Semi-Soneto da Paixão Escrita


Para que os leitores não reclamem que, além de praticamente não publicar nada, nunca mais apareceu um poema que preste por aqui, vai publicado abaixo o último que escrevi, em raro estado de inspiração, no caminho de casa até o foro, após o almoço, na segunda-feira:

Semi-Soneto da Paixão Escrita

Escrever é um ofício solitário”.
É como fazer sexo consigo mesmo!

 Há os que exageram no tom masturbatório
E jogam aos olhos dos leitores
Toda uma porra xaroposa e exasperante,
Qual lenga-lenga de cornudo bêbado.

 E também há os meros sonhadores
Que se comprazem na contemplação
E nos envolvem na própria fantasia
Até o limiar de deleites absurdos
Para depois “se acabar” num nada seco!

 Mas há, são raros e inconformados,
Quem saiba transformar o fogo que arde
Nas suas entranhas mentais em plena arte
E nos fazer explodir, abestalhados,
Ante a surpresa do simultaneamente
Belo, simples e profundo,

 No tom dos gritos de um êxtase poético
De musa lúbrica, gostosa e apaixonada.

 Gravataí, 24 de agosto de 2009

  Ubirajara Passos

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A MORTE DO “DENTE HUGO”


 Dente Hugo é um amigo do Peruca, especializado desde tenra idade em tudo quanto é atividade que envolva um grau mínimo de transgressão ou gaiatice, especialmente aquelas que tem um certo ar de falcatrua. Não por acaso vibrou quando lhe anunciei solenemente num buteco da “parada 79”, em plena conversa de bar, com o testemunho do “pastor” Kadu Macedo (tão embriagado quanto nós), que ao completar seus dezoito anos – o que se daria logo, logo – teria zerada sua extensa ficha no Juizado da Infância e Juventude. Que, a partir daí, ficaria limpinha como nova, prontinha para ser preenchida por contravenções dignas de gente grande.

E um belo dia, entediado com a nobre e profícua diversão humanitária de trocar, para seu avô Ramón (veterano de todas as guerras não havidas), amassadas notas de vinte reais por apenas uma nova e lisinha nota de dez, Victor Hugo (como foi registrado o dentuço gaiato e afoito, espécie de Peruca em couro de camelô), resolveu dedicar-se a um “labor” mais útil e aventuroso: o comércio de fios de cobre. Para cuja obtenção, evidentemente, tornou-se um “exímio” alpinista de postes de luz e telefone.

O negócio ía deslanchando mais que pulga em cachorro de rua, até que, não se sabe se por falta de postes ou delação de seu sócio, o Tibica, Dente Hugo teve de dar um tempo das ruas de Gravataí e procurar o auto-exílio no litoral gaúcho, especificamente nas praias de Tramandaí, para onde se mandou, oficialmente, para curtir um descanso de seu árduo trabalho. Em pleno inverno, bairros desertos, entretanto, era impossível resistir a todas aquelas linhas elétricas dando sopa pela praia e o cabrito Dente Hugo tratou logo de escalá-las para ganhar uns cobres com os fios de cobre. E, como não dispensava uma boa canjebrina, a décima escalada acabou resultando num tombo digno daquele acidente automobilístico do Peruca em Glorinha, o que deixou o nosso herói de molho uns  bons dois meses, em plena praia, sem poder exercitar seus dotes ecológicos de reciclador de metais.

