Duplo soneto de um duplo despertar…


Mais um poema relegado ao “pó” da gaveta virtual, resgatado na faxina informática deste final de ano:

Duplo Soneto de um duplo despertar…

Desperta, camarada, que chegou a hora!
Em meio à escuridão das multidões ignorantes,
Ressurge a memória sepultada sob as toneladas
Da maledicência hipócrita e cruenta!

Agora sabemos que não era utopia,
Nem entusiasmo fantasista e inconsequente
Que ao sacrifício tantos arrastaram.

Se no Brasil a massa obreira, estuprada
Nos seus direitos de “viver em paz “,
Só desejava e foi interditada
Antes ainda que a jornada principiasse
No Chile, cada camarada
Experimentou concretamente um pouco
Da construção da nova vida em liberdade!

Nas duas pátrias um sono malsão
Faz prisioneiras as consciências desde então,
Mas uma brisa gélida e ligeira
Vai-se se impondo, suave e destemida.

No sul do sul do mundo a igualdade
Há de tornar a cada um digno e pleno
Porque iguais são os sofrimentos
E eles inspiram-na, revolta ensandecida e sagrada!

“Não sou apóstolo, não sou mártir”, nem profeta,
Sei “que a morte é melhor que a vida
Sem honra, sem dignidade, e sem glória”

Mas sei que em “cada gota do sangue” dos sacrificados
Pelo direito a uma vida humana,
Manteve-se e está frutifican
do em nossas consciências a “vibração sagrada”!

Gravataí, 7 de janeiro de 2013

Ubirajara Passos

Pacotaço de Sartori: por que não aconteceu a greve geral do funcionalismo gaúcho e o que lhe resta fazer diante da sanha privativista e anti-trabalhador dos governos estadual e federal


Diante do questionamento de combativos companheiros servidores do judiciário gaúcho sobre a razão que impediu o funcionalismo do Rio Grande do Sul de deflagar a greve geral contra o pacotaço privativista (com absurdos como a venda da Sulgás, da Cia. Riograndense de Mineração e da CEEE, extinção da Cientec, da Fundação Zoobotânica e da fundação Piratini, que mantém a TVE e a Fm Cultura) e anti-servidor do governador Sartori, votado na correria e sob forte repressão miltar às manifestações de protesto na praça da matriz, publicamos, a guisa de resposta, as seguintes reflexões no grupo de facebook “Greve no Judiciário Gaúcho”:

Nem medo, nem falta de união, mas simplesmente peleguismo puro de lideranças sindicais burocratizadas e incapazes de comandar a rebeldia necessária. Discursos infantis e desgastados como o da direção do Cpers, que tratava o apocalipse do serviço público como um mero “pacote de maldades” (algo como uma “birrinha pueril do governador) e não como uma política coerentemente pensada (embora radicalmente absurda) e determinada de enxugamento e desmonte do serviço público, e entrega de setores estratégicos ao capita privado, deixam clara uma inércia abobalhada diante da hecatombe que está nos reduzindo a todos à condição de escravos sem nenhum direito, atê mesmo à representação sindical! (vide o fim de triênios, adicionais, licença-prêmio e licença remunerada para cumprimento do mandato sindical), na liquidação do estoque e patrimônio da lojinha falida do budegueiro gringo (tal é a natureza das “medidas de gestão” de Don Sartori).

No Sindjus não se deve nem falar, visto que dirigido por agentes expressos e teleguiados do patrão.

A imagem pode conter: 1 pessoa, multidão, árvore e atividades ao ar livrefoto: Inezita Cunha
fotos: Inezita Cunha
A heróica resistência das manifestações durante a votação propositalmente de inopino, feita a ferro e fogo e garantida pela repressão militar truculenta, é o derradeiro ato desesperado, e absurdamente insuficiente, que mesmo que contasse com a presença de dezena milhares de servidores não surtiria o efeito necessário que somente poderia advir da greve geral por tempo indeterminado.

No já longínquo ano de 1987, atitudes bem menos drásticas do governador peemedebista Pedro Simon foram exemplarmente rechaçadas e detidas por uma greve sem precedentes, liderada por sindicatos com brios.

Naquela época os servidores da justiça fizeram sua primeira grande greve sob a liderança, recém eleita então, do Paulo Olímpio da ASJ (!), que nem o Sindjus então existia!

É inacreditável a domesticação a que chegamos nestes trinta anos, que é extremamente perigosa quando ocorre simultaneamente ao avanço raivoso e impiedoso do fascismo privativista e predatório que comanda o país desde Brasília.

As “reformas” de Sartori e Temer não coincidem com a lógica da liquidação de lojinha falida por acaso, nem são mero reflexo da índole partidárias de tais governos, casualmente peemedebistas.


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fotos: Inezita Cunha

Elas servem concretamente aos interesses do capital financeiro internacional, cuja sanha cada vez maior se garante pela implantação de ditaduras informais, escudadas numa legalidade aparente e no mais furibundo e falso moralismo fascista.

E para implantá-las nada melhor que governos fantoches dirigidos pela velha lógica feudal, entreguista e subserviente das aristocracias latino-americanas. As mesmas que apearam Perón e Jango do poder, “suicidaram” Getúlio e Allende e assassinaram Che Guevarapara que a burguesia americana pudesse continuar sugando cada vez mais o produto do sacrifício diário dos trabalhadores do continente.

