Da Hipocrisia Intrínseca da Sociedade Capitalista


 Em toda opressão sempre há um quê fundamental de meia verdade, mentira ou omissão. Mesmo o sujeito dominado pela força é vítima da falsa crença na superioridade física do opressor e, convencido por ela, se submete voluntariamente ao seu domínio. Toda a história da sociedade de classes se reduz à tortura e ao assédio moral organizados*, devidamente disfarçados, como convém e se faz necessário, sob o pretexto do “dever”, da obrigação ética, da “harmonia social” e do “amor ao próximo” e o “bem-estar coletivo”. Conceitos estes que, evidentemente, só existem enquanto ferramenta necessárias à submissão do gado humano oprimido ou como racionalização justificadora da gandaia luxuosa e chique restrita à minoria dominante.

Ninguém, absolutamente, que manipula, divulga e inculca tais categorias de austero e nobre comportamento acredita nelas como princípios válidos para a conduta humana (especialmente para si próprio e para a classe a que serve). E, quando as empurra boca abaixo da multidão submetida e mistificada, espera tão somente que elas sirvam para que a peonada de todo tipo (dos letrados cheios de si aos trabalhadores braçais) se limite a exercer, com toda eficiência, e burra e cega obediência possíveis o papel de máquina sem exigências ou requintes (que são monopólio dos senhores), destina da exclusivamente à produção da vida dionisíaca, apimentada de sadismo, de seus amos.

E os próprios escravos assalariados, em sua grande maioria, quando externam a crença nas boas intenções e exigências morais (ou nos benefícios do “progresso técnico-científico” para uma humanidade abstrata) que justificam oficialmente o seu suor compulsório e não recompensado, exercido sob o pior controle impositivo e infelicitante da opressão calculada e inquestionável, estão no máximo encenando o teatro que julgam necessário para manterem-se vivos e empregados sem o temor da retaliação necessária de patrões, chefes e chefetes a qualquer rebeldia e (supremo e inadmissível “pecado”) à expressão crua de descrença nos cândidos e inocentes mitos “éticos” e espetacularistas que formam o substrato falso e doloroso da produção da vida material, intelectual e emocional comum. Que condicionam o trabalho absolutamente essencial à continuidade dos nossos dias, exercido em íntima relação e “colaboração”, em uma sociedade em que tais atividades não se fazem sob a inspiração da espontaneidade solidária e da empatia natural e mútua dos seres humanos, resultante da proximidade, mas sob o comando da mais humilhante e destruidora hierarquia verticalizada de mando e pilhagem de uns poucos salteadores, organizados e convictos de seu status diferenciado e superior (que nada mais é que o resultado de sua capacidade cínica e cara-dura de auto-imposição e manipulação sobre a imensa horda oprimida).

Mas, no caso da espoliação capitalista, a hipocrisia é absolutamente essencial à existência e à manutenção do sistema, fundado no caráter de informalidade e descompromisso do “dono” com o peão escravizado, que, para permitir maior e mais eficaz “uso”, e, conseqüentemente, maior concentração e usufruto de bens e serviços extraordinários pelo proprietário, é escravo generalizado da classe dominante, sem qualquer relação fixa, vitalícia e obrigatória com determinado membro da burguesia. E se justifica exatamente pelo fato de que as regras morais apresentadas como desejáveis para “todos” e como fundamentos essenciais e básicos da sociedade (especialmente aquelas que dizem respeito ao patrimônio e à economia) foram forjadas, na prática, somente para a maioria trabalhadora, não sendo exigidas da classe dominante, cuja própria existência se sustenta justamente da sua permanente transgressão.

Se o roubo e o homicídio praticados por membros do povo são condenados, e seus praticantes reprimidos, recolhidos ao cárcere e execrados, como prejudiciais à convivência humana em geral, é justamente do apoderamento do resultado do trabalho alheio, da submissão de multidões ao trabalho compulsório e penoso e da morte em vida, ou da eliminação física propriamente dita (nas guerras formais ou informais) que se geram as riquezas e privilégios dos senhores da sociedade capitalista, que forjaram a falsa moral para poderem viver em ócio e fausto montados no lombo de seus escravos.

