Do destino e das circunstâncias…


Estou chegando em uma fase em que o DDA parece estar sendo qualificado pelo “mal do alemão” (não o do camarada Valdir, mas do Alzheimer). Além de não lembrar às 4 h da tarde (em pleno e “frenético” expediente forense) do pedido singelo que a mulher fez às 7 h 30 min da manhã (do tipo: Bira, liga pro médico tal e marca uma consulta), sou capaz de cantarolar o mais surrado samba dos anos 1970 (do estilo “Dinheiro, pra que dinheiro”?) como se fosse inspiração musical inédita, com letra totalmente diversa, me achando um gênio!

O que talvez justifique (assim mesmo, sem colocar o “talvez” entre vírgulas que, no meu caso, são completamente desnecessárias para o bom entendimento do texto) a minha ausência absoluta, nos últimos meses, deste blog que, por algum tempo, (opa! lembrei das vírgulas) foi o élan absoluto dos meus dias, assim como o era, lá pelos meus quinze anos, o meu diário.

E, neste estado meio fora do mundo mentalmente organizado (de que, fisicamente, o zumbi aqui continua cumprindo fielmente, apesar da rebeldia recôndita e indômita, os seus deveres “familiares” e “profissionais”), volta e meia me vejo presa da mais cretina das reflexões (expressão que pra alguns coitados “lucidíssimos e racionais” peões da nossa pátria é coisa de falcatruas evangélicos), como a que acaba de me bater nos cornos, depois de 3 simples latinhas de suco de cevada fermentado no centro da capital do Rio Grande do Sul.

É verdade que ela não foi produto espontâneo do líquido auto-introjetado, mas resultado da decisão que tomou o alemão Valdir de nos colocar, em pleno saguão do hotel “Elevado”, a passear pela internet depois de alguma ingestão “venenosa”.Assim, chegando até a página do blog, fiquei com o focinho bem à frente do blog da companheira K. e sua última matéria publicada no último dia 23, inspirando-me a escrever esta crônica bêbada.

Mas, seja como for, vendo-me “suspenso”, por qualquer razão, das rotinas desta hipnose metida à consciência que vivemos todos, dei-me por conta, exatamente da forma mais imbecil, que me vem  sendo bastante rotineira, do quanto todos nós, mesmo os mais fervorosos e raivosos revolucionários, somos o produto mal havido dos últimos seis mil anos de opressão e sacanagem sofisticada, que iniciada, sabe-se lá como, com a seleção dos animais domésticos mais eficientes, acabou por atingir o auge no adestramento da grande massa da humanidade.

As necessidades de um esperto e pérfido dominador (e principalmente as de seu descendente igualmente pérfido, porém besta) fizeram com que os escravos de todo tipo (cuja coroação é a dos modernos peões assalariados) tenham desenvolvido capacidades específicas, que a ideologia teísta cristã do Ocidente chama de “vocações” (chamamentos irresistíveis e fascinantes), para o exercício de determinados trabalhos, a um tal ponto que a sua frustração é capaz de redundar na mais irremediável infelicidade para a pobre vítima interditada nos seus pendores.

E aí me vejo eu, moldado para o discurso, verbal ou literário, identificado com a estética mais refinada e profunda, puto da vida por ter de levar meus dias envolto com os mais áridos problemas técnico-teóricos ou concretos (do tipo: preciso do meu alvará pra pagar a conta do buteco da esquina, dá um jeito de devolver logo este cálculo judicial) sem qualquer relação com aquilo que me dá tesão além de mulher e trago, quase endoidando, ou caducando, pela pressão natural que vinte e tantos anos de obrigatório e sisudo cumprimento de tarefas acaba por gerar.

É bem verdade que a atual fase da pecuária humana (o capitalismo) me deu mais alguns pendores sofisticadíssimos e impróprios, como a mania da liberdade e da revolução (infelizes efeitos colaterais da opressão e da obediência inerte e besta), mas, tenham plena crença no que digo. Não fosse a maldição de ter de tentar sobreviver (e prover família) com as migalhas de alguns mil reais (tidas por privilégio neste país sul-americano que continua atirando esmolas oriundas do confisco tributário do produto do trabalho de seu povo como remédio à própria expropriação diariamente praticada pela burguesia lambe-cu nativa, lacaia da internacional), e quem sabe, se me permitissem exercer a minha “vocação” literária, talvez eu estivesse manso e bem acomodado com uma existência pequeno-burguesa, daquelas que permite se curtir um gre-nal, para quem gosta, no radinho de pilha (sei que ninguém sabe mais que diabo é este, mas continuo a tê-lo como referência) na tarde de domingo, ou a uma tertúlia como os vizinhos, familiares e amigos, na frente de casa, ao som de um sambinha qualquer no fim da noite (não da madrugada boêmia e folgazã).

Mas, tendo de contar cada infeliz moeda que me vêm às mãos como produto do sofrimento sem graça e medíocre que me é imposto pelo capitalismo local, acaba não restando muita coisa, até por uma questão de sobrevivência mental, do que me opor, me revoltar, cada vez mais, da forma mais radical e absoluta ao domínio completamente irracional e injustificado, da burguesada sobre os bilhões de trabalhadores deste planeta, ainda que esta rebeldia não tenha outro possível fruto do que a ampliação da precariedade vivida, como resultado da natural represália dos sócios pequeno-burgueses que atendem pelo nome de patrões no próprio poder público.

Em resumo, a própria especialização da escravidão assalariada acaba por criar a paixão profissional frustrada e esta frustração, ao se aliar à miséria material, nos reconduz, ironicamente, ao estado natural de rebeldia e inconformidade com tudo quanto não é o prazer genuíno e o bem estar de que gozam os animais em plena natureza.

Ubirajara Passos

Possessão


Mais um poema estrambótico para distração dos leitores que ainda teimam em acessar este blog, apesar da frequência cada vez menor de suas matérias:

Possessão

Não me possuo desde o velho dia
Em que pretendi adonar-me da poesia
E ela, matreira, de um bote enfiou-se
Pelos meus poros e se esparramou
Do calcanhar à nuca, invadindo
Até os menores becos do meu ser.

Tão entranhada fez-se esta vertigem
Do inefável arrebatamento,
O inextinguível sentimentalismo,
Que esta voragem indefinível que atordoa,
E alaga em pranto toda a minha alma,
Submergiu-me os mais pesados blocos
De auto-controle e determinação

E transmutou-me de raio fulminante
Em portentoso lenho trespassado
Pela profundidade sensível e maldita.

Gravataí, 20 de março de 2012

Ubirajara Passos

 

Semi-soneto a um peão revolucionário teimoso como eu:


Poema parido em uma noite imensa e estrelada, na Esquina União, à margem esquerda do Rio Cascável, em propriedade situada a alguns metros da cascata deste  (interior de Giruá, noroeste do Estado brasileiro do Rio Grande do Sul):

Semi-soneto a um peão revolucionário teimoso como eu:

Vives
De memórias que não foram tuas,
De um futuro que jamais terás
E em um presente que nunca desejastes!

Sofres,
Sempre, fazendo o que te contraria
E desejando a morte a cada instante.

Mas continuas auto-acorrentando
A uma existência que só aproveita
O gozo sádico dos que te espezinham,

Que pretendias ver no cadafalso,
Mas que desgraçam-te, e aos que tens afeto,
Sem força própria alguma, mas te impõem
Esta miséria toda pela aceitação
Dos teus iguais, que pretendes libertar!

Esquina União, próximo à margem esquerda da cascata do rio Cascavel, 16 de fevereiro de 2012

Ubirajara Passos