(A)pelação à beira-mar!


A história não se passou no último veraneio, mas num modorrento final de feriadão, na segunda-feira, 20 de setembro (data em que a gauchada do Rio Grande do Sul comemora a sua data nacional, o início da Revolução Farroupilha).

Peruca, Nenê (o primo mais novo do Peruca) e Kadu, entediados, bojecantes e babões, respectivamente na ordem inversa, não suportavam mais o mormaço pré-primaveril da provinciana cidade grande de Gravataí, onde até os mosquitos se deixavam infectar pela doença do sono e, tontos, perdiam o rumo do vôo e, em meio a uma espiral desusada, acabavam por topar entre si, na cabeçada, indo ao chão (quando não caíam, moles, na boca do Peruca, evidentemente).

Afinal, na pretensiosa sede do único complexo automobilístico do extremo sul do Brasil, não acontecia nada de novo há mais de 14 anos, quando a petezada fascista, analfabeta e petulante derrotara a dinastia peemedebista lambe-cu da (formalmente) extinta ditadura pós-1964, assumindo a prefeitura, após quase trinta anos de dominação, que tivera apenas algumas  interrupções (uma no início dos anos 1970, quando o partido da ditadura, a Arena, assumira o poder e outra no final dos anos 1980, quando o trabalhismo não vendido, governara, através de um popular prefeito do PDT). Desde então os petistas eram os novos “coronéis absolutos da cidade”, perpetuando-se mandato após mandato.

Mas a turma do Peruca não meditava sobre tais injunções políticas. Sabia apenas que a única coisa digna de admiração na cidade inchada, que conservava os maneirismos de sonolenta vilinha colonial, era a piada que explicava o seu nome, atribuindo-o a uma furibunda matrona do início do século XX, que, dando com a pudica filhinha a boquetear o namorado em plena praça do quiosque, se esbagaçou gritando pra guria: “o que é isto minha filha?” E, recebendo a resposta cretina (“nada mãe, tô só arrumando a gravata dele!), arrematou: “gravat’aí, minha filha?”

– Ô meu, não tem nada pra fazer nesta merda!

– Vamo tomá um goró, Peruca burro! – disparou Kadu.

– Mas aqui não tem graça, nem o Bira bebe mais. Agora que casou, nem no Lucy Bar vai mais o homem – contestou Nenê, concluindo – Vamo pra praia, pra Tramandaí, que lá que é legal. Marzão, brisinha  boa pra se refrescar e ainda uma dúzia de loiras gostosas pra gente admirar enquanto mergulha na loira da garrafa! Vamo lá seus tontos!

O Peruca preferia ficar em casa e chamar o Dente Hugo com uns DVDs pornôs piratas, que loira boa de ver é aquela que trepa com quatro ao mesmo tempo e ainda dá risada. Kadu, louco pra encher a cara em qualquer buteco, achava muita mão de obra comprar fardos de cerveja e gelo, acomodar no cooler e andar 100 km free way afora só pra curtir uma praiazinha. Ambos não atinavam com a reais intenções de Nenê, mas, depois de muito xaropice, se deixaram convencer.

E, plena tarde de mar e sol, ali se encontravam, junto à barra do Tramandaí (a praia mais fudida da cidade, onde a caganeira urbana corre solta pelo rio, e do rio para o Atlântico), enchendo as guampas de caipira e cerveja, com aquele olhar estranho que nos torna vesgos de uma hora para outra, quando deram com aquela trupe de gatinhas gostosas (uma das quais era funcionária da promotoria em Cachoeirinha, conhecidíssima dos três e alvo da paixão platônica do Nenê).

Agora sim, podia se chamar aquele monte de areia salpicado de bosta de praia. Trataram logo de gastar os últimos cobres em martinis, keep coolers e sorvetes, que as gatas eram manhosas e não estavam muito a fim de papo furado, mas tinham, segundo elas, um tesão imenso por garotões alegres e endinheirados, e estavam loucas por umas bebidinhas e guloseimas.

Consumido o estoque do improvisado pic nic, bem como o dinheiro e a paciência do trio, que não conseguia dar nem uma bolinadinha nas safadas (toda vez que se aproximavam, eram repelidos com um recatado risinho e um “depois, meu amor”, primeiro quero curtir o frescor do mar), apareceram uns sujeitos musculosos e mal encarados, boné de aba virada, pinta de aviãozinho de favela (uma tigrada braba, como os descreveu o Peruca) e deram de mão nas pudicas senhoritas, que foram se amassar com eles atrás de umas dunas.