Contra este massacre econômico e social deliberado, que nos chicoteia o lombo e nos tritura o corpo até o tutano, não resta, tanto para servidores públicos quanto para o povo trabalhador brasileiro em geral, outra saída que a única e derradeira resposta plausível ao encurralamento irresistível em que estamos sendo jogados. E ela não é somente a resistência pela greve geral, mas a derrubada, a pau e pedra de tais governos ilegítimos.

Estão nos retirando até o último direito e nos conduzindo à miséria definitiva. Logo não teremos mais nada a perder. E aí, quem sabe, ganharemos o ímpeto para virar a mesa e mandar esta ordem social e econômica, e todos seus beneficiários, inclusive os mandaletes corruptos travestidos de defensores democratas da moralidade, ao lugar que merecem (que não é exatamente o colo de suas genitoras)!

Ubirajara Passos


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foto: Inezita Cunha

Carta aberta ao senhor da guerra Barack Obama


Sou anarquista e, consequentemente, não creio na legitimidade de qualquer Estado, porque este necessariamente se alicerça no uso da força, da qual, técnica e formalmente, detém o monopólio para impor sua “soberania”, ou seja, a opressão sacralizada de governantes nominais sobre a massa dos povos, em defesa dos sádicos apetites das classes dominantes.

Mas, libertário em meio a um mundo dominado por governos e organizado verticalmente pela distinção do ser humano em classes (a que se arroga o mando e oprime e a que se submete e cumpre a função de objeto da outra), não tenho como ser indiferente às condições limitadas de maior ou menor dignidade e liberdade das multidões trabalhadoras nos diferentes estados.

E é com verdadeira e sagrada indignação (porém sem ingenuidade, nem surpresa) que assisto a onda da incipiente revolta popular democrática da “Primavera Árabe” ser usada como pretexto para o exercício cínico e torpe da investida imperialista em um país soberano, com governo constitucionalmente estabelecido (ainda que, pelos padrões “ocidentais”, haja dúvidas quanto à sua natureza democrática ou ditatorial).

É de conhecimento público inconteste, desde décadas, que a Líbia de Muamar Kadhafi foi sempre um bastião na África do Norte do nacionalismo árabe (e de um idiossincrático “socialismo islâmico), e um dos grandes promotores e financiadores da oposição árabe “terrorista” ao imperialismo capitalista internacional. E, portanto, um dos principais inimigos dos Estados Unidos da América e seus aliados (entenda-se, da burguesia multinacional). Mal ou bem, ditadura ou não, o regime líbio, ao que se pode conhecer no Ocidente, com as informações distorcidas e filtradas que a imprensa globalizada, dominada pelo capital nos permite, garante ao seu povo um mínimo de dignidade, um estado de bem-estar social bem diverso da grande maioria das nações vítimas do neo-colonialismo informal, como o Brasil. E, como Cuba, é um exemplo inconveniente que os senhores da guerra “ocidentais” sempre pretenderam extirpar da face do planeta.

 

Assim, é cruel e ridículo que a imprensa internacional, a serviço de seus patrões, confunda a oposição armada líbia (que parece ser formada em boa parte por apaniguados de senhores feudais locais) com as revoltas populares egípcia, tunisiana ou iemenita, e que Europa e Estados Unidos, do alto de sua arrogância, intervenham em seu território, sob a exigência de que o governo líbio não se defenda contra seu avanço.

Mas é mais terrível e inaceitável ainda que o senhor da guerra Barack Obama, negro norte-americano (descendente de africanos) de confissão e nome muçulmano, sob o pretexto infantil e insustentável da proteção à vida dos civis (vítimas da “repressão governamental” – na verdade das consequencias inevitáveis da guerra civil), tenha tomado a inicitiva (ainda no solo do meu país, o Brasil, onde se jactava de grande defensor dos direitos humanos) de desencadear o bombardeio aéreo indiscrimando sobre o país, chacinando estes mesmo civis, africanos e muçulmanos, vítimas das disputas de governos e guerrilheiros, com uma chuva de mísseis inominável.



Não se admite (ainda mais se conhecendo as verdadeiras razões políticas e econômicas, notadamente a sanha pelos recursos petrolíferos) que uma nação constituída, membro reconhecido das Nações Unidas tanto quanto Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha ou França) sofra a intervenção de qualquer outra em sua política interna. Que dirá que seu povo, já encurralado em meio ao tiroteio das forças políticas internas, se veja, vítima, sem defesa, das bombas imperialistas, pagando com sua vida o luxo sádico do senhores da economia internacional.

Do massacre “humanitário” perpetrado por Sua Excelência, o senhor presidente de uma “nação livre”, que preza a sua declaração de independência, mas escraviza os demais povos, não lhes permitindo a autonomia para resolver os próprios problemas, restará nada mais que uma Líbia dilacerada em novas e infindáveis guerras civis entre senhores feudais, como na antiga Iugoslávia após a morte do Marechal Tito, e, sobretudo, o saldo do sangue milhares de vidas inocentes, cujo clamor não tem a menor chance de chegar aos nossos ouvidos, mas há de ecoar para sempre na consciência do discípulo de Martin Luther King (se é que a possui), o negro muçulmano Barack Obama.

Ubirajara Passos