De como não assisti ao show do Zé Ramalho


Houve uma época, nos velhos tempos da República do alemão Valdir, que, tendo o Rogério Seibt retornado a Santa Rosa, e o baiano Luiz, se casado (e se afastado dos amigos), os frequentadores do apartamento de Petrópolis se restringiram ao próprio Valdir, a mim e ao alemão Ale, com o qual eu costumava varar as madrugadas de sábado para domingo enxugando um litrão de fanta com uma vodka de garrafa plástica (que era o máximo que nossos escassos reais permitiam), enquanto o Valdir (na época se tratando com a Dileusa e com pisquiatra e, portanto, se mantendo abstêmio) roncava solenemente.

Pois nestes dias em que a minha carteira andava mais vazia que cabeça de periguete fanqueira, mesmo assim me cotizei com o Alemão Valdir e compramos ao salgado preço (para a época) de R$ 100,00 por cabeça os ingressos para o show exclusivo, de uma hora de duração, que o Zé Ramalho daria no auditório Araújo Viana, numa sexta, em Porto Alegre, incluindo além dos nossos o do Ale.

Durante uma semana inteira, entusiasmado, eu não falava em outra, perturbando à farta o ouvido dos estagiários da Contadoria Forense com o fato de que eu iria a um show do “Raul Seixas” (apesar de me policiar, trocava a cada vez o nome do cantor), ouvindo de volta a informação de que para tanto só fosse à mesa branca, pois este há mais década já passara por outro lado.

Quando, finalmente, chegou a noite esperada, entretanto, o Valdir e o Ale (que embora cursasse radiologia na época já manifestava os pendores culinários que o levariam à futura profissão fora do Rio Grande, ao invés de agilizarem-se, resolveram, justo próximo da hora do espetáculo (que se iniciava por volta das 9 h) fazer uma senhora janta, com dinheiro a porco assado, sob os meus protestos – contestados com a frasezinha: “show de rock sempre atrasa!”.

Assim, quando os glutões inveterados já haviam satisfeito sua “larica” sem maconha, e cedendo aos meus rogos, e chegamos ao Araújo já eram quase dez horas da noite e o resultado foi darmos com a massa do público saindo port’afora, um amigo do Ale escorado na saída, dizendo que o show (que já havia pontualmente terminado) estava muito bom.

Na volta, ainda tentei recuperar a noite e convidei a dupla para fazer algo de útil e prazeroso na extinta Sauna La Luna (puteiro da Barão do Amazonas), mas diante da recusa, tive de me contentar em sorver algumas long neck de Brahma Extra, compradas em qualquer posto de gasolina no caminho.

Foi assim que, por causa do porquinho gordo (e quem sabe por vingança do gaiato fantasma do roqueiro), não pude estar presente ao show do Zé Ramalho e, de certa forma, “assisti ao show do Raul Seixas”, que sendo realizado por fantasma ninguém viu mesmo!

Ubirajara Passos

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“Recuerdos”


No tempo em que as luzes nasciam no fogo
Em que os candieiros ardiam encharcados
Na embriaguez da querosene,

As noites guardavam profundos mistérios
E as sombras espessas abrigavam, gratuito,
Em capotes pesados os velhos “assombros”.

No tempo em que a música nascia nos dedos
Dos menestréis rústicos, vibrando nas cordas,
Em que o sopro das flautas fazia dueto
Com o minuano gélido que nos arrepiava

Tudo era menor
E o tempo, mais lento,
E vivíamos mais próximo da essência de nós mesmos.

Gravataí, 3 de janeiro de 2016

Ubirajara Passos

A última canção


Meio-dia e meia de uma tarde quente de final de primavera, para ser mais exato, 9 de dezembro do ano passado. Aproveitando o horário do intervalo, o Oficial Escrevente de um Foro da comarca da serra gaúcha, nas horas vagas ilustre músico honorário de uma banda de quarentões classe média (funcionários públicos e profissionais liberais), está na loja de instrumentos musicais comprando encordoamento para o seu violão.

Absorto, sentando na banqueta acolchoada, junto da velha janela de vitrais, com aquele ar estranho de quem pegou um trem pra Marte e esqueceu de pagar a passagem, coloca as cordas novas e vai afinando o instrumento, repetindo, com curtas pausas, cadenciadamente os gestos e tiques típicos de músico experiente que começa a abrir as portas da mente para as notas e vai nelas se aprofundando, até se deixar tomar pela influência de Apolo, numa verdadeira obsessão do deus grego.

