A OBRA E O AUTOR


À guisa de crônica, publico hoje uma rápida reflexão que me veio
à mente, sem maiores compromissos, há dois verões. Amanhã espero ter algo mais interessante para os fiéis leitores deste blog.

A Obra e o Autor

     Todos contamos histórias. E nelas a vida se recorta em sua contraditória e multifacetária complexidade para adquirir contornos simples e definitivos de lenda.

     A memória – não só a escrita, mas mesmo mesmo a verbal – adquire, frente à crueza dos fatos, uma magia toda especial, que seleciona os aspectos mais convenientes ou interessantes e, principalmente, aqueles que mais nos impressionaram e repercutiram em nosso âmago.

     Assim, a nossa visão da vida, por mais objetiva que seja, é caudatária de nosso imaginário e estará sempre impregnada das sensações mais próximas da nossa individualidade subjetiva. Não apenas somos o que pensamos, mas, sobretudo, pensamos o que somos, e somos o que sentimos.

     Há uma cadeia infinita de silogismos, emoções e sensações físicas a condicionar-se mutuamente, num vai e vem inexorável, e a compor a identidade subjetiva de nossos seres.

     Mas a única certeza que podemos ter neste labirinto, determinantes e determinados somos, é que as nossas histórias – a versão concreta do que assistimos, fizemos e sofremos, lançada ao olhar de outrem – serão, antes de mais nada (e de seu conteúdo objetivo) o espelho de nós mesmos: das emoções e sentimentos, dos modos de encarar e reagir aos fatos, mais autênticos, arraigados e profundos do nosso próprio ser.

Gravataí, 16 de janeiro de 2005

Ubirajara Passos

FRUSTRAÇÃO


Estive hoje à noite em reunião do Diretório Municipal do PDT de Gravataí, onde expus minhas posições em relação à adesão do partido ao governo Lula, o que penso sobre o PAC e suas principais fontes de custeio e, portanto, a minha disposição de me desfiliar para constituir um movimento legitimamente socialista e trabalhista extra-partidária, oposicionista e popular. Como a reunião se prolongou até às 11 horas, não pude escrever texto novo para este blog. Pelo que deixo os leitores na companhia de mais um poema conflituado e consciente.

FRUSTRAÇÃO

Eu tenho, dentro em mim, toda a feroz vontade
De amar, de envolver-me até o abismo
Nas paixões mais comuns ou metafísicas.

Minh’ alma palpita, angustiada e tonta,
No torturante desejo de abraçar o mundo.

Mas cada ímpeto de lançar-me ao fogo,
Na aventura romântica ou revolucionária,
Vai-se quebrar contra o muro indiferente
Do mundo preocupado em perpetuar-se
Por si e sem qualquer sentido.

Cada entusiasmo passageiro encontra
A minha fria e recalcada auto-censura,
A timidez cretina a estilhaçá-lo.

Gravataí, 7 de junho de 1997

Ubirajara Passos

MADRUGADA PERDIDA


Em maio de 2002 eu andava numa fase violenta de transição na minha vida. A minha grande paixão amorosa frustrada havia rendido alguns episódios em que a minha situação financeira me levara à insolvência completa e, por insistência do companheiro Valdir (o da República) eu iniciava uma psicoterapia, na qual me descobriria definitivamente DDA. No primeiro dia de consulta, vindo da cidade baixa eu passaria pela extremidade sul da Marechal Floriano, no centro de Porto Alegre, sem me dar por conta e o episódio inspiraria o poema auto-biográfico de hoje.

MADRUGADA PERDIDA.

Em meio à voragem dos tormentos do hoje,
Lançado em piparotes de uma angústia à outra,
Cruzei, indiferente, a velha rua
E, cavalgando as próprias histerias,
Subi a ladeira, sem reconhecê-la.

O sol ainda não se havia posto
E aquela sucessão insossa de lojinhas
Me entediava e nada me dizia.
Só a imponência gris do Sevigné
Sussurrou-me, íntima, onde me encontrava:

A Marechal Floriano das orgias
De álcool, discursos, muita putaria,
De sonhos de potência e falhas trágicas,
Sua face diurna comum e deprimente,
Como a das próprias putas nas manhãs,
Na claridade impiedosa, eu desconhecia.

Era a morena Marechal das madrugadas,
Das bravatas e transportes de prazer,
Do reino mágico de liberdade e êxtase,
Da independência malcriada da embriaguez,
A minha cortesã amada e preferida.

Desci a ladeira e fui em busca, em pleno dia,
Do meu primeiro templo do prazer
E ali encontrei não o “Bagdá”.
Havia em seu lugar um antiquário.

Quanta ironia! Também eu já era
Não mais o mesmo de uns poucos anos.
Como o extinto cabaré, me transformara,
Na frontaria irreconhecível
Do meu passado recente, mas distante.

Quem imaginaria o rebuliço,
Os gozos, as disputas, as loucuras,
A agitação bêbada e frenética,
Falsa, mas tão real dentro de nós?

Na fachada do velho casarão, na minha face
Não poderia mais se ler a alegria.

