e até para economizar os custosos e precários meios de iluminação (a vela, a lamparina, o lampião) as pessoas jantavam e iam para a cama logo após o escurecer e levantam-se, como todos os demais mamíferos de hábitos diurnos, com a aurora.

Nesta época, a meia-noite era o mágico e misterioso horário das assombrações justamente porque não se encontrava NINGUÉM acordado andando pelas ruas (estradas, campos e florestas) ou casas. E quem se aventurase a fazê-lo via-se exposto aos horrores fantasmagóricos da escuridão e da penumbra e aos ruídos estranhos e sobressaltantes da própria natureza.

A imensa maioria da humanidade, neste horário já estava, no mínimo, no meio da noite de sono e daí a umas quatro horas estaria assistindo o nascer do sol e indo dar comida ao pangaré e tirar leite da mimosa.

Ubirajara Passos

Sapiência bêbada


SABEDORIA ETÍLICA

Eu vinha retornando do almoço, ante-ontem no início da tarde, quando me deparei, na vitrine de uma dessas lojas de 1 e 99, com estes três fantásticos copos (popularmente conhecidos como martelinho e destinados ao consumo precípuo de destilados dos mais diversos tipos, da canha azul de alambique de Santo Antônio da Patrulha ao absinto importado de França), que, se reforçaram a minha velha noção de que é neles que se encontra a derradeira e profunda verdade, contrariam o que já afirmei em poema neste blog publicado, pois, no caso específico, esta se encontra na lateral e não no fundo do frasco.

Seja como for, porém, sempre soube, por experiência (própria ou alheia), que a natureza das revelações alcoólicas, por mais profunda e inusitada que fosse, não alcançava definições tão óbvias e triviais, embora aparentemente cósmicas e essenciais, como esta:

sabedoria-etíliica

“Quem não bebe não vê o mundo girar”

Pode parecer pueril, mas é simplesmente revolucionária esta constatação da absurda e inexplicável incapacidade de 99,999999999% de nossa espécie (exceto o autor da veneranda sentença é claro) em se dar conta, no uso pleno e  sóbrio dos cinco sentidos do corpo humano, do movimento contínuo, autônomo e eterno desferido no espaço pelo  planeta que se encontra sob os nossos pés. Ao ler a frase me senti exatamente como se tivesse recebido um banho gelado nas fuças, arremessado do décimo terceiro andar ou, levado aquele tabefe de torcer a cara que só as mais furiosas viragos são capazes de aplicar!

Afinal, é bem verdade que Galileu quase foi assado, e Giordano Bruno virou carvão, no churrasquinho disciplinar da Santa Inquisição, por trazer a público a realidade do giro planetário, então tido por absoluta heresia pela Santa Madre Igreja Católica. Mas ninguém, ao menos em estado comum de consciência, jamais experimentou esta verdade científica senão por vias indiretas.

E se muito boêmio folgazão ou corno deprimido, desde os tempos das cavernas, presenciou, durante o transe próprio da possessão de Baco, alguma espécie de giro das coisas ao seu redor, simplesmente supôs tratar-se de um fenômeno exclusivamente epicêntrico, assim como se acreditava até o século XVI que eram os astros e o sol que giravam em torno da Terra.

Não é para qualquer um, portanto, um insight deste peso e, depois de bater de frente com ele, confesso que me sinto completamente deslocado e desolado por não poder permanecer incessantemente em plena consciência do que se passa logo abaixo dos meus pés, em sincronicidade com a terra mãe, a cada instante lento e inglório desta nossa malograda existência. Não tenho mais coragem, especialmente depois de ter casado, mas recomendo aos leitores mais audazes: não se deixem mais enganar, nem viver condicionados na hipnose diária que nos despeja a mídia e se façam senhores da própria consciência entornando o suficiente todo o santo dia para que possam, em pleno domínio dos fatos ao redor, ver literalmente a Terra girar!