A antiga dominação senhorial ou feudal podia, nas bases materiais e tecnológicas de vida e comunicação precárias, restritas ao essencial da existência do animal humano, se fazer de forma mais explícita, sob o tacão do simples terror, do amedrontamento e da ameaça física crua e brutal. Ainda que o chicote, a forca, o tronco ou a arena dos leões necessitassem, para efetiva concretização de seu poder constrangedor, como sempre, da crença íntima dos dominados na sua incapacidade de reação e na impossibilidade de virar o jogo pela simples recusa ou rebeldia libertadora.

Mas a moderna roubalheira organizada e burocratizada do capitalismo tecnologicamente sofisticado, dependente de uma engrenagem produtiva intrincada, complexa e ramificada, que cria legiões de níveis de especialidade e aptidão os mais diversos no rebanho de trabalhadores; a sacanagem avançada de um sistema de pecuária humana (que gerou, como efeito colateral, toda uma rede de possibilidades de conforto físico e de comunicação das criaturas humanas entre si muito além do simples feudo ou reinozinho fechado sob a vontade e a ditadura de sua nobreza local ou nacional) necessita de algo que envolva a massa de explorados e utilizados em algo bem mais justificável que o medo e o preconceito rígido imposto por toda uma rede de verticalização de poderes decrescentes de imposição, como ocorria no velho patriarcalismo senhorial, em que a escala dos “direitos” de opressão se estruturava, perfeita e absoluta, desde o rei até o “chefe de família” e o “irmão mais velho”.

Até pela necessidade de consumo dos bens necessários ao lucro mercantilista da classe dominante, o escravo assalariado, acaba por ter um mínimo, ainda que precário, contato com o prazer abastardado que forma o estofo da vida de seus senhores, e, para que não se rompa o élan de sua colaboração, se faz necessário toda uma criação ideológico-cultural falsa e fantasiosa que dê conta da nova necessidade de bem-estar que passa a fazer parte essencial do imaginário do gado humano.

Assim é que toda a sociedade burguesa, da vilinha tibetana perdida no Himalaia às frenéticas e esquizofrênicas esquinas de Nova York ou Tóquio, só consegue manter-se em pé debaixo da hipnose coletiva mais vil e inescapável do prazer substitutivo da nova ética, revelada, ironicamente, de forma clara e nua em etiqueta. E os novos valores “imperativos” e incontestáveis do comportamento universal, a nova “moral” vão do parentesco mais próximo e cru da “moral antiga”, como a supremacia da “qualidade”, dos índices de eficiência em prol do engrandecimento pretensamente generalizado da sociedade toda (seja ela a cidade, a nação, ou toda a humanidade), até os ditames comportamentais tidos por “modernos” e chiques (ou “fashions”) do vestir, do rir, do beber e do fofocar (que é essencial a toda sociedade hierarquizada), invadindo toda as instâncias da vida quotidiana do indivíduo, sob uma constelação de regras impositivas apresentadas como benéficos e desinteressados aconselhamentos em prol de seu “sucesso” sócio-cultural, que, na verdade, garantem, muito longe e diversamente de seu pretenso conteúdo, a continuidade de uma vida de sofrimento, inadequação e eterna infelicidade à legião dos desgraçados que trabalham debaixo do poderio vigarista e psicopata de uns poucos milhares de ladrões bem estruturados e aparelhados em sua capacidade de imposição filha da puta!

 Gravataí, 17* e 28 de setembro de 2010 

Ubirajara Passos

Movimento Indignação lança Manifesto de Apoio à candidatura de sua militante SIMONE NEJAR à Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul


 “Anarquista heterodoxo” (nem sei porque insisto nesta condição aparentemente constrangedora), ao contrário dos libertários  puristas, nunca deixei de votar para os cargos do parlamento e do executivo de meu município (Gravataí), do Estado do Rio Grande do Sul e da República Federativa do Brasil. Era, nos últimos anos, mais um hábito do que uma concessão estratégica à possibilidade de garantir algum avanço (ou impedir retrocesso) na política nacional.

