PEQUENO DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO SOCIAL – 6


Chulo: proveniente do castelhano seiscentista chulo, o sujeito simultaneamente desafiador e gracioso, “insolente”. O adjetivo que tomou em português a conotação de “obsceno” ou “sexualmente imoral” era o termo pelo qual a aristocracia espanhola do século XVI designava, portanto, os membros da ralé (servos e homens livres do povo, trabalhadores) que tinham a coragem de portar-se como gente, exercendo sua própria individualidade, sem submeter-se aos desmandos e caprichos dos donos da sociedade, os nobres, que (como toda classe dominante que existiu desde a Pré-História Humana) se julgavam os únicos dignos de viver segundo seus desejos e necessidades, de prazer e liberdade.

O chulo era o rebelde popular e “coincidentemente” passou para a nossa língua com o significado de grosseiro, agressivo, contrário ao “pudor”, “palavrão”. O detalhe é que sua rebeldia não se exercia de qualquer jeito (que provavelmente incluía a manifestação “inculta” de alguns xingamentos típicos, como corno, puta, etc.), mas pela suprema transgressão de vestir-se com elegância ou afetação própria da nobreza, audácia imperdoável para um reles membro do povão, considerado simples coisa ou gente de categoria subalterna a que não se dava outra prerrogativa que servir de tapete para os dominadores. O chulo, não se deixando pisar, e comportando-se “como senhor” ele próprio, era um perigosíssimo gaiato, capaz de falar de igual para igual com um aristocrata e se dar ao prazer público sem subterfúgios.

Sua transformação, ao ser adotado em Português, como sinônimo para a linguagem sexual ou agressiva franca, aberta e contundente, sem rodeios e firulas, faz, portanto, todo sentido, na medida em que os opressores de todas épocas, donos de escravos, senhores feudais ou burgueses necessitam da hipocrisia, da meia-palavra, do disfarce lingüístico para manter sua dominação  – baseada no encobrimento da crueza da utilização de seus “subordinados” como mera coisa, sob o eufemismo do direito de oprimir ou da “solidariedade e colaboração interpessoal” dos “membros” em diferentes funções no “corpo” social.

E, especialmente no caso da atividade sexual, atividade de puro prazer, contraditório com o sofrimento a que necessariamente ficam submetidos os indivíduos da classe dominada, é essencial à manutenção da ordem mecanizadora da maioria a repressão aos termos populares, não só universalmente inteligíveis, mas grávidos de alegria e volúpia – ao contrário do tom seco e instrumentalista da dita linguagem “científica” que designa coisas como buceta, caralho, foda com cores meramente utilitaristas, ligadas às puras “funções”, descarnadas de emoção e imaginação, de simples “re-produção” do rebanho de servos, como vagina, pênis ou coito.

Ubirajara Passos

PEQUENO DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO SOCIAL – 5


Patrimônio: originário do latino patrimonium, cujo significado é de herança familiar ou do pater (pai), o “patriarca”, que, no Império Romano, como em geral em toda a Antiguidade, detinha o governo ou poder de dispor sobre seus “pertences vivos” particulares, do cachorro à vovozinha, fazendo o que bem entendesse, do empréstimo e venda à morte. Na velha Roma, a moda dos feudos do Nordeste brasileiro, quando a criatura todo-poderosa morria, deixava para o seu sucessor imediato (o filho mais velho, mais esperto ou melhor preparado para o assassinato, não necessariamente nesta ordem) não somente os “bens econômicos” propriamente ditos, mas toda a corte de pobres escravos domésticos, que incluía filhos, netos, e, obviamente, a santíssima esposa, cuja mão-de-obra era tão preciosa, e essencial, aos seus negócios quanto o dinheiro entesourado.

A palavra, não casualmente, passou ao Ocidente burguês como sinônimo de “bens, direitos e obrigações” de uma pessoa jurídica ou física, denunciando, subliminarmente, a natureza hierarquizada e instrumentalizadora do casamento compulsório, vigente ainda em nossos dias na maioria das situações: o senhor absoluto, o pater “comprava” a mulher que seria responsável pela geração e adestramento da prole servil, bem como dos escravos da propriedade (ela mesma uma escrava de luxo, de cama e mesa) , a mater  e entre eles se estabelecia o que modernamente se chama matrimônio, a associação familiar obrigatória de submissão e “proteção” e “provimento” dos meios de sobrevivência, em que a parte do macho dominador (o pai) se traduzia no exercício do poder e do privilégio econômico e a da fêmea dominada (e reprodutora, tanto no sentido físico quanto ideológico), no serviço submisso e “útil” ao seu “senhor” (o dominus, ou simplesmente dono, em português). Melhor que isso só a “sociedade de capital e indústria” do velho código comercial brasileiro, de 1851, em que o capitalista entrava com o a grana e o burro de carga do sócio de indústria com os braços.

