A Caverna das Chuvas Eternas


Um ano e meio depois, mais um capítulo de Erótilia, para cujo perfeito entendimento, sugiro aos leitores acessar, na coluna lateral deste blog, o LIVRO ELETRÔNICO correspondente onde constam os capítulos anteriores:

A Caverna das Chuvas Eternas 

Caminharam como dois malucos por um dia inteiro até alcançar uma clareira na fralda de uma colina, onde às margens de uma cachoeira se encontravam as mais diversas oferendas a todos os deuses possíveis e imagináveis, muitas em pleno estado de putrefação, outras brilhando ao olhar do luar e dos cúpidos andantes, com suas redondas formas de amarelo brilhante e intenso, ouro e absoluto  ! Ali, pleno início noite, sentaram-se de qualquer jeito e, consumidas as provisões de pamonha dos alforjes, trataram de encharcar-se do suco fermentado da cana, sucumbindo aos seus apelos oníricos e roncando  “indecentemente” até a madrugada.

Três horas de uma noite pesada, densa e eterna, acordaram-se sob os gritos estridentes de um luar histérico e puseram-se novamente a caminho. O dia já nascia quando finalmente atingiram o destino programado pelo gordo mestre e Epicuro, trêmulo, e ainda meio bêbado, deixou-se levar pelas pernas e ser engolido pela abertura longilínea e elíptica na negra pedra, que o conduziu a uma enorme caverna, estranhamente iluminada por uma onda de verde flutuante que projetava sombras de todos os cantos. Repentinamente pareceu-lhe que a onda verde agigantava-se, ao mesmo tempo em que adquiria maior força (perceptível na própria pele) e velocidade e passava a descrever no ar rarefeito uma série de elipses sobrepostas, que o agitavam nas mais diversas direções, fazendo-o girar para todos os lados, em alternância enlouquecida e sucessiva, até que viu-se completamente suspenso, flutuando em meio a tudo.

Foi então que o verde foi escurecendo até transmutar-se por completo e projetar-se a sua frente um estranho e remoto mundo. Num único e violento jorro viu uma diminuta força transparente agitar-se numa vibração cada vez mais contundente e ir-se tornando cada vez maior e mais visível, até adquirir o aspecto de uma rubra e pastosa fogueira, que foi girando, girando e girando, até tornar-se uma esfera escalavrada azul e cinzenta, que se revelou a própria Terra primitiva.

Um chiado insistente e ensurdecedor, tomou então conta de seus ouvidos, a ponto de não entender uma única palavra do mestre Pancius, que gritava como doido em requebros, relinchos e coices de êxtase primevo. A frente de Epicuro se desenrolou por horas que duraram milênios e milhões de anos, uma torrente contínua, persistente e desgastante de chuvas, que desenrolou-se na paisagem de montanhas, vales, planaltos e depressões.

 A torrente incessante  penetrava cada vez mais e mais na terra, e na consciência de Epicuro, com uma força constante e envolvente, e ía cinzelando vagarosamente os contornos mais imprevisíveis sobre o solo, enquanto sua monótona e arrebatadora música ía forjando  profundamente todo os eventos vivos e dinâmicos dos milênios, milhões e bilhões de anos seguintes. Criando e cruzando histórias e personagens, imagens e abstrações mentais profundas e bizarras, que mergulhavam Epicuro até o fundo das águas, e além, até o núcleo líquido e incandescente, trazendo-o de volta à tona, e, por fim, projetaram-no numa encruzilhada escura, em meio da floresta, em que mal se via, sob um silêncio absoluto e aterrador, uma tênue fresta de luz à frente. Pancius, liberto de sua última missão (conduzir o imberbe discípulo narcisista às fraldas do nada), rebentou, num estrondoso tombo, junto à pedra da caverna, e seus cacos (que tornou-se, na queda, rígido qual estátua vítrea) reagruparam-se espontaneamente, até formar um chifre de ponta furada, que Epicuro, ainda semi-ínconsciente, juntou do chão e tocou reproduzindo a melodia da garoa eterna.