Nenê estava simplesmente desconsolado. Se esvaia em lágrimas pela rejeição da amada e Peruca ameaçou até ir dar umas porradas naqueles tipos (afinal, a última vez que ficara sem absolutamente um puto no bolso foi quando deu com o famoso traveco violento que o assaltou no Bradesco). Mas Kadu, o mais “malandro e experiente” dos três pinguços desengonçados, tratou de acalmar e “trazer à lógica” os outros dois:

– Mas o que é isto. Que choradeira braba! E que porrada coisa nenhuma! Tem  um jeito bem melhor da gente se vingar e divertir, na boa! Vamo estragá o namoro destes panacas. É só a gente tirá a bermuda e ir lá, no meio das dunas, corrê pelado!

Nenê, magoado, mas ainda preocupado em fazer boa imagem para sua paixão, resistiu violentamente, mas, debaixo de porrada, arrancado o calção, foi arrastado junto.

Peruca não teve a menor dúvida. Jegue embriagado, cujos últimos restos de sensatez e inteligência migraram além do cu, aderiu ao plano, entusiasmado.

E foi assim que, naquela tarde de fim de feriado, a fria praia gaúcha se viu despertada pela agitação dos três branquelas sacudindo o instrumento e tropeçando uns nos outros (ocasião em que parece que o Peruca teve a chance de recordar “concretamente” de seu falecido amante traveco), aos gritos de olha aqui que coisa mais linda, enquanto os casais de patricinhas e maloqueiros corriam afoitos duna acima (interrompidos no doce ofício das preliminares menos sacanas)… Mas não por vergonha ou indignação, mas simplesmente para se mijar de rir e vaiar, enquanto os três anjos barrocos broxas (afirmação da preferida do Nenê) eram detidos e conduzidos “à vara” por uns quantos robustos brigadianos.

Ubirajara Passos

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Finais Alternativos para as últimas peruquices


Como já esclarecido ontem, algumas narrativas das Aventuras do Peruca e sua Turma me são sugeridas, ou pré-escritas (como é o caso das duas últimas, que editei o mínimo necessário para fazer correções gramaticais e de estilo) por um personagem de carne e osso da própria turma. E o meu colaborador, no final dos dois últimos textos divulgados, cometeu o deslize de plagiar literalmente piadas de internet publicadas em outro site, o que poderia comprometer a originalidade deste blog e levar os leitores a crer que se trata de um entre outros tantos que pirateia conteúdo alheio. A única coisa que pirateio aqui, volta e meia, assumidamente, são fotos ou ilustrações (como todo mundo faz, e quando a matéria não permite usar imagens originais).

Assim, para desagravo da honra do blog (ainda que, advertido o colaborador, venha a continuar a contar com seus pitacos, ou eventuais versões “pré-fabricadas de crônicas), e para maior prazer dos leitores, publico hoje, como faria um autor de telenovela, os finais alternativos aos já divulgados para:

Aventuras Sexuais do Peruca no Brasil Central:

“Quando todos já haviam perdido as esperanças de saber o motivo da dispensa do Peruca, Paraguaçu, insegura como era, pediu para um subordinado (logo o Nadinho Andarola!) corrigir seus erros de ortografia e concordância, e enviasse diretamente para o protocolo do município a seguinte mensagem, reproduzida fielmente como a que fora escrita pela funcionária, que acabou divulgada para todos pelo corretor safardana:”

Caro senhor Prefeito do Município de Brejóvski – MT:

Demiti o estagiário vulgarmente conhecido pelo codinome de Peruca em razão de ter abusado da “minha confiança”, me utilizando torpemente, através de agrados deleitosos, isto é, delituosos e falsos para me induzir a trair o pulha do meu marido, que já não dá mais no couro, digo, para subtrair das pilhas de processos administrativos do Ministério volumes históricos encadernados em couro, e obter favores e privilégios pessoais funcionais e financeiros como folgas sem justificativa e esvaziar minha carteira, digo, e obter com seu comércio lautos lucros financeiros, além de, na repartição, só cometer asneira.

Há muito tenho constatado suas faltas absurdas, mas deixei-o impune por se tratar de um rapaz bastante atônito, com aparente redução severa da capacidade de raciocinar e discernir. Mas hoje, senhor prefeito, sua sem-vergonhice envernizada de imbecilidade chegou ao auge. Tendo solicitado ao mancebo que, conjuntamente com um funcionário de carreira bastante solícito e prendado nas artes decorativas, tratasse de preparar o ambiente de meu apartamento para um suruba com com os dirigentes regionais do Centro-Oeste do Ministério, desculpe o lapso, preparasse o meu apartamento para uma recepção formal aos dirigentes regionais do MTb, flagrei-o, em plena tarde, na maior pouca vergonha homossexual com o dito funcionário, que teve o peito de, ainda por cima, querer difamar, afirmando que só se dignara a exercer o papel ativo porque lhe fora oferecida a módica quantia de dez reais em troca do favor, além da chantagem de que o delataria às autoridades como estagiário corrupto e imoral”.

