Pacotaço de Sartori: por que não aconteceu a greve geral do funcionalismo gaúcho e o que lhe resta fazer diante da sanha privativista e anti-trabalhador dos governos estadual e federal


Diante do questionamento de combativos companheiros servidores do judiciário gaúcho sobre a razão que impediu o funcionalismo do Rio Grande do Sul de deflagar a greve geral contra o pacotaço privativista (com absurdos como a venda da Sulgás, da Cia. Riograndense de Mineração e da CEEE, extinção da Cientec, da Fundação Zoobotânica e da fundação Piratini, que mantém a TVE e a Fm Cultura) e anti-servidor do governador Sartori, votado na correria e sob forte repressão miltar às manifestações de protesto na praça da matriz, publicamos, a guisa de resposta, as seguintes reflexões no grupo de facebook “Greve no Judiciário Gaúcho”:

Nem medo, nem falta de união, mas simplesmente peleguismo puro de lideranças sindicais burocratizadas e incapazes de comandar a rebeldia necessária. Discursos infantis e desgastados como o da direção do Cpers, que tratava o apocalipse do serviço público como um mero “pacote de maldades” (algo como uma “birrinha pueril do governador) e não como uma política coerentemente pensada (embora radicalmente absurda) e determinada de enxugamento e desmonte do serviço público, e entrega de setores estratégicos ao capita privado, deixam clara uma inércia abobalhada diante da hecatombe que está nos reduzindo a todos à condição de escravos sem nenhum direito, atê mesmo à representação sindical! (vide o fim de triênios, adicionais, licença-prêmio e licença remunerada para cumprimento do mandato sindical), na liquidação do estoque e patrimônio da lojinha falida do budegueiro gringo (tal é a natureza das “medidas de gestão” de Don Sartori).

No Sindjus não se deve nem falar, visto que dirigido por agentes expressos e teleguiados do patrão.

A imagem pode conter: 1 pessoa, multidão, árvore e atividades ao ar livrefoto: Inezita Cunha
fotos: Inezita Cunha
A heróica resistência das manifestações durante a votação propositalmente de inopino, feita a ferro e fogo e garantida pela repressão militar truculenta, é o derradeiro ato desesperado, e absurdamente insuficiente, que mesmo que contasse com a presença de dezena milhares de servidores não surtiria o efeito necessário que somente poderia advir da greve geral por tempo indeterminado.

No já longínquo ano de 1987, atitudes bem menos drásticas do governador peemedebista Pedro Simon foram exemplarmente rechaçadas e detidas por uma greve sem precedentes, liderada por sindicatos com brios.

Naquela época os servidores da justiça fizeram sua primeira grande greve sob a liderança, recém eleita então, do Paulo Olímpio da ASJ (!), que nem o Sindjus então existia!

É inacreditável a domesticação a que chegamos nestes trinta anos, que é extremamente perigosa quando ocorre simultaneamente ao avanço raivoso e impiedoso do fascismo privativista e predatório que comanda o país desde Brasília.

As “reformas” de Sartori e Temer não coincidem com a lógica da liquidação de lojinha falida por acaso, nem são mero reflexo da índole partidárias de tais governos, casualmente peemedebistas.


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fotos: Inezita Cunha

Elas servem concretamente aos interesses do capital financeiro internacional, cuja sanha cada vez maior se garante pela implantação de ditaduras informais, escudadas numa legalidade aparente e no mais furibundo e falso moralismo fascista.

E para implantá-las nada melhor que governos fantoches dirigidos pela velha lógica feudal, entreguista e subserviente das aristocracias latino-americanas. As mesmas que apearam Perón e Jango do poder, “suicidaram” Getúlio e Allende e assassinaram Che Guevarapara que a burguesia americana pudesse continuar sugando cada vez mais o produto do sacrifício diário dos trabalhadores do continente.

Contra este massacre econômico e social deliberado, que nos chicoteia o lombo e nos tritura o corpo até o tutano, não resta, tanto para servidores públicos quanto para o povo trabalhador brasileiro em geral, outra saída que a única e derradeira resposta plausível ao encurralamento irresistível em que estamos sendo jogados. E ela não é somente a resistência pela greve geral, mas a derrubada, a pau e pedra de tais governos ilegítimos.

Estão nos retirando até o último direito e nos conduzindo à miséria definitiva. Logo não teremos mais nada a perder. E aí, quem sabe, ganharemos o ímpeto para virar a mesa e mandar esta ordem social e econômica, e todos seus beneficiários, inclusive os mandaletes corruptos travestidos de defensores democratas da moralidade, ao lugar que merecem (que não é exatamente o colo de suas genitoras)!