Gravataí, 16 de abril de 2011

Ubirajara Passos

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DOIS POEMAS SAFADOS E FILOSOFANTES


Estive desde domingo até hoje em campanha eleitoral para a escolha da próxima direção do SINDJUS – RS em 14 de maio, percorrendo as comarcas do interior do Estado nas regiões do Alto Uruguai, Noroeste, Missões e Planalto Médio, em razão do que foi impossível publicar novos posts no blog. Hoje, entretanto, deixo para o deleite dos leitores os dois poeminhas cretinos que seguem.

De intimidades…

No momento do gozo supremo
Haveremos de encontrar,
Em meio à explosão do “Big Bang”
(Que o universo é produto de um orgasmo)
A mesma besta e gratuita alegria
De uma pilhéria casual ao pé do fogo,
A intimidade e a descontração
Daqueles que primeiro riem juntos
E na corrente entusiástica do humor
Forjam a torrente incoercível do amor!

 

Vila Palmeira, 12 de março de 2004

Ubirajara Passos

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Anima Mater

Vem a mim, deusa loira da meiguice,
Vem a mim, mãe terna, louca amante,
Vem-me ninho de aconchego e doçura,
Ciclone de prazer forte e profundo!
Vem raiz de toda vida, seio
Fértil do mundo,
Mulher-mãe-de-tudo!

 

Gravataí, 14 de novembro de 2004

Ubirajara Passos

CÔNIDE SELÊNIA


Sábado sempre foi para mim o melhor dia da semana. Mas, nos últimos tempos, a depressão o transformou numa das tediosas ocasiões da minha rotina. Tudo que de “notável” se passou hoje foi o telefonema de uns três amigos: um baiano doido e tarado, passando “férias” no Rio de Janeiro, fascinado com a possibilidade de ir à “Vila Mimosa”; um companheiro de partido recém vindo do litoral do Rio Grande, dando notícias das últimas tropelias do presidente do diretório municipal; e um alemão quarentão, morador de Santa Rosa – RS, a comemorar a derrubada de um helicóptero yankee com uma tripulação de “13” soldados.

O que não me impediu de, com o auxílio de algumas taças de vinho tinto serrano, concluir o terceiro capítulo de Erótilia, que aqui vai publicado para desenfado dos leitores que, eventualmente, como eu curtem o tédio de uma insossa noite de sábado.

Cônide Selênia

Epicuro ia, aéreo, campo a fora, já noite alta, sem lamparina, que havia lua cheia, a mente a revolver-se sem descanso. Que história era aquela do mestre, de iniciação prática? Pelo que sabia, e supunha assim fora com os mestres de outras eras, a iluminação era resultado de profunda e contínua imersão da mente, isolada do mundo e em contato estreito com a mente maior que nos habita. O máximo de promiscuidade com o mundo era o contemplar, também meditativo, da natureza. De lagos, bosques e montanhas… Mas vinha agora o mestre π (que nome estranho e enigmático!) lhe propor esse negócio de “prática concreta”! E ainda lhe enviava a qualquer megera, que devia ser uma destas feiticeiras cheias de crendices, de boa lábia e suprema vigarice…

A esta altura o discípulo iniciante já entrara bosque a dentro e uma rocha mais dura que pau de guri novo o acordou do devaneio, indo imprevista e indecentemente de encontro ao dedão do pé esquerdo. Contam as lendas erótilias dos pósteros, que o uivo de Epicuro, nesta noite, “foi tão agudo que até ouviu-o a própria lua, /no alto céu toda excitada… E os lobos responderam em uníssono/ e, temerosa, veio até ele a matilha/ lamber-lhe os pés/ e seguiu-o em cortejo”.

E, em meio à dor, e à confusão dos lobos mansos (que primeiro lhe deram terror e depois o deixaram estupefato com sua adoração), o futuro hierofante de Erótilia, viu, embasbacado e besta (dizem até que botou um metro e meio de língua pra fora e, nesta noite, da sua baba nasceu um pequeno riacho que cai montanha abaixo e desemboca em plena cachoeira), a coisa mais absurda e inacreditável. Epicuro que, até este dia, não passara da punheta e das rápidas metidas nas cabras de seu pai, se achava o suficiente acima dos “baixos instintos” para se dedicar exclusivamente “à arte dos mistérios”, sem a interferência nefanda dos falsos prazeres desvirtuadores. Mas aquilo não era coisa deste mundo, nem mesmo do outro! Num instante, na mesma velocidade em que seu falo crescia e se alçava ao céu, imenso (assustando os lobos, que desandaram em correria caótica, muitos despencando abismo abaixo), arremessaram-se ao infinito os códices, regras, crenças e ideais do noviço pagão e só restou uma única verdade. A que os olhos lúbricos de sua mente permitiam-lhe enxergar.

