DOS LIVROS NÃO LIDOS E AS PÁGINAS NÃO VIVIDAS


Após semanas de campanha eleitoral exaustiva, sem escrever a mais micha das crônicas, é imperioso, e simultaneamente terrivelmente dificultoso, trazer novamente um pouco de movimento a este blog. Mas não é todo dia que consigo cagar as reflexões pessoais ou as teses políticas didáticas e abstrusas publicadas desde a semana passada.

O meu velho masoquismo, destes de sentar em formigueiro sem calças e passar mel no traseiro, entretanto, insiste na “necessidade” de escrever diariamente e, assim, acabei paralisado na frente da tela branca do computador, com aquela cara de piá babaca que não está entendendo porra nenhuma da “fórmula de báskara”, mas mela a cueca toda, hipnotizado pelas coxas da professora gostosa (infelizmente a única professora de matemática que tive era uma freira sessentona, mais arrogante e raivosa que cobra cruzeira e, evidentemente, não tinha nada de “gostosa”).

Tentando resolver o problema, resolvi mudar de “perspectiva”, e ao invés de olhar para a frente me pus a olhar pro lado (o esquerdo evidentemente) e dei com algumas dezenas de livros, tão sisudos e entediados quanto eu (todos em hierática postura, envoltos nos seus uniformes cor de vinho, que atendem pelo nome de lombadas), que infelizmente estão ali há anos, sem que eu tenha lido a maioria.

Depois de uma certa época, a pura verdade é que adquiri a mania de comprar livros às pencas, fosse pela fama e coturno intelectual que os acompanha, seja pelo mais genuíno interesse e simpatia, sem que leia, completa ou parcialmente, a grande maioria. De modo que, se o fosse fazer atualmente, faltariam-me horas, hoje rigorosamente dedicadas ao tédio, capazes de preencher a minha vida por uns bons dez anos de leitura contínua.

Confesso que a constatação me trouxe um profundo desespero, assim como uma imensa dó destes livros mudos e irrealizados na sua função de serem devorados pela minha mente, enquanto devoram-me a visão. E lembrei-me do quanto, com esta minha mania de deixar passar em branco páginas impressas, me assemelho a estes livro neglicenciados, me abstendo, por timidez ou mero hábito de rodar em torno ao próprio rabo, de viver as mais estranhas e prazerosas situações e deixando lacunas irremediáveis ao longo da linha finita e irreversível da vida.

Mas perdoem-me os livros taciturnos.Por mais aventura, fascínio e profundidade que possam conter, se os troquei muitas vezes pela cerveja e a gandaia pobre de noites boêmias em cabarés pequenos ou bares obscuros, se tivesse me compadecido e lido todos os volumes a que a minha gula literária me fez comprar compulsivamente, o número de páginas em branco na minha existência sem graça seria muito maior.

Permito-me, portanto, ao invés de gastar o cérebro e os olhos em tão ilustres e interessantes companheiros virtuais(há quase coleções inteiras não lidas), estudar poesia na geografia arrebatadora e fremente de um corpo nu de gata assanhada.

Ubirajara Passos

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SINDICATOS: da revolução ao parternalismo pelego


Os sindicatos surgiram, na primeira metade do século XIX, como a única forma de luta dos trabalhadores contra a sanha desenfreada dos primeiros donos de indústrias. Então, quando não havia qualquer regramento à escravidão assalariada, e os turnos de 16 ou mais horas, o trabalho infantil e a brutalidade eram quotidianos e inquestionáveis, a associação espontânea da peonada – independente de qualquer influência dos teóricos pequenos-burgueses, os socialistas de gabinete – compreendia a totalidade da luta contra a dominação capitalista e não se restringia a questões pontuais como salários ou horário de trabalho.

Não havendo, na época, partidos socialistas (as primeiras organizações formais com objetivos políticos exclusivos de conquista do poder estatal somente surgiriam na década de 1850) e se limitando a pregação dos pensadores de esquerda ao plano do debate, eram os sindicatos, surgidos da inconformidade concreta, os responsáveis pela resistência e pelos embates diretos com o domínio burguês. E assim, não havia qualquer possibilidade de apelo à complacência. As conquistas só tinham condições de se fazer pela ação direta, que incluía todos os membros e só tinha eco com a devida radicalidade: a sabotagem e a greve eram os únicos instrumentos eficazes.