Aproveitando a cortesia da casa, que, na esteira da velha tradição imigrante européia, faz questão de manter o espaço informal no canto da sala para os improvisos dos clientes, deixa-se possuir, de vez, pelo espírito da música e, mergulhando no próprio ser, começa a executar Blackbird, do velho mestre Macca (Paul Mcartney para os leigos na gíria musical), quando sente ao seu lado a presença de um “encosto” bem menos diáfano que Apolo ou Baco (cuja inspiração também se fazia presente, embora até agora não tenhamos mencionado, afinal não poderia faltar, em plena serra gaúcha, de colonização italiana, a taça de vinho colonial servida por cortesia do dono da loja repousando na mesinha circular em frente).

A figura magra, de uns 7o anos bem vividos, pele amarela como a de uma estátua de museus de cera, vestida a rigor, apesar do aspecto puído e vetusto do terno, empertigando uma camisa de riscado e uma calça de tergal desgastados pelo uso, mas perfeitamente frisados a ferro, sentou-se a seu lado, sacudida por uma rápida tosse seca, e ficou ali, com um olhar suplicante e embevecido lhe observando, irritantemente.

Quebrado o encantamento da poesia interna, do improviso musical no meio do dia atabalhoado a lhe dar instantes sagrados de sossego e embevecimento longe de tudo e de todos, o músico de horas vagas, funcionário forense burocrático de todo dia, já ía se dispondo a se erguer e foi atalhando, ríspido, sem mais nem menos:

– Meu senhor, se espera escutar música, está perdendo o seu tempo. Daqui não sai nada, não, senhor. Estou só tentando afinar meu violão no afinador eletrônico, onde qualquer débil mental consegue.

Polidamente, de uma educação de moça virgem ingênua de internato, o velho lhe estendeu a mão e apresentou-se:

– Desculpe, meu senhor, se o interrompo. É que já fui cantor de boates há muito tempo. Já estou aposentado, não tenho mais saúde pra continuar. Mas eu ía passando por aqui e, não sei por que, dei com o senhor, e resolvi entrar. Faz pouco tempo operei um câncer na laringe – e indicou a marca do catéter recém retirado – e como o vi tocando tão concentrado, pensei que poderia, quem sabe, acompanhá-lo e relembrar um pouco do prazer da mocidade.

– Não sei mais quanto tempo me resta  e é raro ver um músico com a tua paixão. Mas se o senhor está incomodando, não se preocupe. Me retiro. Só quero lhe dar meus cumprimentos pela virtuosidade.

E, abaixando-se numa saudação de palco, estendeu ao nosso protagonista ambas as mãos, que enlaçou nas dele, quentes de um calor febril.

Constrangido, o nosso músico amador, deixou-se comover e, esperando, ainda, qualquer porcaria executada por qualquer maluco, como estes que passam a vida brincando de viajantes, com chapéu de palha e mala feita de caixa de sapatos, crivada de recortes de cidades famosas, na Praça da Alfândega, em Porto Alegre, recuou de sua rejeição inicial:

– O que é isto, companheiro? Esteja à vontade. Afinal a casa não é minha, é de todos nós. O que vamos tocar?

E o velho, como se não o tivesse ouvido, não deu resposta, mas abriu o peito e se pôs a executar uma canção de Lupicínio, a que se seguiu outra. Ambas conhecidíssimas do nosso herói, que muito as tocara quando, ainda rapazote, animava bailes do Clube dos Coroas, na Avenida João Pessoa, na capital gaúcha.

O importuno cantou, e cantou muito! Com muita técnica e uma melodia absolutamente impecáveis e arrebatadoras, que jamais poderia se imaginar estivessem saindo de uma garganta condenada, mas sobretudo com uma sensibilidade absoluta, inatingível, inatacável e irrepetível. E atingiu o auge, num arrebatamento digno de coro gregoriano em catedral gótica, em plena Idade Média, quando o quarentão, comovido, o acompanhou ao violão, fundindo-se ambos numa estranha sinfonia, destas que nos visitam raras vezes na vida, na meia idade ou na adolescência, e nos transportam a mundos indizíveis e maravilhosos, que deixam uma saudade amarga, mas adorável para o resto da vida.

Olhos marejados, cara de cachorro que vomitou no colo da madame, o nosso músico de horas vagas não soube o que dizer quando o cantor, tão delicado e circunspecto como entrara, despediu-se, sem maior explicação:

– Meu guri, tocaste muito, e muito bem. E me deste um grande presente de Natal executando estas canções. Até logo!

E afastou-se, trôpego, mas de espinha ereta e digno, dobrando na primeira esquina.