É mais ou menos óbvio que a turma em Gravataí sentiu muito a sua ausência, especialmente o plantão da RGE e o Juizado da Infância e Juventude. Como a coisa andava de boca em boca, numa aflição sem fim (que a cidade, apesar dos seus 300 mil habitantes ainda tem hábitos de vilinha do interior, e a fofoca e a especulação sobre a vida alheia é o principal deles), o safado do Kadu, depois de tomar aquele porre com o “Dente”, em Tramandaí, por conta dos cobres amealhados antes da fatal queda, resolveu dar um incentivo ao principal esporte local. E espalhou na internet, mais precisamente no orkut, entre amigos, inimigos e desconhecidos, que o pobre Dente Hugo havia caído de um poste na praia, batido com a cabeça e expirado, nos  braços de um pescador que lhe contou tudo, de olhos e boca arregalados, não sem antes emitir as antológicas frases a la Peruca: “Diz pra todo mundo que o cobre mata, a gurizada que não siga o meu exemplo. Diz pro Tibica que tá perdoando por ter me ensinado este caminho. Manda o “Charuto” ficar com aquele tênis velho e fazer bom uso, que ele já me roubou mesmo. E não se preocupem: não quero ninguém chorando no meu enterro. É pra beber cachaça, cheirar cola e até descascar fio de cobre. Mas não vão chorar. Ah! Avisa pro pai daquela guria que ela me enganou. Eu só fiz sex…” E morreu com a frase incompleta, revirando os olhos.

Como fofoca por internet é bem mais potente, ainda mais na capital gaúcha do fuxico, o resultado é que o boato se espalhou, e tomou as próprias ruas, calçadas, bares, funerárias e a sala de estar das comadres fofoqueiras. Não havia quem não soubesse ou comentasse o imprevisto desenlace. A própria mãe do Kadu, senhora severa mas sentimental, que detestava a amizade de seu filho com o tal do “Dente”, entrou em casa, um certo dia, transformada em lágrimas, com cara de mater dolorosa, e foi interpelando o sem-vergonha: “Meu filho, tu sabia que morreu o Vítor Hugo? Morreu roubando cobre, na praia, o pobrezinho”.

E o nosso amigo Kadu não sabia, diante da barbaridade, o que fazer: se sumia (prevendo a sessão de xingamentos) ou se fazia de desentendido. Mas acabou não se agüentando: “Ô mãe, pára com isto aí. Fui eu mesmo que inventei esta história!”. Dizem as más línguas que a pobre senhora, após uns dez minutos de discussão se convenceu da falsidade do boato e que o Kadu passou umas quantas semanas desparecido também de barzinhos e rodas de amigos. Não por mera proibição, que aos dezenove anos isto pouco adianta, mas por falta absoluta de cobres no seu bolso, com a mesada morta e enterrada.

Ubirajara Passos

PEQUENO DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO SOCIAL – 6


Chulo: proveniente do castelhano seiscentista chulo, o sujeito simultaneamente desafiador e gracioso, “insolente”. O adjetivo que tomou em português a conotação de “obsceno” ou “sexualmente imoral” era o termo pelo qual a aristocracia espanhola do século XVI designava, portanto, os membros da ralé (servos e homens livres do povo, trabalhadores) que tinham a coragem de portar-se como gente, exercendo sua própria individualidade, sem submeter-se aos desmandos e caprichos dos donos da sociedade, os nobres, que (como toda classe dominante que existiu desde a Pré-História Humana) se julgavam os únicos dignos de viver segundo seus desejos e necessidades, de prazer e liberdade.

O chulo era o rebelde popular e “coincidentemente” passou para a nossa língua com o significado de grosseiro, agressivo, contrário ao “pudor”, “palavrão”. O detalhe é que sua rebeldia não se exercia de qualquer jeito (que provavelmente incluía a manifestação “inculta” de alguns xingamentos típicos, como corno, puta, etc.), mas pela suprema transgressão de vestir-se com elegância ou afetação própria da nobreza, audácia imperdoável para um reles membro do povão, considerado simples coisa ou gente de categoria subalterna a que não se dava outra prerrogativa que servir de tapete para os dominadores. O chulo, não se deixando pisar, e comportando-se “como senhor” ele próprio, era um perigosíssimo gaiato, capaz de falar de igual para igual com um aristocrata e se dar ao prazer público sem subterfúgios.

Sua transformação, ao ser adotado em Português, como sinônimo para a linguagem sexual ou agressiva franca, aberta e contundente, sem rodeios e firulas, faz, portanto, todo sentido, na medida em que os opressores de todas épocas, donos de escravos, senhores feudais ou burgueses necessitam da hipocrisia, da meia-palavra, do disfarce lingüístico para manter sua dominação  – baseada no encobrimento da crueza da utilização de seus “subordinados” como mera coisa, sob o eufemismo do direito de oprimir ou da “solidariedade e colaboração interpessoal” dos “membros” em diferentes funções no “corpo” social.

