Soneto do Quinto Dia


Sexta da cerveja,
A tua noite reveja
A velha boemia de eras distantes.

Traga o fim do dia
A redenção divina
Da cruz do serviço
Às três horas da tarde.

E, o batismo no copo,
A iluminação
No altar do buteco,
Em comunhão bêbada.

Na noite exaltada
Mergulhemos rumo
Ao paraíso das setenta mil loucuras!

Gravataí, 28 de novembro de 2012

Ubirajara Passos

Soneto do Quarto Dia


Quinta-feira,
A ceia,
Os trinta dinheiros.

As conspirações,
A tocaia,
Os
embustes.

Nada como um vinho
Em noite de lua,
Na vã tentativa
Da evasão mágica.

Dia pra sonhar com revoluções,
Em meio ao massacre do trabalho escravo,
Sob o olhar quente
Da Estrela D’Alva.

Gravataí, 28 de novembro de 2012

Ubirajara Passos

 

Soneto do Terceiro Dia


Terceiro poema da Heptalogia de Novembro (título sugerido pelo Carlão, ontem à tarde):

Soneto do Terceiro Dia 

Quarta-feira linda,
Velha namorada,
Sol e ventania,
Saias levantadas! 

Suave e esperançoso
Topo da semana,
Faz-nos rir a toa,
Num bater de asas! 

As feiras são feiras,
Mercúrio, o mensageiro,
Entrega-nos cartas de pura bonomia. 

E nosso olhar se perde,
Apesar da rotina,
Nas coxas sedosas daquela messalina. 

Gravataí, 28 de novembro de 2012 

Ubirajara Passos

 

Soneto do Segundo Dia


O soneto da segunda-feira acabou por me inspirar uma heptalogia, da qual aí vai publicada a continuação:

Soneto do Segundo Dia

 Na terça o peão ainda se arrasta,
Mas, já acostumado,
Ao relho, pragueja. 

Lanhado, no tranco,
Vai ceifando o dia.
Como foice fosse.

Derruba trabalho,
Almoço, jornais,
Atropela a rua,
Mastiga os seus ais. 

E, olhar vidrado, no final da tarde,
Entorna uma dose, e se vai cambaleando
De trago e cansaço,
Feito um “Satanás”! 

Gravataí, 28 de novembro de 2012 

Ubirajara Passos

Soneto do Primeiro Dia


Poeminha auto-explicativo, parido em plena circunstância concreta (ainda que a ressaca de hoje seja apenas o resquício, mais moral que físico, da do dia anterior):

Soneto do  Primeiro Dia 

Segunda-feira:
Ressaca e asneira.
Torto levanta-se
E torto anda-se. 

Vai-se arrastando,
Junto com as horas,
Aos trambolhões,
Toda a leseira!

 Abandona  a cama
Com um peso enorme
O morto-vivo. 

Vai ao trabalho
Tendo-o por feira
E lá descobre que é funerária! 

Gravataí, 26 de novembro de 2012 

Ubirajara Passos