José LOURIVAL Bergmann: uma vida a serviço do povo


Para satisfação dos leitores que tiveram sua curiosidade despertada pela crônica publicada no último domingo, segue aí uma rápida resenha da atuação do Lourival como padre e militante social e político, conforme as informações constantes de texto elaborado pelo padre Julio Cesar Werlang, da Congregação dos Missionários da Sagrada Família, publicado em 23 de março de 2009 na página do IFIBE na internet. O texto referido, assim como as fotos desta e da outra crônica, me foi enviado, hoje à noite, pelo irmão de Lourival, o meu amigo Valdir Antônio Bergmann (o Alemão Valdir das histórias deste blog).

O coloninho alemão José Lourival Lourival Bergmann nasceu em 15 de dezembro de 1953, no então município de Cerro Largo, interior do Rio Grande do Sul, filho de José Leopoldo Bergmann e de Elizabeth Bergmann.

Em 23 de fevereiro de 1967 ingressou na Escola Apostólica da Sagrada Família, concluindo o ensino médio em Rio Pardo – RS, em 1973. Entre 1976 e 1977 cursou Filosofia na Universidade de Passo Fundo, fazendo seu noviciado, em 1977, em Catuípe-RS, emitindo seus primeiros votos como sacerdote nesta cidade do Noroeste do Rio Grande do Sul em 12 de fevereiro de 1978,  e cursando, nos anos seguintes, Teologia na Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre, a PUC. É desde esta época, em 1979, que se destaca na militância política como defensor da causa popular, como um ferrenho defensor, então, da Anistia Ampla, Geral e Irrestrita (informação de seu irmão Valdir).

Fez seus votos perpétuos como religioso na cidade de Maravilha, no Estado vizinho de Santa Catarina, sendo ordenado Diácono por Dom José Gomes em 1.º de março de 1981, na Cidade de São Carlos, no mesmo Estado do sul do Brasil. Em 20 de dezembro do mesmo ano foi ordenado Presbítero pelo bispo Dom Estanislau Kreutz (autor de alguns livros sobre as Missões dos Sete Povos e o Martírio de Roque Gonzalez), na minha dileta cidade de Santa Rosa, no noroeste do Rio Grande, onde moram atualmente vários de seus irmãos, inclusive o Alemão Valdir.

Lourival no Jardim

Lourival, além da tradicional formação em Filosofia e Teologia, cursou também Especialização em Psicopedagia, em Viamão, na região metropolitana da Grande Porto Alegre, e em Sociologia, na PUC mineira.

Como noviço e padre católico exerceu as seguintes funções:

auxiliar na formação em Santo Ângelo – RS, de 1979 a 1981;
auxiliar de Mestre de Noviciado e Vigário Paroquial em Caibi – SC em 1982 a 1983;
Vigário da Paróquia São Carlos Borromeu em 1983;
Reitor do Escolasticado São José e professor do Instituto de Filosofia Berthier (IFIBE), em Passo Fundo (norte do Rio Grande do Sul) de 1984 a 1990;
– De 1990 a 1992 esteve liberado pelo Regional Sul III para atuar na Pastoral da Juventude e Pastoral Vocacional;
formador do Juniorado de Teologia na Vila Ditz, e Vigário Paroquial da Paróquia Sagrada Família, em Santo Ângelo (região missioneira gaúcha) entre fevereiro de 1992 e 1995;
Pároco em David Canabarro (região serrana do Rio Grande do Sul) entre 1995 e 1999 e novamente Pároco da Paróquia Sagrada Família em Santo Ângelo de 1999 a 2001;
Ecônomo Provincial (tesoureiro) em Passo Fundo, de 2001 a 2004 (época em que o conheci em Porto Alegre),  nos Missionários da Sagrada Família e no Instituto da Sagrada Família – ISAFA (entidade mantenedora do IFIBE) e, finalmente
Pároco da Paróquia São José Operário, no Rio de Janeiro, de 2004 a 2009 (época em que estivemos juntos em Misiones, norte da Argentina, numa viagem de dois dias, no verão de 2006).

O padre Lourival foi um destacado militante religioso, social e político, ligado à causa popular e de esquerda, atuando, quando de sua presença em Passo Fundo (onde foi fundador, diretor e professor do IFIBE, lecionando nele as disciplinas de História da Filosofia Moderna e Introdução à Sociologia – 1982 a 1997), na formação de Missionários da Sagrada Família e na organização da Pastoral da Terra e Pastoral da Juventude. Foi, igualmente, um dos fundadores do Centro de Educação e Assessoramento Popular (CEAP), atuante na educação popular, há mais de vinte anos, no sul do Brasil.