Ubirajara Passos


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foto: Inezita Cunha

Um e-mail das Arábias


Era a milésima vez que recebia por e-mail aquelas versões “internacionais” do golpe do bilhete, do tipo “tenho uma grana enorme que não posso aplicar em meus país conflagrado no Oriente Médio e sei que o senhor pode me dar dicas de investimento em seu país”.

Mas, agora, a coisa era completamente diferente. Viera em português. É bem verdade que num português sofrível, capaz de injuriar o próprio Inácio dos Nove Dedos (e sua sucessora, a “presidenta” aclamadora de mandiocas – na qual a mídia e o aparato institucional da direita explícita andam ultimamente querendo enfiar de vez a mencionada raiz) ou mesmo o patrício de mais estropiado sotaque emigrado do Líbano ou da Palestina. O texto dizia o seguinte: 

“Respondi Urgente Para Investomento!!!
Lamento se meu e-mail incomodá-lo, eu decidi entrar em contato com você, porque eu sinto que você vai me entender melhor ..Estou realmente precisando de sua ajuda,    pois requer uma resposta urgente de você. Por favor, esta é uma mensagem pessoal para você, eu preciso de algumas directivas de você para investir algum dinheiro ou de capital no seu país, EU e meu marido era industrial e um membro do conselho de empresários de petróleo síria em Damasco, Síria. Devido a matanças,decapitações bombardeios e conflito crise guerra em Síria que milhares de civis relatados fugindo como batalha por Aleppo, Síria,intensifica à medida que a guerra se intensifica a partir de hoje, eu não posso investir o dinheiro aqui na Síria isso é quando eu entrar em contato com você E ver como podemos parceria no negócio e intensificar complexo multinacional.
Responder-me explicar melhor para voce nesta e-mail: aishaalrashid1@qq.com

Sra.Aisha Al.Rashid

Por breves e imbecis instantes, o nosso herói quase caiu na asneira de levar a sério a coisa e responder a mensagem da forma como solicitada, já sonhando com a fortuna que poderia abarcar com o tesouro do milionário árabe. Ficou imaginando a imensa e infinda farra que faria num harém particular, contratando as mais gostosas e safadas “odaliscas” dos mais chiques (e também dos mais fuleiros, desde que tivesse aquele rostinho sem-vergonha e aquela malícia ronronante que põe qualquer leão furioso desvairado mansinho como gato de madame) da capital, na qual poderia acabar, literalmente, morrendo de trago e gozo.

Mas, antes que as mãos digitassem apressadamente o que seu cérebro de asno ditava, o zé pelintra que o acompanhava soprou-lhe ao ouvido a tremenda encrenca em que ia se metendo e, ao invés de simplesmente deletar o e-mail, como fizera com os outros tantos, resolveu se divertir e devolveu a tentativa da golpe da maneira mais sacana que encontrou:

“Não se preocupe. Você enviou este e-mail para a pessoa certa. Eu e meu amigo baiano, dr. Luisinho Sugacheca, não temos um único puto na carteira, mas conhecemos todas as putas de Porto Alegre, capital do Sul do Brasil, onde prolifera o negócio mais rentável deste país: a putaria. E moro justamente  na cidade periférica da Região Metropolitana daonde provém a maior parte destas putas!
Podemos, tranquilamente, investir os petrodólares de seu marido num FANTÁSTICO PUTEIRO GIGANTE, com direito a 2 torres gêmeas de 14 andares, cada qual destinado a shows e práticas públicas e privadas de boquete, streap-tease, sessenta-e-nove, sexo anal, vaginal, oral, nasal, umbilical, espanhola, ucraniana e polaca, sexo bizarro com cães, vacas, ovelhas, camelos, gordas, velhas, ciganas e mães de santo em pleno transe da pomba gira kadija al-sacanidi, bem como diversos gays de barba grisalha e com um dedo a menos na mão esquerda (perdido no cu do povo brasileiro), especializados em fuder nações e continentes inteiros como o Brasil e a América Latina.
Para construirmos esta mega instalação e contratarmos os profissionais e a logística adequada necessitamos tão somente da módica quantia de 24 trilhões de euros!

Favor enviar esta grana para a Caixa Beneficente das Putas e Gays do Brasil, agência 024, conta 694324 – titularidade da senhora Dilma-Ahma-Mandyioca-Emmet Abanananopovo.

Aguardamos com muita ansiedade e entusiasmo a sua resposta.

Assinado: Salym Al-Assad-Ocudosviga-Ristasimeim-Becys”

Pelo que se sabe, até hoje, passados uns 3 meses, muito embora nosso amigo, contra os próprios hábitos, acorde de madrugada e salte da cama como um cabrito embrigado para conferir em seu computador, até hoje não recebeu a minima resposta.