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Um flagrante do Capeta:

“O delegado, um insuportável nanico conhecido pelo apelido de Doutor Carioca, casualmente gaúcho, estava de bom-humor naquele dia e resolveu dar uma aliviada na situação do dois malucos, propondo:”

-Seus dois safados. Apesar de toda cretinice “transviada”, parece que tem uns probleminhas mentais meio sérios. Nunca vi nenhum viciado aveadar deste jeito com uma simples ervinha. Ou será que pensam que maconha é pra fazer chimarrão? Eu estou aqui no xadrez do “Distrito” com dois casais de travecos me enchendo o saco, se auto-acusando, entre os parceiros de cada um, de violência doméstica e exigindo providências. Se vocês conseguirem convencê-los a ir embora sem registrar queixa e parar com a ladainha, eu libero os senhores e arquivo o inquérito.

Os maconheiros, mais do que solícitos, toparam a parada. E, passada boa hora e meia, o doutor “Carioca” foi à cela conferir o resultado do trabalho dos malucos.

O casal abordado por Maiki Mouse, resolvera, de tédio e indignação, desistir da confusão por não suportar seus bons conselhos de pretenso maconheiro arrependido, que queria, agora, levá-los para um culto da Igreja Universal, que lhes garantiria a redenção moral e mais uma graninha extra, ajudando a queimar uma papelada na “fogueira santa de Israel”.

Mas o surpreendente mesmo foi o casal submetido aos argumentos do Nandinho. De tanto ouvir barbaridades do tipo: “mas, meu senhor, porque o senhor é veado, é por mera vontade ‘involuntária’ de dar o cu ou o senhor sofre de alguma coceira imoral no ânus?”, não apenas se reconciliaram, como estavam cagando a pau o pobre maconheiro!

Ubirajara Passos


Um flagrante “do capeta”


 Durante o estágio do Nandinho Andarola na Delegacia Regional do Trabalho em Cuiabá, capital do Mato Grosso,  era comum avistar o rapaz nos intervalos (concedidos para fumar seu “cigarro” e fazer um lanche), enrolando um papel de seda sobre um tipo de erva estranha, e voltar para o serviço mais doido que o Dente Hugo em dia em que seu avô Ramón recebe a aposentadoria.

Um belo dia ele e seu colega Maiki Mouse, inveterado apreciador da mesma misteriosa substância, estavam escondidos no banheiro da repartição, fumando o cigarrinho do capeta, quando um dos guardas ouviu estranhos barulhos e foi averiguar, pensando que poderia talvez rir bastante ao encontrar o Peruca, tendo relação sexual com alguma faxineira ou ganhando seus “dezinhos” ou coisas do tipo.

Mas a surpresa foi completamente inédita. Martinhu du Pó, amigo de farra da dupla, e também fornecedor de sua principal diversão, havia se confundido e vendido Haxixe aos pobres maconheiros, que desconheciam o seu grau de THC , e os correspondentes efeitos. E, ao entrar no banheiro, o vigilante deparou com os dois rapazes completamente nus. O Nandinho de quatro tomando água da privada e latindo. Enquanto o Maiki Mouse pulava pra lá e pra cá, por cima de uma “fogueira de São João” que havia feito com uma pilha de processos que deveriam ser entregues à chefe do DRT, a tarada e desastrada Paraguaçu. A bizarra cena embalada ao som de “Charuto me Roubou”, obra prima do cantor “Dente Hugo”, que estava sendo tocada em alto e bom som no celular de um deles.

O segurança, pra variar metido a  macho, apavarou-se tanto  que chamou a polícia militar para conter a dupla. Que  foi presa e conduzida à delegacia exatamente no estado em que estava.

O delegado, um insuportável nanico conhecido pelo apelido de Doutor Carioca, casualmente gaúcho, estava de bom-humor naquele dia e resolveu dar uma aliviada na situação do dois malucos, propondo:

– Vocês parecem ser boa gente. Vou lhes dar uma segunda chance!  Ao invés de irem pra cadeia, vocês terão que mostrar para as pessoas os terríveis males das drogas e convencê-las a largá-las!  Compareçam aqui em  uma semana, e me relatem quantos tontos, isto é, quantos cidadãos vocês convenceram, que eu mando arquivar o inquérito!