Verdadeiro lugar-comum, incorporado mesmo à lengalenga xaroposa e repetitiva do mais reles (e talvez, por isto mesmo, iluminado) mendigo (ainda que, pelo menos na visão de Sartre e seus companheiros de filosofia, não possua exatamente todo este caráter de axioma), o cogito cartesiano (Penso, logo existo), pelo que eu conhecia até o momento, jamais havia sido exposto assim:

sabedoria-etíllica

“Penso logo… pego mais uma”

Haverá, evidentemente, os “eruditos” burros e arrogantes, da pior burrice, aquela digna de português de piada, incapaz de apreciar as sutilezas irônicas de um texto, que não acharão a menor graça e ainda, se der corda, me esgotarão até a última gota de paciência na tentativa de me demonstrar não só a falsidade, mas a completa incorreção, por falta de concatenação lógica entre premissa e conclusão, deste raciocínio.

Mas a pragmática sentença espelha efetivamente a mais pura, elementar e inquestionável verdade imediata, digna de um koan zen-budista destes que nos transportam a um insight profundo intuitivo e imediato – que poderia certamente figurar entre os ensinamentos do grande mestre butanês Drukpa Kunley 

E está aí para nos inspirar a não perder tempo e tratar de mandar ao diabo, de cara,  com um belo talagaço de canha, os efeitos emocionais e físicos dos infelicitantes incômodos de todo dia que que povoam a vida da grande maioria da espécie humana, composta de peões fudidos no trabalho extenuante e jamais recompensado, como nós.

Especialmente nestes dias ansiosos e acelerados de internet onipresente nos mais comezinhos celulares,  a nos importunar, a todo momento, com as informações mais relevantes e reveladoras possíveis, nos “status” de facebook, atualizados seiscentas vezes por dia, e em que nossos caros “amigos” nos dão conta de coisas surpreendentes e inusitadas como o fato de que estão cagando ou se sentindo entediados e infelizes (sabendo-se de antemão, quem os conhece de perto, serem funcionários públicos gaúchos atingidos pelo pagamento de salário parcelado e reduzido a R$ 600,00 pelo governador Ivo-viu-a-uva Sartori, por exemplo). 

Até porque, como dizia, o velho herói dos áureos tempos de Hollywood (anos 1940 e 1950), Humphrey Bogart, e nunca é demais repetir: “o grande problema da humanidade é que está sempre uma dose aquém do necessário”!

Ubirajara Passos

Conto de um Velho Tempo


Após a derrota do Movimento Indignação nas eleições para a direção do Sindjus-RS, em maio de 2010, decidi que iria escrever “literatura para ganhar dinheiro”, como andava me recomendando o companheiro Régis Pavani, e um belo dia resolvi participar de um concurso de contos.

O detalhe é que o texto não poderia ter menos de 20 páginas e tinha exatamente um mês para escrevê-lo. E, passados uns vinte dias, eu havia redigido no máximo os sete primeiros parágrafos e o poema que o segue. Comentei, na época, com o alemão Valdir este meu projetinho de conto e ele, para variar, se entusiasmou e me disse que, a pretexto do que já havia escrito, poderíamos aproveitar para discorrer sobre as mais diversas questões filsóficas e políticas, parindo um verdadeiro conto de tese!

No embalo da euforia bergmanniana (não do sueco escandinavo, mas do “alemão” sul-riograndense descendente de imigrantes), escrevi os parágrafos 8º a 23º, mas então já estávamos em 13 de setembro (o conto havia sido iniciado em 10 de agosto), e o prazo de envio para o concurso já se havia ido.

O conto ficou engavetado e tempos depois acabei por copiar um diálogo meu com o companheiro Valdir no msn que pretendia aproveitar nele e simplesmente esqueci-o.

Semana passada, indo revê-lo, tive o maior susto ao dar com a cópia da conversa no final do texto, de que já não me lembrava, e, acrescentando os 6 últimos parágrafos (no qual cometi um certo anacronismo na fala final do “Fausto” em relação ao ano em que passa a conversa no texto) e, trocando os nomes, aproveitei-a na íntegra, até para homenagear o velho amigo, dando o conto por finalizado e deliberando publicá-lo aqui.

Saiu-me, infelizmente, um texto bastante sofrível, cheio de discussões e devaneios filosóficos, mas até por recordatário, resolvi publicá-lo. Ao leitor que tiver a coragem de emaranhar-se nesta selva literária, garanto que, apesar da forma, não perderá de todo seu tempo, desde que tenha a devida paciência. Segue o texto:

Conto de um Velho Tempo

Naquela manhã, pouco antes do nascer do sol, levantou-se, na penumbra, sob a luz quase morta da lamparina, vestiu a toga e foi andando lentamente até a ampla porta envidraçada que dava acesso ao balcão.