E, especialmente no caso da atividade sexual, atividade de puro prazer, contraditório com o sofrimento a que necessariamente ficam submetidos os indivíduos da classe dominada, é essencial à manutenção da ordem mecanizadora da maioria a repressão aos termos populares, não só universalmente inteligíveis, mas grávidos de alegria e volúpia – ao contrário do tom seco e instrumentalista da dita linguagem “científica” que designa coisas como buceta, caralho, foda com cores meramente utilitaristas, ligadas às puras “funções”, descarnadas de emoção e imaginação, de simples “re-produção” do rebanho de servos, como vagina, pênis ou coito.

Ubirajara Passos

Peruca e as Mil e uma Virgens


Entusiasmado, o professor de Direito Público Internacional do Peruca finalmente encontrou, após ler o dicionário jurídico do ilustre pupilo aqui publicado, algo sobre o que o bocaberta mais esperto de Gravataí  poderia discorrer, sem risco,  para ser aprovado no semestre, após dez anos grameando na mesma fase, e possibilitar ao iluminado mestre se ver livre da criatura. E assim, encarregou o nosso herói de elaborar e apresentar, em conjunto com uma turma de colegas tão “excepcionais” (no sentido que se aplica àqueles portadores da síndrome de down e congêneres) quanto ele, um trabalho sobre o terrorismo islâmico contemporâneo em vista das normas internacionais.

Juram acadêmicos do quilate de Camarguinho-chama-o-hugo que o Peruca elaborou tese profunda, de substanciosa e incontestável justificabilidade racional (Camarguinho não tem a menor idéia do que significa este fraseado bacharelístico todo, mas tem certeza de que se trata de coisa muito chique e importante), digna de figurar em discurso de embaixador da Gândia (paiz virtual em que se encontra exilado Gílson Pirâmide desde que perdeu os últimos tostões investido na “Dinastia”) na Assembléia Geral das Nações Unidas.

O problema, mesmo, foi,  o entusiasmo que o tomou na dissertação oral, em plena sala de aula, em que se encontrava presente o próprio reitor do campus da Universidade, convidado que fora pelo professor da cadeira (que andava necessitando montar a farsa necessária para provar sua competência como mestre, tão grande quanto a inteligência do Peruca). Para que a coisa não ficasse tão técnica e insossa, restrita à secura discursiva do Direito, resolveu adornar sua palestra com algumas informações eruditas, de poesia e rigor científico antropológico inigualávies, e foi dissertando, antes de aprofundar a parte técnica do tema, sobre as pretensas origens religiosas intrínsecas do terrorismo, dando conta dos primeiros atentados ocorridos na História, no meio da Idade Média (há cerca de mil anos), inspirados na promessa maometana de sete virgens gostosas e fogosas que se encontrariam no paraíso, esperando o mártir da guerra santa para a ele se entregar na maior putaria eterna, após sua morte a serviço de Alá.

O Peruca, neste trecho, ía “possuído” por um espírito barbosiano, dando relinchos de furor intelectual, quando sofreu a interferência de um encosto bêbado do velho poeta, matemático e astrônomo árabe-persa Omar Khayyám, e começou a conjecturar sobre as probabilidades do militante suicida ser realmente recompensando com tão doce prêmio.

E foi logo concluindo, com rigor algébrico absoluto, que, se na época havia sete virgens para cada doido muçulmano, passados mil anos, e milhares de terroristas suicidas pirados, dos simples soldados de frente de batalha ou assassinos a soldo do “velho da montanha” aos modernos homens-bomba, não era possível que, mantido o número fixo de virgens escaladas no plantão do éden maometano (que, sendo de puras vestais originárias do próprio paraíso, possuía a mesma quantidade desde a criação do universo, não podendo aumentar na proporção dos fiéis vindos do mundo dos vivos, submetida ao aumento geométrico da reprodução da espécie humana), houvesse por lá ainda virgens.

