SERÁ QUE A TAM É RACISTA?


O meu amigo Moah (o jornalista mais pirado e revolucionário que já conheci) me enviou, ontem, um e-mail, sob o título “A TAM não gosta de negros”, em que alerta que ” um querido jornalista branco e de cabeça igualmente branca me avisa que para a TAM não existe religiosidade negra no Brasil. Para isso, basta ler o anúncio da Empresa publicado hoje nos jornais, informando que realizará um culto ecumênico em memória das vítimas no acidente com o vôo 3054. Diz o anúncio que estarão presentes autoridades religiosas representando os budistas, católicos, luteranos, judeus, assim como os anglicanos, evangélicos e os muçulmanos. Nenhum representante das distintas matizes da religiosidade da maioria da população brasileira foi mencionada. E nada mais foi escrito ou dito, sequer o local e a data do ato. Também não se sabe se foi solicitado algum enterro de sapo, com a boca devidamente costurada, em alguma cabeceira de pista de pouso e decolagens de aviões.”

Mas a coisa é muito pior do que supõe o Moah. A verdade pura e simples é que, no Brasil, umbanda e candomblé (as duas correntes predominantes da religião africana) são tidas não na conta de religiões, mas como curiosidade folclórica ou, no máximo, manifestações “primitivas” e “animistas” ou “feitiçaria”, pela maior parte da população (ainda que muito branco oficialmente católico, e devidamente endinheirado, que comunga publicamente deste pensamento, não resista à tentação e se utilize, às escondidas, das “mandingas” do batuque para derrotar seus inimigos, se vingar de chifre ou recuperar o seu objeto de amor extraviado).

Sou ateu, e ex-católico, e para mim, anarquista professo, as religiões, como qualquer forma de pensamento padronizado e dogmático, não passam de sistemas de condicionamento profundo da mentalidade dos indivíduos, destinado o mais das vezes a manter as criaturas sob o jugo da classe dominante (quando não do próprio clero, como é o caso da vigarice pura e sem intermediário das igrejas “pentecostais” do estilo “Igreja Universal do Reino do Deus”). Mas, apesar deste aspecto, não se pode negar que as diferentes correntes religiosas atendem a profundas dimensões transcendentes da sensibilidade humana, além de qualquer discurso formal racionalista, e canalizam, muitas vezes, as capacidades extra-sensoriais e parapsicológicas da criatura humana.

Tanto é verdade que eu mesmo, ateu libertário e branquérrimo descendente de portugueses (com um nariz que não deixa disfarçar uma certa influência genética semita, provavelmente arábe, como supõe meu pai), já freqüentei bastante as terreiras de umbanda de Gravataí e lá pude constatar a grande vantagem da religião dos orixás, exus, caboclos e preto velhos sobre os credos judaico-ocidentais, islâmicos, indianos ou do Extremo-Oriente. Ao contrário destas religiões, as divindades africanas não são seres abstratos e inacessíveis, em nome dos quais o “sacerdote” organiza o pensamento e o comportamento dos fiéis para os fins da moral autoritária exploratória, mas se apresentam como entes vivos e palpáveis, manifestados no “cavalo” (o membro da terreira que o “incorpora”) em transe, com os quais é possível dialogar e encaminhar os problemas do consulente “ao vivo”.

Não há (salvo nos casos de vigarice do “pai ou filho de santo”, de que os cultos africanos, assim como as crenças cristãs ou outras, infelizmente não estão isentos) oráculo mais eficaz e legítimo do que a clarividência, a pré-cognição e telepatia manifestadas por um religioso africano em transe hipnótico.

As próprias “entidades” são manifestações típicas dos arquétipos profundos do inconsciente humano (como Ogum, o “guerreiro heróico”, Oxum, a “grande mãe”, Xangô, o orixá da justiça e das letras, ou os “Exus” – pomba-gira, zé pelintra, ciganas, o Exu-Rei e outros -, representantes dionisíacos da sensualidade, da irreverência e da liberdade indomável), exatamente como os deuses e mitos da antiga religião greco-romana e celta (em que a psicanálise freudiana e a psicologia junguiana identificaram os grandes conflitos e padrões emocionais da psiquê humana). Ou como os mistérios do mundo dos espíritos dos índios do Novo Mundo.

Entretanto, ao inverso de mitos e deuses gregos, nórdicos e druídicos, até da bruxaria e da magia ocultista ocidental (seriamente estudados e enaltecidos em seus conteúdos piscológicos e antropológicos pelos “intelectuais” profissionais do Ocidente), a “macumba” é vista pela mentalidade oficial e dominante como uma manifestação menor da espiritualidade. Muito embora tenha conteúdo paralelo, e bem mais rico e expontâneo, a tais religiões xamânicas e/ou politeístas (classificação a que a própria Igreja Católica, oficialmente monoteísta, não escapa, com sua constelação de “santos”, que não são mais do que “deuses” menores, daí o sincretismo óbvio que se estabeleceu com as religiões africanas), o “saravá” é relegado ao desconhecimento e à caricatura por não pertencer ao universo do imperialismo político-cultural.

Qual a diferença entre Ares (ou Marte) e Ogum? Hermes (ou Mercúrio) e Xangô? Afrodite (ou Vênus) e “Iemanjá”? É que os primeiros (decantados na cultura oficial ensinada nas escolas) são brancos, europeus e paridos pelas nações imperialistas (que praticaram o escravismo explícito, nos primeiros séculos de desenvolvimento do capitalismo). Os orixás, além de não pertencerem à cultura “escrita” (e não terem sido celebrados por empolados poetas gays como Homero – não sei se era puto, mas a veadagem era moda entre os gregos antigos), são deuses de povos oprimidos e explorados à exaustão, cujas multidões de gerações e gerações foram queimadas na fornalha da engrenagem colonial, no continente americano e na própria África, para “adoçar a boca de europeu” (como dizia Darcy Ribeiro) e propiciar o luxo de balofos e imbecis aristocratas e burgueses ocidentais. Para que estes senhores pudessem descansar seus ilustres traseiros em fofas almofadas, sem o incômodo de suar ao sol escaldante para “enricar” e brincar de deuses, desgraçando a vida da “ralé” numa penada (quando sabiam escrever!)

Ubirajara Passos

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