Na clareira em frente, os primeiros raios pálidos do dia se esgueiravam, preguiçosamente, rompendo a semi-escuridão povoada de sombras esquivas e fugidias.
Enquanto a brisa úmida e gelada lhe roçava o rosto, sorveu a taça metálica com vinho e sentiu a estranha presença.

Não. Não se tratava do espírito mensageiro daquela estranha seita oriunda dos confins do Oriente, cujo apelo místico-histérico e escatológico era tão forte que se espalhara como um rastilho de pólvora pelo Mediterrâneo ao ponto de entusiasmar a própria mãe do Imperador, que a ela aderira e convencera seu filho a dar-lhe alguma proteção.

Nem era Lídia, desperta de um profundo sono, povoado de sonhos maravilhosos e envolventes, que vinha, lânguida e doce, lhe entusiasmar o corpo com um devoto e apaixonado beijo na tábua do pescoço e suas mãos a percorrer-lhe o peito, sob a túnica, num afago enternecido e provocante.

Mas era uma vibração profunda e densa, dotada de uma luminosidade arrebatadora, convincente e entusiástica como a carne fresca da mais dedicada, espontânea e excitada amante. Não havia naquela ante-manhã qualquer ruído além do farfalhar das folhas e do bater de asas abrupto e veloz da última das aves noturnas a largar de seus afazeres e ir buscar o repouso nos braços de Morfeu. Porém, era como se o próprio Pan estivesse, absorto e inspirado, a tocar melancolicamente a sua flauta, no encerramento da farra dos elementais.

O mergulho nas ondas edênicas do inconsciente rompeu-se, então, importuno e inesperado. Um galho seco estalou no chão, no canto sudoeste do jardim, e surgiu, diáfano como um espectro habitante do Hades em viagem entre os mundos, a figura de um velho ancião, cuja postura ereta, intensa e decidida contrastava com as melenas brancas, que desciam, pródigas, desde o topo da cabeça, engrossando e confundindo-se na barba espessa, como uma branca e espumante cachoeira. O aspecto revolto e volumoso, agitado no verbo do poderoso arquétipo feito carne, lhe dava exatamente esta impressão: a de uma corredeira veloz e violenta a romper em meio a um declive coberto de plácida e densa relva.

E, tronitoante e metálica como o a cachoeira, irrompeu a voz, que dizia:

“Sou o espírito do tempo,
No espesso breu dos confins do universo
Eu dormitava, imóvel,junto ao pólo
Do setentrião, enquanto os homens se agitavam
Nos afazares vãos e iguais de todo dia,
Até que tua mente despertou-me
Com um ruído que rompeu a aurora!”

– Maldito vinho é este que me faz ver sombras falantes no primeiro gole, e, ainda por cima, esnobes e metidas a eruditas, a fazer discurso em tom declamatório?

– Não é o vinho, meu caro amigo. Não te preocupes que não estás delirando, mas mais sóbrio do que nunca! Vives, todo dia, tua vida em quase absoluto sonho, inciente e heterônimo, e agora despertaste, em meio às estranhas e acidentadas fronteiras entre a escuridão prateada e a dureza pétrea da claridade!

– E, além de intelectual almofadinha, é metido a poeta de quinta! Puta que pariu! Se não é o delírio do princípio do envenenamento (sabe lá o que Lídia não anda pretendendo – tanta espontaneidade na entrega e tanta doçura é de desconfiar mesmo!) é loucura, com certeza! Pelo visto as minhas engrenagens mentais se desarranjaram de vez e ando pior que os adeptos do tal Nazareno!

– Se delírio fere, experimenta isto então! – E o vetusto vulto, deslocando-se em uma velocidade instantânea, veio bater-lhe com um bastão no cotovelo, provocando aquela sensação de choque elétrico, que na época devia ter outro nome, o que lhe fez desconfiar que – talvez – estivesse bem acordado e senhor absoluto dos seus sentidos.

– Muito bem, meu camarada, se não és o produto da minha pobre mente insana (que diabo é isto? estou eu mesmo, agora, a falar em tom empolado e declamatório!), que diabo fazes aqui e o que pretendes?