Nestas eleições de 2010, entretanto, a geléia geral fascista em que se transformou a disputa política (incluindo o meu ex-partido, o PDT, que se transformou de vez num capacho da ditadura informal vigente, apoiando sua ex-filiada Dilma Rousseff para a Presidência da República) já ía me inclinando a me igualar aos anarquistas cartilhescos e simplesmente anular o voto.  A novidade da candidatura de uma companheira de movimento sindical, entretanto, me impediu a possibilidade da abstinência eleitoral (que não seria tão dolorosa quanto uma possível abstinência alcoólica forçada).

E assim, atendendo aos ditames da luta sindical e da necessidade de influir fundo nas decisões patronais (funcionários públicos do judiciário gaúcho que somos, eu e meus companheiros), o Movimento Indignação, que lidero, resolveu encampar a candidatura a deputada estadual de nossa companheira, publicando em nosso blog na internet (http://grupo30.canalblog.com/) o Manifesto de Apoio, cujo texto integral segue abaixo:

O Movimento Indignação, fiel a seus princípios e à índole de seus membros, mantém, e defende, total independência de partidos, governos ou quaisquer grupos que possam aparelhar e distorcer a luta dos trabalhadores da justiça gaúcha. Assim, tradicionalmente, não se manifesta, ao contrário da maioria dos sindicalistas, em favor de quaisquer candidaturas ou partidos nas eleições gerais do País, ou mesmo do Rio Grande do Sul.

O que não significa que defenda a abstenção dos trabalhadores da luta política geral. Temos que influir, e devemos, na escolha de nossos governantes, especialmente a nível estadual, pois deles dependem não apenas o nosso futuro como cidadãos, como a própria definição dos nossos salários e condições de trabalho, no caso do Governador e da Assembleia Legislativa do Estado.

 

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Trata-se da companheira Simone Nejar, que, na qualidade de representante sindical dos trabalhadores do Departamento de Informática do Tribunal de Justiça, e de membro do Movimento Indignação, foi suspensa e demitida de seu cargo público por ter tido o desassombro e a inconformidade sem limites de denunciar e combater, por todos os meios possíveis, e a custa de seu próprio emprego, o privilégio indefensável, e esparramado como capim, do nepotismo no Judiciário gaúcho, que, como nos demais poderes, sangra os recursos que deveriam estar sendo aplicados para remediar a situação da massa pobre da população do Estado.

Afastada arbitrariamente de seu cargo, a servidora passou fome, comeu o verdadeiro pão que o diabo amassou, e só não sucumbiu graças à solidariedade do Movimento, e de muitos de seus colegas de trabalho, mantendo-se hoje do exercício da advocacia, bacharel em direito que é. Mas, apesar de todas as dificuldades e da retaliação ignominiosa e incessante (que chegou às raias de um processo criminal pretensamente motivado na ofensa à “honra pessoal” do ex-presidente do Tribunal) manteve suas denúncias, jamais cedendo à perseguição ou se corrompendo à pressão anti-ética.

A convite de seu advogado, outro grande batalhador da causa da ética e da justiça nos negócios públicos, o juiz aposentado Luís Francisco Corrêa Barbosa, o Barbosinha, ela é candidata neste pleito a deputada estadual. E o Movimento Indignação, justamente por sua vocação de não atrelamento a quaisquer grupos e políticos alheios e sobrepostos à luta dos trabalhadores da Justiça , vem, neste momento apoiar e indicar a todos os colegas e companheiros servidores, sindicalizados ou não, o voto em SIMONE NEJAR (n.º 14555), porque, forjada na nossa própria militância, a conhecemos muito bem. Sabemos da sua fibra incansável, do seu destemor absoluto e do seu compromisso inarredável com os nossos interesses como trabalhadores.

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Defendemos sua candidatura porque, mesmo demitida e ainda lutando judicialmente para ser reintegrada, ela é, acima de tudo, uma servidora da justiça. Conhece na carne e no espírito todas as mazelas porque passamos diariamente, derrubando montanhas de processos, debaixo do pior assédio moral e da falta completa de condições materiais e salariais de trabalho, para, no fim do mês não receber sequer uma remuneração digna de suas necessidades e de sua competência. E, como a maioria de nós, passou, durante seus dez anos de trabalho, por todas as injustiças, as discriminações e a falta de reconhecimento de sua dedicação e eficiência.