Ou esta tropa toda de terroristas suicidas era formada, em maioria, de brochas e veados, ou simplesmente as virgens de Alá eram todas, agora, experientes e espertas putas! E assim, caras como o tal de Bin Laden eram doido abestados ou simplesmente não escapavam do milenar sestro falcatrua de todo mascate turco, vendendo vestido de chita por cetim pupúreo.

Não se sabe como, mas se imagina, o Peruca foi promovido de semestre, e ainda foi agraciado com um prêmio inédito na faculdade: o “aproveitamento curricular integral automático” (qualquer coisa parecida com a antiga indulgência plenária concedida pelo Vaticano aos fiéis pré-reforma protestante que doassem vultosas quantias à Igreja). Com ele poderá permanecer mais cinco anos sem comparecer a uma única aula que seu diploma já se encontra desde já garantido. Já o professor parece que foi indicado para importante missão jurídica: nada mais que assessorar a equipe de defesa de Yeda e sua camarilha no processo escandaloso movido pelo Ministério Público Federal.

Ubirajara Passos

AS DUAS GRANDES TRADIÇÕES IDEOLÓGICAS DO BRASIL MODERNO ANTE-LULIANO


Antes que o leitor desavisado me tome por analfabeto ou maluco, vou logo explicando: a expressão “ante-luliano” quer dizer exatamente anterior à Era Lula (não troquei, portanto, anti – de contra – por ante) e também pretende estabelecer uma certa ironia relacionada a ante-diluviano, já que, nos tempos do Inácio, passou uma verdadeira inundação sobre as antigas correntes ideológicas (ainda que formais) deste país, reduzindo praticamente todo mundo político à aceitação devota e embevecida do capitalismo fascista dito neo-liberal, tingido de demagógico assistencialismo, dirigido pelo Homem dos Nove Dedos e seus parlamentares mensaleiros.

Feita esta advertência, é necessário que se diga que este texto nasceu para preencher a necessidade de responder à provocação (no bom sentido político e intelectual) de um ilustrado leitor deste blog, postado na crônica  O Verdadeiro Hino Gaúcho, cuja natureza demanda bem mais que uma simples réplica no espaço destinado aos comentários.

O ilustre cidadão, após sanar uma meia-impropriedade que cometi, taxando o ex-governador Ildo Meneghetti, do PSD, de interventor da ditadura de 1964 (cuja retificação eu fiz acompanhar de algumas observações a respeito da atuação do político referido no golpe de estado do ano mencionado, e de seus maiores contendores de então, os herdeiros do trabalhismo de Getúlio Vargas, Jango e Brizola) me questiona sobre minha opinião a respeito da ditadura do Estado Novo (chefiada por Getúlio), procurando sutilmente colocar em contradição minhas convicções anarquistas (e o meu repúdio à ditadura militar de 1964-1985) com a admiração por um “ditador fascista” (o fundador do trabalhismo, Getúlio Vargas). E, não contente com isto apenas, cita farta bibliografia para provar que Getúlio, João Goulart e Leonel Brizola eram corruptos horríveis e sanguinários.

Carlos Lacerda, o Corvo: o pai e inspirador de todos os críticos histéricos e difamadores do trabalhismo

Carlos Lacerda, o Corvo: o pai e inspirador de todos os críticos histéricos e difamadores do trabalhismo

Eu poderia simplesmente responder que as acusações são típicas do corolário direitoso escabelado (aceito e seguido, inclusive, nos anos seguintes à “abertura” do ditador João Figueiredo  – 1979 – pelos liberais de meia-tigela do PMDB e pretensos radicais esquerdistas, de então, do Partido “dos Trabalhadores”), que procura combater e apagar da memória do povo brasileiro a única corrente concreta que defendeu, de alguma forma, os direitos do povão trabalhador do Brasil no período republicano, o trabalhismo, lançando sobre seus líderes maiores a difamação moralista e “infantil”, a fim de misturá-los na lama da corrupção secular fomentada e admitida pela direita colonialista, e transformar a própria História pretérita em um cenário tão indistinto e torpe quanto o da paz luliana pós 2003. Ou poderia caracterizar tais manifestações como típicas daquilo que o mestre Wilhelm Reich chama de “peste emocional”  (o ranço anti-prazer do autoritarismo sexual, familiar e quotidiano introjetado na maioria dos seres humanos nos últimos seis mil anos que eclodiu, como manifestação política concreta, na forma do fascismo do século passado).