A própria expressão família  (familia ou familiae, no latim) tinha, justamente, a acepção de “domésticos, servidores, escravos, séquito, comitiva, cortejo, casa…”, ou seja, a horda ou turma de arigós obrigados, debaixo do tacão, a dar o cu, se esfalfando todo dia, no trabalho inglório (fosse ele do tipo que fosse, da enxada e do arado ao leito) pelo sinhozinho romano.

A estrutura que hoje conhecemos, portanto, como uma pretensa derivação natural da “afetividade” (uma das obrigações malditas, e mais desmoralizantes do servo, sempre foi gostar do seu amo) e da biologia humana deriva, na verdade, como o deixa a mostra a etimologia dos termos ligados aos seus principais personagens, de uma velha forma de organização “empresarial” da dominação sócio-econômica básica da sociedade ocidental, o negócio do velho pater ou patronus (patrão), o macho humano de algumas posses, de vaidade e prepotência equivalente, que, ainda que não pertencente à nobreza dirigente, possuía a sua trupe particular de infelizes lacaios vivendo sob o teto, e a chibata, comuns.

Ubirajara Passos

PEQUENO DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO SOCIAL – 4


Vaidade: originária dos termos latinos vanitas, vanitatis – cujo significado é, nada mais nada menos, que vacuidade (o que é próprio do vácuo), ou seja: VAZIO ABSOLUTO! A palavra equivalente em espanhol (vanidade) é ainda mais esclarecedora, pois sua própria sonoridade (que no Português perdeu o anasalado do primeiro “a”) nos faz identificar a referida característica psicológica com aquilo que é vão, fútil, inútil e sem qualquer importância.

O vaidoso típico, portanto, não é aquele sujeito arrogante (mas eventualmente competente), grávido das suas qualidades e que se julga superior a todos, nem o narcisista orgulhoso e apaixonado por si mesmo.

O que caracteriza profundamente o vaidoso “clássico” (não só no sentido linguístico do latim, mas típico em termos de comportamento) é o imbecil cheio de si, que se auto-atribui a maior importância e valor, mas que (ao contrário da auto-promoção sofregamente procurada) é, na verdade, um redondo e absurdo “NADA”. Aquele cara tão medíocre e desprovido de qualquer capacidade que o distinga de um asno, que necessita, viltalmente, impor sua miragem de fama e superioridade a manadas e hordas de milhares, milhões e bilhões de seres humanos, seus irmãos de espécie, para não cair no caos interno e no suicídio.

Um Darcy Ribeiro (que adorava um elogio sobre si), por exemplo, até poderia ser um narcisista, mas criaturas como Lula (além de safado, completamente inábil e medíocre – vide a famosa gafe em visita ao continente africano: “achei aqui tudo muito limpo, nem parece a África”) ou George Bush são o protótipo do vaidoso, que, como um ciclone ou um tornado, nada possuem em seu interior (o centro), mas espalham catástrofe e desgraça por toda área atingida pelo raio de sua circunferência.

Ubirajara Passos

PEQUENO DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO SOCIAL – 3


Sofrer: pra variar, deriva do latim, sufferre, termo pelo qual os velhos romanos designavam quem estava “sob ferros”, acorrentado, submetido à força (fosse escravo ou prisioneiro).

Ou seja, a origem do nosso popular “sofrimento” – palavra pela qual melhor se traduz, em português, a infelicidade contínua e intensa e, no momento em que ocorre, irremediável, é justamente o vocábulo que designava a opressão, a submissão, a situação da criatura submetida ao poder de outrem, que como coisa, ou “ferramenta”, padece de todos os infortúnios capazes de lhe “ferir” (machucar) corpo e alma.

De onde se deduz o que era óbvio para os nosso antepassados súditos do grande império e se tornou oculto pra a maioria de nós, hoje em dia: o “sofrimento” é, no lindo mundo humano que habitamos, resultado, na absoluta maioria das vezes, não de nossas atitudes, decisões ou pensamentos, mas da ação violenta do “outro” sobre nós, das imposições do poder e da opressão que nos é exercida em nome dos interesses dos “senhores”.

“Sofrer”, portanto, é, antes de mais nada, estar submetido, escravizado, usado e abusado. E sua origem etimológica nos dá a pista, surpreendentemente, para a solução de 99% dos males da humanidade: a revogação do sistema de classes, o exercício da “liberdade” e a extinção do capitalismo! Se a nossa desgraça deriva, fundamentalmente, da situação de meros objetos a serviço das taras alheias (os “poderosos” – não os políticos, meros intermediários entre a “ralé” e os dominadores, mas os “senhores burgueses de alto coturno”), o estabelecimento do seu contrário, a felicidade, o conforto e a saúde só pode vir da liberdade, da rebeldia, da capacidade de pensar por si mesmo, agir segundo seus próprios sentimentos e inspirações e sacudir longe as algemas, a canga e o chicote do opressor fútil que nos esmaga para maior alcance do seu prazer sádico, como Nero compondo uma canção idiota, harpa à mão, enquanto incendiava Roma.

