O sono nosso de cada dia


No próximo dia 11 de abril este blog completa exatos dez anos de existência. Pra variar, me parece que foi ontem ainda que postei o primeiro texto (o meu breviário poético anarquista) e este tempo passou como se fosse apenas alguns meses. 

Nos primeiros tempos escrevia freneticamente, porém, desde o início dos anos 2010, este pobre site tem sido cada vez mais relegado  à eventualidade e, ultimamente, quando alguma inspiração desperta, tem sido mais fácil digitar rapidamente algumas frases ao teclado do smartphone (nome fresco para os nossos celulares mais modernos).

Assim, como o leitor atento perceberá, esta crônica nasceu no facebook, hoje, sábado de amanhã, enquanto eu curtia com a Isadora a modorra de estar desperto mas não ter a menor vontade de sair da cama. Mas tão caro me é o tema que rompi o meu jejum bloguístico e aí está o texto, escrito como comentário ao link que divulgava mais uma destas pesquisas americanas, sob o título “Acordar cedo é equivalente a ser torturado, diz estudo

Sempre desconfiei imensamente do discurso de “saúde” e boa disposição dos madrugadores, normalmente pendurado aos lábios dos piores exemplares da falsa moral edificante, que não tem a menor experiência prática com sua pregação (o que se dá, em geral, com ilustres burgueses – ou os lacaios de luxo destes que atendem pela designação de “executivos” metidos a doutrinadores), ou padecem justamente de uma secura própria das vítimas da peste emocional, substituindo, em suas vidas, o prazer genuíno (que é a própria expressão concreta do bem-estar e da saúde) pela compulsão sado-masoquista do trabalho penoso e embrutecedor, de cujo compromisso compulsivo não podem se afastar um único instante para não cair na “pecaminosa” e desestruturadora “gandaia” tão temida.

Creio firmemente que a obrigatoriedade de acordar cedo é, como tudo que é compulsório no mundo, infelicitante, anti-natural e escravizante e serve à redução da maioria da humanidade ao triste e frustrante papel de gado ou máquina a serviço de uns poucos amos cuja vigarice  e vadiagem é protegida em lei e agraciada com os louros da virtude institucional.

Mas não me parece que o início do ciclo biológico humano diário às 10 h da manhã, apontado na pesquisa, seja resultado necessário da natureza humana, cuja essência é justamente a capacidade das pessoas de se desvincular dos condicionamentos rotineiros mais comuns e, subvertendo, na medida do possível, a própria ordem de sua condição animal, criar seus próprios ritmos e modos de vida.

Ele, antes do que uma duvidosa, mas provável,  derivação de nossa condição biológica, é a consequência das bases tecnológicas e ideológicas do nosso quotidiano, onde a imensa maioria da humanidade vive espremida na urbe permanentemente iluminada e vinte e quatro bombardeada pela mídia, que dentro da casa do sujeito mais recluso e avesso à diversão, cria atrativos para que dificilmente durmamos antes da meia-noite ou do início da madrugada.

Como hábito social correspondente a um ciclo natural, o acordar cedo fazia parte de um mundo em que, inexistindo luz elétrica, a imensa maioria de nós vivia no campo, na economia rural, onde é imprescindível se adaptar aos horários dos animais de criação para cuidá-los,  e se dirigir à lavoura nas horas mais frescas, para evitar o trabalho por si só penoso sob as agruras do tórrido sol do meio do dia.

Não havendo o que fazer, e até para economizar os custosos e precários meios de iluminação (a vela, a lamparina, o lampião) as pessoas jantavam e iam para a cama logo após o escurecer e levantam-se, como todos os demais mamíferos de hábitos diurnos, com a aurora.

Nesta época, a meia-noite era o mágico e misterioso horário das assombrações justamente porque não se encontrava NINGUÉM acordado andando pelas ruas (estradas, campos e florestas) ou casas. E quem se aventurase a fazê-lo via-se exposto aos horrores fantasmagóricos da escuridão e da penumbra e aos ruídos estranhos e sobressaltantes da própria natureza.

A imensa maioria da humanidade, neste horário já estava, no mínimo, no meio da noite de sono e daí a umas quatro horas estaria assistindo o nascer do sol e indo dar comida ao pangaré e tirar leite da mimosa.

Ubirajara Passos

Auto-análise


Poema que acabo de parir, ao som de uma antologia de Nat King Cole, banhada por um martelo de conhaque:

Auto-Análise

Uma tristeza antiga,
Doída como a madrugada
Insone e eterna, de silêncio absoluto,
Se insinuava na fumaça azul,
De um antigo perfume adocicado,

E nos fazia navegar no escuro,
Salpicado de raios esquivos,
Da velha janela da sala de estar,
Sobre um tapete pesado e rabujento.