Tudo são cinzas, tudo hoje é passado.
A gravidade penetrou-me até os poros
E o antigo paraíso só existe
Na pálida memória, como o cabaré.

Porto Alegre, 18 de maio de 2002.

Ubirajara Passos

A MALDIÇÃO DO TEMPO


O assunto é pra lá de batido e cheira a discurso presunçoso de intelectualóide petista bêbado em boate gay chique da capital. Mas também que inspiração se espera de um domingo semichuvoso (aquele chuvisqueiro que vai e vem ao longo do dia) e frio para os padrões do mês, após um sábado de 40 º C às sete horas da tarde? (Morar no Rio Grande do Sul é foda, se algum leitor vive no Nordeste ou Rio de Janeiro e gostaria de experimentar as quatro estações do ano num só dia, ou em uma semana, venha pra cá que a gripe é garantida! Mesmo os gaúchos, volta e meia, apesar da total inconstância meteorológica em que se criaram, não resistem e acabam doentes.)

Mas o fato é que um dia destes me peguei “morto de inveja” dos grandes vegetais! Há árvores do tempo de Cristo, que, já provectas naquela época, assistiram ao cortejo da crucificação, e estão lá até hoje rindo da nossa cara de animais precários, pretensiosos e conflituados.

Há mesmo sequóias gigantes na América do Norte, cujos troncos, desenvolvidos ao longo dos milênios de sua vida, são tão grossos que é possível abrir um túnel neles para passar um carro, sem prejuízo de sua existência! Perto de uma árvore destas, a vida de um ser humano não equivale sequer a de um mosquito e, na nossa dimensão de tempo, a árvore é praticamente imortal!

Mas mesmo simples goiabeiras possuem uma vantagem enorme sobre nós humanos! Pode-se cortá-las inteiras, que, desde que as raízes permaneçam intactas, o resto de seus corpos brota novamente, em tronco, galhos e flores novinhos em folha para viver nova vida. O máximo de regeneração que a natureza nos permite é a cicatrização da pele, o crescimento de unhas e cabelos (estes últimos são os brotos do defunto humano, continuam a crescer mesmo depois que seu corpo animal perde as funções e se torna máquina desativada).

Alguém pode argumentar, com toda lógica, que a aparente imortalidade de vegetais milenares é relativa e falsa. Imóveis e aferrados durante toda a vida a um ponto fixo do solo, seu metabolismo deve ser tão lento que, ainda que possuam qualquer coisa semelhante a uma mente consciente, os milênios de sua vida física não ultrapassariam o equivalente às décadas do nosso tempo psicológico sofisticado!

Mas, sinceramente, continuo achando que ser um vegetal milenar é o maior barato! Imaginem a “viagem” de umas destas sequóias, curtindo zilhões de cenas e alterações de cenários e personagens séculos a fora, a seu redor! E o que é melhor: vivendo ali, em cenário privilegiadíssimo em relação às “moscas humanas”, sem ter de fazer o menor esforço. É só existir no solo os nutrientes necessários, e ela pode ficar ali uma eternidade se espreguiçando, solenemente vagabunda, sem ter de se atarefar em desenvolver tecnologias avançadas que a aproximem da vadiagem ideal, nem explorar e subjugar suas semelhantes para ser vadia!

Seja como for, as nossas moléculas programadoras básicas (as ditadoras conhecidas pela sigla DNA) são extremamente ingratas e atrozes conosco. Não contentes em nos ter como mero veículo da propagação de sua identidade (os códigos genéticos), a semelhança daqueles insetos que vivem uma única noite, depois de um ano em estado de larva, e morrem depois de procriar (o paralelo é este frente a tal da sequóia californiana), nos condenam, por sua programação até agora inexorável, à decadência após a idade fértil, que acaba nos levando à morte! Pois o envelhecimento, hoje se sabe, não é resultado do desgaste mecânico do organismo vivo ao longo do tempo (nossas células são permanentemente renovadas, em permuta constante com o meio ambiente – o que “envelhece” é a forma com que elas se organizam), mas do próprio plano arquivado nos genes!

O drama, entretanto, não está na transitoriedade de nossa condição animal. Duvido muito que uma barata sofra a desgraça emocional de sua finitude! O diabo é que, planejado ou não pela natureza, desenvolvemos consciência, e esta aspira necessariamente à imortalidade!

Ubirajara Passos

ENTRANHAS DO SER


Por falar em cachaça, nada melhor que um poema escrito na “República do Valdir”, já meio bêbado, numa modorrenta tarde de domingo, enquanto o alemão “Ale” viajava na internet e o alemão “Valdir” assistia a qualquer programa na TV a cabo. Como convêm a um bebum entediado o poema celebra os instintos mais primitivos, mais profundos do insconciente humano a que o goró dá acesso.

ENTRANHAS DO SER

Não do poço dos velhos mitos gregos,
Mas no fundo de um copo
Está a verdade!

Só o mergulho
Alcoólico, algo demoníaco,
Pode trazer-nos o remoto sentimento

Do caçador brutal,
Que, ao mesmo tempo,
É caça das feras temerárias.