Banhada de luar e cachoeira, a imponente nudez loura alçava ao azul escuro da noite dois pontiagudos bicos róseos, túmidos de desejo, que se eriçavam na brisa arisca, enquanto suas mãos percorriam suavemente seu marmóreo corpo, dos fartos e empinados seios à bunda roliça e arrebitada. Cônide Selênia, era, na madrugada fresca e povoada de cricrilares e coachos, a própria volúpia encarnada na terra. E a mais enlouquecida e raivosa fera em luta se transformaria em um gatinho aos seus pés delicados e ágeis, que sustentavam pernas torneadas pela própria deusa do delírio onírico e grossas e lisas coxas, em cujo encontro o coral mais fino se constituía da vibrante xana, uma saborosa espiga de milho que fez o enfadonho discípulo de Π girar desenfreado de vontade lambê-la!

Uma onda arrepiante de prazer corria aquele corpo lindo, enquanto Cônide se masturbava, requebrando arfante, sob a cachoeira, e cantando um hino à sua deusa madrinha, numa voz que transportou Epicuro ao mundo do inacreditável. Era como se o tempo e o espaço houvessem desaparecido e ele tivesse sido arremessado a um estranho e fascinante escaninho do universo onde toda verdade e todo sentido fossem palpáveis ao menor toque, e, no entanto, avassaladores e incompreensíveis. Contrariamente à reação comum de um macho da espécie, ele se viu paralisado e suspenso no cosmos, fascinado como se tivesse sido conduzido ao centro do princípio de tudo, e ficou pasmo e paralítico, enquanto a loira lhe chamava com o dedo!

Instantaneamente tudo escureceu e Epicuro acordou-se, já tarde alta, deitado em um jardim desconhecido.

Ubirajara Passos

ÍNTERIM NO TEMPLO DO MAR


Publico hoje o segundo capítulo de “Erótilia”:

Ínterim no Templo do Mar

O sol ofuscante batia de chofre sofre a mesa envernizada e o bafo vindo do continente punha doido o Mestre do Templo, cuja pândega noturna se resumira a uma cervejada ao som alternado de cítara e tambores (só mesmo em Erótilia Antiga poderia haver uma combinação musical tão díspar) e a exaltadas declamações de improviso. Em meio à celebração particular, improvisadas coreografias de guardiãs da noite, peladérrimas e endoidecidas, frescas de brisa e ferventes de tesão, traziam à concretude carnal os sonhos dos poemas.

E agora aquela manhã insossa, aquele sol feitor de escravos gritando em claridade e a maldita necessidade de manter-se em pé! (Era o “dia do destino”, a data anual em que a configuração astronômica da lua chamava os vocacionados do velho culto a decidirem-se a dedicar-lhe a vida, e o Mestre devia ficar de plantão à espera dos futuros iniciados, desde o fim da madrugada).

Πsudo Traçoidorum (mais conhecido pela forma abreviada: π) ganhara este pseudônimo por óbvias razões, sem qualquer relação com a Matemática. Havia anos, conhecera em Bagdjônia uma puta oriunda de Erótilia, chamada Mársilia, por quem se apaixonara e era a responsável pelo apelido. O que, aliás, era seu grande mérito. Pois ela e π passavam horas a bater trela e entornar vinho, e fodiam muito pouco. Ainda assim, restara o apelido, que era motivo de absoluto orgulho do sofista.

E, naquela morna e opressiva manhã de quotidiana ressaca , viu os fantasmas da orgia materializarem-se, em pleno dia claro. Morghourellius, um velho companheiro de boemia lhe enviara o sobrinho (nada mais que o rapazola Epicuro, o Antigo) para que o instruísse na nobre arte do culto à Buçamãe.

– Senhor, vos afianço que me haverei com a maior seriedade e dedicação às vossas graves lições! E que hei de honrar-vos como ilustre questionador que és da fútil sociedade! Hei de renunciar, mesmo, ao leviano prazer físico! (Assim, entre balbucios e brados, se apresentou o patético pupilo a π, que., de enfado e susto quase perde os bagos!)