– Como te disse sou o espírito do sempre, o presente absoluto, que, paradoxalmente é limitado e eterno! E, já que me rompeste o imensurável descanso, vim te mostrar algumas coisas que te farão perder a tranqüilidade pelo resto de teus dias, mortal impertinente!
– O tempo é sádico, então?

– E tu tens alguma dúvida sobre isto? Basta olhar ao teu próprio redor e terás as provas mais banais, óbvias e esclarecedoras! O velho Cronos é extremamente cruel e tosco, e tem o mau hábito de seguir sempre na mesma direção, e nunca pára por nada, nem ninguém! Além disto é surdo, senão dissimulado, e não adiantam rogos, nem lamentos. Nem mesmo espinafrações. Por mais que o mandem tomar no cu ou o ameacem, ele que é o próprio fiofó do universo, jamais volta atrás! E pior de tudo, é que, além de teimoso e rabugento, tem um oceânico humor negro. Basta que uma peça de qualquer coisa saia fora de seu próprio lugar que, se deixares a coisa por conta do Tempo, vão outras se perdendo, e a coisa vai se desmontando e desfazendo numa bagunça infinda, da qual não há volta e nada sai de útil e organizado. Ou quem sabe pensas que é por acaso, ou culpa exclusiva de forças como a gravidade, que tudo aquilo que vive pendurado, e no início aponta para cima, com o andar do Tempo, vai cansando, perdendo as forças e pendendo para baixo até cair e, muitas vezes, arrojar-se ao chão e apodrecer! E tudo quanto é liso ou brilhante e belo, mesmo a cara ou a bunda da mais culta e fogosa hetaira, fatalmente acaba por enrugar-se, desbotar e transformar-se num horrendo monte de ruínas, qual mocréia palaciana ou escrivã cristã? Ou te iludes que é a ação do vento, do sol, ou o desgaste do uso repetido que faz as coisas que crescem e aceleram irem depois diminuindo e se tornando vagarosas e, por fim, mortas e paradas? Porque não crescem, se tem dentro de si o tesão do aumento da estatura e do movimento, para sempre e acabam chochas, moles e sem graça? A culpa toda é do tempo!

– Me desculpe, sábio e calculista mestre (que medes muito bem o teu discurso, como fosses senador), mas não lhe parece que esta força da Natureza deveria, como um dos criadores deste mundo, agir segundo propósitos racionais e organizados e não por uma vontade arbitrária e temperamental, qual deus grego reinento e vingativo?

– Meu caro e ilustre “pupilo”, não concluas do que falo que ele é pérfido e maldoso! O Tempo possui lá os seus, por mim nominados, defeitos, mas são particularidades da constituição de sua personalidade e de seu temperamento, não o resultado de decisões sacanas e propositais! Se os seios de uma princesinha cheirosa, cheia de mimos e maliciosas e birrentas vontades nocivas, (como aquela gostosa e exótica dançarina da nobreza colonial da periférica Palestina, que atendia pelo apelido meio italiano de Salomé), acabam por perder suas cores, sua tepidez e se transformam num nauseante monte de rugas caídas, ou se um garboso e arrogante escravo reprodutor, forte e imbecil como Peruca Camargorum, acaba por se tornar um raquítico, cambaleante e inofensivo ancião, sem serventia nem prazer nenhum, certamente a culpa não é do velho Tempo. Há um outro deus, cretino por princípio este, de nome Genes, que se diverte à custa dos mortais e lhes amarra os pés na caminhada sem volta nem desvio por que os leva Cronos, e, depois de alçá-los ao cume dos montes, se acaba todo em gozo e gargalhadas (as mais doidas e agudas dos infernos) ao jogá-los ao mais profundo e pantanoso abismo!

– Que tenha um cúmplice safado se admita. Mas convenha, meu nobre “Senhor” (com todas as prerrogativas do termo, que parece que és mais teimoso ainda que o próprio asno, ou o tal gladiador de serviçais bucetas), nestas coisas de levar ao absoluto dano tudo quanto tem um mínimo deslize há sem-vergonhice pura, pensada e caprichosa!

