Duplo soneto de um duplo despertar…


Mais um poema relegado ao “pó” da gaveta virtual, resgatado na faxina informática deste final de ano:

Duplo Soneto de um duplo despertar…

Desperta, camarada, que chegou a hora!
Em meio à escuridão das multidões ignorantes,
Ressurge a memória sepultada sob as toneladas
Da maledicência hipócrita e cruenta!

Agora sabemos que não era utopia,
Nem entusiasmo fantasista e inconsequente
Que ao sacrifício tantos arrastaram.

Se no Brasil a massa obreira, estuprada
Nos seus direitos de “viver em paz “,
Só desejava e foi interditada
Antes ainda que a jornada principiasse
No Chile, cada camarada
Experimentou concretamente um pouco
Da construção da nova vida em liberdade!

Nas duas pátrias um sono malsão
Faz prisioneiras as consciências desde então,
Mas uma brisa gélida e ligeira
Vai-se se impondo, suave e destemida.

No sul do sul do mundo a igualdade
Há de tornar a cada um digno e pleno
Porque iguais são os sofrimentos
E eles inspiram-na, revolta ensandecida e sagrada!

“Não sou apóstolo, não sou mártir”, nem profeta,
Sei “que a morte é melhor que a vida
Sem honra, sem dignidade, e sem glória”

Mas sei que em “cada gota do sangue” dos sacrificados
Pelo direito a uma vida humana,
Manteve-se e está frutifican
do em nossas consciências a “vibração sagrada”!

Gravataí, 7 de janeiro de 2013

Ubirajara Passos

O papel do sindicalista


O papel do sindicalista
não é suplicar, mas exigir!

Não é acomodar seus liderados,
mas despertar a rebeldia e a inconformidade.

Não é tecer considerações
sobre os motivos do patrão para pagar-nos
o sacrifício inumano do trabalho
com as migalhas da desfaçatez.

O papel do sindicalista não é bajular
os poderosos, nem iludir a peonada
na esperança de um patrão benevolente.
Não é dourar o desânimo e os equívocos
do trabalhador, mas sacudi-lo de seu sono!

Não é postar-se a espera que os direitos
de vida digna e labor humano
caiam do alto na abnegação

de um senhor privilegiado cujo fausto
é produto da necessidade
nua e feroz que tortura nossas vidas.

O papel do sindicalista
não é reforçar os pendores conformistas
da peonada que se vê perplexa
mas, compreendendo o desemparo, despertá-la
com a luz cortante da realidade
e conduzi-la à luta sem fronteiras!

É erguer-se da planície, junto à massa,
e tomar de assalto as fortalezas
Do privilégio sem nome que relega-nos
À condição miserável de rebanho.

 

Gravataí, 13 de abril de 2015

Ubirajara Passos

 

 


Dos nossos dias tormentosos


Poema auto-explicativo escrito na madrugada de 20 de setembro de 2014 (casualmente data do 179.º aniversário da Revolução Farroupilha):

Quanta tristeza e embaraço,
Vidinha sem sal, porraço
De chatice, espelho de aço
Em que se miram os palhaços
Ciosos de um glamour falso.

Quanto fuxico sem graça,
Roubalheira óbvia e pura,
Falta pura de cachaça,
Besteira cheia de si.

Este é o Brasil da mídia,
Da política medíocre,
Que esquece a opressão da peonada,
Só vê corruptos, raça,
Transforma tudo em farsa,
Medíocre caricatura
Que só se exorciza a laço!

Gravataí, 20 de setembro de 2014

Ubirajara Passos

 

Notícias do lado de cá


Aqui estamos,  camarada
O mundo é o mesmo.
A Terra gira,
Seca, sob o sol.

Vertiginosos passos
Lomba abaixo
Vão nos conduzindo,
E o burburinho urbano continua
A nos tontear
Entre os ruídos mil
Da coletiva insanidade.

Aqui estamos
Nada mudou na superfície.
Sem ti os céus ainda estão crivados
De quero-queros e sabiás,
Neste final de agosto
Que embebedou-se e se vestiu de primavera. 

Nada mudou.
Ainda há choro e risos.
Cada segunda-feira ainda há trabalhadores
Indo arrastar-se, trôpegos, à faina.

Os escândalos de sempre
E a ficção contaminada
Do pior que apodreceu a alma
Ainda habitam as mentes
E as telas eletrônicas.

Donas de casa ainda de se afundam na rotina
E criancinhas ainda encontram um mundo novo
Num simples caracol de forma diferente.

Nada mudou.
Somente a nós, que contigo viajávamos
Nesta custosa e longa peregrinação,
Foi arrebatada a metade de nós mesmos,
Que foi acrescentar-se à terra
Para nutrir as sementes de vermelhas flores,

Assim como continua
A alimentar em nossa mente a rebeldia
E o desejo desastrado e incontrolável
De vida, prazer e liberdade.

Gravataí, 22 de agosto de 2014

Ubirajara Passos

 

Respeitável manifestação de um bom burguês puto da vida


Desceu à rua completamente embriagado
E pôs-se a girar, a gritar e a cantar,
Jogando as roupas longe, para todo lado.

Nu, completamente nu,
Giravam ele e o caralho mole,
Dando laçaços como rabo de cachorro.

Era uma figura burlesca e inusitada.
Dava gritinhos, corcoveava, foi-se
Num tropel louco, pelo largo afora,

Mas ninguém riu-se, absolutamente, não se viu
Um único olhar reprovador a sua volta.

Porque, desnudo na alma e em suas carnes,
Vestido estava do mais considerado
Na honrada sociedade hipócrita!!!

Bunda de fora, cu a mostra, corcoveando
O enlouquecido cidadão cumpridor de seus deveres
Trajava ainda a superstição brava
Do “respeito” irracional e reverente:

Trazia à mão negro chapéu de feltro,
Velha gravata floreada no pescoço,

E, garantia total de seriedade,
Uns velhos óculos sem vidro sobre as fuças!

Gravataí, 7 de fevereiro de 2013

Ubirajara Passos

Soneto do Último Dia


Último poema da Heptalogia de Novembro, composto ontem à tarde:

Soneto do Último Dia

 Estranho domingo.
Repouso compulsório.
Artificioso paraíso.

Tumba da inteligência ,
Insulso purgatório
Do humor vívido, 

Único abrigo,à gente alquebrada,
Dos implacáveis furacões
Da lida besta, insana,
Também és tédio, riso amarelado.

E o teu proveito maior seja, talvez,
O agitado torpor da cervejada,
Um modorrento passeio, a sesta morna,
Em um perdido quintal,na tarde embandeirada!

Gravataí, 3 de novembro de 2012

Ubirajara Passos

Soneto do Quarto Dia


Quinta-feira,
A ceia,
Os trinta dinheiros.

As conspirações,
A tocaia,
Os
embustes.

Nada como um vinho
Em noite de lua,
Na vã tentativa
Da evasão mágica.

Dia pra sonhar com revoluções,
Em meio ao massacre do trabalho escravo,
Sob o olhar quente
Da Estrela D’Alva.

Gravataí, 28 de novembro de 2012

Ubirajara Passos