O violonista, abestalhado, deixou-se ficar ali, sentado no canto da loja sem saber o que pensar, nem o que fazer. Por pouco não ceifara a felicidade enorme daquele homem que, por tão pouco, e com tanto mérito, parecia ter atingido o paraíso de um instante único, talvez o último digno de sua vida, verdadeiro “canto de cisne”. E pensou que, talvez, tivesse sido visitado por algo bem menos corriqueiro que um velho virtuose aposentado pela absoluta impossibilidade física de prosseguir no ofício. Quem sabe ele, que apesar de doar-se como um louco nas raras ocasiões possíveis em que se encontrava com a música, mas que vivia reclamando e se enfronhando nas piores neuroses das mesquinharias de repartição e do lar, no dia-a-dia, não recebera uma visita de outras dimensões, que viera testá-lo no seu amor à música, ao ser humano e à vida. Em Deus não acreditava, menos por razões político-ideológicas do que por puro empirismo racional sem sobressaltos, mas algo estranho ocorrera ali. Parece que estivera na presença do próprio Apolo, ou quem sabe não era, afinal, Papai Noel?

Ubirajara Passos

Você merece!


É muito raro eu publicar textos de outros autores neste blog. Que me lembre, há apenas, até o momento, duas ilustres exceções (o hino “A Internacional” ,  um capítulo do “Solo de Clarineta” do Érico Veríssimo e um poema do meu amigo coronel de bombeiros aposentado em Santa Maria), além, é claro da carta-testamento de Getúlio e discursos de Leonel Brizola e Osvaldo Aranha.

Mas, como no desfecho das duas últimas crônicas das Aventuras do Peruca (e em algumas outras desta minha linha) acabei por cometer, por culpa do colaborador que me enviou os textos prontos para editá-los e publicar, o triste pecado não do plágio, mas da cópia escancarada de piadas já publicadas por outrem na internet, abro hoje aqui mais uma exceção. Esta bem caracterizada e identificada pela assinatura de seu autor. 

Se algum leitor está curioso em saber quem foi o engraçadinho que me mandou as histórias com plágios no final (sem que eu me desse por conta), vai ficar na curiosidade. Adianto somente que se trata de um personagem da turma do Peruca que já apareceu em foto neste blog. Ganha uma edição encadernada do “Bira e as Safadezas…” quem enviar comentário e acertar seu nome ou apelido.

De resto, mesmo com o deslize cometido, o agradeço pela colaboração, deixando claro que é o único que me envia alguns argumentos ou textos, exclusivamente das histórias do Peruca, que tenho aproveitado ora quase que integralmente (é o caso dos dois últimos citados e da parte principal da Multa do Law Pirâmide da 59) ou simplesmente reescrito a partir da idéia original, com uns tantos acréscimos  (Peruca e a Loira no Cio e Peruca Derrapante nas Curvas de Glorinha são o caso). As suas outras colaborações foram algumas entradas do Almanaque do Peruca publicadas no segundo semestre do ano passado.

Homenagem feita, vamos à introdução do objeto deste post. Trata-se da letra de um samba gravado em 1973, no auge da repressão, e da exaltação de mídia, da ditadura militar, época em que eu, filho de professor público brizolista (que tratava de se manter o mais incógnito possível, por medo da perseguição), por incrível que pareça, usava, aos 8 anos de idade, uma camiseta branca com a estampa vermelha “Eu te Amo meu Brasil”, e assistia com meu pai às reportagens de Amaral Neto (“Amoral Nato” como foi apelidado pela intelectualidade da oposição de esquerda) transmitidas da construção da rodovia “Transamazônica”, na recém comprada televisão Phico 21 polegadas “semi-transistorizada”, preto e branco, sem ter a menor consciência de nada daquilo em que estas coisas implicavam.

E o autor da letra e da música, que foi também seu primeiro interpréte (aliás, o título dela identifica o disco “long play”, que foi o primeiro sucesso do sujeito) era nada mais que o fantástico Gonzaguinha (22/9/1945-29/4/1991), filho do “rei do baião” Luiz Gonzaga com uma cantora da noite (Dancing Brasil) que morreu tuberculosa,  Odaleia Guedes dos Santos, criado por seus padrinhos e que, no início dos anos 1970 não era ainda o “cantor/compositor” famoso por textos mais soltos e românticos, e mais próximos da aceitação do senso popular comum e da mídia “global”, como  O que é o que é, Começaria tudo outra vez, Grito de Alerta ou Explode Coração.

