Do destino e das circunstâncias…


Estou chegando em uma fase em que o DDA parece estar sendo qualificado pelo “mal do alemão” (não o do camarada Valdir, mas do Alzheimer). Além de não lembrar às 4 h da tarde (em pleno e “frenético” expediente forense) do pedido singelo que a mulher fez às 7 h 30 min da manhã (do tipo: Bira, liga pro médico tal e marca uma consulta), sou capaz de cantarolar o mais surrado samba dos anos 1970 (do estilo “Dinheiro, pra que dinheiro”?) como se fosse inspiração musical inédita, com letra totalmente diversa, me achando um gênio!

O que talvez justifique (assim mesmo, sem colocar o “talvez” entre vírgulas que, no meu caso, são completamente desnecessárias para o bom entendimento do texto) a minha ausência absoluta, nos últimos meses, deste blog que, por algum tempo, (opa! lembrei das vírgulas) foi o élan absoluto dos meus dias, assim como o era, lá pelos meus quinze anos, o meu diário.

E, neste estado meio fora do mundo mentalmente organizado (de que, fisicamente, o zumbi aqui continua cumprindo fielmente, apesar da rebeldia recôndita e indômita, os seus deveres “familiares” e “profissionais”), volta e meia me vejo presa da mais cretina das reflexões (expressão que pra alguns coitados “lucidíssimos e racionais” peões da nossa pátria é coisa de falcatruas evangélicos), como a que acaba de me bater nos cornos, depois de 3 simples latinhas de suco de cevada fermentado no centro da capital do Rio Grande do Sul.

É verdade que ela não foi produto espontâneo do líquido auto-introjetado, mas resultado da decisão que tomou o alemão Valdir de nos colocar, em pleno saguão do hotel “Elevado”, a passear pela internet depois de alguma ingestão “venenosa”.Assim, chegando até a página do blog, fiquei com o focinho bem à frente do blog da companheira K. e sua última matéria publicada no último dia 23, inspirando-me a escrever esta crônica bêbada.

Mas, seja como for, vendo-me “suspenso”, por qualquer razão, das rotinas desta hipnose metida à consciência que vivemos todos, dei-me por conta, exatamente da forma mais imbecil, que me vem  sendo bastante rotineira, do quanto todos nós, mesmo os mais fervorosos e raivosos revolucionários, somos o produto mal havido dos últimos seis mil anos de opressão e sacanagem sofisticada, que iniciada, sabe-se lá como, com a seleção dos animais domésticos mais eficientes, acabou por atingir o auge no adestramento da grande massa da humanidade.

As necessidades de um esperto e pérfido dominador (e principalmente as de seu descendente igualmente pérfido, porém besta) fizeram com que os escravos de todo tipo (cuja coroação é a dos modernos peões assalariados) tenham desenvolvido capacidades específicas, que a ideologia teísta cristã do Ocidente chama de “vocações” (chamamentos irresistíveis e fascinantes), para o exercício de determinados trabalhos, a um tal ponto que a sua frustração é capaz de redundar na mais irremediável infelicidade para a pobre vítima interditada nos seus pendores.

E aí me vejo eu, moldado para o discurso, verbal ou literário, identificado com a estética mais refinada e profunda, puto da vida por ter de levar meus dias envolto com os mais áridos problemas técnico-teóricos ou concretos (do tipo: preciso do meu alvará pra pagar a conta do buteco da esquina, dá um jeito de devolver logo este cálculo judicial) sem qualquer relação com aquilo que me dá tesão além de mulher e trago, quase endoidando, ou caducando, pela pressão natural que vinte e tantos anos de obrigatório e sisudo cumprimento de tarefas acaba por gerar.

É bem verdade que a atual fase da pecuária humana (o capitalismo) me deu mais alguns pendores sofisticadíssimos e impróprios, como a mania da liberdade e da revolução (infelizes efeitos colaterais da opressão e da obediência inerte e besta), mas, tenham plena crença no que digo. Não fosse a maldição de ter de tentar sobreviver (e prover família) com as migalhas de alguns mil reais (tidas por privilégio neste país sul-americano que continua atirando esmolas oriundas do confisco tributário do produto do trabalho de seu povo como remédio à própria expropriação diariamente praticada pela burguesia lambe-cu nativa, lacaia da internacional), e quem sabe, se me permitissem exercer a minha “vocação” literária, talvez eu estivesse manso e bem acomodado com uma existência pequeno-burguesa, daquelas que permite se curtir um gre-nal, para quem gosta, no radinho de pilha (sei que ninguém sabe mais que diabo é este, mas continuo a tê-lo como referência) na tarde de domingo, ou a uma tertúlia como os vizinhos, familiares e amigos, na frente de casa, ao som de um sambinha qualquer no fim da noite (não da madrugada boêmia e folgazã).