Na semana seguinte os dois voltaram e o “doutor Carioca” perguntou primeiro para Maiki Mouse:

– Como foi sua semana, rapaz?

– Bem, doutor delegado, eu convenci 17 pessoas a pararem de consumir drogas para sempre!

-17 pessoas? – disse o delegado, satisfeito – Que maravilha. O que você disse para elas?

– Eu usei um diagrama, meritíssimo. Desenhei 2 círculos como estes:
O o

Aí apontei pro círculo maior e disse: “Este é o seu cérebro em tamanho normal…”  e, apontando pro menor: “E este é o seu cérebro depois das drogas!”

“Muito bem!” – aplaudiu o delegado “Carioca” , virando-se imediatamente para o Nandinho e dizendo:  “E você? Como foi sua semana?”

– Eu convenci 234 pessoas, doutor!

– 234 pessoas? – exclamou o delegado, pulando da cadeira – Incrível! Como você conseguiu isso?

– Utilizei um método parecido com o do meu colega. Desenhei 2 círculos como estes:
o O
– Mas eu apontei para o círculo menor e disse: – Este é seu cu antes da prisão…

Ubirajara Passos

Aventuras Sexuais do Peruca no Brasil Central


 Paraguaçu é uma funcionária pública de meia idade, e ocupa um cargo de chefia em uma repartição do Ministério do Trabalho, em Mato Grosso. Sua personalidade um tanto quanto dispersa, meio que avoada e estabanada, não impediu que concluísse o curso de Direito, na Faculdade de Cacimbinhamburger, no Vale do Rio dos Sinos. Dizem as más línguas que na mesma classe em que se formaram dois grandes doutrinadores da atualidade jurídica e decadencial da literatura jurídica gaúcha, o Doutor. Nênio Gambá (já citado neste blog) e o Doutor Com Pêlo, dois criminalista de alto renome em Gravataí.

Nem mesmo o seu estilo completamente desastrado e sua proverbial ignorância arrogante foi empecilho para que passasse no concurso, de forma um tanto duvidosa (eis que possuía antigos amigos no tal Ministério), se bem que sua classificação só lhe permitisse assumir o cargo em Cuiabá, a milhares de quilômetros de seu importante estado natal, o Rio Grande do Sul. E, por incrível que pareça, acabou encarregada da pesquisa para atualização da Classificação Brasileira de Ocupações, na região da Amazônia Legal, setor em que veio bater às portas o Peruca, via um estranho convênio com uma prefeitura do Centro-Oeste, acompanhado do Nandinho Cannabis Andarola, após ter se encerrado seu longo e ininterrupto estágio forense em Gravataí, de mais doze anos, incrivelmente realizado, todo ele, enquanto o Peruca repassava as matérias do 1.º semestre.

Era pública e notória a “amizade” que florescia entre Paraguaçu e seu fiel e bocaberta  estagiário, que, além de ter sugerido a inclusão da profissão de “michê homossexual” diferenciada da genérica de profissional do sexo, jamais deixara de obedecer uma ordem sequer, tanto de serviços internos como “extra-cartorários”. Além, é claro, da matrona ter nele encontrado a sua alma gêmea. Paraguaçu era a perfeita versão feminina do nosso asnífero herói e dificilmente se encontraria alguém igual sobre a face da Terra.

Neste ponto é bom esclarecer que o Peruca embora tonto e detentor de um raciocínio tão rápido quanto o de um tatu-mulita (seu QI atinge, inacreditavelmente, o mesmo patamar de uma fuinha), nos seis meses em que esteve estagiando no Planalto Central, conseguia atrair os mais diversos tipos de afetos e admiração do sexo oposto (e também de um certo colega do mesmo sexo) e não era raro ver os mais esquisitos tipos de criaturas interessados pelo estagiário, tanto pela sua expressa submissão quanto pelo fato do rapaz ter uma paciência sobre-humana.

E em uma, até então, monótona manhã de segunda feira, não mais do que de repente, Paraguaçu entra cartório a dentro, mais atrapalhada e nervosa do que de costume, senta-se em frente a um computador, e começa a digitar velozmente. Ao ser questionada pelo curioso e enxerido estagiário local, o Nandinho Cannabis Andarolas, sobre sua estranha atitude (que era realmente estranha, pois os funcionários da repartição jamais haviam visto Paraguaçu digitando uma palavra sequer no ano corrente), ela dispara:

  – Eu demiti o Peruca! E tenho que enviar um ofício comunicando a Prefeitura de Brejóvski os motivos, porque ele era estagiário cedido.