É bom lembrar, porém, que o “submetido” (o sofredor) é, antes de “sofrer” o poder do seu “senhor” (ou dono, palavra que traduz melhor a realidade), um “submisso”. Aquela criatura incapaz de viver a própria vida, que se acomoda aos ditames impostos e, medrosa e incapaz, se recolhe à mera “função” de criação, membro de um rebanho, cuja própria existência só se justifica, na concretude da nossa sociedade, pelo lucro e luxo do patrão!

Ubirajara Passos

PEQUENO DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO SOCIAL – 2


Paixão: oriunda do latim, passionis, que significava “passividade”, “sofrimento”, a palavra que corriqueiramente é tida como o auge do amor e do êxtase, do fogo transcendente de alma e corpo, surgiu justamente no século XIII – quando os portugueses medievais a grafavam paixon.

Nesta época tomava corpo o amor romântico ou cortês, que consistia na adoração platônica e eternamente frustrada do cavaleiro pela gostosa mulher do senhor feudal (bom negociante e rufião, que incentivava o exibicionismo recatado da senhora, a fim de manipular o cavaleiro através dela, em favor de seus interesses).

E, conseqüentemente, os nossos ancentrais ibéricos passaram a designar esta situação de voyeurismo involuntário (o máximo que a “senhora” permitia ao adorador é mostrar-se nua – o pobre idiota não podia sequer tocar-lhe o dedo mínimo do pé), que se renovava, repetidamente, sem jamais dar na foda enlouquecida, com o termo equivalente a sofrimento passivo. Que, não por acaso, constitui a natureza essencial, até hoje de nossas devoções amorosas, sexuais e intelectuais.

Ao contrário das suposições politicamente corretas, as grandes paixões, em geral, nada possuem de prazeroso, realizador e feliz, mas, na tentativa de sua conversão em realidade concreta, acabam por resultar em frustração, extremo sofrimento, depressão e verdadeira e insana melancolia, daquelas em que o apaixonado se compraz em revirar e atiçar as brasas do próprio sofrimento.

A natureza autoritária e coisificada das relações “amorosas” (que padecem das noções de propriedade, uso e domínio, com que as contamina a sociedade autoritária e exploratória) se revela, assim, perfeitamente, na acepção original do termo, que (desaparecido o amor cortês tipicamente feudal) passou a designar o forte arrebatamento do desejo, especialmente o amoroso, e da obessão por um objeto ou causa.

Não é de espantar, no que se refere às paixões políticas, filosóficas e existenciais, que a palavra tenha sido utilizada, também, desde a sua incorporação às línguas novilatinas, para identificar o sofrimento específico do “redentor da humanidade” no cristianismo, o profeta “anarquista” Jesus, cujos ideais de igualdade e cordialidade entre os homens, segundo o Evangelho, valeram-lhe a tortura e morte na cruz.

Ubirajara Passos

PEQUENO DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO SOCIAL – 1


As palavras mais comuns que usamos para designar atividades, situações, sentimentos, qualidades e objetos quotidianos ocultam, na sua inocência de termos tornados autônomos e “neutros”, muitas vezes, em suas origens remotas a realidade cruel das contingências concretas por elas simbolizadas.

Na maior parte das vezes, basta procurar o seu significado original e/ou o termo da língua que lhe deu origem para nos concientizarmos dos sofrimentos e injustiças que povoam o nosso dia-a-dia e dos quais mal nos percebemos, na banalização absoluta de tudo a que a massificação e padronização de nossa vida mental (idéias, emoções e comportamentos) induz.

Assim, elenco a seguir uma pequena lista da etimologia (origem) de alguns dos mais “inocentes” e triviais vocábulos que povoam nossos dias, para diversão dos meus entediados leitores (que, desde que abordei a questão sócio-cultural da religião africana, e por ter passado vários dias sem mais nada postar, parecem ter se revoltado, pois as visitas a este blog reduziram-se drasticamente):

Trabalho: vem do latino tripallium, que era nada mais que um chicote de três pontas usado para “acariciar” o lombo de escravos e “criminosos” (se não me engano, Cristo foi um deles) que se opunham ao sadismo da dominação dos senhores romanos (ou, simplesmente, “caíram nas desgraças” de um inimigo poderoso, se homens livres da plebe).