Mas, tendo de contar cada infeliz moeda que me vêm às mãos como produto do sofrimento sem graça e medíocre que me é imposto pelo capitalismo local, acaba não restando muita coisa, até por uma questão de sobrevivência mental, do que me opor, me revoltar, cada vez mais, da forma mais radical e absoluta ao domínio completamente irracional e injustificado, da burguesada sobre os bilhões de trabalhadores deste planeta, ainda que esta rebeldia não tenha outro possível fruto do que a ampliação da precariedade vivida, como resultado da natural represália dos sócios pequeno-burgueses que atendem pelo nome de patrões no próprio poder público.

Em resumo, a própria especialização da escravidão assalariada acaba por criar a paixão profissional frustrada e esta frustração, ao se aliar à miséria material, nos reconduz, ironicamente, ao estado natural de rebeldia e inconformidade com tudo quanto não é o prazer genuíno e o bem estar de que gozam os animais em plena natureza.

Ubirajara Passos

Eclesíastes: um hino filosófico ao prazer genuíno enrustido na Bíblia


Na crônica “Da Censura a este Blog e seu Pretenso Caráter Pornográfico”, inspirado no post “Tem putaria na Bíblia”, sobre o Cântico dos Cânticos, publicado no início do último abril, prometi postar neste blog trechos do Eclesiástes, do Rei Salomão, o que, conforme meu costume, apesar de demorar, vai sendo aqui cumprido.

Como poderão conferir os leitores, muito antes do grego Epicuro ou judeu austríaco Wilhelm Reich,dos filósofos nihilistas, de Nietzsche e de Omar Kahyyám, o velho rei semita (que, insisto novamente, para mim possuía um refinadíssimo espírito árabe), já havia concluído, em total descompasso com a apologia judaico-cristã do sofrimento altruísta besta e auto-flagelador, que a única coisa que poderia dar algum sentido à nossa condição absurda e imutável de seres mortais, e conscientes da própria impermanência no mundo, seria o prazer genuíno de usufruir do bem-estar que a vida pode nos proporcionar enquanto respiramos, sem nos atrelarmos à “deveres éticos” escravizantes e prejudiciais ao bem-estar do indivíduo. E sem, muito menos, nos deixar escravizar por ideais de felicidade artificiosos, formais e superficiais, sem qualquer contato profundo com nossas emoções e sentimentos espontâneos, ligados ao tesão de nos sentir vivos, fascinados e confortáveis.

Salomão constatou  na própria  carne, e conhecia muito bem,  que o espetacularismo oco da ostentação e da celebridade em nada amenizam nossa trágica situação de mentes de aguda consciência racional e refinamento emocional destinadas a um dia virar pó, quando não a tornam mais infeliz ainda, e responsável pela miserável infelicidade das multidões jogadas à condição de coisa sem direitos para propiciar o vão luxo dos engalanados opressores. Assim como sabia que raiva e amor, agressão e acolhimento, destruição e construção não são energias opostas e excludentes entre as quais devemos escolher, ou rejeitar, para pautar nossas vidas, mas posições necessárias e benéficas, segundo as circunstâncias em que nos encontremos.

Este não é, como bem sabem os leitores, um site religioso, um blog “sério” (da seriedade moralista e “austera”), e muito menos dogmático, mas vale a pena transcrever aqui os iniciais do fantástico livro:

Palavras do Eclesíastes, filho de Davi, rei de Jerusalém. Vaidade de vaidades, disse o Eclesíates; vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo trabalho com que se afadiga debaixo do sol?

Uma geração passa, e outra geração lhe sucede; mas a terra permanece sempre estável. O sol nasce e põe-se e torna ao lugar donde partiu, e, renanscendo aí, dirige o seu giro para o meio-dia, e depois declina para o norte; o vento corre, visitando tudo em roda, e volta a começar seus circuitos. Todos os rios entram no mar e o mar nem por isso transborda; os rios voltam ao mesmo lugar donde saíram, para tornarem a correr.

