TRISTEZAS


A depressão em minha vida tem sido uma constante desde muito cedo. O poema seguinte, embora impregnado de um certo tom retórico e farsesco, expressa, no entanto, um dos meus momentos de falta de sentido, aos vinte e cinco anos de idade.

TRISTEZAS

Quando não resta mais que lamentar
Da vida os infortúnios
E o passado torna-se o refúgio
De antigos sonhos que o destino,
Nas suas vagas de redemoinho,
De louca tempestade a galopar,
Cobriu do pó eterno dos caminhos
E sepulto-os sob a lájea fria
Do desengano atroz;

Quando do dia a luz e a alvorada
Perderam o sentido de beleza
E não exaltam mais do homem
Os anseios,
Quando os ímpetos rebeldes
E inconformados de revolução,
De luta incessante e indomável
Pela transformação da sociedade
(Que, falida, na própria lama imerge,
Sobre a maior parte de seus membros
O sacrifício sem compensação,
O peso do suplício a arremessar)
Não mais alentam a alma do poeta;

Quando os amores murcharam e apagaram-se,
No caminho da rejeição eterna,
E o coração de gelo e cinzas recobriu-se,
À alma humana é possível
O renascer no vigor de uma quimera,
Da fênix o mito
Em vibrante realidade transformar?

Gravataí, 4 de julho de 1990

Ubirajara Passos

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DOIS POEMAS SAFADOS E FILOSOFANTES


Estive desde domingo até hoje em campanha eleitoral para a escolha da próxima direção do SINDJUS – RS em 14 de maio, percorrendo as comarcas do interior do Estado nas regiões do Alto Uruguai, Noroeste, Missões e Planalto Médio, em razão do que foi impossível publicar novos posts no blog. Hoje, entretanto, deixo para o deleite dos leitores os dois poeminhas cretinos que seguem.

De intimidades…

No momento do gozo supremo
Haveremos de encontrar,
Em meio à explosão do “Big Bang”
(Que o universo é produto de um orgasmo)
A mesma besta e gratuita alegria
De uma pilhéria casual ao pé do fogo,
A intimidade e a descontração
Daqueles que primeiro riem juntos
E na corrente entusiástica do humor
Forjam a torrente incoercível do amor!

 

Vila Palmeira, 12 de março de 2004

Ubirajara Passos

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Anima Mater

Vem a mim, deusa loira da meiguice,
Vem a mim, mãe terna, louca amante,
Vem-me ninho de aconchego e doçura,
Ciclone de prazer forte e profundo!
Vem raiz de toda vida, seio
Fértil do mundo,
Mulher-mãe-de-tudo!

 

Gravataí, 14 de novembro de 2004

Ubirajara Passos

A BANALIDADE DE NOSSAS VIDAS


O companheiro que está aí, sentado em frente ao computador, no maior tédio domingueiro, lendo este blog por não ter coisa melhor que fazer, já parou um segundo para pensar no tamanho do aborrecimento que são as nossas vidas?

Durante a semana assumimos o papel de escravo bem comportado, anulando o mais rico e criativo de nossas personalidades para vestir a fantasia de sisudo operário de fábrica, funcionário público ou atencioso e sorridente vendedor de loja (daqueles cuja atenção e sorriso é explicitamente regrada pela “Qualidade Total” e parecem uma pantomima pior ainda do que os gritos de gozo de filme pornô vagabundo ou o falso entusiasmo de putinha nova e impaciente). Isto para ficar apenas nas funções mais paradigmáticas da robotização capitalista. A coisa atinge em cheio toda a classe trabalhadora.

Esgualepados e totalmente idiotizados pela estafante e inumana rotina do trabalho (de cuja tentativa de amenização, pelo mínimo sorriso ou piada expontâneos, é vigiada de perto pelos peões-chefetes-feitores de escravo e logo devidamente “punida”), chegamos aos fins de semana (os mais sortudos tem também a manhã de sábado de folga) e tentamos então viver a feérica aventura das festas e bares noturnos (regurgitando com o mais imbecil entusiasmo as velhas bobagens boca abaixo e nos atirando às fodas cruas e mecânicas, na esperança de alcançar um gozo, que só é completo quando vai além do corpo e nos alenta as emoções mais caras).

Ou, no caso dos mais acomodados (o que quer dizer também “casados”, pois o que hoje conhecemos por casamento é unicamente acomodamento) ou cujas forças foram dizimadas pelo tempo, fingimos o maior contentamento no pretenso idílio doméstico de todo domingo.

Isto quando não mergulhamos na churrascada e na cachaça (ou somente nesta e no baseado, no caso daqueles companheiros que nem emprego formal possuem ou cujo salário e condições de trabalho não o diferenciam de um esmoleiro).

Ou praticamos o auto-flagelo mental de ficar babando frente ao “tótem” eletrônico, onde Faustões e Sílvios Santos relincham e guincham as mais tediosas banalidades como se fossem “as últimas novidades vindas de Paris” dos antigos mascates (há é claro também a possibilidade, igualmente banal e sem sentido, de tentar revolucionar as precariedades da nossa vida de escravos consentidos, estrabuchando e rebentando a garganta, aos gritos de louvor a Deus, em qualquer cassino chamado de “igreja pentecostal”).

