A rua que desapareceu do mapa


Na parede lateral da velha casa a placa da rua extinta

Na parede lateral da velha casa a placa da rua extinta

Um belo dia, na primavera passada, eu andava, reinento e deprimido, pela principal avenida do centro histórico de Gravataí (a Dr. José Loureiro da Silva), na quadra da escola cenecista (o Gensa), quando, na parede da velha casa localizada logo após ela, da Atual Imobiliária, dei com a placa acima, que foi fotografada no último verão.

 “E daí? Nada demais!”, dirá o leitor afoito, adepto da seita do “objetivismo” tacanho e utilitarista. “É uma velha placa de outras décadas, de padrão ultrapassado e sutil poesia nostálgica, mas apenas isto”, dirá um empolado e modernoso intelectualóide da bur(r)ocracia acadêmica local. Mas a verdade é que não se trata simplesmente de uma placa indicativa antiga, de um nome já alterado, em uma rua da cidade, como havia uma da “Rua Venâncio Aires” (posteriormente Avenida General Flores da Cunha, e atual Avenida Dorival de Oliveira) na esquina sudoeste da Rua Anápio Gomes com a Dorival, até alguns atrás.

o prédio e o início da escadaria

A placa está localizada em uma parede lateral da casa, onde simplesmente não existe rua, nem travessa nenhuma! E o logradouro que indica não consta absolutamente de nenhum dos mapas de Gravataí que possuo (e são muitos, quase um por ano, desde 1980).

Mas, junto à parede em que se encontra, corre uma velha escadaria de pedra, encaixada entre a dita casa (na qual se abrem, ao nível do porão, portas de apartamentos diversos) e o prédio do Gensa/Facensa, que vai acabar em meio à quadra, contra os muros do Ginásio de esporte da escola/faculdade. Ou seja, o que hoje é um beco sem saída, perdido em um recanto das fronteiras do centro histórico de Gravataí, simplesmente já foi, lá pelos 1920 ou 1930, quem sabe até os anos 1960, uma travessa, mapeada e denominada na lei municipal.

escadaria que corre junto à parede da casa

Fiquei imaginando qual foi o processo misterioso, sutil e imperceptível, que converteu a antiga travessa no que hoje é visivelmente um beco de cortiço, que parece dar acesso a um mundo totalmente diferente da velocidade e complexidade urbana que o cerca. Um mundo cujos habitantes com certeza  não tem a menor noção da estranheza do meu olhar prepotente e intelectualóide, como a mulher ao fundo, curiosa, e certamente espantada com a minha própria curiosidade, ao me ver fotografar o que é tecnicamente o seu “quintal”, que nada de extraordinário possui na sua opinião.

vista geral da antiga travessa

Não possuo informações maiores a respeito, não tenho a menor noção de quando a “rua” desapareceu dos mapas oficais e, ao inverso do comum, se tornou um mero beco, um corredor atravessado por degraus. Mas ali está ela. Desafiadora e estranha, contra-senso geográfico urbano e antropológico despercebido  a atestar o quanto a realidade é maior que a nossa capacidade de entendimento, pela via da razão distintiva e da classificação, do mundo.

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escada no meio da antiga travessa

Ubirajara Passos

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3 comentários em “A rua que desapareceu do mapa

  1. Seu amigaoo disse:

    Quem avisa amigo é: A JAJA estas voltando para Gravataí.

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  2. Seu amigaoo disse:

    Não, nao é brincadeira.

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  3. gerson K. Monteiro disse:

    Essa rua Tiradendes, terá sido abduzida, sequestrada ou simplesmente invadida pelos membros precursores do MST.
    Intrigante e misterioso assunto, deve ocultar algum cadáver, seja ele físico ou qualquer outra coisa. Já por um acaso ocorreu ao autor fazer um boletim de ocorrência sobre o desaparecimento da rua. Possuo uma tese: logo que vim residir em Gravataí, a rua de meu domicílio chamava-se Tiradendes, que por sua vez deixava os carteiros putos da vida, pois como não existia o tal de CEP, a mesma era confundida com quatro outras em vilas diferentes do município. Além do que foi o segundo lugar onde vi com meus olhos, que um dia a terra há de comer, a rua ter o início de sua numeração começada nas duas pontas, ou seja não possuia fim. A numeração maior localizava-se no meio da mesma, não bastasse isso, possuia numerações duplicada. Certa feita um amigo do goró veio me visitar, como havia bebido na noite anterior, pensou estar de porre ainda, deu meia volta e foi embora. Mas não sem antes passar no Bar da esquina e tomar umas para ter coragem de enfrentar a via sacra do caminho da volta. Lá pelas tantas indignado da vida foi até a casa onde estava pendurada a placa com o nome da dita rua, e num gesto de raiva arranou-a. Quem sabe se não teria ele fixado-a nesta casa.

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