Todas as coisas são difíceis; o homem não as pode explicar com palavras. O olho não se farta de ver, nem o ouvido se cansa de ouvir.

Que é o que foi? É o mesmo que há de ser. Que é o que se fez? O mesmo que se há de fazer. Não há nada de novo debaixo do sol, e ninguém pode dizer: Eis aqui uma coisa nova, porque ela já existiu nos séculos que passaram antes de nós. Não há memória das coisas antigas, mas também não haverá memória das coisas que hão de suceder depois de nós entre aqueles que viverão mais tarde.

Eu, o Eclesíastes, fui rei de Israel em Jerusalém, e propus no meu coração inquirir e investigar sabiamente todas as coisas que se fazem debaixo do sol. Deus deu esta penosa ocupação aos filhos dos homens, para que se ocupassem nela. Vi tudo o que se faz debaixo do sol, e achei que tudo era vaidade e aflição de espírito. Os perversos dificilmente se corrigem, e o número dos insensatos é infinito.

Eu disse no meu coração: Eis que cheguei a ser grande, excedi em sabedoria a todos os que antes de mim houve em Jerusalém, e o meu espírito contemplou muitas coisas com grande atenção e aprendi muito. Apliquei o meu coração a conhecer a prudência e a doutrina, os erros e a loucura e reconheci que ainda nisto havia trabalho e aflição de espírito, porque na muita sabedoria há muita indignação e o que aumenta a ciência também aumenta o seu trabalho.

Então eu disse no meu coração: Irei e engolfar-me-ei em delícias e gozarei de todos os bens. Mas vi que também isto era vaidade. Por isso considerei o riso como um desvario; e disse ao gozo: Por que te enganas assim vãmente?

Então resolvi dentro no meu coração apartar do vinho a minha carne a fim de dedicar o meu ânimo à sabedoria e evitar a loucura, até ver que coisa seria útil aos filhos dos homens; em que ocupação devem eles empregar-se debaixo do sol durante os dias da sua vida. Executei grandes obras, edifiquei para mim casas, e plantei vinhas; fiz jardins e pomares, e pus neles árvores de toda a espécie; e construí para minha utilidade depósitos de águas para regar o o bosque em que cresciam as árvores; comprei escravos e escravas, e tive muita família, e gado maior e grandes rebanhos de ovelhas, mais do que todos os que houve antes de mim em Jerusalém. Amontoei para o meu uso prata e ouro, e as riquezas dos reis e das províncias. Escolhi cantores e cantoras, e tudo o que faz as delícias dos filhos dos homens, taças e jarros para o serviço do vinho; e ultrapassei em riquezas todos os que viveram antes de mim em Jerusalém; perseverou comigo também a sabedoria. Não recusei aos meus olhos coisa alguma de tudo o que eles desejaram; nem proibi ao meu coração que gozasse de todo o prazer; e se deleitasse nas coisas que eu tinha preparado; julguei que seria esta a minha sorte, o desfrutar do meu trabalho. Depois, refletindo em todas as obras que as minhas mãos tinham feito e nos trabalhos em que debalde tinha suado, vi em tudo vaidade e aflição de espírito, e que nada havia estável debaixo do sol?

Passei à contemplação da sabedoria, dos erros e da loucura. Que é o homem, disse eu, para poder seguir o rei seu Criador? Reconhecia que a sabedoria levava tanta vantagem à loucura, quanto a luz difere das trevas. Os olhos do sábio estão na sua cabeça; o insensato anda nas trevas; todavia reconheci que ambos eles morrem igualmente. E disse dentro no meu coração: Se eu e o insensato devemos morrer igualmente, de que me serve ter-me eu aplicado com maior desvelo à sabedoria? E, tendo discorrido sobre isto comigo mesmo, adverti que também isto era vaidade. Porque a memória do sábio, dos mesmo modo que a do insensato, não será eterna, e os tempos futuros sepultarão tudo igualmente no esquecimento; tanto morre o sábio como o ignorante. Por isto a minha vida se me tornou fastidiosa, vendo que tudo é mau debaixo do sol e que tudo é vaidade e afliação de espírito.

