O ASSASSINATO DE CRISTO – IV


Penúltimo capítulo do apêndice de O Assassinato de Cristo, de Wilhelm Reich:

O SIGNIFICADO DA CONTRAVERDADE

Para se compreender o líder, deve-se primeiro compreender os liderados. para derrotar o adversário, deve-se conhecer bem sua força e raízes racionais. Para compreender o poder que o Fascista Negro ou Vermelho exerce sobre multidões de pessoas comuns, é necessário conhecer o povo. A partir daí desenvolve-se a investigação orgonômica do fascismo como “psicologia de massa” em 1930.

A fim de usar eficientemente o instrumento da verdade, deve-se conhecer habilidosamente a CONTRAVERDADE. O problema não é saber porque há verdade sobre coisas, mas porque a verdade não pode prevalecer. Se, apesar de toda a verdade e pregação de paz, os mentirosos e fraudulentos e mexeriqueiros prevalecem tão abundantemente, deve haver algo muito poderoso que obstrui a verdade. Não pode ser a própria mentira, uma vez aue ela não perdura. Deve haver alguma verdade crucial de tipo diferente que obstrui completamente a verdade. Chamamos isso de CONTRAVERDADE.

Uma mulher que arranjou um amante, paralelamente ao seu marido legal, vive uma verdade importante. O casamento se desgastou, ou o marido a maltrata, ou ele é impotente, ou ele apenas não a satisfaz, embora possa ser i?mportante em outros aspectos. A vida é rica, rica demais para ser aprisionada em camisas-de-força medievais. Entretanto essa mulher não vive a verdade sem uma mentira. A mentira, neste caso, esconde uma séria contraverdade: se o marido soubesse, ele a mataria, ou mataria seu amante, ou os dois. Ninguém seria favorecido. A contraverdade em relação a contar a verdade, neste caso, é mais poderosa do que a verdade.

No tempo das conferências dos líderes políticos em Teerã e Yalta, houve graves razões para NÃO dizer a verdade sobre o logro imimente dos americanos pelos Fascistas Vermelhos. A contraverdade, neste caso, foi a compulsão de uma aliança com os Fascistas Vermelhos com vistas à defesa contra os Fascistas Negros.

Representantes reais do povo são estritamente obrigados a NÃO dizer nenhuma verdade, a permanecer afastados da verdade, a evitar questões embaraçosas, verdadeiras, a aderir a formalidades vazias, a apenas “representar” e a não se desviar de – QUÊ??? Do costume? O que é o costume e por que há esse costume? Bom comportamento? É bom comportamento a evasão estrita da verdade? Do respeito aos olhos do público? Por que os olhos do público evitam a verdade? Porque um homem que diz uma simples verdade é proclamado herói? É porque a multidão é composta de covardes? Por que a multidão é composta de covardes no que se refere a dizer a verdade?

Existem CONTRAVERDADES cruciais a serem guardadas contra a invasão da verdade. Antes de buscar pelo racional na contraverdade, observemos seu domínio:

O povo judeu não tinha permissão para entrar no mais sagrado do sagrado do templo. Por quê? Não seria de esperar que, a fim de elevar um povo, fosse permitido que ele tocasse o sagrado todos os dias? Este não é o caso. Deve haver uma razão crucialmente importante para manter o povo distante da clausura da sagrada verdade.

A energia cósmica, que penetra tudo e funciona nos próprios sentidos e emoções dos pesquisadores e pensadores, nunca foi tocada de um modo concreto. Isto é o mais espantoso, visto que suas funções, tais como a cintiliação no céu, o cintilar das estrelas em noites claras e a ausência desse cintilar quando está para chover, o campo de energia dos corpos vivos, o desaparecimento do campo no processo da morte, o azulado e a efervescência na “escuridão completa”, os invólucros dos corpos celestiais, e muitas outras funções tais como as vesículas em todos os tecidos que se desintegram, são funções simples, facilmente observadas; entretanto, até agora elas não foram tocadas, durante um período de cerca de dois mil e quinhentos anos em que o homem se ocupa da natureza. E quando, finalmente, a energia orgone cósmica foi descoberta praticamente e tocada poderosamente, houve um rebuliço, uma grande confusão energética, um blá-blá-blá altissonante; mas ninguém, durante anos, tocou num acumulador ou olhou para um microcoscópio. Por que esta evasão do óbvio? Por que são necessários gênios para detectar o óbvio?