Ubirajara Passos

Dos nossos dias tormentosos


Poema auto-explicativo escrito na madrugada de 20 de setembro de 2014 (casualmente data do 179.º aniversário da Revolução Farroupilha):

Quanta tristeza e embaraço,
Vidinha sem sal, porraço
De chatice, espelho de aço
Em que se miram os palhaços
Ciosos de um glamour falso.

Quanto fuxico sem graça,
Roubalheira óbvia e pura,
Falta pura de cachaça,
Besteira cheia de si.

Este é o Brasil da mídia,
Da política medíocre,
Que esquece a opressão da peonada,
Só vê corruptos, raça,
Transforma tudo em farsa,
Medíocre caricatura
Que só se exorciza a laço!

Gravataí, 20 de setembro de 2014

Ubirajara Passos

 

DO ÚLTIMO BLOG DO ALEMÃO VALDIR, NUNCA DIVULGADO: “Santa Rosa e as Missões Jesuíticas: impressões sobre a utopia atávica no coração da América do Sul”


 

Em 5 de outubro de 2010, na sala da casa do companheiro Valdir Bergmann, ao lado da de sua irmã Astri, em Santa Rosa, escrevi o texto abaixo reproduzido, para a sua última versão do blog “O Folhetim”, nunca lançada (e cuja única matéria postada foi este meu ensaio). Nele (que deveria introduzir uma série sobre Santa Rosa e região), além de um pouco da história da minha amizade com o Alemão, pode-se conhecer um dos muitos sonhos que o entusiasmavam nos últimos anos. Embora eu compartilhasse (e desenvolve-se no texto as justificativas, agregando algumas impressões pessoais), a idéia da tríplice fronteira e regiões adjacentes como um país culturalmente diferenciado no coração da América do Sul, com uma base antropológica na presença comum de imigrantes europeus tardios, é dele e demonstra a variedade de interesses que o absorviam depois do retorno ao interior do Estado. Deixo, assim, os leitores na companhia de mais este pedaço vivo do pensamento do saudoso amigo do peito, companheiro de lutas, tragos, alegrias e desgraças, o eterno “alemão Valdir”:

Santa Rosa e as Missões Jesuíticas:
impressões sobre a utopia atávica no coração da América do Sul

Conheci Santa Rosa em 1994, quando, diretor recém-empossado do Sindjus-RS (o sindicato dos trabalhadores da justiça estadual gaúcha), percorri durante uma semana o interior do Rio Grande do Sul, em palestra sobre o ante-projeto de plano de carreira que, na condição de representante da entidade, ajudara a elaborar na comissão para isto designada pelo Tribunal de Justiça. Naqueles tempos heróicos e, de certa forma, ingênuos, mal sabia eu, brizolista de esquerda na casa dos vinte anos, os caminhos e descaminhos que percorreria na seguinte década e meia.

E muito menos imaginava os tantos atalhos, desvios e estradas sem saída que veria o Rio Grande do Sul, o Brasil, e o próprio movimento sindical em que militava, tomar para, finalmente, desembocar no infeliz e tragicômico teatro que faz do pobre palhaço Tiririca o deputado federal mais votado do Brasil, nos dias de hoje, e nós todos palhaços mendicantes a assistir o circo do capitalismo colonial e feudal disfarçado de radicalismo vermelho (o petismo) comandando e desgraçando o cotidiano de 90% dos brasileiros, que cada vez suam mais para ter  direito a menos nos seus bolsos e nas suas mesas (para não falar de carências mais complexas, mas tão imprescindíveis quanto uma vida digna da condição humana).

O referido ante-projeto, por exemplo, acabou tristemente engavetado, e neste ano de 2010, depois de 15 versões, continua a ser “estudado” pela alta administração do Judiciário, que desde então nunca mais admitiu a participação de um representante sindical nas sucessivas comissões elaboradoras, porque a minha atuação foi traumática demais para as autoridades, estranhamente escandalizadas com a garantia de direitos básicos constantes da própria Constituição, até hoje não aplicados, como a isonomia salarial dos servidores do interior com os da capital.

O companheiro que me acompanhava na épica jornada de sete dias entre Caxias do Sul e Pelotas, passando por São Borja, entre dezenas de comarcas judiciais visitadas, embora já demonstrasse alguns pendores pessoais um tanto narcisistas, na época, acabaria por se tornar, anos depois, surpreendentemente, meu desafeto político e hoje ocupa um alto cargo de assessoria burocrática na bancada petista do legislativo, em Porto Alegre.Bem longe, portanto, do afã dos cartórios ou das marchas e manifestações de rua.