Em conseqüência disto detestei toda aquela aplicação, com que eu tinha trabalhado tanto debaixo do sol, tendo de deixar depois de mim um herdeiro, que ignoro se será sábio ou insensato, mas que será senhor dos meus trabalhos, em que eu suei e me afadiguei; e há coisa que seja tão vã? Por este motivo dei de mão a todas estas coisas, e o meu coração renunciou a afadigar-se mais por nada deste mundo. Porque, depois de um homem ter trabalhado com sabedoria, doutrina e diligência, vem a deixar tudo o que adquiriu a um homem ocioso. E isto é também vaidade e um grande mal. Porquanto, que proveito tirará o homem de todo o seu trabalho e da aflição de espírito, com que é atormentado debaixo do sol? Todos os seus dias são cheios de dores e de amarguras, nem de noite descansa com  o pensamento. E não isto uma vaidade?

Não é melhor comer e beber e fazer bem à sua alma com o fruto dos seus trabalhos?” (capítulos 1 a 2, versículos 1 a 23).

O início do capítulo 3, clássico nas citações conformistas e fatalistas, nos dá, ao contrário da utilização que normalmente fazer seu pregadores, a medida da relatividade e benefício da dicotomia psicológica, de raiz biológica inclusive, das forças de aproximação e repulsão, contração e expansão (para usar um conceito clínico reichiano), encantamento e horror, quando manifestas em conformidade com as situações específicas que tragam vida ou sofrimento ao organismo humano. E é sobretudo um brado contra a coerência imbecil da palavra dada, do compromisso assumido, da descoberta lógica ou emocional futuramente invalidada pelo processo da consciência e pela correnteza concreta da existência, e contra a imobilidade absurda das idéias e posturas petrificadas e erigidas em verdade absoluta:

Todas as coisas têm o seu tempo e todas elas passam debaixo do céu segundo o termo que a cada uma foi prescrito. Há tempo de nascer e tempo de morrer. Há templo de plantar. Há tempo de arrancar o que se plantou. Há tempo de matar e tempo de sarar. Há tempo de destruir e tempo de edificar. Há tempo de chorar e tempo de rir. Há tempo de se afligir e tempo de dançar. Há tempo de espalhar pedras e tempo de se ajuntar. Há tempo de dar abraços e tempo de se afastar deles. Há tempo de adquirir e tempo de perder. Há tempo de guardar e tempo de lançar fora. Há tempo de rasgar e tempo de coser. Há tempo de se calar e tempo de falar. Há tempo de amor e tempo de ódio. Há tempo de guerra e tempo de paz.” (versículos 1 a 8). 

E, finalmente, o início do capítulo 4 é, por incrível que pareça, de um sabor revolucionário que antecipa o próprio Cristo anarquista a pregar no Sermão da Montanha a bem aventurança aos oprimidos e miseráveis, por que lhes será feita justiça e a lamentar os opressores de barriga empanturrada porque serão derrocados:

Voltei-me para outras coisas, vi as operações que se fazem debaixo do sol, as lágrimas dos inocentes e que ninguém os consola, nem eles podem resistir à violência, visto estarem abandonados de todo o socorro. E felicitei mais os mortos que os vivos; considerei mais feliz do uns e outros aquele que ainda não nasceu, e que não viu os males que se fazem debaixo do sol.

Contemplei de novo todos os trabalhos dos homens e reconheci que as suas habilidades estão expostas à inveja do próximo; nisto há também vaidade e cuidados inúteis. O insensato cruza as mãos, consome-se a si mesmo, dizendo: Mais vale um punhadinho com descanso, do que ambas as mãos  cheias com  trabalho e aflição do espírito.

Tornando a refletir, encontrei outra vaidade debaixo do sol: Há um homem que é só, e que não tem ninguém consigo, nem filho nem irmão, e que todavia não cessa de trabalhar, nem os seus olhos se fartam de riquezas, nem faz esta reflexão, dizendo:  Para quem trabalho eu, e me privo destes bens? Nisto há também vaidade e aflição miserabilíssima.

Melhor é, pois estarem dois juntos do que estar um só, porque têm a vantagem da socieade. Se um vai a cair, o outro o sustentará; ai do que está só, porque, quando cair, não tem quem o levante. E,  se dormirem dois juntos, aquecer-se-ão mutuamente, mas um só como se há de aquecer? E se alguém for mais forte que um só, dois resistem-lhe; o cordel triplicado dificultosamente se quebra. 

