Noturno


Poeminha parido ontem de tardinha,enquanto esperava a Isadora cortar seu cabelo na casa de sua tia, e minha comadre, Viviane:

Noturno

Noite velha sobre o rio.
A palidez do luar
Caindo, mansa, sobre a praia.
A areia murmujerando
No embalo da brisa morna.

A um canto do arvoredo,
Na estridência da toada,

Uma cigarra tece a noite.
A noite sonhando a noite,
Na rede a se balançar.

Vila Natal, 23 de novembro de 2017

Ubirajara Passos

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Estava o guaipeca no seu lugar… vieram os gatos lhe incomodar!


2017-08-08 21.30.32

Este sujeito aí de cara invocada é o Vagabundo (ilustre gato da Isadora que poderia ser meu, tamanha é a devoção que me dedica, dando-se, inclusive ao trabalho de seguir-me e entrar junto comigo em casa quando retorno ao trabalho e se acha na rua) e só se encontra solitário na foto porque não encontrei nenhuma de seu primo e parceiro de estripulias, o Luba, com o qual cometeu a façanha que deu origem a este post.

Nascido em novembro de 2014, em plena cama, quando a Janaina descansava numa tardinha de domingo, na mesma época em que o seu tio e pai de seu parceiro (o Mel)  desapareceria pela Vila Natal a farrear, para voltar quase um ano depois para casa, completamente estropiado, e aí morrer, o bichano aí, assim como o primo (parentesco que lhe foi atribuído pela semelhança com seu pretenso pai angorá, quando surgiu por casa há mais ou menos um e nos adotou como seus “donos”), foi castrado faz um tempo, o que não o fez ficar mais caseiro, nem menos macho.

E, outro dia, no final de uma bela manhã de sábado, andavam ele e o Luba pela calçada de casa, com aquele ar modorrento de boêmio recém chegado da esbórnia, quando uma dupla de assustadores e valentes cães de rua (que na Vila Natal os há de todo tipo, tamanho, pelagem e atitude, alguns tão atrevidos a ponto de formar gangue e nos cercear o passo pela rua, a ladrar e ameaçar como militantes do MBL) se postou, ar de ameaça e determinação típicos, capazes de botar a correr muita beata ou moleque desavisado, em frente ao portão do vizinho do lado, pronta julgava eu, para dar um corridão na gataiada.

E eis que, para minha surpresa e confirmação definitiva de que estamos no fim do mundo e as coisas andam todas fora de ordem, mesmo para o mais empedernido anarquista questionador e contestador do mundo, a dupla de gatos é que os pôs a correr, mas não com uma carga de unhadas e miados histéricos e esganiçados, como suporá o leitor.

Juro que é a mais absoluta verdade, assim como é o episódio em que peguei o gato Luba com uma trufa (que minha mulher havia feito para arrecadar fundos para a festa de sua formatura em Técnico em Enfermagem, ocorrida mês passado) na boca, embalagem aberta por ele mesmo, que ele sacara da mesa para o chão, pondo-se a correr a minha chegada, no que ninguém em casa me acredita. Mas os gatos se mantiveram impávidos, sem dar um mio, e retesando o corpo com aquele olhar de mafioso pronto a fuzilar, botaram a correr a jaguarada com esta simples e muda ameaça, movendo-se apenas um único passo a frente.

Não se sabe se é efeito da guerra de facções do tráfico de drogas que anda pela cidade – trazendo novidades do “caveirão” à execução de uma dupla forçada a cavar a própria cova e nela se deitar para, depois de uma saraivada de balas (boa parte ‘perdidas” pela má pontaria), virar churrasquinho e protagonizar vídeo em pleno facebook – ou da onda de estripulias fascistas que corre o Brasil,  mas o fato é que, num lance nunca visto, os meus caros gatos, que até o episódio jamais haviam manifestado esta pose de mafiosos de filme americano, parecem estar provando para muita gente que, bem mais do que espalhafato e o uso físico da violência, muitas vezes a determinação e a postura é tudo.

O que corrobora a minha velha tese, exposta aqui neste blog faz uns quantos anos, de que, para derrogar o regime vigente de dominação a que vivemos nós, pobre peonada trabalhadora, submetidos, não é necessário nem o uso do fuzil, mas simplesmente virar as costas para a burguesia, como diria o falecido Valdir Bergmann, e, entrando em greve permanente, mandá-la à puta que pariu, tomando nós mesmos a condução de nossas vidas e da administração e geração dos meios de sua manutenção.

Pois, por valente e perigosa que pareça, a tropa de choque encarregada da manutenção da ordem vigente (e até aquela, não encarregada, que pretende empestear ainda mais nossas vidas com sua censura e falso moralismo) é tão poderosa que há de desmontar-se ao menor gesto de enfado e desfaçatez diante de sua ruidosa fúria!

Ubirajara Passos

 

Paixões, Asneiras e Tristezas finalmente publicado


Jamais usei este blog para promover minha vaidade (que simplesmente não existe, por questões meramente técnicas e não por inclinação emocional, é claro). Tanto que, quando uma crônica deste blog (A foda sagrada de Drukpa Kunley) foi ao ar, na primavera de 2011, com direito a comentários efusivos e sacanas de mais de meia hora em programa noturno da KFK, rádio web de meu amigo Barata Cichetto, não dei a notícia aqui.

Mas este velho livro de poemas foi tão maltratado nas tentativas feitas, no século passado e neste, pelas editoras nacionais, que sua autopublicação no site da multinacional Amazon (em versões e-book e impressa) e no nacional Clube de Autores (versão impressa sob encomenda que pode ser paga com boleto), merece o registro neste blog, no qual seus poemas foram integramente publicados.