A arma da verdade exige que se façam perguntas, independentemente de serem agradáveis ou não, não importando os resultados. Se teu inimigo mais temível afirma falsidades, tu precisas apontar as falsidades. Se ele afirma a verdade, deves admitir que ele fala a verdade, não importa quão dolorosa seja a verdade de teu inimigo.

A verdade de teu inimigo é a contraverdade da tua própria verdade. Se o inimigo da tua verdade fala a verdade, então há algo errado ou prematuro ou incompleto em tua própria verdade. Antes que os assassinos dee Hitler pudessem ser plenamente compreendidos, a verdade que ele disse sobre marxistas e judeus liberais e a República de Weimar teve de ser admitida. Admitir a verdade dele, i.e., tua contraverdade, era crucial a fim de dar o próximo passo; perguntar Como é possível que um Hitler possa ocupar o primeiro plano? Como podem setenta milhões de pessoas alemãs, pessoas informadas e combativas, ser seduzidas num tal pesadelo por um psicopata evidente? Sem uma pergunta como essa, nenhuma resposta poderia ser obtida. Hitler apresentou claramente uma contraverdade.

A explicação para Hitler foi encontrada na estrutura de caráter do povo em geral, que tornou possível seus assassinatos.  Foi o povo que fez Hitler e não Hitler que subjugou o povo. Sem o Hitlerismo ou o stalinismo no povo não teria havido nem Hitlers nem Stalins. Esta foi a contraverdade em 1932. Ela se tornou a base sobre a qual se desenvolveu toda uma nova área de conhecimento, a ciência da psicologia das massas orgonômica, o conhecimento do papel da família autoritária, do medo que as pessoas têm da liberdade, da incapacidade estrutural para a liberdade e o autogoverno, da estrutura pornográfica e basicamente sádica da “camada média no caráter do povo”; e daí seguiu-se…

A DISTINÇÃO ENTRE O NÚCLEO BIOENERGÉTICO E AS NECESSIDADES PRIMÁRIAS. Assim foi a verdade, dita por um biopata disfarçado de herói nacional, que levou propostas básicas, novas, a novas verdades.

A contraverdade, no princípio de um novo desenvolvimento, é freqüentemente mais importante do que a verdade. A verdade será tanto mais firme e mais evidente, quanto melhor for compreendida a contraverdade. E, para descobrir a contraverdade, é preciso que se seja capaz de “advogar o diabo”, identificar-se como o inimigo, sentir-se como o palhaço.

Se a sexo-economia tivesse conseguido logo, no final da década de 20, desenvolver plenamente um movimento de massas com base “sexo-POLÍTICA”, um dos mais graves desastres na história da humanidade teria sido desencadeado; não porque o que era dito em público naquela épodca não fosse a verdade, mas porque não era TODA a verdade, que sempre inclui a contraverdade. E, neste caso, a contraverdade era: a supressão genital em crianças e adolescentes era necessária; sua omissão teria sido fatal, uma vez que estas crianças e adolescentes tinham de se ajustar a uma estrutura social que EXIGIA a blindagem contra a liberdade emocional. Crianças não-blindadas não poderiam ter existido na sociedade de 1930 em nenhum lugar deste planeta. Portanto, a verdade sobre os maus efeitos da blindagem de crianças e adolescentes não poderia vencer naquela época. Esta verdade, como então se apresentava, sem o conhecimento da contraverdade que bloqueava seu caminho, não poderia talvez ter operado de acordo com seu próprio desígnio e objetivo.

Isso é realmente advocacia do diabo. A contraverdade é, às vezes, mais cruel do que qualquer verdade jamais poderia ser; contudo, ela é, também, mais frutífera para o cumprimento final da verdade:

Em abstrato, a auto-regulação sexo-econômica é “perfeita”, muito melhor, mais limpa, firme, clara, e mais decente do que a regulação moral. Praticamente, em muitos casos isto se confirma na Vida viva. A pessoa genitalmente gratificada não é perturbada por pensamentos e sonhos pornográficos sujos. Ela não tem impulsos de estuprar ou mesmo de seduzir ninguém à força. Ela está bem longe de atos de estrupo e perversão de qualquer espécie. É o caráter plenamente genital que realmente cumpre a lei moral da Cristandade e de qualquer outra ética religiosa autêntica.