No jardim sujo, uma brisa amarrotada
Arrepiava os nossos pensamentos
E enfronhava, no olhar turvo
De um conhaque de garrafa verde escura,
Memórias roucas e toques crepitantes.

Sobre a mesa de centro envernizada
Um cinzeiro de vidro bancava o analista.

Gravataí, 10 de maio de 2011

Ubirajara Passos

Extra! Descoberto anti-depressivo natural mais eficaz que a fluoxetina: a banana!


Não se preocupe o leitor, que este blog, apesar do título acima (redigido no mais perfeito sensacionalismo irreverente, a moda das manchetes do jornal porto-alegrense O Sul), não se rendeu ao charlanismo médico-científico da mídia capitalista colonial, nem pretende comercializar a fruta pela internet.

O fato é que, outro dia, me encontrava absorto em meu trabalho, quando uma colega me apontou no “Clic RBS” (site noticioso do império jornalístico da família Sirotsk, associada da Rede Globo no sul do Brasil) a notícia inusitada, veiculada com todo o ar de novidade e dogmatismo peculiar a nossa imprensa burguesa.

Segundo o informativo eletrônico, a banana é riquíssima em vitamina B-6. Possuindo, portanto, excelentes propriedades no combate da insônia, irritabilidade e fadiga (sintomas secundários que, reunidos simultaneamente, são típicos da depressão).

Não foram necessários nem dois segundos de reflexão para que um safado como eu se desse conta de que, além dos evidentes e irrefutáveis efeitos terapêuticos neurológicos e emocionais referidos, há outros (ao menos no plano metafórico) de que o mestre Reich já sabia há uns bons setenta anos!

Conforme o descobridor do orgone (a energia fundamental do tesão cósmico, responsável pela vida e pela excitação sexual dos seres vivos), a absoluta maioria da humanidade padecia as piores neuroses e doenças psico-somáticas justamente pela falta (especialmente no caso das matronas ou solteironas rabugentas, autoritários e delatoras) ou mau uso da banana (de que derivaria a incompletude do clímax do prazer corporal nos seres humanos, inclusive nos machos sádicos cuja banana serve antes como instrumento de agressão que de prazer recíproco). Do que concluía que o consumo físico e emocional adequado e prazeroso da banana humana resultaria na própria redenção da espécie.

Mas, com mais dois segundos de reflexão, constatei algumas utilidades diversas das já apontadas, relacionadas diretamente às características linguísticas metafóricas e antropológicas do “falo vegetal” que, casual e estranhamente, dá em qualquer canto do Brasil, país abençoado por todos os tipos de foda (nem que seja aquela que os burgueses e governantes propiciam diariamente ao grosso do povo com sua opressão).

Assim  é que, devidamente utilizada, uma bela banana dada para patrões, fiscais de trânsito, venerandas e masculinizadas matronas opressoras, pode muito bem nos libertar de 90% dos pequenos e acachapantes empecilhos quotidianos que empesteiam nossas vidas.

Para extirpar os outros 10%, entretanto, é preciso mais que saco cheio e irreverência. Ou seja, uma boa dose de coragem e completo desapego pelo falso conforto de uma vidinha pequeno-burguesa “remediada”. E total nojo, bem como uma santa raiva, dos ladrões com registro na Junta Comercial (os capitalistas) e seus ilustres lacaios (políticos, jornalistas, agentes do Estado e da mídia de um modo em geral), nos quais   é necessário enfiar a banana até o fundo, de modo a fudê-los (no mau e justificadamente sádico sentido) e fazer desaparecer definitivamente do planeta suas infelizes carcaças e atitudes exploratórias e opressivas.

Seja qual for o teu problema, caro leitor, não se esqueça. Muito possivelmente a sua solução não se encontra em nenhum manual de auto-ajuda ou nos cursos cheios de glamour e gracinhas pseudo-humorísticas (que não têm graça nenhuma, pois se destinam a nos fuder o fiofó com o disfarce pretensamente bem humorado de sua vaselina) da “qualidade total”. Mande solenemente à merda todas as recomendações e insinuações  domesticadoras e imbecilizantes e faça bom e absoluto uso da banana (tanto da própria quanto da alheia ou, até mesmo, da simples fruta tropical)!

Se, nos anos quarenta do século vinte, a propaganda governamental nos rádios insistia que era preciso acabar com a saúva, “ou a saúva acaba com o Brasil”, hoje, com certeza, a última (e remota) possibilidade que temos de nos livrar do totalitarismo circense da pax luliana (agora renovada por uma Presidente da República que parece possuir uma senhora banana caturra no meio das pernas, pronta para nos currar) é esquecer o acanhamento moralista e fazer uso da banana (nem que seja a de dinamite)!

