Respeitável manifestação de um bom burguês puto da vida


Desceu à rua completamente embriagado
E pôs-se a girar, a gritar e a cantar,
Jogando as roupas longe, para todo lado.

Nu, completamente nu,
Giravam ele e o caralho mole,
Dando laçaços como rabo de cachorro.

Era uma figura burlesca e inusitada.
Dava gritinhos, corcoveava, foi-se
Num tropel louco, pelo largo afora,

Mas ninguém riu-se, absolutamente, não se viu
Um único olhar reprovador a sua volta.

Porque, desnudo na alma e em suas carnes,
Vestido estava do mais considerado
Na honrada sociedade hipócrita!!!

Bunda de fora, cu a mostra, corcoveando
O enlouquecido cidadão cumpridor de seus deveres
Trajava ainda a superstição brava
Do “respeito” irracional e reverente:

Trazia à mão negro chapéu de feltro,
Velha gravata floreada no pescoço,

E, garantia total de seriedade,
Uns velhos óculos sem vidro sobre as fuças!

Gravataí, 7 de fevereiro de 2013

Ubirajara Passos

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Soneto do Penúltimo Dia


Profundo sábado,
Refúgio sagrado,
De todos êxtases,
És de outra esfera.

Viceja em ti
Um gozo tão sereno.
Não há canção que não conduza às lágrimas.
Não  há cachaça que não alargue a alma.

Em tuas noites
Qualquer raio de lua
É uma viagem às esferas do nirvana.

E qualquer banco de praça nos conduz
Aos mais estranhos deleites
Dos altares ou das camas.

Gravataí, 3 de dezembro de 2012

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O Ermitão


Poeminha cretino surgido em meio ao tédio do final de sexta-feira:

O Ermitão

Ele era um chato,
Pra caralho um chato!
Velho eremita bêbado, vivia
Em transe etílico no seu castelo.

Sua companhia eram cães e gatos,
E a vizinhança debatia, ardente,
Se era bruxo, veado ou lobisomem!

Muitos rondaram a velha propriedade,
Bisbilhotando, sem ouvir um ai
E mais entediados voltaram que o asceta.

Ninguém supunha as fantásticas orgias
Que, nas viagens astrais, realizava
Com sílfides e ondinas deslumbrantes!

Gravataí, 30 de novembro de 2012

Ubirajara Passos

Soneto do Quinto Dia


Sexta da cerveja,
A tua noite reveja
A velha boemia de eras distantes.

Traga o fim do dia
A redenção divina
Da cruz do serviço
Às três horas da tarde.

E, o batismo no copo,
A iluminação
No altar do buteco,
Em comunhão bêbada.

Na noite exaltada
Mergulhemos rumo
Ao paraíso das setenta mil loucuras!

Gravataí, 28 de novembro de 2012

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Soneto do Terceiro Dia


Terceiro poema da Heptalogia de Novembro (título sugerido pelo Carlão, ontem à tarde):

Soneto do Terceiro Dia 

Quarta-feira linda,
Velha namorada,
Sol e ventania,
Saias levantadas! 

Suave e esperançoso
Topo da semana,
Faz-nos rir a toa,
Num bater de asas! 

As feiras são feiras,
Mercúrio, o mensageiro,
Entrega-nos cartas de pura bonomia. 

E nosso olhar se perde,
Apesar da rotina,
Nas coxas sedosas daquela messalina. 

Gravataí, 28 de novembro de 2012 

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Soneto do Primeiro Dia


Poeminha auto-explicativo, parido em plena circunstância concreta (ainda que a ressaca de hoje seja apenas o resquício, mais moral que físico, da do dia anterior):

Soneto do  Primeiro Dia 

Segunda-feira:
Ressaca e asneira.
Torto levanta-se
E torto anda-se. 

Vai-se arrastando,
Junto com as horas,
Aos trambolhões,
Toda a leseira!

 Abandona  a cama
Com um peso enorme
O morto-vivo. 

Vai ao trabalho
Tendo-o por feira
E lá descobre que é funerária! 

Gravataí, 26 de novembro de 2012 

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Maldição


Poeminha pessimista que escrevi em Porto Alegre, uma semana antes de viajar para a “fazendola” do alemão Valdir, em “Esquina União”, às margens do Rio Cascavel, que dá nome à localidade fronteiriça (Rincão Cascável), no distrito do Mato Grande, interior do município missioneiro e gaúcho de Giruá:

Maldição

Maldito seja o sadismo que sepulta,
Antes mesmo do próprio nascimento,
Os suspiros de tesão e os gritos de prazer!

Maldita a tirania introjetada
Que interdita aos seres a doçura
Dos afagos e dos fogos mútuos,
A uns secando a vida em soberbia,
A exigir mil predicados para a entrega,
E a outros frustrando e sufocando o impulso
Na rejeição cheia de si dos desejados.

Maldita seja a manipulação hipócrita e infame
Que, atendendo pelo apelido,
De moral, etiqueta ou estética
Separa corpos, dilacera almas,
Infelicita meia humanidade

E cria este poema empolado e seco
Cheio de eruditismos e ademanes
Para tratar de assunto, ao natural,
Irreverente, malandro e folgazão!

Porto Alegre, 3 de fevereiro de 2012

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