– Pois olha, piá, a “honra” é toda minha em ajudar o filho, quer dizer, o sobrinho do meu amigo Morghourellius. Mas, antes de explorar os intrincados labirintos da sabedoria lógica, é preciso que o caro guri conheça um pouco da práxis concreta, para que, após a experiência in loco com a matéria, possa suscitar seus próprios desafios mentais! Eu vou te enviar pra “tia” Cydilene. Após decifrar-lhes os mistérios, coisa que há de ser bem dura, estarás pronto a adentrar na suprema teofania!

E com um tapão do mestre, que quase lhe põe os pulmões a correr à sua frente, Epicuro, devidamente munido de mapa e bússola, pôs-se em marcha, curioso e contrariado.

Ubirajara Passos

DE SUSPIROS E REINAÇÕES


A introdução da narrativa de Erótilia (publicada nos dois últimos posts) foi escrita de um jato só no outono de 2005. De lá pra cá venho eventualmente arrastando alguns capítulos que vão surgindo mais ou menos ao acaso. Segue o primeiro.

De Suspiros e Reinações

Epicuro, o Antigo, após emitir um sonoro peido, desfez-se em lânguidos suspiros e, dando as costas (era o máximo que se permitia dar) à Grande Obra, foi descendo a Ladeira Putelêdiam, absorto nas velhas recordações de guerra… de quando, sábio filósofo e oficiante de um culto sem deus, mas jovem e pândego, desmanchava-se em ondas deleitosas, dignas da via-láctea, nas saltitantes bundas das guerreiras cavaleiras.

Quanta bela noitada gozada em claro, quanto suco de cevada etílico (a cerveja, ao contrário do que afirmam os textos acadêmicos, não surgiu na Mesopotâmia, mas já era conhecida na velha Erotília) a inspirar as safadezas mais cretinas, da declamação de poemas épicos aos shows de streap-tease e aos concursos de resistência física (os guerreiros erotílios eram os mais denodados de todos os virtuosos cidadãos do continente e seu esporte favorito era o sacrifício a que expunham seus corpos, até o limite do insuportável, disputando violentamente quem era capaz de permanecer por mais tempo na tortura de entornar cerveja!).

Naquela época não havia amazona capaz de derrotar Epicuro, mas agora, ai do sumo sacerdote, seu pequeno paraíso andava restrito ao ato do felatio e do cunilingus, de sublime requinte para o êxtase, mas tão pouco digno do triunfo de um guerreiro!

Epicuro ia tão absorto nestas divagações que não percebeu a aproximação de Veatus – fidelíssimo, mas temperamental ajudante de ofício do templo.

— Mes-tre… precisamos tomar providências severíssimas e urgentes! Estes peões da muralha, com suas pica eretas, ahann… suas picaretas enormes, erguendo as rochas e abrindo buracos, de torso nu são um escândalo!

— E qual o problema, ó meu glorioso servo dos deuses, quereis então que eles cubram o tronco sob esse sol escaldante? Possuiu-vos o espírito do sadismo?

— Não, mes-tre… Longe de mim imaginar tal tortura! É que eles poderiam também deixar a descoberto o resto!!!

Epicuro deu três relinchos e quatro coices mentais antes de responder e concluiu que pouco adiantaria mandar Veatus tomar no cu (era tudo o que ele queria!). E, assim, encarregou-o da missão mais “grave” (e impossível) que pode imaginar. Determinou solenemente ao auxiliar dos cultos que lhe descobrisse (já que esse era o problema apresentado), por exaustiva pesquisa esotérica dos registros sacros, a fórmula eficiente de puxar o saco do touro sagrado.

Desnecessário faz-se mencionar que o servo Veatus, boquiaberto e estupefato – entre puto de raiva com a atitude de seu amo e embevecido com esta história de saco e touro (que bem podiam ser de carne e osso, ao invés de restringir-se ao couro do pergaminho) – resignou-se a dar o couro no espinhoso trabalho e foi-se saltitando entre louvores!

Podia, agora, Epicuro abandonar as picuinhas da hora e voltar a ruminar suas saudosas e safadas memórias!