Eu próprio já não ocupo cargos na executiva política do sindicato, mas candidato de oposição derrotado, por antigos companheiros, no presente ano, à coordenação geral dele, sou um dos tantos que lidera grupo de ativistas pró-servidores e anti-pelegos, o Movimento Indignação.Continuo tão radical e tão puro quanto então, nos meus princípios e atitudes políticas,mas já não tenho qualquer ligação com o PDT, descaracterizado após a morte de Brizola, na onda do adesismo ao neo-fascismo disfarçado do governo Lula,

Mas esta crônica não tem por fim contar a minha vida política e muito menos discorrer sobre as eternas mazelas de nossa sociedade. Se, abusando da paciência do leitor, acabei, também, por desviá-lo por outras veredas nada prazerosas e entretedoras, o foi por sestro psicológico inevitável e para dizer que, naquela era, mal passei pela cidade (tão somente o espaço de uma tarde de palestra no foro local ao retorno ao hotel em Santo Ângelo, à noite), como mal falei, em Caxias do Sul (pólo sindical a que pertencia a comarca de São Francisco de Paula, onde ele trabalhava) com aquele cuja amizade se tornaria, anos depois, o pretexto das inúmeras visitas que tenho feito a esta cidade da Região Missioneira do Rio Grande do Sul, o companheiro Valdir Bergmann. Foi na companhia dele que aqui voltei dois anos depois, em nova caravana de reuniões mobilizadoras pelo interior, agora somente sobre o centro, o norte e o oeste,que duraram semanas. Nesta nova ocasião a visita foi mais intensa, mas não passou do churrasco na casa da mãe do companheiro, da noite no hotel Rigo e da madrugada no bordel Replay.

Somente em 2004, quando o ex-diretor do Sindjus, Valdir deixava Porto Alegre (em que residiu por quase dez anos) para retornar à sua querência adotiva (filho de Cerro Largo), é que passei a visitá-lo freqüentemente e, coisa de uma a três vezes por ano, a conviver profundamente com Santa Rosa e com a Região das Missões e Noroeste do Estado. E fui mesmo além, incursionando duas vezes pela vizinha província argentina de Misiones, que, juntamente com a região gaúcha referida, constitui, desde o século XVII, um mundo a parte no cenário sul-americano, diferenciado de Brasil e Argentina, e aparentado da raiz nativa do vizinho Paraguai, em pleno coração do continente.

Desde então tenho conhecido mais e melhor um país que parece destinado a espelhar de forma concreta e silente, em meio às mazelas da sociedade capitalista moderna, as utopias ancestrais do Novo Mundo. Aqui se encontram as mais diversas etnias convivendo lado a lado, do imigrante europeu germânico, eslavo ou italiano aos recentes palestinos, e aos descendentes dos índios guaranis e mestiços de luso-brasileiros e da castelhanada. E aqui, a centenas, quase milhares, de quilômetros de Porto Alegre, de São Paulo, Brasília, Santiago do Chile ou Buenos Aires ainda é possível, mesmo a um estrangeiro como eu, ao passar pela rua, ou adentrar a fruteira e o boteco, ser recebido com aquele sorriso aberto, claramente espontâneo e acolhedor, com aquela empatia básica de um ser vivo por qualquer outro e manter, sem qualquer conhecimento prévio com o intelocutor, o mais despreocupado diálogo sobre o tempo, o preço da soja ou mesmo a malfadada política, o que só acontece após aquele cálido e simpático bom dia, boa noite, boa tarde…

Ao contrário das grandes metrópoles, muito raramente se vê um missioneiro andando pelas ruas com o ar preocupado, a cara fechada, o olhar esbugalhado e furibundo de um cachorro louco. O típico paulista ou porto-alegrense neurótico, entorpecido da fumaça das surdinas, pode até mesmo acabar por ter um ataque fulminante de tédio ou surpresa ao se deparar com um povo autêntico e de bem com a vida, embora nada apartado do trabalho duro e dedicado que formam o estofo da alma imigrante e de seus antecessores.

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Roberto Seibt, Ubirajara Passos e Valdir Bergmann a bordo da balsa, na travessia do Rio Uruguai entre Porto Mauá (Rio Grande do Sul, Brasil) e Alba Posse (Misiones, Argentina)