Ubirajara Passos

Memória de Elefante


O portador de DDA ouvia, com toda a paciência, pela quadragésima vez, a preleção da psicoterapeuta alternativa. E, não sabendo se segurava o riso ou o bocejo irreprimível (reações simultâneas que lhe vinham, ainda que contraditórias), lamentava a tortura a que se submetera como condição daquele empréstimo de mil reais pedido ao amigo fascinado pelo tratamento.

Na verdade, não fosse a exigência absurda (que o camarada, antigo paciente, tratou de fiscalizar in loco no consultório, antes de liberar a grana), jamais teria comparecido a uma única sessão. E não fosse o temor de perder uma amizade antiga e profunda (destas que não se encontra nem meia dúzia ao longo da vida), simplesmente teria acabado o “tratamento” no segundo encontro com a psicóloga cognitivo-comportamental, auto-proclamada DDA, como seus pacientes.

Leitor voraz e apaixonado de Reich e Jung, seus sonho era parir, no puro  dilentantismo filosófico e antropológico, teoria que pudesse unificar as visões igualmente fascinantes dos dissidentes materialista e espiritualista de Sigmund Freud (de cuja Psicanálise possuía noções suficientes para se opor e propor, auto-didata, suas teses próprias).

Mas, nem por isto, tinha a Psicologia em conta de determinar o roteiro de sua vida, especialmente através de qualquer profissional institucionalizado e pago. Afinal seu anarquismo era o resultado de profundas convicções, questionamentos e experiências vividas e incorporadas existência afora e não um sintoma psíquico decorrente de qualquer desvio da química cerebral, ou de um suposto complexo neurótico.

Isto sem falar no comportamento excessivamente excêntrico da psicóloga, que, além do entusiasmo reducionista e do fôlego de padre carismático em sermão de manhã de domingo, era uma perfeita fofoqueira. Costumava atender seus pacientes ao telefone em plena sessão e se derretia de prazer em comentar os casos com o pobre coitado que se encontrava sentado na poltrona  a sua frente (ávido, evidentemente, em satisfazer a curiosidade atiçada), após a interrupção. Mas a coisa não parava por aí. Cansou de narrar saborosas confissões, feitas na confiança absoluta do sigilo profissional, pelo amigo e pela própria secretária deste, fofocando a torto e a direito entre os três, nos mais entusiasmados fuxicos ao estilo de matrona de favela.

Não fossem os violentos arranca-rabos que, com frequencia, resultavam do método nada usual de terapia, as fofocas até que eram divertidas. Pois o nosso herói, desde os cinco anos de idade, adorava uma boa e gorda indiscrição.

E, piá ainda impúbere e completamente desprovido de malícia, fudera, já naquela idade, por mera diversão, com a vida de um vizinho, cuja atenção bastante animada com a vizinha gostosa de mini-saia (um tanto atenciosa também) entregara à mulher do cara.

Que, agradecida ao guri, e furiosa com seu marido metido a cabrito pulador de cerca, moeu o conquistador a pau, dando a primeira lição de sabedoria apreciável ao futriqueiro-mirim, que concluiu naquele dia: “Receber a pobre vizinha em casa para emprestar gelo, com a persiana baixada, e esfregar suas pernas nuas pra espantar o frio, é mau negócio. Pode se acabar apanhando sem qualquer motivo”.

Mas, naquele dia, a doutora realmente se passara nas medidas. Pela segunda vez, como já o fizera na seção passada, lia para o nosso “distraído e desatento” protagonista (em cuja infância sua síndrome atendia pelo ridículo nome de “disfunção cerebral mínima” e era, na inexistência da ritalina em território nacional, tratada com gardenal mesmo) uma lista de exercícios destinados a auxiliá-lo na melhoria da memória, como visualizar mentalmente a disposição  e aspecto dos móveis e objetos em sua sala de trabalho.

Discreto, e um pouco tímido, como era, o paciente fazia a cara mais deslavada de curiosidade e solicitude diante da repetição, despercebida pela esperta doutora, da lição de casa. Vai que ela o fazia de propósito, só para testá-lo!

Mas não se aguentou e, mesmo segurando o riso, fez aquela estranha cara de quem sentou no formigueiro quando a dita cuja, com toda a pompa e convicção, no auge do frenesi palestrante, arrematou:

– Seu fulano! Se tu seguires direitinho estes passos, vai melhorar muito e, um dia, até ficar igual a mim. Eu tenho uma memória de elefante!

Ubirajara Passos