Dos nossos dias tormentosos


Poema auto-explicativo escrito na madrugada de 20 de setembro de 2014 (casualmente data do 179.º aniversário da Revolução Farroupilha):

Quanta tristeza e embaraço,
Vidinha sem sal, porraço
De chatice, espelho de aço
Em que se miram os palhaços
Ciosos de um glamour falso.

Quanto fuxico sem graça,
Roubalheira óbvia e pura,
Falta pura de cachaça,
Besteira cheia de si.

Este é o Brasil da mídia,
Da política medíocre,
Que esquece a opressão da peonada,
Só vê corruptos, raça,
Transforma tudo em farsa,
Medíocre caricatura
Que só se exorciza a laço!

Gravataí, 20 de setembro de 2014

Ubirajara Passos

 

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Notícias do lado de cá


Aqui estamos,  camarada
O mundo é o mesmo.
A Terra gira,
Seca, sob o sol.

Vertiginosos passos
Lomba abaixo
Vão nos conduzindo,
E o burburinho urbano continua
A nos tontear
Entre os ruídos mil
Da coletiva insanidade.

Aqui estamos
Nada mudou na superfície.
Sem ti os céus ainda estão crivados
De quero-queros e sabiás,
Neste final de agosto
Que embebedou-se e se vestiu de primavera. 

Nada mudou.
Ainda há choro e risos.
Cada segunda-feira ainda há trabalhadores
Indo arrastar-se, trôpegos, à faina.

Os escândalos de sempre
E a ficção contaminada
Do pior que apodreceu a alma
Ainda habitam as mentes
E as telas eletrônicas.

Donas de casa ainda de se afundam na rotina
E criancinhas ainda encontram um mundo novo
Num simples caracol de forma diferente.

Nada mudou.
Somente a nós, que contigo viajávamos
Nesta custosa e longa peregrinação,
Foi arrebatada a metade de nós mesmos,
Que foi acrescentar-se à terra
Para nutrir as sementes de vermelhas flores,

Assim como continua
A alimentar em nossa mente a rebeldia
E o desejo desastrado e incontrolável
De vida, prazer e liberdade.

Gravataí, 22 de agosto de 2014

Ubirajara Passos

 

Os Ciclos Secos


Poema escrito em pleno Parcão de Gravataí, no intervalo do almoço, envolto no mar de calor destes últimos dias de dezembro:

Os Ciclos Secos

O que há para aprender-se nas agruras
Do quotidiano seco e automático

(O espírito nublado, qual zumbi,
Se arrastando nas ondas enjoadas
E sonolentas do correr das horas)?

Qual a ciência, a luz nascida
Do ir e vir infindo dos motores,
Do ciscar incessante dos ancinhos,
Do palavreado pedante e oco dos doutores?

Gravataí, 18 de dezembro

Ubirajara Passos

Respeitável manifestação de um bom burguês puto da vida


Desceu à rua completamente embriagado
E pôs-se a girar, a gritar e a cantar,
Jogando as roupas longe, para todo lado.

Nu, completamente nu,
Giravam ele e o caralho mole,
Dando laçaços como rabo de cachorro.

Era uma figura burlesca e inusitada.
Dava gritinhos, corcoveava, foi-se
Num tropel louco, pelo largo afora,

Mas ninguém riu-se, absolutamente, não se viu
Um único olhar reprovador a sua volta.

Porque, desnudo na alma e em suas carnes,
Vestido estava do mais considerado
Na honrada sociedade hipócrita!!!

Bunda de fora, cu a mostra, corcoveando
O enlouquecido cidadão cumpridor de seus deveres
Trajava ainda a superstição brava
Do “respeito” irracional e reverente:

Trazia à mão negro chapéu de feltro,
Velha gravata floreada no pescoço,

E, garantia total de seriedade,
Uns velhos óculos sem vidro sobre as fuças!

Gravataí, 7 de fevereiro de 2013

Ubirajara Passos

Soneto do Último Dia


Último poema da Heptalogia de Novembro, composto ontem à tarde:

Soneto do Último Dia

 Estranho domingo.
Repouso compulsório.
Artificioso paraíso.

Tumba da inteligência ,
Insulso purgatório
Do humor vívido, 

Único abrigo,à gente alquebrada,
Dos implacáveis furacões
Da lida besta, insana,
Também és tédio, riso amarelado.

E o teu proveito maior seja, talvez,
O agitado torpor da cervejada,
Um modorrento passeio, a sesta morna,
Em um perdido quintal,na tarde embandeirada!

Gravataí, 3 de novembro de 2012

Ubirajara Passos

Soneto do Penúltimo Dia


Profundo sábado,
Refúgio sagrado,
De todos êxtases,
És de outra esfera.

Viceja em ti
Um gozo tão sereno.
Não há canção que não conduza às lágrimas.
Não  há cachaça que não alargue a alma.

Em tuas noites
Qualquer raio de lua
É uma viagem às esferas do nirvana.

E qualquer banco de praça nos conduz
Aos mais estranhos deleites
Dos altares ou das camas.

Gravataí, 3 de dezembro de 2012

Ubirajara Passos

O Ermitão


Poeminha cretino surgido em meio ao tédio do final de sexta-feira:

O Ermitão

Ele era um chato,
Pra caralho um chato!
Velho eremita bêbado, vivia
Em transe etílico no seu castelo.

Sua companhia eram cães e gatos,
E a vizinhança debatia, ardente,
Se era bruxo, veado ou lobisomem!

Muitos rondaram a velha propriedade,
Bisbilhotando, sem ouvir um ai
E mais entediados voltaram que o asceta.

Ninguém supunha as fantásticas orgias
Que, nas viagens astrais, realizava
Com sílfides e ondinas deslumbrantes!

Gravataí, 30 de novembro de 2012

Ubirajara Passos