E neste ponto é interessante, até para encerrar esta idílica descrição, citar as casualidades aparentes e curiosas que fizeram desta a minha segunda querência e que perpassam a sua história. Nasci, vivo e trabalho em Gravataí, cidade no entorno metropolitano de Porto Alegre, distante quase seiscentos quilômetros desta Região,  com seus 300.000 habitantes descentes de portugueses açorianos (sendo eu, inclusive, um deles, ainda que meus pais sejam originários das margens do Rio Rolante, em Fazenda Passos, antigo município de Santo Antônio da Patrulha) e, desde os anos 1970, migrantes das mais diversas regiões do extremo sul do Brasil. Afora a amizade com o alemão Valdir, e as eventuais visitas da minha atividade político-sindical não haveria, aparentemente, qualquer outro fato que me ligasse à Santa Rosa, São Borja, Santo Ângelo, as ruínas de São Miguel, a Ijuí, Posadas, Oberá ou Encarnación de Paraguay. Nem nada justificaria a minha paixão pela região e por Santa Rosa, além de suas características próprias e do encantamento imenso da beleza de suas mulheres. O detalhe, entretanto, é que Gravataí surgiu originariamente como um aldeamento de índios guaranis trazidos à força pelos portugueses como resultado da primeira guerra entre o imperialismo europeu ibérico e a nação diferenciada e autônoma, formada pelos padres jesuítas nos campos que correm o continente desde o norte do rio Paraguai até além da margem oriental do Uruguai, entre os índios locais. Eu, filho de migrantes destinados originariamente, também, por Lisboa a colonizar o Território das Missões Jesuíticas(o que nunca se realizou), depois de evacuado pelos índios guaranis, nasci no pé da Serra Geral, justamente na cidade onde se deu o encontro destes dois mundos: os rechaçados e enjeitados filhos das Missões Jesuíticas e os filhos do Açores, ambos com o destino ligado às terras regadas pelo centro-norte do aqüífero guarani e das bacias hidrográficos dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai.

A outra coincidência, que não diz respeito a mim mas à história da civilização ocidental dos últimos séculos, é o destino destas terras. Abrigando secularmente os guaranis, se tornaram pela ação protetora e aculturadora dos padres da companhia de Jesus o berço da primeira, e talvez a única legítima, concretização da utopia comunista, numa época em que nem o avô de Marx era nascido, e em que as manifestações contestatórias da peonada trabalhadora européia se reduzia a umas quantas revoltas de camponeses. Neste país, ainda que vinculado ao império espanhol, sob a inspiração e supervisão dos padres, os índios criaram as primeiras cidades planejadas, hierarquizadas é bem verdade, mas que garantiam a cada um de seus membros condições materiais e espirituais de uma vida instigante e prazerosa, de trabalho sim, mas também de aplicação das mais refinadas e exigentes técnicas intelectuais, artísticas e laborais da época, que hoje se manifestam nas ruínas, na estatuária, nos restos arqueológicos da metalurgia e da música remanescentes, que podemos encontrar nos museus da região.

Este povo, que vivia para si e por si, foi atingido, de um dia para outro, no século XVIII pelo resultado das disputas gananciosas e narcísicas do imperialismo e das nobrezas decadentes de Portugal e Espanha,envoltas no jogo de poder europeu, e, após mais de meio século de guerras, foi desarraigado de seu torrão e espalhado na Argentina, Paraguai, Uruguai e Rio Grande do Sul, como massa de enjeitados por seus territórios, humilhados e reduzidos a gado como todo o povo de tais nações.

O irônico é que uns 80 anos depois da passagem do último furacão político-militar pela região (por ocasião da guerra de independência do Uruguai, ocasião em as sete cidades guaranis gaúchas foram esvaziadas pelo tacão caudilhesco, tomando o destino definitivo de ruínas), na década de 1910, os mais enjeitados dos enjeitados tardios do Ocidente imperialista, os imigrantes europeus de segunda e terceira geração trazidos para as metrópoles de ambas as margens do rio Uruguai, vieram aqui se estabelecer, e recriar, na honrosa categoria de enjeitados do mundo, uma nova civilização, bem mais humana que a Europa e seus sucessores anglo-americanos (que, para igualar-se àquela primeira república guarani só necessita ver embandeirando seus campos o autêntico e humano socialismo), mesmo que sob o domínio das potências sul-americanas que dividem em três países formais esta nação original, trabalhadora e alegre que são os Povos Jesuíticos da América do Sul.

Santa Rosa, 5 de outubro de 2010

Ubirajara Passos

Carta aberta ao senhor da guerra Barack Obama


Sou anarquista e, consequentemente, não creio na legitimidade de qualquer Estado, porque este necessariamente se alicerça no uso da força, da qual, técnica e formalmente, detém o monopólio para impor sua “soberania”, ou seja, a opressão sacralizada de governantes nominais sobre a massa dos povos, em defesa dos sádicos apetites das classes dominantes.

Mas, libertário em meio a um mundo dominado por governos e organizado verticalmente pela distinção do ser humano em classes (a que se arroga o mando e oprime e a que se submete e cumpre a função de objeto da outra), não tenho como ser indiferente às condições limitadas de maior ou menor dignidade e liberdade das multidões trabalhadoras nos diferentes estados.

E é com verdadeira e sagrada indignação (porém sem ingenuidade, nem surpresa) que assisto a onda da incipiente revolta popular democrática da “Primavera Árabe” ser usada como pretexto para o exercício cínico e torpe da investida imperialista em um país soberano, com governo constitucionalmente estabelecido (ainda que, pelos padrões “ocidentais”, haja dúvidas quanto à sua natureza democrática ou ditatorial).