Lourival junto ao Pão de Açúcar

Conforme as palavras do padre Julio Werlang, na página que serviu de base a esta crônica, “Toda esta trajetória deixa conosco um testemunho gratuito de uma vida missionária marcada pelo amor a vida, o compromisso social, uma convivência fraterna, acolhedora, agradável e alegre e uma disposição de contribuir com o avanço da Província e da Igreja na perspectiva dos pequenos, pobres e os que estão longe conforme o legado do Fundador.”

Lourival morreu dia 16 de março de 2009, às 13h 18 min, no Hospital Quinta D’or, no Rio de Janeiro. No último domingo de páscoa, 12 de abril de 2009, foi celebrada missa pela passagem do 30.º dia de seu falecimento, na localidade rural de Lajeado Bonito, no interior de Porto Lucena – RS, onde Lourival e seus irmãos passaram a infância.

Ubirajara Passos

O ASSASSINATO DE CRISTO – III


Aí vai, para distração dos leitores, publicado mais um capítulo do anexo final do livro de Wilhelm Reich, enquanto não arranjo tempo, entre as fraldas da Isadora e os consertos da casa (transformado que estou no perfeito “pai de família”, domesticado e burocratizado), para escrever texto original:

 

A RAIZ RACIONAL DA “RESSURREIÇÃO”

A peste divide e separa os homens excluindo o que é comum ao homem.

O novo líder verá claramente a raiz comum e o significado emocional do credo Católico e do credo Fascista Vermelho: a “ressurreição de Cristo”, i.e., a RESSURREIÇÃO DA VIDA NO HOMEM. A ressurreição da Vida implica inevitavelmente a ressurreição do Amor, do Amor genital pleno, fluente, congregador. Sendo a Vida e o Amor eterno nos corações dos homens, Cristo NÃO PODERIA ter morrido; ele se levantou novamente, no sentido emocional da palavra. As pessoas carentes de Vida, carentes de Amor, simplesmente não se renderiam à morte final, irrevogável do Amor e Vida. Tinham de permanecer vivos pela ressureição; TINHAM DE ser como elas os sentiam em seus corpos, movendo e animando os membros: imortal, não importa se como uma alma imoral, ou espírito imortal, ou Cristo imortal “dentro de ti” ou como Cristo imortal “no céu”. Cristo, por sua própria vida, significava emocionalmente para as pessoas a ressurreição do Amor autêntico, primal, do corpo. Sua existência mistificada depois de sua morte apoiava-se, conseqüentemente, numa base racional, i.e., a ressurreição divina de Cristo, por volta do século quatro d.C.

Mas essa mistificação tinha, ao mesmo tempo e sob a pressão da compulsão a continuar o Assassinato de Cristo dentro deles mesmos, removido para os céus, para bem longe do alcance do homem, a relização da Vida e do Amor. O Filho do Homem teve de morrer primeiro antes de poder alcançar o céu e o puro Amor e a Vida eterna.

Um outro setor da humanidade revoltou-se contra esta mistificação, deificação, transposição e transfiguração da Vida viva no Corpo, cerca de mil e quinhentos anos mais tarde. Esse setor da humanidade não desejava morrer antes de viver uma v ida plena; queria o Céu na terra imediatamente e de uma forma prática: teria de ser dado e garantido pelo “movimento de libertação”, que instituiu as leis da libertação da camisa-de-força matrimonial e do Assassinato de Cristo no útero: isto foi o movimento Comunista primitivo de 1900-1917, dois mil anos d.C., que começou com o pensamento materialista no século XVII.

A raiz comum de uma Cristandade de dois mil de idade e de um racionalismo mecanicista de trezentos anos de idade, que culminou no Fascismo Vermelho russso imperialista, enraizando-se verdadeiramente nas emoções humans, é a libertação do fluxo do corpo, seja ela chamada de Liberdade ou Cristo, pouco importa. Couraça mais pornografia no homem transformaram Cristo em papado;  transformaram o fluxo do corpo em Pecado, e Comunismo original em Fascismo Vermelho. Ambos mistificaram suas raízes originalmente racionais nos sonhos e anseios racionais do homem. A Cristandade e o Comunismo voltaram-se ambos contra suas origens e fontes de força nas raízes de sua existência contínua, contra a Vida e o Amor no corpo. Tinham de fazê-lo, ambos, uma vez que a estrada para a Vida viva no corpo estava fechada nas pessoas que os levaram e os alimentaram no poder. Ambos tinham de cair na mistificação e no Assassinato de Cristo, cada um a seu próprio modo. E, finalmente, a diferença quanto à forma de supressão de Cristo fez com que um se voltasse contra o outro, com a ameaça de futuro morticínio em massa. Essas são as realidades do campo, como que em contraposição à representação teatral que fala de espiões contra o Estado, ou do Pecado versus o Espírito Santo.

