Vem!


 

Por que não vens ao meu encontro, então?
Por que não perder tarde e noite sem roteiros?
Esquecer o imediato, o necessário, o rotineiro?

Vamos quebrar esta barreira insossa do desconhecido
E misturar nossas carências e desejos
Até que vórtice sem freio da loucura

Que atende por “tesão emocionado” nos conduza
De volta ao rotineiro, ao chato, ao sem sentido
Da existência, distantes, lado a lado!

Porto Alegre, 16 de março de 2009

Ubirajara Passos

BBB: Big Brocha Brasil


Quando esta crônica estiver indo ao ar o leitor estará tendo, talvez, o prazer abestalhado de se sacudir freneticamente em sua poltrona, com uma velocidade e uma fúria dignas de criança pequena com vontade de mijar ou de idiota de filme americano, diante dos relinchos, desmunhecadas e rebolados (daqueles de cair a bunda) dos personagens de hospício da besteira mais assistida do Brasil:  o infeliz “Big Brother” da Rede Globo de televisão.

Se pertencer, porém, à pobre minoria de telespectadores com alguma coisa na cabeça além de merda e farinha (de trigo ou de mandioca, já que a “branquinha” cocaína se presta a asneiras pequeno-burguesas bem mais agitadas e aventurescas do que se contorcer no assento de um sofá) talvez se encontre em verdadeiro ataque de pânico diante da tortura de acompanhar a família neste emocionante entretenimento televisivo. Ao menos, é claro, que não tenha esta coragem toda e se refugie, como eu, diante da internet, ao pé de um livro ou de uma cachaça, que é coisa bem mais útil.

Quem sabe, entretanto, o meu caro leitor/telespectador seja destes que, conscientes de todo o tédio e condicionamento psicológico/ideológico do maldito programinha, se divirta com seus apelos infantis ou simplesmente ande num tédio tão enorme que até o besteirol global o divirta. Evidentemente, há também os sado-masoquistas que se prestam a assisti-lo com o puro intuito de fazer uma leitura crítica ou, na triste falta de programas humorísticos dignos de tal nome na televisão brasileira, morrer de rir, no maior sarcasmo, do “reality show” com diálogos decorados (coisa pra “colono ver”, como diria o Alemão Valdir). Confesso que, embora imprecisamente, me aproximo mais das duas últimas categorias de espectadores, se bem que dei com a tal asneira por acaso e, por acaso, ou mera carência de convivência familiar (hoje que estou casado), acabei por acompanhar alguns “capítulos”…

Mas chega! Não é à discussão da tipologia dos espectadores do Big Brother que esta crônica se destina! E muito menos à repetição deslumbrada e cretina das críticas banais, como a de que a coisa é um fenômeno de audiência por que atende à natural curiosidade humana ou ao prazer imenso que a maioria de desgraçados e desesperançados deste Brasilzão tem em espreitar a vida alheia e conferir fuxicos (vide a horda de intrometidos diante de acidente de trânsito). Nem ao, já mencionado, questionamento da pretensa espontaneidade de um falso espetáculo da vida real que em verdade segue a um roteiro previamente escrito, decorado por seus atores amadores.

A verdade pura e simples é que o “Big Brocha” encanta meio povo justamente por ser a reprodução glamourizada de seu maldito quotidiano doméstico e profissional de disputa, inveja, ódio, trapaça, delação, vigilância mútua da pior espécie e enrabação completa. Não sou nenhum moralista (deixam a entender, até, meus perseguidores políticos, que sou um “devasso”), mas este é o resumo do pretenso jogo de situações pessoais de convivência-limite (um monte de gatinhas, barbados, gays, e alguns “senhores respeitáveis” e matronas se acotovelando numa finíssima casa isolada do mundo e exposta aos olhos de todos) sobre cujas regras implícitas de classificação tive muitas dúvidas na primeira edição.

O fato é que, como não funciona mais despejar sobre os miseráveis e remediados do capitalismo ocidental o prazer substitutivo de viver um quotidiano burguês no consumo do “cigarro que dá vantagem” e no compartilhamento do glamour do personagem milionário da novelas das oito da noite (pois os nossos companheiros favelados aprenderam, revoltados, que é melhor estourar os miolos de um trabalhador ou pequeno-burguês para obter um tênis Nyke do que calçar uma Conga sonhando com o sapato último tipo do galã novelístico), o Big Brother veio para recuperar a função adestradora e amansadora da televisão sobre o pobre gado humano que se esfola para criar a festa e o prazer pra lá de real da meia dúzia de sádicos burgueses que nos domina.

Além de fornecer um receituário terrivelmente realista e perfeitamente encaixado no quotidiano de seus espectadores (que nele podem conferir in loco como ganhar um milhão de reais numa sociedade regida pelo uso frio e filho da puta da maioria das criaturas por alguns vigaristas de alto coturno, e cuja regra fundamental é pisar cabeças sem piedade), o “inocente” programa trata de reformatar, da forma mais “participativa”, sutil e inspirada nos programas de “qualidade total”, as cabeças das vítimas da exploração para que, vigiando, dedodurando e fudendo (no mal sentido) seus companheiros de infelicidade, propiciem a continuidade de uma dominação tranqüila, na ilusão de alçar um degrau mais próximo do Olimpo na escala do capitalismo. Quantos milhões não se rendem, sem se dar conta explícita, todo dia a um breviário de comportamento colaboracionista e filho da puta como se fosse um conjunto de regras absolutas e inquestionáveis sob as quais deve se levar a vida, ao menos que se queira ficar na planície simplesmente observando a orgia dos deuses do Olimpo.

Coisas como “paredão”, confessionário, “anjo”, “imunização”, etc. dão uma amostra bastante explícita de  postura no jogo do poder político e econômico (e mesmo “sexual”, no machismo pós-moderno e “liberal”) que conduz a espoliação capitalista mais cruenta do mundo (a do Brasil, onde o abismo entre os gerentões de multinacionais e o povão faminto se calcula em anos-luz), constatáveis em qualquer associação de bairro, buteco, prefeitura, plenária do orçamento participativo, igreja evangélica etc. até o Congresso Nacional e a Fiergs ou a Fiesp, inclusive a CNBB. Apesar do modelo americano aplicado ao mundo (já que o BBB é apenas a versão nacional do que toda a América Latina, por exemplo, assiste diariamente), o nosso “Big Brocha” é um verdadeiro espelho reafirmador e necessário à continuidade do que é hoje o próprio Brasil e o fascismo falsamente socialista de Don Luís Inácio dos Nove Dedos!

Sinceramente, ainda que não restasse mais nada na TV do que esta coisa, aproveito muito mais o horário pós-novelinha noturna global curtindo o sorriso lindo, espontâneo e prazeroso da Isadora, a minha filhinha de seis meses que, como um Buda no nirvana, nem tem idéia do mundo em que nasceu e vive num estado de felicidade pura e genuína e contemplação lúdica absolutos!

 

Ubirajara Passos