Do ser que a pura adrenalina
Era a própria identidade
E não podia

Dar-se ao luxo da mente vadia
E pesar alternativas abstratas,
Nem criar falsas coragens,
Em que o medo

Jamais seria motivo de impotência
Ante a emergência da extinção irreversível,
Mas, da luta o próprio, e impensado, combustível:

Irmão da fúria e comparsa
Do instinto destruidor e agressivo,
No jogo visceral em que não havia prêmio,
Mas a sobrevivência era a única vantagem.

Porto Alegre, 4 de maio de 2003

Ubirajara Passos

CACHAÇA REVOLUCIONÁRIA


Estava lendo, hoje, uma matéria na revista Aventuras na História de fevereiro de 2007 quando descobri que os inconfidentes de Minas Gerais tomavam cachaça nas reuniões secretas em que conspiravam – que era servida por um irmão padre de Tiradentes, um tal de Domingos Xavier (proprietário de uma alambique que funciona até hoje no Sul de Minas).

O próprio Joaquim José da Silva Xavier (que possuia um gosto bem mais refinado para bebidas do que Cristo, cujo drink, quando de sua execução na cruz, foi um reles gole de vinagre) teria solicitado, como último pedido, aos carrascos, por ocasião de seu enforcamento: “Molhem minha goela com cachaça da terra”.

A matéria dá a entender que a cachaçada inconfidente era uma forma de exercício do protesto, a afirmação etílica formal da rebeldia nacionalista frente aos hábitos eurocêntricos e colaboracionistas da elite colonial, que preferia se encharcar das bebidas da metrópole portuguesa.

Mas o que escapa aos bem comportados redatores da revista é a dimensão ontologicamente revolucionária do porre.

O que normalmente se identifica como um sujeito sóbrio é o equivalente do chamado “cidadão honesto, de bom senso”. O que se traduz em linguagem direta e isenta de hipocrisias como conformismo ou acomodamento. O hábito daquele cara que, para não se estrepar, prefere seguir a rotina inerte da correnteza e jamais nadar contra a maré. O covarde que, diante da sociedade injusta e feroz (organizada por uns poucos cafajestes com a colaboração da maioria do rebanho), diante da vida precária e subjugada que levamos, procura se adaptar aos caprichos de patrões e chefetes a fim de preservar algum “conforto”, e evitar a óbvia retaliação.

Logo, para revoltar-se, para ter coragem de questionar e combater a redução universal das criaturas humanas a mero rebanho, é necessário uma certa gaiatice, o tom necessário de “irresponsabilidade” próprio da embriaguez mais tresloucada. É preciso sacudir a mente, num turbilhão mais veloz e fulminante que o condicionamento diário à “obediência”, capaz de nos catapultar a uma realidade completamente diversa do comezinho ruminar do surdo massacre diário em que se vive.

Se os nossos revolucionários do “iluminismo tupiniquim” tomavam cachaça não era para bancar, a moda do petismo politicamente correto de hoje, os paspalhões da revolta retórica, que esconde a submissão ao imperialismo! Neste mundinho onde todos nos encolhemos ao menor berro dos dominadores, como ratazana assustada, e vamos logo nos comportando nos canônes de zumbis “bem educados” e cumpridores do dever (para que o fantasma do desemprego não se torne realidade e percamos até mesmo a garantia do pão que o diabo amassa de cada dia) a capacidade de romper com a sacanagem institucionalizada e se contrapor a ela só é possível se nos elevarmos algumas doses além da vala comum da humanidade. Humprey Bogart, Tiradentes e o Grupo 30 de Novembro (sempre discutimos e escrevemos e agimos sob a “influência libertadora do álcool”) tinham razão: viva a cachaça (a cerveja, o uísque, o vinho… ou a simples rebeldia enlouquecida)!

E tu aí, o que estás esperando? Já tomou tua cachaça (tua vodka, teu conhaque, teu steinheger) hoje?

Ubirajara Passos

O DESEJO EM DOIS POEMAS


Os poemas seguintes possuem entre si a distância de dez anos, mas expressam fielmente a minha ingenuidade de romântico apaixonado vida a fora, e, apesar de despretensiosos e pouco originais, são feitos da própria paixão sensual e estética que me movem.

ÊXTASE

Amiga minha, terna,
Sensual, bela, fascinante,
Escultura sublime e estonteante
Torneada pelos deuses,
Na volúpia lancinante
Mergulhemos, cúmplices, envoltos
No ardor recíproco, delirante,
Denso da paixão.

Sejamos um do outro
A causa do êxtase profundo,
Doce padecer,
Gozar asfixiante,
Eufórico transe,
Do paraíso e do inferno síntese.

Gravataí, 28 de julho de 1993

Ubirajara Passos

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TEU OLHAR

Olhos belos, misteriosos,
Olhos brilhantes, inquietos,
Que emolduram teu semblante,
Envolto em fogo teu olhar,
Em um fulgor fascinante

Gravataí, 9 de fevereiro de 1983

Ubirajara Passos