Sua candidatura não é, portanto, como tantas outras de colegas do judiciário que, pertencentes a um partido político, tem se aventurado na disputa de um cargo público. As próprias circunstâncias que a levaram a ela envolvem até o âmago o drama de sua vida, que é o drama de todos nós e de nossas famílias, funcionários mal-remunerados e sacrificados que somos. E, neste momento ímpar, não podemos deixar de influir como eleitores na condução dos negócios públicos do nosso Estado, que é o nosso patrão, a favor de nossos mais caros direitos e reivindicações.

Com uma companheira nossa com a capacidade de luta e a incorruptibilidade de SIMONE NEJAR, teremos uma DEPUTADA que será não somente a nossa voz, e a do funcionalismo estadual, na ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA, mas uma verdadeira espada, afiada e flamejante, pronta a cortar com seus golpes os privilégios inomináveis de que gozam as cúpulas políticas dos Três Poderes, em prejuízo das condições de vida e salário da maior parte do funcionalismo estadual.

Teremos então quem defenda no parlamento, com toda a clareza e radicalidade, o nosso bolso e nossas reivindicações de décadas, como plano de carreira, política salarial, auxílio-refeição, a própria redução da carga horária, e outras tantas. E, o que é mais importante, quem se pronuncie sobre estas e outras questões determinantes da nossa vida funcional segundo as nossas necessidades e desejos, segundo a versão dos servidores e não, as tradicionais distorções ou aproveitamentos demagógicos de parlamentares que buscam sofregamente o nosso voto, mas não possuem efetivamente compromisso conosco, até por não conhecer de perto a nossa realidade.

Assim é que recomendamos que cada colega servidor, além de votar na companheira SIMONE NEJAR para DEPUTADA ESTADUAL, se empenhe numa verdadeira cruzada e indique e recomende o voto nela para todos seus familiares, amigos e conhecidos, porque esta não é a candidatura vulgar de alguém que busca se gabaritar como deputado por simplesmente pertencer a uma determinada categoria profissional. Mas é uma candidatura de todos nós, servidores da justiça do Estado do Rio Grande do Sul! 

Porto Alegre, 2 de setembro de 2010

assinam pelo Movimento Indignação os companheiros:

Ubirajara Passos

Valdir Antônio Bergmann

Mílton Antunes Dorneles

Jorge Correa Dantas

Andréia Fritsch Fernandes

Lucas Cristiano Milbradt

Vanderlei da Silva Horz,

com o apoio dos seguintes trabalhadores da justiça:

Lisiane Bottega

Maria Albertina Nolasco Gonçalves

Davi Pio da Silva dos Santos

Fábio Kraulich de Oliveira,

e dos seguintes cidadãos:

Tiago Jacob Brutti, professor universitário

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Visite o site de campanha de Simone Nejar nº 14.555

Lula e a Burocratização da Putaria


O assunto já é um tanto passado do ponto, tendo sido explorado na imprensa eletrônica brasileira há alguns anos e, não fosse o Brasil ainda uma sociedade autoritária e profundamente marcada pela opressão coisificante e preconceituosa, não deveria render maiores polêmicas.

O fato é que o Ministério do Trabalho mantém em seu site na internet um espaço próprio para divulgação da Classificação Brasileira de Ocupações (a CBO), que instrumentaliza, entre outros, as estatísticas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) a respeito das diversas áreas do emprego dos trabalhadores no territério nacional, esmiuçando, na linguagem mais “culta”, “científica” (o que equivale a dizer “higiênica” e “isenta de apreciações subjetivas e emocionais”) e padronizada as diversas características de cada atividade laboral exercida entre o extremo norte de Roraima e o Arroio Chuí.

E, pasmem!, logo no início de 2003, primeiro ano do mandato do Inácio dos Nove Dedos, um gaiato qualquer da grande imprensa fuçando na insípida e abestalhada lista oficial de ocupações deu com o “escandoloso” e hilário verbete, codificado na “família” (grupo) 5198, sob título de “Profissional do sexo” (sub-código 5198-05) – que significa, em boa e popular fala: “puta”!

A descrição era, então, extremamente pormenorizada e explícita, a tal ponto que o órgão, interpelado pela mídia, além de reduzi-la, atribuiu ao governo de Fernando Henrique Cardoso sua implantação na CBO, mas a manteve, entretanto, com todas as características “picantes” e imbecilmente oficialescas, que nos permitem, hoje ainda, ler o negócio sem saber se rimos, choramos ou zurramos tresloucadamente!