Ubirajara Passos

ERÓTILIA – 2


Erótilia era uma terra feliz e livre (nenhum erótilio estava submetido a qualquer chefe, havia no máximo consultores reconhecidos por sua experiência e habilidade – inteligência e capacidade intelectual em si era um dom universal do país – que coordenavam os trabalhos mais complexos e que envolvessem diferentes operações e trabalhadores, e, caso exorbitassem de suas funções e tentassem transformar em ordens suas recomendações, eram levados de volta à realidade, não por pauladas, mas pelos mais hilariantes deboches públicos). Mas era uma terra sem opção! Quem nela nascesse não poderia viver senão em tal mundo. Numa era em que voar era coisa só de pássaros, a grande obra, as muralhas, eram o limite necessário do destino dos erótilios.

Alguns filósofos, por natural curiosidade, insistiram que se deveria desenvolver algum meio seguro de aventurar-se eventualmente ao exterior (o território dos povos belicosos, imperialistas e sofredores, onde a maioria vivia sob o jugo sádico dos amos) que possibilitasse transpor as muralhas sem abrir acesso ao inimigo (mal sabiam que, para este, desde muito Erótilia era tida como um cemitério e não um paraíso inatingível). Mas a velha gozação erótilica os havia calado sob estridentes gargalhadas!

Até que um dia, após milênios, Erótilia foi atacada! Não por terra ou por túneis, ainda impossíveis (a tecnologia da muralha, mesmo antiga, era avançadíssima e impedia aos mais modernos aparelhos terrestres ou subterrâneos sua transposição ou destruição), mas por pesada, ainda que primitiva, artilharia aérea de arqueiros empoleirados em planadores! E o que sobrou de seu povo, incapaz de defender-se (pois criado na mais absoluta falta de necessidade e ignorância das artes da guerra e da violência física entre os homens) foi feito escravo e espalhado por distantes terras.

O país feliz, embora paraíso de prazer, liberdade, inteligência e plena realização de cada membro, havia pecado em dois aspectos que – contraditoriamente – estavam ligados à própria razão de sua característica paradisíaca na Terra “pré-histórica”: porque a muralha externa os dispensara não haviam desenvolvido a agressividade bélica e nem técnicas aeronáuticas! A perfeição de seu mundo de prazer e harmonia e o temor de um mundo exterior de castigo e sofrimento que inspirara os construtores da grande obra haviam impedido a curiosidade e a necessidade de contato com o mundo!

Assim um santuário ecológico irretocável e uma sociedade sã, igualitária e livre, sem direitos e deveres obrigatórios, mas pautada na inteligência, no afeto puro e no bom humor , que avançara terrivelmente nas ciências da vida sem romper com natureza, não tentando subjugá-la como inimiga, mas compreendendo-a no seu âmago imaterial (os erótilios haviam, inclusive desenvolvido uma medicina naturalista que quase eternizava suas existências, prolongando-a por séculos e com uma qualidade ainda hoje impensável), e prescindido de sociologias, psicologias ou economias científicas, mas ajustava seus conflitos na franca convivência diária, foi destruída por seu único preconceito: a crença absoluta no poder defensivo da muralha! Seu isolamento não lhe permitira imaginar a evolução dos transportes e técnicas aéreas de guerra, assim como a mantivera como um mundo a parte, completamente inciente do resto do planeta!

E o mais irônico é que a civilização que a derrocou não era oriunda do “mundo sem muralhas”, mas Cropólidia, sua filha dissidente, cujos sufocados e neuróticos habitantes, no correr dos séculos, na ânsia da fuga das muralhas, haviam desenvolvido a aviação primitiva!

O que era o símbolo da desgraça fatal aos cropólideos e a segurança de felicidade aos erótilios (a muralha) foi a única falha na autonomia dos últimos: eles eram livres em absoluto, mas dependiam de algo externo como condição de sua liberdade, sua autonomia não lhes era garantida por si mesmos num mundo que exige-nos sobretudo rebeldia e resistência ao permanente assalto autoritário e onde só podemos contar com nossas capacidades para não sucumbir à escravidão imposta. Estamos sós e só nossos escudos interiores (não muralhas que nos separem do ataque do domínio e do suplício) podem nos garantir alguma autonomia e gozo. Se a moral final da fábula aqui inventada parecer pobre e inaplicável à complexidade contemporânea fica a advertência: o que falta (o que está além das muralhas da escrita e da compreensão) está nas entrelinhas… da fábula e da vossa interioridade!

