Tratado Geral dos Bordéis (CAPÍTULO 2: DEFINIÇÃO DISTINTIVA)


O bordel é, portanto, um local onde se trepa, fode, namora, furunfa, troca o óleo, se fornica, prevarica,  se copula, faz-se amor, cobre, empurra, transa, se acasala, ou, simplesmente, se faz sexo, destinando-se à satisfação do tesão, da lascívia, da lubricidade, ao êxtase, ao clímax, ao acme, enfim, ao gozo, embora este muitas vezes não ocorra, e, em sua grande maioria, esteja garantido, seja prerrogativa ou consequência filosoficamente necessária de apenas um dos parceiros ou classe ou gênero de participantes da atividade.

Mas não um lugar qualquer, sem nenhum preparo ou qualificação específicos. Sob o ponto de vista da essência do labor ou lazer que o caracterizam, não necessita, obrigatoriamente, de determinada qualificação física, como a existência de paredes (do pau-a-pique à alvenaria, à divisória de aglomerado ou mesmo ao metal), mas tão somente, e fundamentalmente, que seja destinado à tal atividade.

O que exclui necessariamente os cantos obscuros de salões de bailes, os banheiros de boates chiques ou rodoviárias, os bancos de praças e de estação de metrô, os depósitos de fábricas, ou mesas de escritórios, as salas de visitas de velhos sobrados (habitadas por jovens casais em pleno rala e rola, enquanto os proprietários, e genitores, dormem), conventos e seminários (ainda que lá, muitas vezes seja a atividade predominante) bem como os gabinetes dos palácios, onde se fode, muitas vezes com grande contumácia as/os auxiliares e amantes (e todo o tempo, o povo),  em razão das características próprias de seus frequentadores, mas cujo afã principal, para o qual foram projetados,  não é a lida da volúpia.

O bordel é, portanto, um local exclusivamente destinado ao sexo, seja um prédio, barraco, rancho, pavilhão (que não se destine a cultos neo-pentecostais, até porque seus pastores normalmente fodem as fiéis na própria casa ou na do corno), terreira (que não de umbanda, embora não se exclua a possibilidade de algum exu ou pomba-gira vir a transar com a assistência), sala (desde que não seja gabinete de presidente de multinacional, político ou escritório de profissional liberal, onde, em pé, no sofá, ou na mesa, muitas vezes acaba por praticar-se a sacanagem bem mais proveitosa e interessante do que aquelas que se costuma fazer em tais lugares com o povo, os trabalhadores ou clientes).

Mas não a qualquer forma de sexo. Nele não se vêem as fodas sem imaginação  dos quartos de casados, nem, necessariamente, o glamour romântico de namorados no sofás das salas ou quartos de móteis (local este que, embora destinado tão somente ao sexo, e muitas vezes à putaria bordelística, admite qualquer modalidade de trepada).  O bordel é o lugar onde o sexo, com raras exceções, é praticado com todos os requintes de posições e formas de prazer, sem as limitações insossas impostas pela moral pequeno-burguesa, e com a inspiração mais exclusiva e genuína de simplesmente se alcançar a mais incrível volúpia no encontro dos corpos em carne e osso.

É um requisito essencial, portanto, que nele a putaria se passe de forma concreta, envolvendo todos os parceiros. O que elimina os punhetódromos, velhos e decadentes cinemas pornográficos, casas de streap tease e paper wieu, bem como locais virtuais como a internet, ou a literatura. No bordel o sexo é ao vivo, a cores e inclui necessariamente o quente e arfante, entusiasmante roçar dos corpos, especialmente de caralhos, bucetas, tetas e bundas, nas mais diversas formas possíveis de usufruto comum do corpo humano (não existindo, nesta instituição, caso estatisticamente significante de zoofilia) destinado ao prazer.

Mas, acima de tudo, o bordel é um lugar onde se pratica sexo em troca de dinheiro!

 

Tratado Geral dos Bordéis (CAPÍTULO 1: DEFINIÇÃO ABSTRATA)


Bordel, cabaré, boate, casa da luz vermelha, maloca (no interior do Rio Grande do Sul), puteiro (de Santa Catarina para cima, especialmente no nordeste brasileiro), pouco importa a denominação (e o colorido especial que ela encerra), filosoficamente falando, é um espaço destinado exclusivamente ao exercício do mais doce prazer do universo, verificável entre as mais diversas espécies animais, de todos os graus de complexidade, na nesga de mundo conhecida pela humanidade.

Embora acidental, é estatisticamente avassaladora, também a presença, neste espaço do segundo prazer mais procurado e gozado pela espécie humana, o consumo do fogo, do goró, do trago, da bebida, ou simplesmente do álcool etílico ( fermentado ou destilado a partir de substâncias vegetais), que geralmente se denomina de pileque, carraspana (no linguagem arcaico dos anos 1800), ou porre, quando não farra – nome genérico que pode tanto se aplicar ao prazer da beberagem quanto ao tal da putaria, e que resume em si a íntima e simbiótica relação que guardam entre si ambas as categorias, que dificilmente se manifestam na realidade concreta sem o acompanhamento simultâneo da outra.

E que, embora não necessariamente, se completa e se refina na boemia, que é o modo sutil, profundo e sensível da prática noturna do prazer espiritual do álcool e do prazer carnal do sexo, enlevando o ser humano no gozo mental e abstrato que advém do líquido e na emoção profunda e mística que incrementa, inspira e aprofunda o tesão dos corpos. E que, mesmo apartada eventualmente da farra de natureza erótica, enobrece a pessoa humana na convivência mutuamente prazerosa e dignificante dos bons amigos, cuja afinidade se alicerça no bom papo, no usufruto comum e voluptuoso das idéias e das emoções longa e cuidadosamente cultivadas e desenvolvidas.

Visto deste ângulo, restrito à essência de sua natureza, ao que lhe é próprio e imediato,  e aos acidentes que numericamente lhe são comuns, antes de toda e qualquer complexidade e idiossincrasia concreta, o bordel é o verdadeiro paraíso, e guarda um perfeito paralelo com o prêmio post mortem que o islã reserva aos bons muçulmanos (bem mais interessante e criativo que o frio e instrumentalista céu cristão, carregado de austero e infelicitante “bem estar” assexuado e apartado de toda e qualquer satisfação e conforto iluminado e entusiástico).

Ubirajara Passos