Não é preciso que o leitor seja um experiente ex-putanheiro como eu, um balbuciante e tímido rapazola recém-iniciado nas manhas da sacanagem paga (que vários ainda há por aí afora) ou uma aprendiz rebelde de meretriz admiradora da vilã/mocinha da atual novela do horário nobre da Rede Globo (a gostosíssima e insossa Clara/Chiara, precária enganadora do “Totó idiota de língua de fora por buceta nova”) para morrer de rir e calejar a mão… de tanto bater… na própria própria perna (ou no  braço da cadeira) diante da besteira suprema que constitui o “tratado governamental da ocupação laboral ligada ao prazer do corpo dos cidadãos”.

Já na introdução (que atende pelo nome de “Descrição Sumária”) o negócio carrega nas tintas da fantasia mais cretina e cruel possível, primando pela mais falcatrua das inocências (similar àquela que justificou a continuidade de Lula no governo sob o  pretexto de seu “desconhecimento” completo do esquema mensaleiro).

Depois de nominar e “sinonimar” (como diria o Odorico Paraguaçu) a atividade de Profissional do Sexo ou Garota de programa, Meretriz, Messalina (pobre imperatriz romana de saudável tesão sem preonceitos!), Michê, Mulher da Vida, Prostituta, Trabalhador do sexo”, a cartilha petista (que, se eventualmente não foi elaborada pelo fascismo luliano, tem todo o estilo dos filhos da sacristia salvacionista autoritária), declara, em tom programático e pomposo, e como se tratasse de texto de edital de concurso público, que o cargo almejado (e tido por desejável e incentivável) se constitui no afã de pessoas que Buscam programas sexuais; atendem e acompanham clientes; participam em ações educativas (grifo nosso) no campo da sexualidade. As atividades são exercidas seguindo normas e procedimentos que minizam a vulnerabilidade da profissão.” E arremata, listando como pré-requisitos do ingresso em tal dignificante e auto-relizadora carreira que Para o exercício profissional requer-se que os trabalhadores participem de oficinas sobre sexo seguro, o acesso à profissão é restrito aos maiores de dezoito anos; a escolaridade média está na faixa de quarta a sétima séries do ensino fundamental” e que os agraciados pelo esforço e pela sorte  terão o privilégio dos que “Trabalham por conta própria, em locais diversos e horários irregulares. No exercício de algumas das atividades podem estar expostos à intempéries e à discriminação social. Há ainda riscos de contágio de dst, e maus-tratos, violênia de rua e morte.”

Não tenho, como bem sabe o leitor contumaz e atento deste blog, a menor implicância contra a putaria profissifonal, a que sou, inclusive, muito grato, pois sem ela jamais teria vencido a minha timidez e adentrado no mundo do sexo e da boemia, gozando um pouco dos raros prazeres que o mundo humano filho da puta propicia sobre a superfície do Planeta Terra. E muito menos acho indigno o ganha-pão das (ou dos) que possibilitem o supremo prazer dos corpos aos excluídos do mercado amoroso/sexual por serem possuidores de parcas qualidades estéticas ou comportamentais tidas por  pré-requisito ao seu usufruto, na cartilha da mentalidade padronizada do capitalismo cretino em que vivemos.

Cansei, inclusive, de defender (com a gaiatice suficiente para não ser motivo da gargalhada geral da malandragem, é claro), nas minhas noitadas nos cabarés de Porto Alegre, a organização do sindicato das putas e o reconhecimento legal da profissão. Que é terrivelmente sofrida, pelo próprio caráter intrinsecamente coisifante de suas profissionais – que veem-se na circunstância de exercer como “trabalho”, atividade compulsória, fria e cheia de regras (até certo ponto…), o que é normalmente fonte peronsalíssima  e viva de prazer para ambos, ou vários, participantes, mas, no caso da prostituição, com raríssimas exceções, se restringe à “clientela”. Somado a isto, a  exploração de donos de maloca e cafetões de rua,  e  a clandestinidade decorrente da “ilegalidade” da putaria intermediada por patrões, torna a coisa tão infeliz e terrível quanto a escravidão formal. O bordel é um ambiente instigante e feliz até o p0nto da fantasia de seus freqüentadores (e, eventualmente, de suas trabalhadoras), mas, em regra, é o local do exercício de um dos trabalhos mais estressantes, mal-remunerados e impregnado de assédio moral, também.