Vista a partir das raízes comuns e significados emocionais da Cristandade e do Comunismo, a solução de sua animosidade recíproca, em princípio, é simples. Um novo líder poderia dizer-lhes ou dir-lhes-á:

Parem de tagarelar sobre espiões e mães-pátrias e pais-pátrias de Pecados e fumos sagrados. Vocês diferem apenas quantos aos caminhos que escolheram para assassinar Cristo. É irrelevante se pela mecanização ou pela mistificação e transfiguração. Em ambos os casos ele está morto. É irrelevantge o fato de se chamar o seu domínio de Reino dos Céus ou a Terceira Fase do Comunismo. Vocês não conseguirão alcançá-lo porque mataram, muito tempo atrás, o  que por si só pode conduzir até a sua terra de sonho. Para alcançar seu destino prescrito vocês devem reinstaurar Cristo no seu sentido original: como Amor no corpo, como libertação do Amor das cadeias de uma humanidade congelada, como liberdade da mente para investigar e viver sua raiz no fluxo do sangue e do corpo. Vocês estão enraizados em um único e mesmo anseio do homem. Se vocês levarem a sério o que pregam, retornarão à sua origem e ajudarão a relizar o sonho do homem, sonho que é realizável. Cessarão de punir criancinhas por tocarem Cristo ou adolescentes por viverem Cristo no corpo como o próprio Cristo viveu. E reinstaurarão as primeiras leis que estabeleceram no sentido da libertação de Cristo dos corpos amortecidos. Vocês trarão o Reindo de Deus e a verdadeira irmandade dos povos. Vocês têm, ambos, o poder para assim fazer.

O inimigo da Vida e do Amor em ambos os domínios, Cristão e Comunista, o inimigo da criança, inevitavelmente se levantará e combaterá o novo líder. Manterão o interesse do homem enfeitiçado em formalidades vazias e na condenação do amor corporal e do patriotismo e na propaganda belicista ou pacifista e extermínio de inimigos do Estado e muitas outras coisas cujo único objetivo é engabelar Deus e deixar o Diabo reinando. Estes inimigos em ambos os campos, hostis um em relação ao outro, certamente se unirão para combater seu novo adversário comum, o Amor de Cristo. Esse amor é o verdadeiro adversário deles, pois virará sua organização e existência inteira de cabeça para baixo, a menos que retornem a seus significados emocionais originais no homem. 
 
Para a igreja, voltar ao Cristo de 25 d.C., e para o Comunismo, voltar aos velhos sonhos de uma irmandade humana internacional de 1848, é pensável, teoricamente possível. Salvaria ambos os movimentos da queda inevitável num marasmo terrificante, uma vez que a Vida comece a marchar nas ruas das grandes cidades da Terra. Mas eles o farão, poderão fazê-lo? Eles não conseguem fazer a grande virada porque estão enraizados em almas pesadas, petrificadas, congeladas, que tiveram de carregar o último lampejo de um velho sonho ao longo dos tempos, o sonho de um Cristo Vivo e de um Deus amoroso e de uma comunidade pacífica.Para a igreja, voltar ao Cristo de 25 d.C., e para o Comunismo, voltar aos velhos sonhos de uma irmandade humana internacional de 1848, é pensável, teoricamente possível. Salvaria ambos os movimentos da queda inevitável num marasmo terrificante, uma vez que a Vida comece a marchar nas ruas das grandes cidades da Terra. Mas eles o farão, poderão fazê-lo? Eles não conseguem fazer a grande virada porque estão enraizados em almas pesadas, petrificadas, congeladas, que tiveram de carregar o último lampejo de um velho sonho ao longo dos tempos, o sonho de um Cristo Vivo e de um Deus amoroso e de uma comunidade pacífica.
Não importa o quanto será difícil: não poder haver um momento de hesitação quando se trata de manter o Cristão e o Comunista igualmente conscientes de suas origens e significados nas almas das pessoas.
 O  novo líder usará muitas formas Não importa o quanto será difícil: não poder haver um momento de hesitação quando se trata de manter o Cristão e o Comunista igualmente conscientes de suas origens e significados nas almas das pessoas.de distrair a atenção inflamada do Homem da cheteação atual para centrá-la no interesse  pelas gerações futuras. E até que a paz tenha retornado à terra devastada pela peste, o centro é, e continuará sendo por muito tempo, o “Deus” vivo nos sentimentos fluentes da Vida no corpo, e todo o conhecimento em biologia, medicina e educação necessário para reger a Vida viva do homem nas crianças recém-nascidas de todo o planeta.