– Pois é neste ponto, justamente, que o rio dos sucessivos momentos é mais inocente e poderia, amoral e livre, apesar de seu jeito arredio e sem imaginação, tornar-se o mais brilhante e benfazejo colaborador dos homens! Se ele não pode contra seus irmãos mais poderosos, que respondem pela constituição da essência dos mortais, a estes foi dado o poder, ao qual o Tempo, infelizmente, não tem o menor acesso, de mudar suas atitudes e decisões e de repor ou reparar a peça quebrada ou deslocada, ou reorganizar e mudar o plano todo de suas existências específicas, e o tempo, burro e limitado como é, que segue sempre em frente e para um único ponto, acabará, por guiar as coisas pelos novos rumos determinados pelos pobres tipos humanos, sem nenhuma concessão, até que seus cósmicos irmãos reconduzam os mortais ao atroz e final destino. Nada mudará no final da jornada dos precários animais pensantes. Todos fatalmente serão conduzidos à cova para desfazerem-se como objetos largados ao léu e desaparecem da memória das gerações vindouras, mas, se ao invés de se envolver em minhas lamuriosas e recalcitrantes manifestações, se desviarem do mal enjambrado, do monótono e do repetitivo (da tradição de seus anciões azedos, inclusive), se refizerem seu itinerário como se fosse possível renascer e reiniciar todo dia tudo, terão a mim, Eternidade unidirecional, burra e obediente, por aliado o suficiente para gozar de algum prazer e validade em sua condição precária e provisória!

– Isto de se refazer sempre, como se nada houvesse antes há de tornar-se monótono e besta também! Mas vem cá! Cadê os entes ou fatos inquietantes? Com truques como este do bastão tu prometias bem mais do que este discurso filosófico sem fim! Eu esperava mais ação! Meditações sobre a finitude humana eu as encontro em Sêneca, Heráclito ou em Platão e Sócrates… Pra um espectro elemental és um tanto humano! Quem te mandou aqui pra me encher o sac…

Não terminou a frase e, previsível e obedientemente (para nós que acompanhamos as acompanhamos de longe) as coisas começaram a mudar. Árvores, a casa, o céu, o chão, todo o cenário começou a girar como uma esfera, a trocar de lugar, a se desfazer e misturar como uma aquarela borrada. Tivessem aparecido aquelas luzinhas coloridas logo no início e suspeitaria ter fumado um daqueles estranhos cigarrinhos de hachiche que eram fabricados no Oriente, lá pelas bandas de origem dos tais nazarenos, que só podiam viver no barato da tal erva para seguirem ao sacrifício no Coliseu, direto à boca dos leões, com o olhar esbugalhado, cantando, alegres,como uns loucos. Isto até a Imperatriz-Mãe Helena adotar seu culto e resolver protegê-los. Pois agora tudo andava se invertendo em Roma, também, e os ex-perseguidos começavam a ocupar postos de poder e a oprimir por sua vez, igualmente.

Mas não vira qualquer luz diferente flutuando a sua frente. Simplesmente o mundo parecia estar se dissolvendo e revolucionando por si e por todo lado. O que reavivou suas suspeitas de envenenamento. E, antes que pudesse iniciar a ladainha de auto-piedade paranóica e hipocondríaca, viu-se projetado num novo mundo, estranho e barulhento, tremendamente sujo e tão ou mais agitado que a turba no espetáculo previsível e horrendo das arenas de jogos.

Não mencionarei aqui as surpresas de Lucilius (que este era o nome de nosso protagonista, se não o citei antes foi por estilismo frívolo e a fim avivar no leitor alguma inquietação mental no meio desta monótona e arrastada narrativa) com as tecnologias incompreensíveis (para os seus olhos, sobrenaturais) e as sutilezas excêntricas do novo cenário. Isto para nós é óbvio, além de ser um discurso narratório extremamente surrado. Cabe apenas mencionar que, excetuando-se alguns comportamentos de bizarra especificidade, os dramas e rotinas da vida conjunta entre os homens não diferiam absolutamente daqueles com que nosso personagem encontrava-se acostumado, uns 1600 antes, no amanhecer do casarão rural, Pois, como efeito do vórtice em que se viu envolvido, dera um pulo de mais de um milênio e se encontrava em 2003. Para ser exato, num sábado qualquer do mês de agosto, numa esquina da rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre, metrópole do extremo sul do Brasil, a maior população das nações de então das que nasceram da miscigenação dos soldados da velha Roma com os povos do Ocidente bárbaro europeu.