Agora, convenhamos, daí a tratar a prostituição como uma espécie de “carreira” desejável e incentivável para qualquer mulher ou gay, omitindo as opressões e frustrações que levam tanto “profissionais” como clientes ao mercado do sexo explicitamente remunerado (que, mesmo espúrio, porque alienado, guarda ainda alguma emoção e prazer genuínos e válidos para seus participantes diante de suas versões informais: o casamento burguês tradicional e compulsório e o casamento ou o relacionamento baseado no interesse financeiro ou sócio-hierárquico informal dos nossos dias) é o fim da picada!

Vivêssemos num mundo de plena liberdade e autenticidade das criaturas, sem quaisquer limitações e subjugamentos a papéis artificiosos e sofridos e não haveria problema nenhum em tal espécie de “atividade econômica”. Mas em pleno capitalismo desumano, desintegrador e espezinhador dos corpos e das mentes da massa da peonada submetida ao tacão patronal, a putaria empresarial nada mais é que o pérfido efeito colateral da transformação da grande maioria da humanidade em infeliz objeto sem direito a dispor de si própria nem a qualquer conforto e prazer legítimos e genuínos.

Mas o manual da boa puta do Governo Lula não se contenta com as definições e regulamentações genéricas imbecis e fora de contexto, descendo a detalhes de recomendação que (por sua própria pretensa ingenuidade e desconhecimento concreto da realidade) parecem se destinar a incentivar a jogar outros tantos milhares de criaturas, além das que já vivem-na, nos sofrimentos sem nome do negócio ou simplesmente fazer de conta que é possível se prostituir de “forma segura e não submetida às piores violentações físicas e psicológicas”, legitimando-as pela recriminação oficial indireta.

Assim é que, assumindo ares de programa de “qualidade total” de “departamento de gestão de recursos humanos” de multinacional badalada ou repartição pública de porte, a listagem de “atividades envolvidas no labor da putaria” publicada pelo Ministério do Trabalho Brasileiro  tem a capacidade de fazer constar asneiras do tipo:

Atividades:

1) BUSCAR PROGRAMA:

Agendar o programa; produzir-se visualmente; esperar possíveis clientes; seduzir o cliente; abordar o cliente

2) MINIMIZAR AS VULNERABILIDADES (sic!):

– Negociar com o cliente o uso do preservativo (imaginem um estivador musculoso do cais porto, bebão, ou um burguesão drogado até o cu de êxtase, parlamentando com toda a polidez, paciência e “delicadeza” sobre a necessidade de usar camisa de vênus!);

–  usar preservativos; utilizar gel lubrificante à base de água (só se for puta suíça para ter dinheiro e tempo para andar catando o sofisticado produto);

–  participar de oficinas de sexo seguro (esta é de cravar: para  o governo toda puta deve ser petista, intelectualizada e politicamente correta);

– identificar doenças sexualmente transmissíveis (dst);

– fazer acompanhamento da saúde integral (se for pelo SUS – sistema único de saúde – oficial, está perdida: a consulta por uma simples gripe demanda o agendamento com um mês de antecipação em qualquer posto de saúde público do país!);

– denunciar violência (pobre puta! numa sociedade em que qualquer peão é gente de segunda categoria, ela é tida por de terceira e é mais fácil ficar presa na delegacia de polícia que ter sua queixa registrada, e, além do mais, quem vai fiscalizar a proibição da pancadaria? o conselho regional das meretrizes?);

– denunciar discriminação (pra quem, mesmo?);

– combater estigma (sem comentários!);

– administrar orçamento pessoal (este item, além de desfocado da realidade, é a pedra de toque do fascismo vermelho aplicada à putaria profissional: não contentes em encher o saco da prostituta com as outras recomendações impossíveis de serem praticas, ainda pretendem regulamentar sua própria vida pessoal!)