Não há no livro, portanto (com exceção da profunda revisão ortográfica e gramatical) grande novidades para os leitores do Bira e as Safadezas, além do possível prazer de ter os poemas reunidos num único volume impresso ou num prático e-book.

Mas, para que a frustração não seja completa, reproduzo abaixo alguns trechos da biografia constante no final, que mencionam alguns fatos ainda não mencionados neste blog sobre a “República” do Alemão Valdir no bairro Petrópolis, em Porto Alegre:

“Com a chegada do sobrinho de Valdir, Rogério Seibt, de Santa Rosa, que se hospedou no apartamento para realizar o curso pré-vestibular, em abril de 2002, se constituiria, no Edifício Morumbi da Rua Amélia Telles, a lendária “República do Alemão Valdir” (que durou até janeiro de 2004, quando o alemão retornou a Santa Rosa), frequentada, entre outros, por Alexandre Vorpagel (o “Gordo Ale”), amigo e conterrâneo de Rogério, que cursava Radiologia na capital, e por Luiz Miranda Pedreira do Couto Ferraz (o “Baiano Luiz”), emigrado de Salvador, formado em Física e Filosofia e emérito boêmio, blogueiro e colecionador de falenas, que Valdir conhecera no Hotel Elevado, na Avenida Farrapos, quando viera morar em Porto Alegre, em 1996, e se tornaria parceiro de cachaçada, boemia e sacanagem de Bira e Valdir na sauna La Luna, na rua Barão do Amazonas.

Aí, na “República” (como Valdir constatara se parecer o apartamento, numa súbita inspiração num almoço de domingo), os fins de semana, e às vezes os dias úteis, eram agitados pelas infindáveis conversas, anedotas e histórias rocambolescas dos frequentadores, sempre devidamente regadas à cerveja, com exceção do “dono da casa”, que mantinha, desde 2001, tratamento com antidepressivos e raramente bebia. Às vezes, na ausência do Luís, em noites entediadas, muitos poemas amorosos deste livro vieram à tona pela primeira vez na internet, nos “chats” do alemão Ale com suas namoradas virtuais, enquanto Bira os lia em voz alta. E aí nasceram uns quantos poemas datados de Porto Alegre, aqui publicados, como “!” , Amargo Mate da Amargura , Embriaguez e Menestrel Equívoco.”

Ubirajara Passos

A negra noite da alma


A negra noite da alma

A dor da madrugada,
O desatino duro e distante dos quartos anônimos,
O mergulho na embriaguez disforme
Da escuridão silente e indiferente aos gritos

Desesperados dos que se perderam
De si nas brenhas diurnas da rotina
E penetraram na profundidade
Apavorantemente branca

De uma vigília eterna cumpridora dos deveres
E vem buscar refúgio nos porres tristonhos
De velhos butecos de luz amarela.

Uma rota bandeira que já não balança
Nem nas tardes mornas de um céu de domingo.
Um café sem açúcar, esquentado de novo.
O riso obrigatório da euforia falsa.
As novidades velhas das redes sociais.

O sem sentido tão grande
Que nem dói, mas só arrasta
Nossas mentes insones num mar branco e sem ondas.

Não grite ao portão de granito quando vierem
Te visitar todas estas “entidades”.
Pois não há rogo que as afaste e só após varrerem
Todo sossego modorrento e informe
Te abandonarão ao calor de um novo dia.

Gravataí, 17 e 20 de julho de 2016

Ubirajara Passos

“Recuerdos”


No tempo em que as luzes nasciam no fogo
Em que os candieiros ardiam encharcados
Na embriaguez da querosene,

As noites guardavam profundos mistérios
E as sombras espessas abrigavam, gratuito,
Em capotes pesados os velhos “assombros”.

No tempo em que a música nascia nos dedos
Dos menestréis rústicos, vibrando nas cordas,
Em que o sopro das flautas fazia dueto
Com o minuano gélido que nos arrepiava

Tudo era menor
E o tempo, mais lento,
E vivíamos mais próximo da essência de nós mesmos.

Gravataí, 3 de janeiro de 2016

Ubirajara Passos

Lirismo bêbado


Viaja nas sombras do verão
Uma brisa inspirada que às cigarras
Acompanha num dueto insano.

E, embalado nos ritmos das três,
O velho poeta, no jardim selvagem,
Balança à rde, entorpecido em ondas
Do doce devanieo da cevada.

Gravataí, 16 de dezembro de 2015.

Ubirajara Passos

Dança das Cinzas (bolero carnavalesco)


 

Eu vi a bailarina sobre o espaço
Descrevendo
Acrobacias as mais intensas,
Desenhando
As mais horrendas e fantasmagóricas
Figuras sobrenaturais.

Eu vi a bailarina escrevendo,
A cada salto improvisado no infinito,
Umas quantas lendas dolorosas,
Esparramando
No árido chão desejos monstruosos.

Vi a bailarina,
Ia morrendo
No seu olhar qualquer humanidade
A cada brusco e palpitante passo.

Quando a vi,
Do nada vindo e ao imprevisto se jogando,
Eu a percebi como a fúria rodopiante.

Vi ir morrendo na mesma intensidade
Da paixão coreografada a alegria falsa,

Num soluço inaudível, mágoa eterna, pavor terrificante!

Vila Natal, 12 de fevereiro de 2015

Ubirajara Passos