Com o avanço e a sofisticação do movimento operário (e principalmente com a burocratização operada pelo marxismo) a luta dos trabalhadores cindiu-se entre partidos, responsáveis pela institucionalização das relações de trabalho e pela amenização da exploração capitalista, e sindicatos, relegando estes últimos aos embates imediatos pelas condições mínimas de sobrevivência (salários, horários, previdência e condições insalubres…).

A tarefa revolucionária de derrogação do domínio burguês passa a ser exclusividade dos partidos e o Estado (com a colaboração destes ou não) se encarrega de “organizar” e regulamentar legalmente os “direitos” e as formas de luta entre patrões e empregados. Os sindicatos tornam-se organizações burocratizadas, organizadas a moda dos partidos e do próprio Estado representativo, criando as condições para a separação prática entre a base e as direções, e o surgimento do peleguismo paternalista.

Entre o início da segunda guerra mundial e a derrocada do imperialismo fascista “vermelho” (1939 e 1989) as próprias crises intrínsecas do capitalismo, e o temor do avanço operário ocorrido entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século passado (principalmente a Revolução Russa de 1917), forçam a classe dominante a ceder um mínimo de seus privilégios, a fim de domesticar a contestação operária e impedir o fim do capitalismo.

Neste período, a maior parte do movimento sindical se restringe às negociações de cúpula entre dirigentes submissos e patrões, criando nas bases a visão paternalista, que coloca o sindicalizado na posição de total irresponsabilidade pela luta e pelas conquistas, as quais se restringem à negociação dentro dos limites estabelecidos pela “regulamentação legal do trabalho” (no Brasil a própria política salarial chega a ser estabelecida por decreto do governo federal), nos marcos autoritários do capitalismo.

A idéia de movimento de massas e de luta por condições de vida e trabalho dignas de gente, além do “garantido em lei”, se torna, no imaginário das bases sindicais, algo “radical”, inconseqüente e “subversivo”.

O avanço da exploração capitalista a partir dos anos 1990, quando o imperialismo yankee se faz o senhor único do mundo, investe, entretanto, na revogação dos antigos direitos trabalhistas institucionalizados e reincrementa a velha ferocidade dos primeiros tempos do domínio. Diante da mansidão de uma esquerda “institucionalizada” (seja em âmbito partidário ou sindical), a maré patronal tende à retomada do velho escravismo. E, neste cenário, o velho modelo de sindicalismo meramente “representativo” e “diplomático” (centrado nas “negociações” entre dirigentes e patrões) está completamente falido enquanto agente de proteção e conquista das reivindicações dos trabalhadores. Sua continuidade apenas garantirá a domesticação necessária ao estabelecimento definitivo e completo da barbárie.

Ubirajara Passos

MELANCOLIA


O meu estado de ânimo desde a surpreendente derrota nas eleições do Sindjus-RS tem sido de um marasmo e uma falta de entusiasmo total e completa, o que me impede de escrever qualquer coisa. Logo, para que os leitores não fiquem igualmente entediados com este blog, publico abaixo um velho poema que casa com as emoções deste dias de ressaca política e existencial.

MELANCOLIA

Sentar frente ao papel, na escrivaninha,
Para escrever,
Mas escrever o quê?
Se a alma minha
Nestes momentos em vazio se encontra;
Pegar a pena e imprimir os signos
Dos sentimentos presentes,
Estéreis, vagos,
Este o tormento porque passo agora,
Pois já não tenho os sonhos de outrora,
Já não vislumbro lá longe a vitória;
Já não expresso, sequer, de minh’alma
Os pensamentos hodiernos;
Reflito
Neste poema
Idéias e expressões passadas,
Nada de novo nasce desta pena,
Só a mim mesmo estranhamente imito.

Gravataí, 2 de dezembro de 1987

Ubirajara Passos

O SIGNIFICADO DAS ELEIÇÕES DO SINDJUS


Esta não é uma análise política coletiva, nem o desabafo de um candidato frustrado, mas o depoimento e a reflexão de um trabalhador que jamais abriu mão do questionamento permanente sobre tudo e da disposição em lutar, até a última gota de sangue, pela dignidade e pela liberdade a que todo ser consciente que atende pelo adjetivo de “humano” tem direito.