Gravataí, 8 de maio de 2005

Ubirajara Passos

ERÓTILIA – 1


Por Ubirajara Passos

Muita obra prima do romance foi publicada em folhetim antes vir à luz como livro acabado. Não será, portanto, por publicar, aos pedaços, neste blog, que a modesta narrativa que segue (que venho rabiscando há mais de um ano e não sei dará em conto ou narração mais extensa) perderá a originalidade. Inicio hoje, portanto, mais uma série, como fiz com os “Sermões na Igreja de Satanás.

ERÓTILIA
(uma fábula sobre a necessidade da absoluta autonomia)

E assim a grande obra se ia concluindo. A muralha que isolaria do mundo a Nova Erótilia se erguia freneticamente rumo ao céu, sob o olhar embevecido de Epicuro, o Antigo, de cuja descendência nasceria uns oito mil anos depois (quando já não haveria traço do país e seus destruidores e a nova humanidade desconheceria pelos dois mil anos seguintes a eletricidade e o a energia do átomo) o filósofo do jardim.

A antiga Erótilia, região de agricultores e pastores que haviam deixado a vida nômade, povo pacífico e cordial que muito sofrera os embates de hordas guerreiras e cruéis de povos cavaleiros, finalmente se faria, segundo os planos de seu protetor, um território perfeito e inexpugnável, à prova de invasão do mais temível inimigo!

E em seu interior não havia apenas uma cidade de pedra, com todo o conforto tecnológico possível na época, mas campos, vales e bosques amenos e instigantes. E colinas cobertas de carvalhos, cujo mistério noturno remetia aos mais antigos e ocultos mitos. Nelas se respirava algo de profundamente envolvente e instintivo. Cada pedra, no âmago das madrugadas, se fazia viva e comunicava-se com o cosmos, sob o mudo olhar do cruzeiro do sul. Nas suas vozes, que se faziam ouvir na mente dos filhos de Erótilia, podia-se ouvir os mais fantásticos e primevos contos!

Mas, se as noites mágicas de Erótilia aproximavam seus habitantes do cosmos longínquo e lhes faziam dialogar com os astros e com os mundos terrenos e subterrâneos, de formigas, carvalhos, ventos, riachos, fogueiras e minhocas (ah quanta história gostosa de mundos estranhos e dimensões inimagináveis!), no dia o sonho dos erótilios (que viviam um perpétuo devaneio, emancipado das cruezas da submissão e do poder imposto) era a própria vida quotidiana! O trabalho, a vadiagem, a conversa à toa, a farra sensual e a bebedeira de fins de tarde, intervalos ou manhãs (os erótilios não tinham horários fixos para o gozo e o trabalho – desfrutavam-nos e os desenvolviam conforme a inspiração do momento e, se o sistema produtivo descompassasse das necessidades do povo, realizavam em mutirão o trabalho atrasado nos sábados à tarde, com direito à uma farra monstro após seu termino), o contato multifacetário e excitante de uns com os outros tornava-se o seu sonho diurno!

Porém Erótilia não será, a partir da conclusão da grande obra, apenas uma terra impenetrável! Suas sólidas e altíssimas muralhas seriam construídas sem qualquer porta e, se o inimigo não poderia entrar – nem escalá-la – aos erótilios também dela sair seria impossível. Nem túneis poderiam levá-los ao exterior, pois suas fundações de rocha bruta e dura desciam a profundidades desanimadores aos mais obstinados dos eventuais fugitivos!

Assim, essa terra era um mundo a parte no planeta, embora em permanente contato com o cosmos (tanto o macro, quanto o microcosmos: o astronômico e o microscocópico). Um mundo estranho, de vida livre, perfeita e nada tediosa! Os erótilios possuíam um humor todo especial: eram alegres, gritões e criativos e suas tiradas perspicazes e engraçadas eram capazes de sacudir e arrancar da chatice o mais resinguento dos cropólideos (um povo igualmente isolado – fundado por um líder dissidente erótilio, exilado com seu grupo minoritário alguns anos antes da conclusão da grande obra por se opor a ela e apostar na resistência armada – cujo tom emocional dominante eram a reina, as cismas melancólicas e as infindas arengas sobre a morte, o sem sentido e inutilidade da vida e dos seres – que, após vãs tentativas, acabara por erguer sua própria muralha em território a parte).