Quando todos já haviam perdido as esperanças de saber o motivo da dispensa do Peruca, Paraguaçu, insegura como era, pediu para um subordinado (logo o Nadinho Andarola!) corrigir seus erros de ortografia e concordância, e enviasse diretamente para o protocolo do município a seguinte mensagem, reproduzida fielmente como a que fora escrita pela funcionária, que acabou divulgada para todos pelo corretor safardana:    

 Caro senhor Prefeito do Município de Brejóvski – MT:

Por que demiti o estagiário? Era meu aniversário de 45 anos, meu humor não estava lá essas coisas. Naquela manhã, ao acordar dirigi-me a cozinha para tomar café na expectativa de que meu marido dissesse: “Feliz aniversario, querida”. Mas ele não disse nem bom dia… Pensei: “Esse é o homem que eu mereço!” Mas continuei a imaginar: “As crianças certamente lembrarão”. Quando elas chegaram para o café não disseram nem uma palavra.

Saí bastante desanimada, mas me senti um pouco melhor quando entrei na DRT e meu estagiário, o Peruca, disse: “Bom dia Doutora, Feliz Aniversario!” Finalmente alguém havia lembrado.

Trabalhei ate o meio dia, quando o estagiário entrou na minha sala dizendo: “Sabe Doutora … Está um dia lindo lá fora, e já que é o dia do seu aniversário, podemos almoçar juntos, só a senhora e eu”.

Fomos a um lugar bastante reservado. Nos divertimos muito, e como de costume paguei a conta do Peruca, porque ele fingiu ter esquecido a carteira mais uma vez, e no caminho de volta ele sugeriu: “Doutora! com esse dia tão lindo, acho que não devemos voltar ao Ministério. Vamos até o minha apartamento, o Nandinho tá lá na DRT, e só chega a noite mesmo, e lá tomaremos um drinque.”

Fomos então para lá, e enquanto eu saboreava um vinho ele disse: “Se não se importa eu vou até o meu quarto vestir uma roupa mais confortável”. Tudo bem, respondi. Fique a vontade. Decorridos mais ou menos cinco minutos, ele saiu do quarto carregando um bolo enorme, seguido de meu marido, meus filhos, amigas e diversos chefes e funcionários da repartição, todos cantando, “Parabéns Para Você” “E lá estava eu, nua, sem sutiã, sem calcinha, sentada no sofá da sala e me masturbando…”

OBS: é por isso que eu digo…

 ESTAGIÁRIO SÓ FAZ CAGADA!”

Ubirajara Passos

A Multa do Law Pirâmide da 59


Law Pirâmide é um primo do Franja (Gílson Pirâmide) que caiu no conto da “Dinastia”, induzido pelo parente, e, depois de perder todos os tostões investidos e ainda ficar devendo o equivalente inverso em raiz geométrica proporcional (o fatorial de quatro elevado ao número de brasileiros componentes do mercado de trabalho formal), enlouqueceu e acabou se associando ao Dente Hugo num novo negócio espetacular: exportação de fio de cobre para o Paraguai.

O apelido foi justamente o resultado do logro e do novo ramo adotado, o que lhe rendeu uma ciumeira danada do Franja, que volta e meia é confundido com o primo, assim como ocorria com o Peruca e o Kadu, antes de se consagrar seu apelido no estágio forense (e neste blog).

Por incrível que pareça, o tal comércio exterior de metal recilado acabou por lhe render alguns cobres que lhe permitiram uma bizarra vida dupla.

Durante o dia circula na Várzea do Gravataí com aquela impecável camisa de seda branca, enfeitada com uma tradicional gravata borboleta preta de elástico (que não sabe fazer nó e muito menos tem grana para comprar uma legítima), cumprimentando educadamente todos os vizinhos, e não deixa de atender a um único “pedido” (isto é, ordem, dada aos trambolhões) da namorada gostosa, mas manhosa e autoritária que só lhe dá a cada trinta dias (isto se o Law apresentar o boletim da Ulbra sem nenhuma nota “vermelha”).

Mas basta tomar uma simples dose de absinto depois da meia-noite que, como um “Gremlin humano”, o sujeito se transforma totalmente. Veste uma camisa floreada, chapéu panamá branco fabricado em Santa Catarina, aquela indefectível calça jeans cheia de bolsos nas pernas, um par de mocassins brancos, e sai por aí, com seu sócio, dando saltos sobre os telhados como um cabrito e correndo, até amanhecer, a mais desclassificada zona do “baixo meretrício”, na qual sua predileção é pelas putas pobres que se escondem, na madrugada, intermediadas por seu chapado cafetão de bermuda e camiseta, na entrada da Igreja da parada 59, na divisa entre os municípios gaúchos de Gravataí e Cachoeirinha.