Mas o fato é que, nos raros momentos, em que nossa mente se encontra livre da hipnose quotidiana (imposta pelos dominadores e aceita com a maior boa vontade por nós, bestas masoquistas), tudo o que enxergamos no horizonte é um vazio oco, fútil e desprovido de qualquer sentido, de prazer ou dor reais e dignos de criaturas cuja capacidade mental ultrapassou em muito a de um cachorro (não creio que o totó tenha idéia de sua existência como ser particular ou da sua condição dramática de mortal), mas cujas emoções, deformadas e tornadas tão descartáveis quanto qualquer geringonça de plástico, perderam o contato com a energia saudável e viva, imediata e vinda das entranhas, que anima o cão.

Ubirajara Passos

O SONHO DO PEÃO


E assim, perdido pelos campos,
Ele não sabia,
No meio da vida,
O que era a vida,
Nem o que seria.

Ainda levava
Na melena rala
A memória velha
Das brisas de outonos,

Ainda sonhava
Com mulheres-onças,
Tesudas panteras,
Gatas enroscadas
Ronronando doce.

E em sonhos
Ele se perdia
Pelas madrugadas,
Ínsone teatino, troteando no céu,
Procurando estrelas
Perdidas, sem rumo,
Brilhantes pedaços de beleza e gozo.

Ele se extraviava
Na paixão da lua,
Misteriosa fêmea
Que o hipnotizava.

Ele se entregava
A estranhas auroras
Que rubras bucetas
Da cor de corais
Não igualariam
Nos gozos dos corpos
Ao orgasmo da mente,
Ao prazer do olhar!

Ele imaginava
Um mundo sem beiras,
Um tempo parado,
Uma gente sem peias,
E diziam-lhe “os sérios”,
Os “bem-comportados”:

Tu estás louco, homem,
Nunca houve esta coisa
De animais humanos
Soltos pelo mundo
Mandando em si mesmos.

A regra é diversa
E dela é preciso
Que obedeçamos
Todos os preceitos.

Há chefes e donos,
Barões, baronetes,
Há grão-sacerdotes,
Há os camaradas
Aconselhadores,
O velho partido
Da ciência revolucionária.

Conforme as formigas,
Viva, tchê, conforme.
Sejas, coletiva,
Ferramenta informe,
Que a ti não importam
Quem sejam teus chefes.

Tu foste parido,
Ser ínfimo e pobre,
Incapaz de ti,
Para nos servir.

Ontem fomos reis,
Senhores feudais,
Escravistas novos,
Fascistas vermelhos.

Nós fomos filósofos,
Cientistas políticos,
Fomos psicológos,
Até antropológos!

E de ti entendemos
Tudo o que nos dais:
A reverência burra,
A crença sem crítica,
O desamparo ávido
De instintos filiais
E a ambição das bestas
De maior ração
E menos relhadas
No lombo fodido!

Hoje somos, próximos,
Tua própria “consciência”
Que entra todos dias
Em tua mente vadia,
Na tela de vidro
(A tal de TV)!

E o qüera sem rumo,
Um sepé de hoje em dia,
Índio e europeu,
Não sabia mais
O que responder
Às gralhas do mundo,
Nem o que escolher
Entre tantos senhores!

Tão perdido estava
Que na noite achou-se:
Depois da erva-mate
Veio-lhe a cachaça.
Sonhou como os índios,
Tornou-se um xamã.
Entrou nos delírios
De druidas e bruxos

E à mente lhe veio
Uma incerta resposta,
Tão incerto é tudo,
Mas que o satisfez:

Velho companheiro,
De eternas jornadas,
Tu és só mais um
Que sofre teu século.

Logo a terra bruta
Levará tua carne
E mais uma vez
Tu renascerás
Na pedra, na árvore,
Homem ou animal!

Breve é tua estada
No mundo consciente,
Breve é tua vida.
Como em ti, não existe
Perpetuidade nos teus elementos!

O que hoje te forma,
Até os calos do pé,
Amanhã serão
Os olhos castanhos
Da fêmea mais linda
Ou a bosta gigante
De um elefante!

Vive a “tua” vida
E não deixes que os outros
Te imponham deveres,
Limites, recalques,
Sê tu, só tu mesmo,
Que é “única” a vez que vens ao universo!

Gravataí, 20 de abril de 2007

Ubirajara Passos

DESENCANTO


Embora algumas idéias para postar no blog me passem raspando pelos cornos, a verdade é que não tenho o menor saco de parir algo novo. Assim, publico o poema abaixo que, além de exonerar da obrigação de escrever, é um espelho fiel do meu humor nas últimas semanas.

DESENCANTO

De que me vale o canto revolucionário,
O lírico encantamento
Das coisas e dos seres?