Me tornei sócio do Sindjus-RS em 1991, quando a entidade contava apenas 3 anos e recentemente tivera a 1ª eleição direta para a diretoria, fundada que foi pelas associações pelegas do judiciário estadual. E desde então a minha luta foi a de um “peão” que só vê possibilidade de ter garantidas condições de trabalho e sobrevivência dignas através da pressão contundente, precisa e incoercível da massa dos trabalhadores sobre o Tribunal de Justiça.

Mas, mesmo militando por necessidade, como trabalhador com interesses comuns aos dos demais membros da categoria, a minha prática nunca foi a de um sindicalista isolado do mundo, sem convicções além do estrito círculo profissional. Já aos quatorze anos (em 1979) eu não era indiferente à realidade da dominação social da maioria por uma meia dúzia que se arroga o privilégio de viver um carnaval perpétuo, enquanto o restante desfila no cordão do sacrifício e da miséria.

Na última gestão do sindicato me empenhei, a cada instante, na construção de um Sindjus formado na participação consciente, crítica e democrática de cada companheiro a fim de resistir à avalanche de truculência e arrocho despejada pelos poderes judiciário e executivo. E pudesse avançar na recuperação de perdas salariais históricas e na conquista de benefícios mínimos (como o plano de carreira) por que esperamos há décadas.

Fui candidato a Diretor de Regionalização pela chapa 1 (Sindicato é Pra Lutar – Todo Poder à Base) e fiz campanha pelo interior do Estado nas 3 últimas semanas anteriores à eleição. Praticamente não botei o pé em casa e percorri milhares de quilômetros, desde Uruguaiana até Gravataí, de Bagé a Rodeio Bonito, de Santa Rosa a Cachoeira. E pude constatar, mais do que já conhecia na minha comarca e nas atividades sindicais, o quanto ainda são precárias e opressivas nossas condições materiais e psicológicas de trabalho. Pude ver no rosto de cada servidor o sofrimento e o desejo de uma realidade mais humana, bem como a necessidade e o anseio por um sindicato mais próximo, mais vivo, mais participativo, forjado nas veias e nervos e na luta de cada companheiro e companheiro.

É bem verdade que também presenciei o acomodamento e a visão paternalista de vários colegas, daqueles que vêem no Sindjus apenas a diretoria e esperam que esta conquiste, como uma equipe de lobistas, as reivindicações, sem qualquer envolvimento do restante dos trabalhadores. Mas o resultado eleitoral é absurdamente surpreendente e parece apontar para uma grave doença. Tudo indica que além de LER-DORT e depressão, que grassam nos locais de trabalho como ferrugem em plantação de soja, a grande maioria (com exceção dos valorosos 331 companheiros que nos honraram com seus votos, a que muito agradecemos e esperamos estejam conosco irmanados na continuidade da luta) está contaminada pelo MEDO!

Senão como explicar a vitória de um grupo tradicionalmente imobilista, flagrantemente apoiado pela central pelega (a CUT) que defende o governo anti-povo de Lula e cujo ex-presidente é hoje Ministro da Previdência, encarregado da elaboração de nova reforma previdenciária, em que o mínimo que irá nos acontecer será a elevação da idade mínima de aposentadoria para os 65 anos, tanto para homens quanto mulheres (vejam bem: o peão ou a trabalhadora poderão estar trabalhando há mais de 40 anos, mas se não tiver 65 não se aposenta!). Ou a votação em 2.º lugar na chapa sempre ligada ao Tribunal e que, descaradamente, defendeu a avaliação de desempenho e quebra da estabilidade dos servidores proposta pelo patrão em 2006, fazendo coro às falas do Presidente do TJ sobre “servidor vagabundo”?

Parece que o quotidiano de pressão, trabalho excessivo, falta de servidores e salários insuficientes já nublou a consciência, e jogou ao desamparo desesperado, da grande maioria dos companheiros, que prefere balbuciar ante o carrasco do que se abraçar, na mútua solidariedade que humaniza e dá firmeza às massas, para avançar sobre o opressor. Mas fica o alerta: as forças que hoje nos oprimem (e que vão do Palácio do Planalto ao gabinete do juiz – a maior prova é o envolvimento explícito da CUT e do próprio TJ nas eleições) não são nada complacentes e não cedem a pedidos de clemência. O que se avizinha no próximo semestre para a classe trabalhadora do Brasil como um todo, e nos inclui, é mais um festival de ataques dignos de um PCC.

Ubirajara Passos – coordenador do Núcleo Regional da Grande Porto Alegre