Bárbaro, aliás, era aquele desgrenhado e brusco germânico que gesticulava agitado, e bradava violentamente, a sua frente, contra a putaria política e social em que viviam. Ele, Lucilius, surpreendentemente, se deu conta de que não fora transportado ao futuro nem como espectro, nem como a si próprio em carne e osso, mas agora era outro (como um avatar indiano) e ali se encontrava semi-bêbado, em meio àquela dúzia de garrafas de cerveja que enfeitava a mesa que dividia com o seu amigo. E ambos partilhavam da rebeldia e da indignação com o mundinho estreito e filho da puta em que viviam. Muito embora reconhecessem que não podiam viver sem a fumaça dos velozes automóveis na rua, a barulheira das conversas em voz alta e o tilintar de garrafas e copos que enchiam o velho bar, o Alfredo, espécie de taverna em plantão permanente, que varava as madrugadas de portas abertas, e só fechava aos domingos.

– Puta que pariu, seu Lúcio! Me dá uma raiva! Ontem a noite a Vivo não me concedeu crédito nem para mandar um simples torpedo. É outra máfia que necessita pau perene!

– Olha, camarada Fausto, estas companhias telefônicas, os agiotas de luxo regulados pelo Banco Central, a nova burguesia petista, isto é tudo cria da mesma cadela: a sociedade de classes, melhor descrita como sociedade verticalizada, em que uma piça do tamanho do mundo desce desde das alturas olímpicas da burguesada pra arrombar o rabo do povo tacanho e lambe-cu.

– O pior é a gente saber que com alguns cartuchos dá pra conceder o descanso eterno a essa máfia e ficar aqui, bebendo cerveja, parados no meio do mundo, sem fazer o mínimo gesto que pode por fim a tudo: puxar o gatilho!

– É muito fácil acabar com o sofrimento. É só ganharmos coragem. Vivemos num regime de dominação. O cara monta no teu lomba e tu carregas ele. Nessa condição, “negociar” politicamente significa: não chicoteie tanto. Ou chicoteie com menos força. Mas continue chicoteando, ó meu amo e senhor! Pra sair deste maldito brete, o gesto é muito simples: é só sacudir bem as costas e jogar o safado que está montado, de patas pro, no chão duro!

– Duro é ter saco pra aturar esta putaria disfarçada de “ética”. Lúcio, acho que vou pro mato! Me enchi o saco disto tudo aqui. Tem um amigo meu de Giruá que está criando cavalos crioulos no interior do município. Me propôs uma sociedadezinha.

– Com o que, o companheiro pretende, então aburguesar?!

– Aburguesar um caralho! Se enrico tenho como comprar as bombas necessárias pra explodir esta safadeza toda. E o rincón é um belo lugar pra se fazer um treinamentozinho básico de guerrilha…

– Lá isto é. Mas espera aí que vou ao banheiro.

Nosso herói saiu cambaleando rumo à porta ao estilo saloon nos fundos do bar e, lá chegando, naquele modorrento sábado a tarde, enquanto tirava água do joelho e admirava-se, velho Narciso, ao espelho, quase rachando o pobre vidro de susto, simplesmente adormeceu, acordando novamente em seu solar rural, na velha Roma.

A alvorada se transformava, então, em dura manhã de sol escaldante. Lídia continuava a dormir e por perto não se via nada além dos passarinhos e da cachorrada que latia, distante, na vizinhança. De nada tinha certeza, mas parece que, num estranho transe, por alguns instantes, havia entrado numa nesga do futuro, numa nova Roma, tão conflituosa e precária quanto a velha capital do Mundo. Por alguns instantes ficou imaginando como se os tais cristãos não tinham alguma razão. A morte na boca de um leão, em plena arena, não seria, afinal bem melhor que esta sarabanda eterna em que se agita a vida, fazendo mil desvios pela estrada, rodando infinitamente para, por fim, terminar sempre no mesmo ponto? Desceu a escadaria e tratou de ir à cantina, entornar um vinho logo cedo, que tomar um porre, no momento, lhe parecia o mais lúcido e razoável a fazer.

Ubirajara Passos