É de conhecimento público inconteste, desde décadas, que a Líbia de Muamar Kadhafi foi sempre um bastião na África do Norte do nacionalismo árabe (e de um idiossincrático “socialismo islâmico), e um dos grandes promotores e financiadores da oposição árabe “terrorista” ao imperialismo capitalista internacional. E, portanto, um dos principais inimigos dos Estados Unidos da América e seus aliados (entenda-se, da burguesia multinacional). Mal ou bem, ditadura ou não, o regime líbio, ao que se pode conhecer no Ocidente, com as informações distorcidas e filtradas que a imprensa globalizada, dominada pelo capital nos permite, garante ao seu povo um mínimo de dignidade, um estado de bem-estar social bem diverso da grande maioria das nações vítimas do neo-colonialismo informal, como o Brasil. E, como Cuba, é um exemplo inconveniente que os senhores da guerra “ocidentais” sempre pretenderam extirpar da face do planeta.

 

Assim, é cruel e ridículo que a imprensa internacional, a serviço de seus patrões, confunda a oposição armada líbia (que parece ser formada em boa parte por apaniguados de senhores feudais locais) com as revoltas populares egípcia, tunisiana ou iemenita, e que Europa e Estados Unidos, do alto de sua arrogância, intervenham em seu território, sob a exigência de que o governo líbio não se defenda contra seu avanço.

Mas é mais terrível e inaceitável ainda que o senhor da guerra Barack Obama, negro norte-americano (descendente de africanos) de confissão e nome muçulmano, sob o pretexto infantil e insustentável da proteção à vida dos civis (vítimas da “repressão governamental” – na verdade das consequencias inevitáveis da guerra civil), tenha tomado a inicitiva (ainda no solo do meu país, o Brasil, onde se jactava de grande defensor dos direitos humanos) de desencadear o bombardeio aéreo indiscrimando sobre o país, chacinando estes mesmo civis, africanos e muçulmanos, vítimas das disputas de governos e guerrilheiros, com uma chuva de mísseis inominável.



Não se admite (ainda mais se conhecendo as verdadeiras razões políticas e econômicas, notadamente a sanha pelos recursos petrolíferos) que uma nação constituída, membro reconhecido das Nações Unidas tanto quanto Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha ou França) sofra a intervenção de qualquer outra em sua política interna. Que dirá que seu povo, já encurralado em meio ao tiroteio das forças políticas internas, se veja, vítima, sem defesa, das bombas imperialistas, pagando com sua vida o luxo sádico do senhores da economia internacional.

Do massacre “humanitário” perpetrado por Sua Excelência, o senhor presidente de uma “nação livre”, que preza a sua declaração de independência, mas escraviza os demais povos, não lhes permitindo a autonomia para resolver os próprios problemas, restará nada mais que uma Líbia dilacerada em novas e infindáveis guerras civis entre senhores feudais, como na antiga Iugoslávia após a morte do Marechal Tito, e, sobretudo, o saldo do sangue milhares de vidas inocentes, cujo clamor não tem a menor chance de chegar aos nossos ouvidos, mas há de ecoar para sempre na consciência do discípulo de Martin Luther King (se é que a possui), o negro muçulmano Barack Obama.

Ubirajara Passos

QUE BOSTA DE ET! (o fiasco “astronômico” da Nasa)


Segunda década do século XXI. Não temos ainda foguetes propulsores particulares para transportar-nos individualmente pelo espaço, nem os traficantes cariocas contam com pistolas de raio laser desintegradoras. Mas, há trinta anos, o máximo de que dispunha um ser humano comum para escrever com alguma modernidade tecnológica era uma máquina elétrica, o cúmulo do avanço fotográfico eram as Polaroids e aparelho de fax era um bicho estranho recentemente adotado somente em restritíssimos círculos dos centros imperialistas. E hoje temos tudo ao nosso alcance e desejo, para ver e manipular, num simples pen-drive, num netbook ou telefone celular, transmitindo e armazenado fotos, textos, sons e imagens como se fossem idéias, em diminutos circuitos eletrônicos que atendem pelo nome de chip.

Se, nos anos oitenta, para se saber qual era a ração favorita de um tigre himalaiano era necessário ter um mínimo de dinheiro, paciência e informação para adquirir literatura especializada, hoje qualquer um, por uns quantos centavos, pode, em segundos, percorrer os mais diversos escaninhos do planeta, viajando por imagens aéreas detalhadas ou informações escritas as mais variadas, via internet, e até obter o e-mail do tal tigre.