Gonzaguinha, que participou entre 1968 e 1970 dos famosos festivais estudantis de música popular brasileira, juntamente com Ivan Lins, se dedicava à música de protesto, praticamente revolucionária, o que lhe rendeu os óbvios problemas com os órgãos da repressão política da ditadura fascista brasileira (como o DOPS – Departamento de “Ordem” Política e Social).

E o texto aqui publicado é uma síntese de tudo que malucos como eu, ou meus companheiros do Movimento Indignação, temos discutido e publicado nos últimos anos, merecendo vir à tona, atualíssimo que é, como um alerta e uma reflexão escancarada para todos, anarquistas, socialistas e comunistas revolucionários, brizolistas ou algumas viúvas do PT, e do povão em geral. Dedico-o, mesmo, a meus colegas, trabalhadores do Judiciário do Rio Grande do Sul, especialmente àqueles que não tiveram a coragem suficiente para votar na chapa por mim liderada nas últimas eleições do Sindjus-RS (o que faço sem nenhum espírito de revanche ou dor de cotovelo, mas por puro interesse desprendido, de funcionário comum, apesar de líder, nas nossas condições de vida e trabalho). Chega de enrolação. Vamos ao poema, ou melhor ao samba: 

COMPORTAMENTO GERAL

Composição: Gonzaguinha 

Você deve notar que não tem mais tutu
e dizer que não está preocupado
Você deve lutar pela xepa da feira
e dizer que está recompensado
Você deve estampar sempre um ar de alegria
e dizer: tudo tem melhorado
Você deve rezar pelo bem do patrão
e esquecer que está desempregado

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você deve aprender a baixar a cabeça
E dizer sempre: “Muito obrigado”
São palavras que ainda te deixam dizer
Por ser homem bem disciplinado
Deve pois só fazer pelo bem da Nação
Tudo aquilo que for ordenado
Pra ganhar um Fuscão no juízo final
E diploma de bem comportado

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal

E um Fuscão no juízo final
Você merece, você merece

E diploma de bem comportado
Você merece, você merece

Esqueça que está desempregado
Você merece, você merece

Tudo vai bem, tudo legal

O NOVO HINO NACIONAL


Há coisa de uns dois meses, uma amiga (que me inspira o mais forte desejo de corpo e alma, embora não tenha achado coragem, até o momento, para abordá-la) me enviou, via e-mail, o mais novo sucesso da parada musical, que saltou de número em espetáculo teatral ao mais badalado vídeo e arquivo sonoro da internet, e rendeu à sua intérprete, merecidamente, até entrevista no Programa do Jô Soares.

O estouro foi tão grande que qualquer dia seu letrista será guindado a imortal da “Academia” (no que terá, certamente, mérito bem mais legítimo que o incendiário de marinbondos, o “amapaense” de São Luís do Maranhão, Sarney “Tem que dar Certo”). E, se bobear, nestes tempos em que o capitalismo yankee e europeu transforma tudo em propriedade e patenteia até capim da Patagônia, os brasileiros das mais diversas classes vão ter de pagar direitos autorais por berrar ou sussurrar, de becos a palácios, as frases centenárias do poema.

Não entendi, mesmo, como a melodia ainda não foi transformada em tons de campainha telefônica (ou estarei desinformado?), e alguma fábrica de refrigerantes não utilizou-a como jingle para incrementar as vendas!

O sucesso vem crescendo tanto que já suplantou, de vez, o “Rei” Roberto Carlos. E qualquer dia será cantado em seminário da FIERGS, curso de qualidade total, formatura, enterro, batizado, casamento, recital da Ospa no Teatro São Pedro (por pouco não abriu os Jogos Pan-Americanos), ou encerramento de culto da Igreja Universal.

E, dada a nossa desgraça generalizada, que o Inácio e seus capachos planejam piorar exponencialmente, a vibrante musiquinha (que o alemão Valdir, me disse, já adotou como mantra de relaxamento, ou “fashion” brado de protesto, além de recomendar como técnica reichiana para cura das reinas emocionais da humanidade) bem que poderia ser escolhida pelo povo brasileiro, em homenagem ao “paternal” e majestático “Inácio dos Nove Dedos”, como o novo hino nacional: Vai tomar no cu,/ Vai tomar no cu, /Vai tomar no cu,/ Bem no meio do seu cu!/ Vai tomar no cu,/ Vai tomar no cu, /Vai tomar no cu,/ Bem no meio do seu cu!/ Vai tomar no cu/ Vai, vai, vai, vai,/ Vai tomar no cu/ Vai, vai, vai, vai,/ Vai tomar no cu,/ Bem no meio do olho do seu cu!”
(http://br.youtube.com/watch?v=dHpSCHxb780)

Ubirajara Passos