Uma humanidade imobilizada, instalada, está esperando por uma resposta à sua busca dos caminhos da Vida viva. Enquanto ela moureja com um parco mínimo de subsistência, esperando, sonhando, sofrendo agonias, submetendo-se a novas servidões após séculos de revoltas fúteis, está atrapalhada por teorias e dogmas sobre o viver humano. Acrescentar um novo dogma da Vida humana no amontoado de filosofias, religiões, e prescrições políticas, significa acrescentar mais confusão à edificação da Torre de Babel. A tarefa não é a construção de uma nova filosofia de vida, mas o desvio da atenção dos dogmas fúteis para UMA questão básica: POR QUE ATÉ AGORA FALHARAM TODOS OS DOGMAS SOBRE COMO VIVER A VIDA?

A resposta a este novo tipo de questão não será uma resposta à questão da humanidade imobilizada. Contudo, pode abrir o caminho para nossas crianças, ainda nãos nascidas, buscarem na direção correta. Através dos longínquos tempos passados,  no processo de nascerem, elas carregaram todas as potencialidades dentro de si mesmas; e ainda as carregam. A tarefa é desviar o interesse de uma humanidade sofredora de prescrições infundadas para A CRIANÇA RECÉM-NASCIDA, A ETERNA “CRIANÇA DO FUTURO”.  A TAREFA É SALVAGUARDAR SUAS POTENCIALIDADES INATAS PARA QUE ENCONTREM O CAMINHO. Assim, a criança, ainda por nascer, torna-se o foco da atenção. Ela é o princípio funcional comum de toda a humanidade, passada, presente e futura. Ela é, devido à sua plasticidade e por ser dotada de ricas potencialidades naturais, a única esperança viva que resta neste holocausto do inferno humano. A CRIANÇA DO FUTURO COMO O CENTRO DA ATENÇÃO E DO ESFORÇO HUMANO É A ALAVANCA QUE NOVAMENTE UNIRÁ A HUMANIDADE NUMA ÚNICA COMUNIDADE PACÍFICA DE HOMENS, MULHERES E SEUS DESCENDENTES. Em poder emocional, como um objeto de amor por toda parte, independentemente de nação, raça, religião ou classe, ela supera em muito qualquer outro interesse do esforço humano. Será o vitorioso e redentor final, de uma forma que ninguém pode ainda prever.

Isso parece ser óbvio para todos. Como é possível, então, que ninguém até agora tivesse concebido a idéia de centrar o próprio esforço nesta simples esperança e alavanca da verdadeira liberdade? Unir o homem nesta base e esvaziar seu interesse mal dirigido de convulsões fúteis, sem objetivo, sem sentido, sangrentas?

A resposta a essa pergunta foi dada: o homem vive e age, hoje, de acordo com pensamentos que se produziram a partir da separação do tronco comum da humanidade em incontáveis variedades de pensamento que se contradizem uns aos outros. Mas a raiz e o tronco comum da humanidade permanceu o mesmo: ter nascido sem idéias, teorias, interesses especiais, programs de partido, roupas, conhecimentos, ideiais, ética, sadismo, impulsos criminisos; ter nascido NUA, tal como o poder celeste a criou. Esta é a raiz e tronco comum de toda a humanidade. Conseqüentemente, isso contém o interesse comum e o poder de unificação da humanidade. É concebido pela própria condição de sua emergência no mundo para estar tanto além e acima como no fundamento de tudo aquilo que o homem pensa, age, faz, aquilo por que se esforça e morre.