Num mundo doido destes, em que os antigos sonhos e delírios parecem ter mais substância que a mais dura rocha ao nosso pé, em que a realidade virtual suplanta as “viagens psicodélicas” de qualquer viciado em LSD, a informação da agência espacial yankee, a NASA, de que faria revelações extraordinárias sobre a existência de vida extra-terrestre só poderia nos insuflar as mais histéricas, ansiosas e fantásticas expectativas.

Finalmente o governo do império capitalista central revelaria, após décadas de ridículo segredo militar, a existência de pessoas inteligentes, com tecnologia muito superior a nossa, vindas de outros mundos e com biologia não humana. Esperávamos todos, mesmo, assistir embasbacados, um ET (ou uma gostosa e insinuante extra-terrestre) qualquer, enfiado em seu vistoso uniforme de fibras cibernéticas inteligentes, dando entrevista em rede mundial.

Definitivamente as teorias de Erick Von Daniken, custosa e persistentemente alicerçadas em pesquisas e viagens pelos sítios arqueológicos ao redor do mundo (que sempre foram motivos de deboche dos empolados e assexuados “cientistas oficiais”) seriam confirmadas. E as experiências de vítimas de abdução e testemunhas oculares da presença de discos voadores não seriam mais vistas como manifestações psiquiátricas ou pura falcatrua!


Cientes da grandiosidade das milhares de espécies inteligentes humanóides existentes pelo espaço afora, quem sabe, ao menos pelo clássico aperto espontâneo do cu, algozes burgueses, seus lacaios e peões colaboracionistas ou simples oprimidos, largariam de mão seus recalques, masoquismo e sadismos eternos para se renderem à grandiosidade de um mundo bem maior e mais doido que a nossa virtualidadezinha de araque, trazendo os nossos grandes dramas para o nível merecido de picuinhas de crianças no jardim da infância. E adotando o socialismo como princípio mínimo e inconteste da vida humana na Terra!

Contudo, eis que, ao invés de um vídeo, não manipulado, de Cristo pisando no solo terráqueo, após aterrissar num flamante disco voador, a grandiosa revelação americana foi mais tediosa e decepcionante que a eleição de um negro elitista, com pompas de branco sulino e sobrenome “terrorista” de “hediondo” árabe para a presidência dos United States. Os vaidosos biólogos yankees, inchados pela luz dos holofotes televisivos,  tiveram a honra suprema de nos avisar a todos que, num lago qualquer da Califórnia (este país mambembe de pura palhaçada, de origem hispânica precária e muita herança anglo-vigarista) havia sido encontrada uma bactéria doidona que prefere se drogar com arsênio que com fósforo, garantindo a surrada possibilidade de existir, no espaço afora, zilhões de outras formas de vidas não restritas à mesmice bioquímica da Terra!


Na verdade o que não puderam revelar, por que pareceria muito anti-científico, pouco pudico e nada “ético” para um cientista da grande agência espacial, é que o achado consiste num microorganismo de natureza fecal. A microscópica plantinha encontrada não passa de um simples membro de umas tantas espécies, entre milhares de colônias, de bactérias que nascem e proliferam na merda!

Um ET, de saco cheio com a burrice da humanidade, especialmente de seus entojados especialistas na pesquisa racional empírica (que atendem pelo sacrossanto nome de cientistas) resolveu cagar num lago qualquer, não porque quisesse nos dar uma lição, mas porque estava com uma tremenda dor de barriga, depois de tomar umas quantas dúzias de cerveja importada da constelação de Órion, acompanhada de uns xis-burgueres de alfa centauro, e ali ficou a bacteriazinha, prima dos nossos coliformes, para dar testemunha da “grande bosta” após sua dissolução em reles água terrestre poluída.

Ubirajara Passos

Os Portugueses Voadores


Não se assuste o leitor acostumado a encontrar neste blog o radicalismo político e a inf0rmalidade verbal rebelde dos palavrões. É bem verdade que, ultimamente, ambas as características estão bastantes desvanecidas nas crônicas que escrevo, o que é antes resultado do tédio e da depressão do que de eventual caganeira decorrente da perseguição a que fui submetido, juntamente com os principais líderes de meu grupo político sindical, no último ano. Mas não virei um intelectualóide acadêmico adamado, destes capazes de discorrer sobre algum circo alternativo ou coisa parecida, enquanto a safadeza da opressão organizada fode com a vida de 95% dos brasileiros em prol da gandaia dos 5% restantes.

Os tais portugueses não são, portanto, um grupo circense. Nem o título se refere a uma paródia teatral da ópera de Richard Wagner. E também não se trata da narrativa de uma piada sobre ilustres imigrantes lusitanos se atirando do centésimo andar de um prédio, no intuito de chegar à lua.