Mais vale um jovem pobre, mas sábio, do que um rei velho e insensato, que não sabe prever nada para o futuro. Porque às vezes sai um do cárcere e dos ferros para ser rei, e o outro que nasceu rei acaba na miséria. Eu vi todos os viventes que andam debaixo do sol com o jovem que tem o segundo lugar, e que depois há de ter o primeiro. Todos os que o precederam são um povo infinito em número; e os que depois virão, não se hão de regozijar nele; até isto é vaidade e aflição de espírito” (versículos 1 a 16).

Parece que na última frase transcrita, o Salomão andou prevendo também a ascensão do Inácio dos Nove Dedos… Mas, ironias à parte, tudo pode se resumir à velha e lapidar fórmula: “Comei, bebei e fudei! Tudo o mais é pura besteira”.

Ubirajara Passos

A “UTOPIA” DA “VIDA”


A necessidade de manter atualizado o blog do Grupo 30 de Novembro (grupo30.canalblog.com) levou-me a revisitar, nesta semana, alguns poemas políticos deste blog (como O Sonho do Peão  e Desabafo de um “Peão-Padrão” ante o Domínio), assim como alguns ensaios dos Sermões na Igreja de Satanás (entre eles, Das Vantagens da Ignorância), acabando por publicar os citados.

E, no estado de consciência totalmente “bipolar” em que me encontro, acabei por lhes achar um sabor e uma profundidade que a devastação de um quotidiano monótono e a depressão haviam há muito sepultado. Daí às memórias afetivas que envolvem tanto o parto destes textos, quanto a rara divulgação entre conhecidos e colegas de trabalho, na era pré-blog, foi menos que um tropeço…

Logo saltou-me às guampas a ocasião em que dei uma cópia dos sermões à alemoa Glacy, faz aí já uns cinco anos, e tendo eu reclamado que a criatura só lera os “trechos picantes” de sermões como Do Comércio Sexual e Da ideologia da Qualidade e o Desempenho Sexual, sem dar por conta dos textos mais “sérios”, de profundo e “engajado” anarquismo, ela me veio com a notícia de que seu marido se dera ao trabalho de percorrer todo o livro. E chegara à conclusão óbvia e padronizada de um velho militante vermelho que era: Como todo anarquista, eu era utópico e libertador!

Não é nem necessário contar a fúria que me incorporou com este negócio de “todo”, que vai logo nos jogando na padronização reducionista e senhoril da destinação utilitária, como perfeitas reproduções que somos todos dos parâmetros “universais” deduzidos pela mente imbecilizada de qualquer teórico cartilhesco.

Mas o que me deixou mais puto da vida foi a adjetivação de utópico!

Afinal eu não me julgava nenhum idiota messiânico e otimista, destes que insistem em rebentar o cu, contra todas as indicações “concretas” e duras de uma realidade filha da puta, no exercício de um radicalismo ingênuo e crente. Isto é esporte que deixo para a turma do chafariz da praça da prefeitura de Gravataí, que pelo menos ganham alguns cobres suados e melados com as taras do Peruca!

Como todo DDA tonto , só hoje, me dou conta, entretanto, da implicação efetiva do pretenso “anarquismo utópico”! Utopia para o meu crítico de plantão era a própria liberdade, o direito ao prazer e ao bem-estar, a condição de indivíduo humano, pensante e sensível, cuja existência se justifica por si mesma!

O resto, a escravidão babaca e imbecilizada, a vida de permanentes sobressaltos ante os “caprichos” de um senhor ou chefe temperamental e retardado qualquer (não sei por que logo imagino o Nero abobalhado, vaidoso, cretino e pérfido daquele velho épico yankee, Ben Hur, ao escrever este trecho) é, na versão do meu exegeta de então, a mais perfeita e inquestionável regra – rotineira e comum -, cujo questionamento só poderia ser obra de um insano ser “excepcional” e extra-humano!

E o detalhe é que tão preciosa apreciação filosófico-político-estética não é exclusividade dos filhos da cartilha camarada, mas a visão comum do gado humano nos últimos seis ou dez mil anos! Qualquer coisa diferente da funesta condição de escravo, de instrumento conformado e sem humanidade, submetido às piores torturas psicológicas que nem um cachorro de moleque irrequieto suporta, para a maioria avassaladora da humanidade, é algo estranho e doentio! Uma múmia ressecada e tesa é  seu ideal de perfeita humanidade!