Uma breve observação, enfim, pode mostrar de que modo o tipo de pensamento influencia o uso ou a rejeição desta raiz e o tronco comum:

O mundo do Fascismo Vermelho, inteiramente mecânico em seu sistema econômico e perfeitamente místico em sua maneira de conduzir os negócios humanos, encontra-se mal equipado para fazer qualquer coisa a respeito do homem instalado no lugar e imóvel, com o qual se defronta. Em nítida contraposição aos seus fundadores espirituais, ele permaneceu assentado sobre a “economia” e uma visão mecanicista, industrial da socieade. Descartou e afastou com fogo e espada todo conhecimento sobre as emoções humanas além daquelas conhecidas pela mente consciente. Condenou os impulsos bioenergéticos como sendo “ideologia burguesa”. Repousa sua filosofia do homem numa mente meramente consciente que se sobrepõe aos reflexos e respostas automáticas de Pavlov. Descartou completamente a função de amor. Conseqüentemente, quando encontra  a inércia humana, que se deve à blindagem do biossistema, acredita, inteiramente dentro da lógica de seu ponto de vista, que está lidando com malevolência consciente ou com sabotagem “reacionária” consciente. Novamente de pleno acordo com seu modo de pensar, e subjetivamente honesto (exceção feita ao vilão consciente da política aue encontramos por toda parte), o Fascista Vermelho atira no “sabotador” e o mata. Isto é necessariamente assim, uma vez que, para este tipo de pensamento, o que um homem faz ou não deve-se somente à determinação e resolução consciente. Acreditar no contrário, aceitar a existência de um domínio humano além da vontade consciente, e com ela a existência e poder de um domínio psíquico inconsciente, de uma estrutura rígida de caráter, de um impedimento antiqüíssimo do funcionamento bioenergético, minaria imediata e irrecuperavelmente o próprio fundamento do sistema total de supressão do “sabotador do Poder do Estado”. (Não importa agora se “proletário” ou não.) De um só golpe, isso revelaria o HOMEM como ele é, e o interesse seria dos “capitalistas”, que não são mais do que os resultados últimos de uma economia da humanidade blindada, desamparada, estacionária. Isso revelaria o verdadeiro caráter capitalista do sovietismo. Todo o sistema de opressão arqui-reacionária da Vida viva, a confusão total sob a máscara de uma ambição “revolucionária”, inevitavelmente entraria em colapso.

Eis a influência do pensamento em termos de “uma mente consciente” isolada, sobre a ação social.Imaginemos agora, por um momento, que os psicanalistas tivessem adquirido poder social em algum país. A partir de seu ponto de vista da existência de uma mente inconsciente, eles admitiriam um vasto domínio da existência humana para além da vontade consciente. Ao se defrontarem com o “imobilismo” da humanidade, eles o atribuiriam aos “maus” desejos inconscientes de um tipo ou de outro. Seu remédio seria “tornar a malevolência consciente”, para exterminar o inconsciente maligno. É claro que isto não adiantaria, da mesma forma que adianta no tratamento de um neurótico, uma vez aue a malevolência em si é o resultado da blindagem total do corpo, e o “inconsciente maligno” é o resultado da supressão da vida natural na criança; um “Eu não farei” se sobrepõe a um “EU NÃO POSSO” silencioso. Esta imobilidade, expressa como um “Eu não posso”, é naturalmente inacessível a meras idéias ou persuasão, uma vez que é o que a biofísica do orgone chama “ESTRUTURAL”, i.e., emoção congelada. Em outras palavras, é uma expressão do ser total do indivíduo, inalterável, exatamente do mesmo modo como a forma de uma árvore crescida é inalterável.

Assim, um imperador, ao basear suas tentativas de melhorar o quinhão humano em tornar consciente o inconsciente e na condenação do inconsciente maligno falharia miseravelmente. A mente inconsciente não é a última coisa nem a última palavra. Ela própria é um resultado artificial de processos muito mais profundos, a supressão da Vida na criança recém-nascida.

A Orgonomia sustenta a concepção de que a letargia e o imobilismo humanos são a expressão exterior da imobilização do sistema bioenergético, devido à couraça crônica do organismo. O “Eu não posso” aparece como um “Eu não farei”, não importa se consciente ou inconscientemente. Nenhuma sondagem consciente, nenhum esforço para tornar consciente o inconsciente, jamais poderá perturbar o bloqueio maciço da vontade e da ação do homem. É necessário, no indivíduo singular, quebrar os bloqueios, deixar a bioenergia voltar a fluir livremente e assim aumentar a motilidade do homem, que, por sua vez, resolverá mjuitos problemas decorrentes da inércia no pensamento e na ação. Mas uma imobilidade básica permanecerá. A estrutura de caráter não poder ser mudada basciamente, da mesma forma que uma árvore que cresce torta não pode ficar reta novamente.