Pois foi como resultado de uma destas investidas que o doido levou uma pesada multa por excesso de velocidade e me enviou, mais pirado do que nunca, o e-mail abaixo reproduzido, que me autorizou a publicar no blog depois que lhe disse que podia interorpor, tranqüilamente, o recurso administrativo, na forma redigida, pois além de adaptado jurídica e factualmente de forma irretocável aos fatos e à natureza da demanda, era digno de figurar nos “anais” do Anarquismo heterodoxo. Segue, para o deleite dos leitores, que devem andar enjoados com o “bom comportamento” deste blogueiro, o texto:

“lustríssimo Senhor Diretor do Departamento Estadual de Trânsito – DETRAN:

RECURSO Auto de Infração nº 6435987-9
Notificação nº 34536782998

Eu, Law Pirâmide da 59, brasileiro, solteiro , portador da cédula de identidade R.G. nº 69432471, do CPF nº69666171-18 e da carteira nacional de habilitação nº1716661824 domiciliado no Município de Gravataí Rio Grande do Sul, venho, por meio deste, requerer digne-se este respeitável Departamento Estadual de Trânsito de determinar a nulidade da multa em questão.

1. Trata-se de multa emitida no dia 02 de novembro de 2009,no Município de Cachoeirinha, em virtude de alegado excesso de velocidade (superior a 20% da velocidade permitida), com o veículo da marca FIAT, modelo Palio, de placa VTC6966, constatado na Avenida Dorival Cândido Luz de Oliveira – Flores da Cunha, altura da parada 59, às 4:35 horas desse dia.

2. Este recurso não tem por fim demonstrar a não ocorrência da infração em si considerada, mas apenas demonstrar os motivos que deram ensejo a essa, e, consequentemente, eximir-se das penalidades que dela decorrem.

3Sou assíduo freqüentador das boates e casas noturnas da região, trafegando diversas noites por semana nas vias deste bairro, sendo portanto profundo conhecedor da localização dos malditos radares que se escondem com o intuito de subtrair desavergonhadamente o tão arduamente dinheiro dos bons motoristas como eu.

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5Assim, não haveria por que exceder a velocidade exatamente no ponto onde se localiza o radar. Isto posto, segue uma breve narrativa do ocorrido na madrugada do dia 02 de novembro de 2009:

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6Alguns minutos antes da constatação da infração, estava sozinho no automóvel trafegando pela mencionada avenida , retornando alcoolizado de uma inglória tentativa de obter sexo oral gratuito com as moças que por ali exerciam suas profissões.

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8Revoltado com minha má performance social, decidi por bem esvair minha cólera através da velocidade nas vias públicas, ciente de estar arriscando minha vida e as de outrem. Ao me aproximar do ponto onde foi constatada a infração, não diminuí a velocidade de meu veículo como de costume, pois na semana anterior havia disparado contra o instrumento de aferição de velocidade e fotografia conhecido popularmente como “radar” diversos tiros, sendo bem sucedido na tentativa de destruir o objeto pertencente ao município.

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10Entretanto, com a visão parcialmente inabilitada graças a ingestão irresponsável e desmedida (porém proposital e gratificante) de álcool etílico potável, não pude ver que o instrumento já havia sido prontamente reparado, vindo a ter ciência disso somente com o “flash” da fotografia, que, ao ser disparado me causou distração, fazendo com que eu derrubasse meu uísque e perdesse de vista uma gostosa que dirigia um Vectra a qual eu estava perseguindo.

8. Esse breve relato demonstra a inexistência de culpa na prática do mencionado ato, uma vez que esse se deu pelos seguintes motivos:

A) Incompetência do município em comunicar aos motoristas que o aparelho já se encontrava em funcionamento.

B) Má-fé do da administração municipal que providenciou o reparo do instrumento em um prazo infinitamente inferior ao padrão vigente no serviço público com o intuito de prejudicar deliberadamente os motoristas alcoolizados.

Assim sendo, peço que seja declarada a nulidade da infração, a desativação dos radares fotográficos e que os pontos sejam retirados de meu prontuário.

Ainda, exijo a reposição do uísque derrubado e a identificação e telefone da motorista do Vectra Prata, placa PQP2469, cujo flash do instrumento público me fez perder de vista.

Demonstro minha total insatisfação e desaprovação ao código de trânsito vigente, que impede que bons motoristas se valham de suas habilidades de pilotagem na via pública.

Termos em que,
Peço Deferimento.