3) ATENDER CLIENTES: (ou, manual burocrático da qualidade total do amor remunerado para a puta burra!)

– Preparar o kit de trabalho (preservativo, acessórios, maquilagem) (é puta ou modelo de desfiles de moda? o que, aliás, normalmente não faz muita diferença…);

– especificar tempo de trabalho (está-se tratando de sexo pago ou de empreitada de obra de construção civil?);

– negociar serviços (já imaginaram marafona e cliente discutindo os itens da obra antes da execução?);

– negociar preço; realizar fantasias sexuais (capaz?);

– manter relações sexuais (mas, afinal, está no cabaré “pra fuder ou pra conversar”?);

fazer streap-tease (quem sabe vai trepar vestida?);

– relaxar o cliente (que deve estar muito tenso mesmo! trepar com puta petista burocratizada é mais perigoso que levar injeção na bunda feita por enfermeira nazista!);

acolher o cliente (como?);

– dialogar com o cliente (e se for muda?)

4) ACOMPANHAR CLIENTES: (cartilha da puta de luxo para deputados governistas)

Acompanhar cliente em viagens; acompanhar cliente em passeios; jantar com o cliente; pernoitar com o cliente; acompanhar o cliente em festas

5) PROMOVER A ORGANIZAÇÃO DA CATEGORIA: (manual da puta petista militante e policitamente correta)

– Promover valorização profissional da categoria; participar de cursos de auto-organização (no MST – Movimento Sem-Terra?);

– participar de movimentos organizados (se filiar ao PT?);

– combater a exploração sexual de crianças e adolescentes;

– distribuir preservativos (é puta ou agente sanitário do posto de saúde?);

– multiplicador  de informação (em que programa de “qualidade total” mesmo?);

– participar de ações educativas no campo da sexualidade


Para o exercício do vasto e estafante programa de atividades o site governamental prescreve uma de lista de Competências Pessoais que, além das mais toscas obviedades e do tom militante e politicamente correto, chega até a recomendações (como a última) que devem ter sido inspiradas na falta de discrição do denunciador do mensalão, o mensaleiro Roberto Jeferson:

demonstrar capacidade de persuasão; demonstrar capacidade de comunicação;

– demonstrar capacidade de realizar fantasias sexuais; demonstrar paciência; planejar o futuro;

– demonstrar solidariedade aos colegas de profissão; demonstrar capacidade de ouvir;

– demonstrar capacidade lúdica;

– demonstrar sensualidade;

– reconhecer o potencial do cliente;

– cuidar da higiene pessoal; manter sigilo profissional.

Por fim, a coisa se encerra da forma mais fordista possível. Como se se tratasse da execução um trabalho industrial, eminentemente mecânico e robotizado, figura, sob o título Recursos de Trabalho, uma linda e cretina lista de ferramentas e utensílios necessários à atividade:

guarda-roupa de trabalho;

– preservativo;

cartões de visita (por acaso é advogado ou corretor de ímóveis?); documentos de identificação (pra quê, mesmo?);

– gel à base de água; papel higiênico (!);

–  lenços umedecidos (eu, hein?);

acessórios; maquilagem;

álcool (não quero nem imaginar o que a profissional do amor vai fazer com isto!);

celular e agenda (este tipo de “empresária” deve ser muito “ocupada”, mesmo!).

Não estivéssemos vivendo os tempos mais surrealistas possíveis da Hístória nacional (em que uma ex-guerrilheira e um ex-líder estudantil radical disputam pra ver quem vai ser o melhor capacho do imperialismo burguês no Palácio do Planalto) e seria inacreditável que a imbecilidade burocrática do fascismo petista tivesse chegado ao minucioso refinamento de produzir a cartilha das “Normas Brasileiras de Técnicas do Trabalho Sexual”! Mas a coisa está aí, pra quem quiser ver e zurrar de quatro! Já que a vida do leitor, na média, deve ser de uma atroz e monótona tristeza, aproveite a piada de mau gosto da turma Inácio e ria com a retumbante besteira hierática e compenetrada como “pracinha” veterano da Segunda Guerra Mundial em desfile de 7 de setembro!

Aliás, por que não fazer constar da CBO a profissão de apontador do jogo do bicho ou aviãozinho de tráfico, também?

Ubirajara Passos