De que me vale o sentido íntimo e profundo
Da beleza e do mistério
De um campo solitário e desolado,
De verdes prados em tarde enuviada,
Da ventania que, gélida e arisca,
Na sua infinda jornada,
Cavalga os campos, tudo a arrastar?

De que me vale o enlevo do universo
Na solidão das noites
Estreladas ou de luar?

De que me vale conhecer da Humanidade
Profundas as mazelas em que imerge-se,
Nos turbilhões dos temporais da vida,
Perdida, sem farol, a navegar?

De que me valem os ímpetos
De rebeldia, buscando levantar
Do insólito sono crepuscular
As consciências desde muito adormecidas?

Se sou “uma voz que clama no deserto”?
Se não ouvem meus gritos, até fatigar?
Se a tempestade avassaladora da inconsciência,
Da falta da Razão, de Liberdade,
A tudo envolve e teima em arrastar?

Se a própria vida, em suas terríveis roscas,
Tudo esmaga e a mim mesmo
Envolve nas vagas frustradoras
De seu imenso mar?

Gravataí, 10 de junho de 1990

Ubirajara Passos

UMA REINA AMOROSA


Na volta de São Paulo, onde estive em 25 março (no Encontro Nacional em defesa da aposentadoria e dos direitos sociais, sindicais e trabalhistas) pela caravana do Sindjus-RS e da Conlutas (mais de 6.000 trabalhadores lotando o ginásio do Ibirapuera e dispostos a resistir aos ataques do fascismo lulista), tive uma paralisia do nervo radial do braço direito, que só após passar por dois hospitais e uma competentíssima neurologista (Mariana Dagnino Araujo) me convenci ser mera lesão local, decorrente de dormir pressionando o braço contra o banco do ônibus, na manguaça.

Mas a tensão gerada pelo episódio (imagina acordar com a mão direita dormente, sem força e sem condições de motricidade fina nos dedos menores que o indicador?), aliada à depressão que ando curtindo, os dias passados em torno de exames médicos e uma quase-broxada que dei com a gata preferida (resultado de ressaca e outro ataque de nervos que narro outra hora), simplesmente me afastaram completamente deste blog, cujas visitas diárias despencaram ao fundo do abismo.

Assim, para dar alguma distração àqueles leitores que ainda tenham algum interesse no que escrevo (que espero se tornar melhor à medida em que avance o tratamento anti-depressivo) e aos que andam desiludidos com suas buscas amorosas, publico o poema pessimista abaixo, que um dia há de deixar de ser realidade.

Apenas Vultos

Por quantas sombras sofri,
Por quantos olhos
Que prometiam fogos além do concebível;
Por quantas almas de fascínio imprevisível,
Por quanto gozo físico incomum
Ardi nas chamas da “paixão sem freio”?

Como sofri, apartado do amor,
Da encarnação do sublime,
Dessas mulheres arrebatadoras?

Quanto gastei em reais e madrugadas
Na busca do sagrado feminino
Pra descobrir que tudo é árida terra!

Gravataí, 29 de maio de 2005

Ubirajara Passos

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 7


No último dia na Argentina (terça-feira de carnaval), saímos de Posadas já passado das 10 h (o originalíssimo relógio “Orenete” do Valdir marcava 9 h 30 min…) e, deixando para fazer as compras em Oberá, nos deparamos, a cada passo, com a inflexível instituição da “siesta” (que começa ao meio-dia em ponto e se estende, durante a semana – pois no domingo é píor) até as 4 horas da tarde.

Tanto no shoping de roupas Oscar, quanto no Supermercado “El Condor” (que fecha à 1 hora da tarde) fomos praticamente corridos por um atendimento impaciente e carrancudo, o que não me impediu de comprar uma camisa e uma bermuda argentina na loja e alguns livros do Nietzsche e uma coletânea de autores anarquistas em castelhano.

Mas o cúmulo da intolerância, da falta de acolhimento e da cretinice se deu no restaurante do Cassino. Estávamos nos servindo (cerca de 1 h 45 min da tarde, pois a “siesta” do Cassino fecha às 14 h), quando nos interpelou um garçom para nos avisar que o estabelecimento fecharia logo e que tínhamos quinze minutos para comer! Não, não me entendem mal os leitores: não é que o bifê fosse recolhido em quinze minutos e tívessemos tempo de, servidos, almoçar sem preocupações. A afirmação significava aque, chegadas as 14 h, tendo ou não terminado de almoçar, teríamos de sair correndo.

Invocado com o autoritarismo burocrático do “estabelcimento”, quando fui ao banheiro, fiz questão de mijar na pia. E, tendo contado o meu ato ao Rogério, este, por sua vez, mijou no cesto de papéis higiênicos. Estava vingada a honra brasileira e rio-grandense do desaforo castelhano. Uma hora depois retornávamos ao Brasil (Santa Rosa, Rio Grande do Sul) e, então, nos parecia que não havia passado apenas três, mas várias semanas fora de casa.

 

Ubirajara Passos