Gravataí, 5 de novembro de 2009”

A MORTE DO “DENTE HUGO”


 Dente Hugo é um amigo do Peruca, especializado desde tenra idade em tudo quanto é atividade que envolva um grau mínimo de transgressão ou gaiatice, especialmente aquelas que tem um certo ar de falcatrua. Não por acaso vibrou quando lhe anunciei solenemente num buteco da “parada 79”, em plena conversa de bar, com o testemunho do “pastor” Kadu Macedo (tão embriagado quanto nós), que ao completar seus dezoito anos – o que se daria logo, logo – teria zerada sua extensa ficha no Juizado da Infância e Juventude. Que, a partir daí, ficaria limpinha como nova, prontinha para ser preenchida por contravenções dignas de gente grande.

E um belo dia, entediado com a nobre e profícua diversão humanitária de trocar, para seu avô Ramón (veterano de todas as guerras não havidas), amassadas notas de vinte reais por apenas uma nova e lisinha nota de dez, Victor Hugo (como foi registrado o dentuço gaiato e afoito, espécie de Peruca em couro de camelô), resolveu dedicar-se a um “labor” mais útil e aventuroso: o comércio de fios de cobre. Para cuja obtenção, evidentemente, tornou-se um “exímio” alpinista de postes de luz e telefone.

O negócio ía deslanchando mais que pulga em cachorro de rua, até que, não se sabe se por falta de postes ou delação de seu sócio, o Tibica, Dente Hugo teve de dar um tempo das ruas de Gravataí e procurar o auto-exílio no litoral gaúcho, especificamente nas praias de Tramandaí, para onde se mandou, oficialmente, para curtir um descanso de seu árduo trabalho. Em pleno inverno, bairros desertos, entretanto, era impossível resistir a todas aquelas linhas elétricas dando sopa pela praia e o cabrito Dente Hugo tratou logo de escalá-las para ganhar uns cobres com os fios de cobre. E, como não dispensava uma boa canjebrina, a décima escalada acabou resultando num tombo digno daquele acidente automobilístico do Peruca em Glorinha, o que deixou o nosso herói de molho uns  bons dois meses, em plena praia, sem poder exercitar seus dotes ecológicos de reciclador de metais.

É mais ou menos óbvio que a turma em Gravataí sentiu muito a sua ausência, especialmente o plantão da RGE e o Juizado da Infância e Juventude. Como a coisa andava de boca em boca, numa aflição sem fim (que a cidade, apesar dos seus 300 mil habitantes ainda tem hábitos de vilinha do interior, e a fofoca e a especulação sobre a vida alheia é o principal deles), o safado do Kadu, depois de tomar aquele porre com o “Dente”, em Tramandaí, por conta dos cobres amealhados antes da fatal queda, resolveu dar um incentivo ao principal esporte local. E espalhou na internet, mais precisamente no orkut, entre amigos, inimigos e desconhecidos, que o pobre Dente Hugo havia caído de um poste na praia, batido com a cabeça e expirado, nos  braços de um pescador que lhe contou tudo, de olhos e boca arregalados, não sem antes emitir as antológicas frases a la Peruca: “Diz pra todo mundo que o cobre mata, a gurizada que não siga o meu exemplo. Diz pro Tibica que tá perdoando por ter me ensinado este caminho. Manda o “Charuto” ficar com aquele tênis velho e fazer bom uso, que ele já me roubou mesmo. E não se preocupem: não quero ninguém chorando no meu enterro. É pra beber cachaça, cheirar cola e até descascar fio de cobre. Mas não vão chorar. Ah! Avisa pro pai daquela guria que ela me enganou. Eu só fiz sex…” E morreu com a frase incompleta, revirando os olhos.

Como fofoca por internet é bem mais potente, ainda mais na capital gaúcha do fuxico, o resultado é que o boato se espalhou, e tomou as próprias ruas, calçadas, bares, funerárias e a sala de estar das comadres fofoqueiras. Não havia quem não soubesse ou comentasse o imprevisto desenlace. A própria mãe do Kadu, senhora severa mas sentimental, que detestava a amizade de seu filho com o tal do “Dente”, entrou em casa, um certo dia, transformada em lágrimas, com cara de mater dolorosa, e foi interpelando o sem-vergonha: “Meu filho, tu sabia que morreu o Vítor Hugo? Morreu roubando cobre, na praia, o pobrezinho”.

E o nosso amigo Kadu não sabia, diante da barbaridade, o que fazer: se sumia (prevendo a sessão de xingamentos) ou se fazia de desentendido. Mas acabou não se agüentando: “Ô mãe, pára com isto aí. Fui eu mesmo que inventei esta história!”. Dizem as más línguas que a pobre senhora, após uns dez minutos de discussão se convenceu da falsidade do boato e que o Kadu passou umas quantas semanas desparecido também de barzinhos e rodas de amigos. Não por mera proibição, que aos dezenove anos isto pouco adianta, mas por falta absoluta de cobres no seu bolso, com a mesada morta e enterrada.