Conseqüentemente, o orgonomista nunca aspirará a quebrar os bloqueios da energia vital na massa da humanidade. A atenção se concentrará, conseqüentemente, sobre as crianças recém-nascidas por toda parte, sobre as crianças que nasceram sem courança, plenamente móveis. Evitar a imobilização do funcionamento humano e com ela a malevolência, o estacionar por séculos, a resistência a qualquer tipo de movimento ou inovação (“sabotagem” em termos dos Fascistas Vermelhos), torna-se a tarefa básica. É a Peste Emocional do homem, nascida desta mesma imobilização, que combate a Vida viva, móvel nas crianças recém-nascidas e induz à blindagem do organismo. Portanto, a preocupação é a peste emocional e não a mobilidade do homem.

Esta orientação básica exclui, naturalmente, qualquer tipo de abordagem política ou ideológica ou meramente psicológica dos problemas humanos. Nada pode mudar enquanto o homem estiver encouraçado, uma vez que toda miséria deriva da couraça e da imobilidade do homem que cria o medo ao vivo, ao vivo móvel. A abordagem orgonômica não é nem política nem sociológica apenas; não é psicológica; ela se desenvolveu a partir da crítica e da correção das hipóteses psicológicas da psicanálise de que há um inconsciente absoluto, de que o inconsciente é o dado último do homem, etc., e também a partir da introdução da biopsiquiatria no pensamento socioeconômico. É BIOLOGICA DE BIOSSOCIAL, fundando-se na descoberta da Energia Cósmica.

A criança recém-nascida, assim, passa  a ocupar, naturalmente, o centro da medicina preventiva e da educação. Desta maneira, o princípio comum da humanidade é obtido, não como um ideal pelo qual se esforçar, não como um programa político a ser conduzido pelos encontros e manifestações de massa, mas como o foco da raiz mais profunda da humanidade, como alicerce, para se construir sobre ele: construir como um engenheiro constrói uma ponte ou um arquiteto constrói uma casa, e não como o Fascista Vermelho constrói seu império sobre o homem e sua sociedade, com a ajuda da difamação e delação e espiões e enforcamentos. Modju é como se chamam os milhões de pequenos destruidores da esperança humana; o “pobre sujeitinho”, tão insignificante que ninguém até agora demonstrou interesse suficiente em fixar o olhar nele e deter suas malignas atividades subterrâneas.

A Orgonomia, que é a compreensão factual da “Energia Orgone Cósmica” universal (“Deus”, “Éter”), diz respeito tanto ao Cristão como ao antigo pensamento hindu oriental, à profundeza de existência cósmica do homem. Basicamente, não está em desacordo com o pensamento religioso. Difere do pensamento religioso por sua concretitude na formulação do conceito de Deus, e por sua insistência no ponto de vista bioenergético, INCLUSIVE O GENITAL, evitado em todos os outros sistemas de pensamentol. Mas, basicamente, a orgonomia opera exatamente no mesmo domínio que a Cristandade e o hinduísmo, muito mais profundamente que qualquer concepção tecnológica, materialista ou mecanicista das raízes do Homem na Natureza. Não há nenhuma contradição às premissas básicas de Cristo na Orgonomia, embora haja muito desacordo com relação à mitologia cristã de Cristo.

UMA DÁDIVA DIVINA


Neste modorrento domingo de páscoa nada como uma historieta besta e folclórica para distrair os leitores, especialmente aqueles que, cristãos fervorosos e convictos, têm a coragem de percorrer as páginas deste blog. Pois um deles, infelizmente morto há mais de um mês, bem poderia ter sido o autor da frasesinha, como, de certa forma, encarnava em sua vida de religioso e militante de esquerda, simpatizante da teologia da libertação, a própria realização prática dela.

Antes que alguém grite em frente à tela de seu computador: “Porra, o Bira pirou! Tomou vinho com maconha ou cheirou óstia com cocaína”, vou explicando a primeira parte do mistério, que, certamente, no parágrafo anterior ninguém entendeu nada.

A “frase” a que me refiro, pelo que descobri em rápida pesquisa, agora, na internet, parece ter sido emitida pelo mentor intelectual da Revolução Americana, o iluminista da margem ocidental do Atlântico chamado Benjamin Franklin, e dei com ela ao ir, hoje de manhã, em um “bar e restaurante” próximo de casa, o Argeu’s Bar, comprar um churrasquinho pronto para comemorar a Páscoa em família (pois, mesmo ateu e libertário, a gente não perde estas manias e aproveita para fazer honra à frase).

Enquanto fazia o pagamento no caixa, entediado e aborrecido com o preço do espeto assado, fui correndo os olhos pela parede do buteco e dei com um cartaz tipicamente cretino: junto a um daqueles alemães balofos de bigode de vassoura, vestido com traje típico, estava escrito em castelhano: “La cerveza es la prueba: Dios nos ama y quiere que seamos felices!” (para os lusófonos distraídos, e, portanto incapazes de traduzi-la: “A cerveja é a prova: Deus nos ama e quer que sejamos felizes”).