O bom-humor, o prazer puro e pueril do corpo e da alma, a piada instigante e ágil, a mente aberta, inteligente, questionadora e livre, a natural simpatia com os parceiros da jornada de vida, a tendência humana (terrivelmente reprimida, mas subjacente, sempre que o aparato autoritário pisca por um segundo) à convivência mutuamente gratificante, até mesmo no anedotário típico das pequenas vilas, são o mais próximo e “razoável” da nossa natureza de animais mamíferos “evoluídos”. Mas a perfídia filha da puta do sadismo sofisticado vê nisso, quando não um crime, algo impossível, longínquo e inválido.

Ubirajara Passos

O TÉDIO INSTITUCIONALIZADO


Segunda-feira é um dia que deveria ser varrido do calendário, juntamente com o domingo. Não há coisa mais tediosa que o descanso “obrigatório” . Se, por um lado, ele garante ao escravo assalariado, pelo menos, um dia da semana longe da rotina opressora do trabalho (o que, com a reforma trabalhista e as “flexibilizações” do Inácio, pode vir a desaparecer), por outro, “obriga” a peonada (90% da humanidade) a “repousar” e se “divertir” exatamente no “domingo”. E voltar no dia seguinte, sob a presunção de que está “recomposta” mental e fisicamente, à despersonalização e opressão nossa de cada dia.

Na verdade o capitalismo (o escravismo assalariado) tem como prioridade exclusivamente o luxo, a vadiagem e o sadismo (o prazer de mandar e pisar em alguém) da escassa minoria de senhores “proprietários” (patrões) que se impõem sobre a massa de trabalhadores. O único direito reconhecido ao peão, de fato, é o de estar vivo e a serviço da “gandaia” da classe dominante. É nesta visão que o próprio dia de folga é chamado pela lei de: “descanso semanal remunerado”. Note-se bem: “descanso”. Não há qualquer menção à “diversão”, que (está implícito) é privilégio da classe que vive do trabalho alheio.

Mas, como ninguém suporta a permanente rotina de desgaste e mero descanso (pela exclusiva vontade do burguês trabalharíamos todo o tempo em que não estivéssemos dormindo, com a mínima exceção para criar novos escravos necessários, na “reprodução” sexual, e nos alimentar), a “plebe” ainda tenta divertir-se. E, como tudo que é obrigatório, dá com os burros ´n’água. Ou se aliena nos churrascos que se estendem pela tarde (pois a carne, quando não é escassa, é mero pretexto: o que vale é a cerveja) e na assistência dos “Fantásticos” (e outras abobrinhas televisivas) à noite, ou simplesmente cai no tédio. O que dá no mesmo.

Embora já desacreditado há decadas, no fundo do inconsciente coletivo do Ocidente, paira, ainda por cima, a velha obrigação do “dia do senhor” (domine die, de onde derivou o “domingo” nas línguas novilatinas). Quando a Igreja (a sócia ideológica dos “senhores”, que se encarregava, antigamente, de cumprir a missão de fazer a cabeça do “povão”, para perfeita submissão ao papel de servo ou escravo) impunha a todos a o fardo de devotar o domingo a “Deus”.

Ou seja, ainda que mecanicamente estabelecida a folga (sem qualquer relação com os ritmos biológicos e emocionais do homem e, portanto, necessariamente alienada e desprazerosa), há uma necessidade enorme da elite dominante em impedir que ela se preste ao prazer legítimo e à reflexão do escravo assalariado.

A interdição velada ao pensamento questionador e reflexivo (que se dá empurrando milhões de asneiras, cheias de regras sub-liminares de comportamento, através da hipnose rádio-televisiva) é uma necessidade mais ou menos óbvia da dominação. Mas o que surpreende os menos observadores é a proibição indireta do prazer. Que decorre do próprio caráter mecânico, e apartado da natureza humana, da folga “obrigatória”, e fixa, em determinado dia.

Pois, se o deleite ocorrer de forma genuína (isento dos condicionamentos e “substitutos” anti-naturais como o fumo ou as drogas pesadas), por um instante, a cada semana, que seja, poderá suscitar o desejo de sua repetição. O que estará em frontal contradição com a necessidade de dedicação “séria” e permanente do gado humano ao trabalho que sustenta o privilégios de seus “donos”.