Não é casual, portanto, que quando uma coisa é dificultosa, sofrida de se fazer, se diz que é “trabalhosa”. A utilização, na transposição da língua-mãe (o latim) para o português, do nome de um instrumento de tortura assinala perfeitamente o caráter de atividade penosa e obrigatória exercida (verdadeiro sacrifício) sob o tacão autoritário do dono ou patrão. O que os velhos lusitanos romanizados já sabiam perfeitamente e a ética hipócrita do capitalismo cristão-ocidental tratou de encobrir sob a edificante noção do lavor dignificante e produtivo que dá valor ao peão (o seu contrário, a vadiagem, é transgressão horrenda, salvo se exercida pelo opressor que se impôs às multidões de mulas de carga humanas – a safadeza, o ócio e o roubo são monopólio da burguesia).

A metáfora concreta mais terrível e esclarecedora estava inscrita nos portões de Awschvitz, o maior campo de concentração nazista, onde um letreiro, na entrada, cinicamente advertia: “o trabalho liberta”.

Empregado: este sequer necessita do conhecimento da origem latina (o verbo implicare, que significa “enlaçar” – manietar, portanto – e deu origem a “empregar” – de cujo particípio derivou o substantivo que hoje significa o indivíduo que trabalha no estabelecimento de outrem).

O sentido mais universal e original de empregado quer dizer exatamente “utilizado”, o que é próprio de coisas ou ferramentas (“utensílios”). E deixa claro a abominável realidade dos antigos escravos, servos medievais e dos atuais escravos assalariados que, tendo sua vida regrada e organizada no interesse do seu dono (o ilustre burguês que o “emprega” como a um martelo ou enxada), acaba reduzido à “condição de coisa”, sem vontade nem direito a uma vida digna de um ser humano – que deixa de ter direito à própria sobrevivência depois que não “serve” mais para estufar os bolsos e a pança de seus patrões. Não é pra menos que o Inácio quer extinguir, na prática, o direito da peonada à aposentadoria.

Patrão: derivado da palavra latina patronus (que originou , em português, também padroeiro – o que denuncia a natureza de braço ideológico do poder das elites que a Igreja Católica passou a exercer desde a conversão do imperador romano Constantino).

Neste caso a hipocrisia remonta à romanidade, pois seu significado no idioma do antigo Lácio era o de “protetor” ou “defensor” da plebe (a classe dos trabalhadores não escravizados formalmente – os “proletários” da Roma Antiga – e os negociantes de porte médio, que não pertenciam à nobreza governante, os patrícios).

O patrono antigo era, portanto, uma espécie similar a dos políticos demagogos e clientelistas de nossos dias (que devolvem aos trabalhadores as migalhas geradas do suor do próprio povo, em troca de seu voto). A própria palavra cliente vem de “cliens”, que em latim identificava os “protegidos” que sobreviviam debaixo das asas do “patronus”. Mas, aprofundando a questão, veremos que os próprios senhores feudais europeus, posteriores ao Império Romano, justificavam sua opressão e exploração econômica sobre os servos (o campesinato medieval) em virtude da “proteção” que lhes concendia junto às muralhas do castelo.

Não posso afirmar com certeza, mas o termo patronus (“paizão”) provavelmente era derivado de “pater” (pai), o senhor absoluto do lar, possuidor de poderes de vida e morte sobre filhos, esposa e escravos. Ou seja, o ditadorzinho da velha sociedade machista, a que a respectiva prole devia obediência e “serviço“, pois sem seu poderoso senhor não teria meios de sobrevivência e segurança. O que esclarece perfeitamente a natureza política (o exercício autoritário de um homem sobre o outro, o domínio) da raiz de nossas modernas sociedades de classe exploratórias.

Não é difícil transcrever a situação para os dias de hoje, em que a hipocrisia burguesa, propositalmente, enfia cérebro a dentro da peonada a noção de que é graças ao seu “empreendorismo” e capital acumulado (a partir da expropriação do resultado gerado pelos braços do trabalhador – o que é omitido) que o povão pode “ter um emprego” de que sobreviver.

E também não é casual que ditadores fascistas (que encarnam a velha peste emocional), de direita como Mussolini, ou “vermelhos”, como Stalin e Mao Tsé-Tung se intitulassem os “grandes pais” de suas nações.

A idéia de patrão encerra si a noção de senhor todo poderoso a que seus “dependentes” devem obediência absoluta em razão do próprio status de “criador” (ou gerador), em razão da vida e dos cuidados que lhes proporciona, “provendo-lhes” a sobrevivência com sua magnânima e piedosa vontade (é acidental que o deus judaico-cristão seja qualificado como “pai”? – título que aliás é usado por seus sacerdotes, o português “padre” é mero acidente da formação da língua).

Ubirajara Passos