Domingo passado eu me encontrava, na maior ressaca dupla (aquela que resulta de um porre de dois dias seguidos sem quase nenhum  intervalo), curtindo o tédio da tarde abafada e calorenta, na casa de meu pai . E o velho (que completará, no próximo dia 19, seus oitenta e cinco verões), em meio à conversa truncada e similar a dois monólogos paralelos que mantínhamos, um octagenário solitário e DDA e um DDA quarentão em ressaca alcoólica, psicológica e moral, resolveu me chamar a atenção para um casal de passarinhos empoleirado nas guias do telhado da garagem de meu cunhado.

O macho, bastante estabanado, saltitava histérico sobre a fêmea, subindo e descendo, sem lograr êxito no seu intento sexual (fato cada vez mais freqüente em certos círculos de festa alternativa da pequena burguesia “revolucionária”), quando o velho Almiro, após ironizar a desgraça do bicho, olhou bem sério para os passarinhos e repetiu três vezes a mesma frase enigmática, enfático e divertido: “os portugueses, os portugueses!”.

Eu já ía imaginando se tratar de uma manifestação típica do “alemão” (não o “Valdir”, mas o mal de Alzheimer, que atendia, no tempo em que meu pai era jovem, pelo nome mais comum de “caduquice”), quando ele concluiu: “O pardal! Veio de Portugal esta praga!”. Vi salva, assim, por um triz, a já precária integridade mental de meu velho pai, mas segui adiante com qualquer outro assunto que não fluiria e seria respondido pela menção de outro e assim por diante.

A curiosidade a respeito da origem do pardal (de que eu, um típico descendente de portugueses da quinta ou sexta geração, não tinha a menor noção que não é um pássaro nativo brasileiro) ficou, entretanto, a me bater nas guampas. E a pesquisa feita na internet acabou por saciar, até regurgitar, a minha fome do assunto.

Assim, tomei conhecimento de que o bicho se encontra sobre o solo (e no ar) pátrio há coisa de cem anos e que é acusado por umas tantas correntes ecológicas ou de produtores agropecuários de se constituir em um competidor maldoso e feroz das aves nacionais (teria sido o responsável pelo sumiço do tico-tico de várias regiões do país), bem como de devorador de plantações ou, simplesmente, de feioso estrangeiro poluidor visual da nossa paisagem (fatos estes que justificariam a qualificação de “praga” que meu pai lhe deu). Outras correntes desmentem  as acusações e exaltam o pardal como um útil caçador de insetos, e por aí vai a exaustiva discussão sobre o dito “português”.

O leitor, com certeza, já está arrancando o saco fora com toda esta lenga-lenga e se perguntando, afinal, de onde veio o tal pardal. Para que não fique mais puto da vida do que está, portanto, vou atalhando a enrolada crônica e fornecendo de imediato a resposta. O fato é que, embora originariamente presente nas mais diversas regiões da Eurásia, o pardal veio parar no Brasil justamente vindo de Lisboa. Não nas primeiras caravelas (como pensei inicialmente), em companhia dos invasores portugueses que, arrancando as terras aos índios e trazendo os negros à força, como gado, da África criaram o Brasil. Mas justamente por obra dos brasileiros, em pleno período republicano. Entre 1903 e 1909,  não se sabe se objetivando usá-lo como auxiliar na caça aos animais portadores da febre amarela, ou simplesmente para dar um ar cosmopolita e chique (similar ao “de Paris”), foi importado pelo prefeito do Distrito Federal de então (a Cidade do Rio de Janeiro), o engenheiro Francisco Pereira Passos (o saneador e reformador do Rio), cujo último sobrenome casualmente coincide  com o meu, e é típico de descendentes portugueses.

 

Não pretendo entrar aqui no debate sobre os benefícios ou malefícios da importação do pássaro estrangeiro, muito embora, além de anarquista, eu seja um nacionalista anti-imperialista ferrenho. Nem muito menos discorrer sobre a sua pretensa influência estética negativa (que, para a mentalidade comum –  tanto a do observador cachaceiro de trailer de xis burguer, quanto a do burguês cocainado do bistrô “sofisticado” –  é suficiente para justificar a sua ojeriza ao passarinho), até porque o importuno urbano preferido do meu ódio espontâneo é a pomba (o bicho, não o órgão sexual que se identifica pelo apelido – não vão os leitores entender mal minhas palavras…).

Mas, cá entre nós, este negócio de importar pardal para tornar a antiga capital do Brasil mais parecida com as grandes metrópoles internacionais é a própria prova de que a devoção entreguista de nossos dirigentes políticos, historicamente, é tão extremada que chega ao cúmulo do ridículo, além de não lograr, neste caso, o seu verdadeiro intento. É mais ou menos a mesma coisa que pendurar num quadro, ricamente emoldurado, uma folha de papel higiênico trazida de um motel suíço para enfeitar a sala de estar!

Ubirajara Passos