Se a peonada gostar da coisa pode virar a mesa e colocar abaixo o sistema que a transforma em mero acessório do calendários e dos relógios, em busca de sua “humanidade” perdida em meio às engrenagens da máquinas e computadores. E aí, ai da nobreza burguesa! Sem escravos vai ter também de pegar no cabo da enxada. Boa semana de trabalho para todos!

Ubirajara Passos

DO SENTIDO DA VIDA E O SUICÍDIO


A minha cara de pau está cada vez maior (já ia escrever “mais grande”, influenciado por alguns litros de cerveja, e dar a desculpa de que confudira com o espanhol, onde o “más grande” é o equivalente matemático do nosso maior; em castelhano mayor é um sujeito mais velho) e, fudido emocionalmente que me acho te nos últimos três dias, deu-me nas guampas xaropear os leitores eventualmente identificados com igual “reina”. E aí vai não uma reina do momento, como em geral se espera de um blog, mas uma reina que cristalizou-se, em fins de 1999, num “SERMÃO” específico “DA IGREJA DE SATANÁS”. Gracias!

DO SENTIDO DA VIDA E O SUICÍDIO

Repetir, pela centésima vez, que a vida não tem sentido, simplesmente não resolve a questão do vazio em que caímos quando a “vida não possui sentido para nós”, ou a “nossa vida não apresenta qualquer sentido”.

Se entendida a afirmação como uma constatação da falta de finalidade absoluta da vida em geral, ou pelo menos da vida humana, não há aí qualquer motivo para espanto ou lamento. Levado o questionamento ao último grau possível, só podemos concluir que a existência é um processo desvinculado de qualquer objetivo obrigatório – portanto, aberto (ainda que numa permanente tensão entre a vontade do indivíduo e as limitações impostas pelo jogo social) a todas as possibilidades.

O que é muito bom! O que seria de nós se não houvesse, inapelavelmente, possibilidade de fazermos, ou tentar fazer ao menos, de nossa vida o que bem entendêssemos e tivéssemos de seguir, sempre, os ditames de uma ordem estabelecida não se sabe se nos céus ou no inferno, mas, de qualquer modo, fora de nós! Toda a grandeza da condição humana reside justamente na liberdade, ainda que virtual, de construção de uma trajetória original, não submetida necessariamente a qualquer lei automática e não infringível!

O “vazio” da existência possui implicações bem maiores do que a simples questão filosófica acima exposta (que é, por sua vez, um ótimo remédio para as vidas “plenas” de conflitos e contradições decorrentes da crença num rumo absoluto a ser seguido).

O que se oculta sob esta pretensa falta de sentido é, na verdade, o dissabor permanente, a quase completa inexistência de prazer que vai-nos tomando a alma, ao ponto das mais caras fontes de gratificação perderem qualquer graça.

Um mendigo ou um fútil que leve uma vida sem qualquer direção objetiva pode ser feliz em extremo, desde que sinta prazer nas suas estripulias. Mas o indivíduo mais convicto e engajado possível num ideal a ser seguido, poderá, apesar de todo o direcionamento de si mesmo, estar mergulhado na maior e mais insípida infelicidade se suas emoções estiverem em descompasso com todo este entusiasmo racional.

Infelizmente, ainda que o nosso racionalismo libertário e questionador reivindique a autonomia completa do indivíduo de qualquer condicionamento ou padrão de comportamento, a verdade pura e simples é que, muito mais do que a filosofia individual e livremente estabelecida, o que “dá sentido” a nós mesmos é o prazer emocional que nos envolve em meio às peripécias da jornada.

Quando até mesmo os pequenos e básicos deleites (como o culinário) não nos despertam mais qualquer entusiasmo, quando a aridez de nosso horizonte mental chega a tal ponto que concluímos não fazer diferença a possibilidade de estar morto no dia seguinte, a encruzilhada com que nos deparamos é tão concreta quanto a possibilidade do suicídio físico, ainda que ele não se realize.

Ou matamos a “vidinha” quotidiana (grávida das mais variadas exigências sufocantes e infelicitantes), ou mandamos à merda todas imposições de uma existência sem cor nem jogo (quando não com cor e jogo obrigatórios e desvinculados de um prazer genuíno); ou só nos restará o caminho da morte da alma, atolados numa vida de obrigações perpétuas, de mero cumprimento de rotinas, protocolos ou ideais artificiais introjetados sob a desculpa do livre arbítrio.

Ubirajara Passos