Ubirajara Passos

Peruca e as Mil e uma Virgens


Entusiasmado, o professor de Direito Público Internacional do Peruca finalmente encontrou, após ler o dicionário jurídico do ilustre pupilo aqui publicado, algo sobre o que o bocaberta mais esperto de Gravataí  poderia discorrer, sem risco,  para ser aprovado no semestre, após dez anos grameando na mesma fase, e possibilitar ao iluminado mestre se ver livre da criatura. E assim, encarregou o nosso herói de elaborar e apresentar, em conjunto com uma turma de colegas tão “excepcionais” (no sentido que se aplica àqueles portadores da síndrome de down e congêneres) quanto ele, um trabalho sobre o terrorismo islâmico contemporâneo em vista das normas internacionais.

Juram acadêmicos do quilate de Camarguinho-chama-o-hugo que o Peruca elaborou tese profunda, de substanciosa e incontestável justificabilidade racional (Camarguinho não tem a menor idéia do que significa este fraseado bacharelístico todo, mas tem certeza de que se trata de coisa muito chique e importante), digna de figurar em discurso de embaixador da Gândia (paiz virtual em que se encontra exilado Gílson Pirâmide desde que perdeu os últimos tostões investido na “Dinastia”) na Assembléia Geral das Nações Unidas.

O problema, mesmo, foi,  o entusiasmo que o tomou na dissertação oral, em plena sala de aula, em que se encontrava presente o próprio reitor do campus da Universidade, convidado que fora pelo professor da cadeira (que andava necessitando montar a farsa necessária para provar sua competência como mestre, tão grande quanto a inteligência do Peruca). Para que a coisa não ficasse tão técnica e insossa, restrita à secura discursiva do Direito, resolveu adornar sua palestra com algumas informações eruditas, de poesia e rigor científico antropológico inigualávies, e foi dissertando, antes de aprofundar a parte técnica do tema, sobre as pretensas origens religiosas intrínsecas do terrorismo, dando conta dos primeiros atentados ocorridos na História, no meio da Idade Média (há cerca de mil anos), inspirados na promessa maometana de sete virgens gostosas e fogosas que se encontrariam no paraíso, esperando o mártir da guerra santa para a ele se entregar na maior putaria eterna, após sua morte a serviço de Alá.

O Peruca, neste trecho, ía “possuído” por um espírito barbosiano, dando relinchos de furor intelectual, quando sofreu a interferência de um encosto bêbado do velho poeta, matemático e astrônomo árabe-persa Omar Khayyám, e começou a conjecturar sobre as probabilidades do militante suicida ser realmente recompensando com tão doce prêmio.

E foi logo concluindo, com rigor algébrico absoluto, que, se na época havia sete virgens para cada doido muçulmano, passados mil anos, e milhares de terroristas suicidas pirados, dos simples soldados de frente de batalha ou assassinos a soldo do “velho da montanha” aos modernos homens-bomba, não era possível que, mantido o número fixo de virgens escaladas no plantão do éden maometano (que, sendo de puras vestais originárias do próprio paraíso, possuía a mesma quantidade desde a criação do universo, não podendo aumentar na proporção dos fiéis vindos do mundo dos vivos, submetida ao aumento geométrico da reprodução da espécie humana), houvesse por lá ainda virgens.

Ou esta tropa toda de terroristas suicidas era formada, em maioria, de brochas e veados, ou simplesmente as virgens de Alá eram todas, agora, experientes e espertas putas! E assim, caras como o tal de Bin Laden eram doido abestados ou simplesmente não escapavam do milenar sestro falcatrua de todo mascate turco, vendendo vestido de chita por cetim pupúreo.

Não se sabe como, mas se imagina, o Peruca foi promovido de semestre, e ainda foi agraciado com um prêmio inédito na faculdade: o “aproveitamento curricular integral automático” (qualquer coisa parecida com a antiga indulgência plenária concedida pelo Vaticano aos fiéis pré-reforma protestante que doassem vultosas quantias à Igreja). Com ele poderá permanecer mais cinco anos sem comparecer a uma única aula que seu diploma já se encontra desde já garantido. Já o professor parece que foi indicado para importante missão jurídica: nada mais que assessorar a equipe de defesa de Yeda e sua camarilha no processo escandaloso movido pelo Ministério Público Federal.

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