A negra noite da alma


A negra noite da alma

A dor da madrugada,
O desatino duro e distante dos quartos anônimos,
O mergulho na embriaguez disforme
Da escuridão silente e indiferente aos gritos

Desesperados dos que se perderam
De si nas brenhas diurnas da rotina
E penetraram na profundidade
Apavorantemente branca

De uma vigília eterna cumpridora dos deveres
E vem buscar refúgio nos porres tristonhos
De velhos butecos de luz amarela.

Uma rota bandeira que já não balança
Nem nas tardes mornas de um céu de domingo.
Um café sem açúcar, esquentado de novo.
O riso obrigatório da euforia falsa.
As novidades velhas das redes sociais.

O sem sentido tão grande
Que nem dói, mas só arrasta
Nossas mentes insones num mar branco e sem ondas.

Não grite ao portão de granito quando vierem
Te visitar todas estas “entidades”.
Pois não há rogo que as afaste e só após varrerem
Todo sossego modorrento e informe
Te abandonarão ao calor de um novo dia.

Gravataí, 17 e 20 de julho de 2016

Ubirajara Passos

Dança das Cinzas (bolero carnavalesco)


 

Eu vi a bailarina sobre o espaço
Descrevendo
Acrobacias as mais intensas,
Desenhando
As mais horrendas e fantasmagóricas
Figuras sobrenaturais.

Eu vi a bailarina escrevendo,
A cada salto improvisado no infinito,
Umas quantas lendas dolorosas,
Esparramando
No árido chão desejos monstruosos.

Vi a bailarina,
Ia morrendo
No seu olhar qualquer humanidade
A cada brusco e palpitante passo.

Quando a vi,
Do nada vindo e ao imprevisto se jogando,
Eu a percebi como a fúria rodopiante.

Vi ir morrendo na mesma intensidade
Da paixão coreografada a alegria falsa,

Num soluço inaudível, mágoa eterna, pavor terrificante!

Vila Natal, 12 de fevereiro de 2015

Ubirajara Passos


 

Dos nossos dias tormentosos


Poema auto-explicativo escrito na madrugada de 20 de setembro de 2014 (casualmente data do 179.º aniversário da Revolução Farroupilha):

Quanta tristeza e embaraço,
Vidinha sem sal, porraço
De chatice, espelho de aço
Em que se miram os palhaços
Ciosos de um glamour falso.

Quanto fuxico sem graça,
Roubalheira óbvia e pura,
Falta pura de cachaça,
Besteira cheia de si.

Este é o Brasil da mídia,
Da política medíocre,
Que esquece a opressão da peonada,
Só vê corruptos, raça,
Transforma tudo em farsa,
Medíocre caricatura
Que só se exorciza a laço!

Gravataí, 20 de setembro de 2014

Ubirajara Passos

 

Os Ciclos Secos


Poema escrito em pleno Parcão de Gravataí, no intervalo do almoço, envolto no mar de calor destes últimos dias de dezembro:

Os Ciclos Secos

O que há para aprender-se nas agruras
Do quotidiano seco e automático

(O espírito nublado, qual zumbi,
Se arrastando nas ondas enjoadas
E sonolentas do correr das horas)?

Qual a ciência, a luz nascida
Do ir e vir infindo dos motores,
Do ciscar incessante dos ancinhos,
Do palavreado pedante e oco dos doutores?

Gravataí, 18 de dezembro

Ubirajara Passos

Soneto do Segundo Dia


O soneto da segunda-feira acabou por me inspirar uma heptalogia, da qual aí vai publicada a continuação:

Soneto do Segundo Dia

 Na terça o peão ainda se arrasta,
Mas, já acostumado,
Ao relho, pragueja. 

Lanhado, no tranco,
Vai ceifando o dia.
Como foice fosse.

Derruba trabalho,
Almoço, jornais,
Atropela a rua,
Mastiga os seus ais. 

E, olhar vidrado, no final da tarde,
Entorna uma dose, e se vai cambaleando
De trago e cansaço,
Feito um “Satanás”! 

Gravataí, 28 de novembro de 2012 

Ubirajara Passos

Soneto do Primeiro Dia


Poeminha auto-explicativo, parido em plena circunstância concreta (ainda que a ressaca de hoje seja apenas o resquício, mais moral que físico, da do dia anterior):

Soneto do  Primeiro Dia 

Segunda-feira:
Ressaca e asneira.
Torto levanta-se
E torto anda-se. 

Vai-se arrastando,
Junto com as horas,
Aos trambolhões,
Toda a leseira!

 Abandona  a cama
Com um peso enorme
O morto-vivo. 

Vai ao trabalho
Tendo-o por feira
E lá descobre que é funerária! 

Gravataí, 26 de novembro de 2012 

Ubirajara Passos

Possessão


Mais um poema estrambótico para distração dos leitores que ainda teimam em acessar este blog, apesar da frequência cada vez menor de suas matérias:

Possessão

Não me possuo desde o velho dia
Em que pretendi adonar-me da poesia
E ela, matreira, de um bote enfiou-se
Pelos meus poros e se esparramou
Do calcanhar à nuca, invadindo
Até os menores becos do meu ser.

Tão entranhada fez-se esta vertigem
Do inefável arrebatamento,
O inextinguível sentimentalismo,
Que esta voragem indefinível que atordoa,
E alaga em pranto toda a minha alma,
Submergiu-me os mais pesados blocos
De auto-controle e determinação

E transmutou-me de raio fulminante
Em portentoso lenho trespassado
Pela profundidade sensível e maldita.

Gravataí, 20 de março de 2012

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