Resolvida está a primeira parte do mistério. O leitor pode parar de gritar um pouco ou baixar o tom do berreiro. Ainda que continue a vociferar consigo mesmo: “mas este Bira é um filho da puta, mesmo! Não tem o que escrever e fica plagiando descaradamente, medíocre e metido a besta que é, o Machado de Assis e o Fausto Wolff, em um de seus últimos romances (o Fausto, é claro, que o provinciano Bira não escreve nada), e interpolando um diálogo enrolado com os leitores para encher a murcilha da sua crônica”.

Calma, porém, meus críticos “dominicais”. Pois a segunda parte do mistério é um padre, que se fosse frade poderia até ser dominicano. Me conhecia pessoalmente, ainda que tenhamos nos visto apenas uma meia dúzia de vezes, e chegamos a viajar juntos para a Província de Misiones, no norte da Argentina. E, por incrível que pareça, lia este blog e, entusiasmado, chegou a dizer para seu irmão, o Alemão Valdir, que uma simples mensagem minha de Natal, destas que enviei por celular para toda minha agenda telefônica no final do ano passado, devia estar aqui. O texto desejava que todos fôssemos abençoados pelo Cristo irreverente e revolucionário, o Cristo que amava o prazer puro e genuíno como manifestação mais concreta da vida propriamente dita e que, por isto, não fizera seu primeiro milagre, o que anunciou sua presença no mundo, tratando de assuntos graves e dolorosos, mas transformando água em vinho.

José Lourival Bergmann

José Lourival Bergmann

E o padre entusiasmado, do outro lado da linha, no Rio de Janeiro, que me elogiava para Valdir, era nada menos que Lourival Bergmann, irmão mais velho do meu amigo mais antigo e convicto dos ideais marxistas. Pois o Lourival, que aproveito para homenagear justamente na Páscoa, a cuja memória cheguei, neste momento, por uma série de coincidências, a partir de um simples cartaz emoldurado na parede de um buteco, não só era um revolucionário socialista e libertário a sua moda, apesar dos trejeitos mandões e autoritários inerentes ao treinamento de qualquer sacerdote católico, como era a perfeita prova da realidade da dádiva divina e não dispensava uma boa cervejinha. Na verdade, tanto na república da Amélia Teles, em Porto Alegre, quanto na casa de seus irmãos em Santa Rosa, ou em Oberá, na Argentina, jamais estivemos juntos sem que compartilhássemos do suco da cevada, que o padre sorvia com um deleite maior do que o de qualquer vinho! E tive a honra, umas quantas vezes, de ir ao bar mais próximo comprar umas garrafas do líquido dourado, para nos emborrachar. Aqui fica, tardio e sem propósito, portanto, o meu adeus ao companheiro Lourival. Que esteja, se houver o Céu, se embriagando até dormir pachorrenta e ruidosamente junto ao seu líder, Jesus Cristo.

Ubirajara Passos

“Bernardinho” (o contestador galã de quatro patas) e Eu


Não se preocupem os leitores que não se trata de uma versão doméstica, pequeno-burguesa e sem graça do romance “Marley e Eu”, que ainda não li, mesmo tendo me tornado um “cidadão ‘sério”, casado e cumpridor dos seus deveres” (sem risos, por favor).

Fique claro, também, que não é nenhuma história infantil daquelas que éramos obrigados a ler nos manuais da quarta série primária, cujo caráter ingênuo e moralista já me foi sugerido para tornar este blog mais “decente” e evitar possíveis futuras retaliações caso continue a ser um espelho da “devassidão” ontológica deste arremedo de escritor (não é nenhum erro de digitação, não, me refiro exatamente à essência do ser e não ao caráter de anedótico ou digno de registro, “antológico”, portanto).

Seja como for, um dos efeitos colaterais do casamento foi a convivência com um cachorro mestiço, branco e preto, de nome “Bernardinho”, que mede atualmente seus 57 centímetros, aproximados, de comprimento, abstraído o saltitante rabo. Medida esta pra lá de aproximada, já que só é possível determinar sua posição exatamente da mesma forma que a de um elétron no acelerador de partículas, tantas são as constantes alterações na nuvem  de probalidade decorrentes de  seus saltos e correrias.

O bicho, se não fosse tão ágil, poderia ser o “Peruca” dos cachorros, pois é coisa quase totalmente impossível encontrar outro exemplar tão aloprado neste mundo. E a menor de suas façanhas foi me acompanhar, já uma meia dúzia de vezes, por mais de um quilômetro e meio, na caminhada diária que faço de casa até o serviço, pela manhã, e ficar me esperando, por meia hora, abanando o rabo em frente às portas de vidro, até desistir e voltar sozinho para casa.

flagrante inédito do elétron em ação

flagrante inédito do elétron em ação

 

Não fosse as portas, aliás, e certamente teria problemas com a segurança, já que Bernardinho seria capaz de fazer exatamente a mesma coisa que o feixe de elétrons disparado junto a dois buracos próximos, no efeito mais sensacional da física quântica, e seria visto quicando entre ambas as entradas do dectetor de metais, enlouquecendo os guardas.

Mas numa noite destas, no final do verão, entendiado com a impossibilidade de encher a cara com os amigos por infinitas madrugadas na noite de Gravataí ou Porto Alegre, resolvi ir à loja de conveniência do posto de gasolina mais próximo de casa (e que fica vizinho à quadra da casa de meu octagenário pai) comprar umas latas de cerveja, para beber em casa mesmo e irritar um pouco a minha mulher, e evidentemente fui seguido pelo nada entediado cão. Que, além de não se entediar, impede qualquer espécie de monotonia a sua volta, e foi logo tratando de fazer, na loja de conveniência, umas sisudas e circunspectas senhoras avançadas na meia idade, de ar grave e xaroposo, saírem da sua inércia e exercitarem bastante suas cordas vocais, lambendo-lhes os pés.

Não é necessário mencionar que, no caminho, exerceu também o seu esporte favorito: provocar cada cachorro, de pit bull a reles e sarnento vira-lata esquelético, e deixar em histeria todo bairro pequeno-burguês do Jardim da Figueira (que fica entre a minha casa na rua Barbosa Filho e a Avenida Dorival de Oliveira, em cuja margem se situa o tal posto) com o ladrar enfurecido dos guardas de focinho e rabo da pomposa e amedrontada classe média.

O galã Bernardinho

O galã Bernardinho

Foi na volta para casa, entretanto, já no bairro São José, no lado oposto à casa do meu pai, em plena avenida, que o meu revolucionário Bernardinho resolveu unir aos seus pendores de cachorro anarquista e  baderneiro a qualidade detestável de conquistador e mulherengo, que causou-me uma inveja infinita (que mulherengo sempre fui, mas jamais tive o charme do galã canino). 

Íamos subindo a rua Ibirapuitã, na esquina da Dorival, junto a uma sólida e pequeno-burguesa casa de pedra que abriga uma loja de roupas para noivas e debutantes, quando uma poodlezinha saída do prédio se postou em plena calçada com aquele ar de poodle patricinha e safada (praticamente uma “putelzinha”) e ficou nos olhando e balançando, insinuante, o rabo.

Eu, que ando há meses um tanto afastado da putaria, em razão da coleira matrimonial, vendo a cachorrinha naquele estilo, tratei logo de alertar o meu companheiro de quatro patas, que até então não tinha o infortúnio de usar coleira (pois tive de providenciar, ultimamente, uma para evitar atropelamento ou seqüestro do maluco em suas investidas no asfalto), e lhe avisei: “ô Bernardinho, olha ali uma namoradinha pra ti”. O bicho safado não moveu, surpreendemente, um milímetro, mas a fogosa poodlezinha tratou de caminhar até ele e encostar, entusiasmada, os focinhos, o que não durou muito pois logo a cachorrada playboy, metida e arrogante da tal casa, partiu para o protesto, acoando fortemente, e correu o casal peludo para o outro lado da esquina.

fugindo do perigo

fugindo do perigo

Tratei de trazer o meu intrépido cachorro cadeleiro à ordem, chamando-o de volta ao caminho de casa, e a cachorra da poodlezinha branca, fatal e cretina, correu à sua frente, se refugiando de volta no pátio da casa de pedra. Foi aí que o meu clone de quatro patas quase perdeu o pescoço, pois foi se enfiando portão de grade abaixo, atrás da “putelzinha”, e, não mandasse às favas a sua revolucionária valentia de bravata, teria sido trucidado pela malta de meia-dúzia de pit buls e buldogues. Mas, como todo bom Don Juan “vermelho” e irreverente, diante do perigo iminente, Bernardinho esqueceu seus pendores de provocador verbal e tratou logo de disparar correndo atrás de mim.

Ubirajara Passos

Bernardinho e Totó de porre

Bernardinho e Totó de porre