Mas, ainda que legítima, esta contestação seria excessivamente reducionista e simplificadora. É preciso que se diga, portanto, em primeiro lugar, que infelizmente não li a maioria da bibliografia citada pelo meu ilustrado crítico, com exceção de “Minha Razão de Viver”, de Samuel Weiner, e da resposta de Rivadávia de Souza, “Botando os Pingos nos Is”. Em segundo lugar, embora seja praticamente um piá para conhecer de experiência própria todo o período abordado, afinal recém estou às vésperas de completar os meus 43 anos, vivi o suficiente já para não me pautar somente na literatura (até porque nunca fui um acadêmico, o que estaria em contradição com o meu anarquismo), mas na convivência, e no depoimento dos que os acompanharam, com os fatos in loco. Em terceiro lugar que, embora anarquista, como fica perfeitamente contextualizado neste blog, sou “heterodoxo”, tendo me envolvido, apesar de minhas convicções, no mundo da política do Estado, e tendo vindo da formação socialista de matiz brizolista e trabalhista, o que não me faz um defensor fanático e acrítico de tal corrente ou de Brizola.

Lula e Sarney abraçados: a receita perfeita da ditadura lacaia do imperialismo para continuar o regime sob a fantasia da Constituição democrática

Lula e Sarney abraçados: a receita perfeita da ditadura lacaia do imperialismo para continuar o regime sob a fantasia da Constituição democrática

Feita esta série de advertências chatas e rançosas, vamos ao tema do texto propriamente dito.  Não sem antes mencionar que a corrupção é um fenômeno nascido praticamente no descobrimento do Brasil, que perpassou “todos” os governos do Brasil desde então, em maior ou menor grau, com ou sem conhecimento de seus chefes maiores. Muito embora Getúlio tenha morrido pobre, proprietário apenas de uma fazendinha na Região das Missões, no Rio Grande do Sul; Jango jamais tenha emitido decretos secretos para empregar apaniguados, como o aliado-mor de Lula, e ex-presidente da República, José Sarney; e, de Brizola, com todas as investigações exaustivas persecutórias da ditadura militar, não se tenha constatado o menor deslize. É interessante citar, inclusive, entrevista profética de Getúlio Vargas, antes de se eleger presidente da República, em 1950, reproduzida pelo intelectual, honesto e de mente absolutamente livre, Darcy Ribeiro em “Aos Trancos e Barrancos – como o Brasil deu no que deu”, na qual o velho Gegê dizia que seus opositores (defensores dos interesses do imperialismo americano) tratariam de apeá-lo do poder alegando justamente uma profunda rede de corrupção que eles próprios haviam se encarregado de estabelecer e aprofundar desde a República pré-revolução de 1930.

E o fato é que, da revolução de 1930 (liderada por Getúlio Vargas) e dos movimentos que antecederam (como as revoltas tenentistas, do 18 de julho paulista à coluna Prestes), nos anos 1920, derivaram as duas principais correntes políticas que tem dirigido este país, com orientações diametralmente opostas, embora ambas tenham resultado em ditaduras.

A corrente trabalhista surgiu justamente com as atitudes concretas tomadas por Getúlio como ditador durante o Estado Novo (1937-1945), quando se estabeleceu, de fato e de direito, pela primeira vez no Brasil o mínimo de direitos à massa de trabahadores, que a permita viver como gente. Das regulamentações anteriores e do decreto-lei que promulgou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) surgiram direitos como o salário mínimo (hoje infelizmente reduzido a nada), as horas-extras, as férias, os adicionais por insalubridade e periculosidade, e outros tantos que a incipiente burguesia e os velhos latifundiários deste país sequer cogitavam ceder aos seus peões. É verdade que o Estado Novo foi um regime fascista e, resultado da óbvia repressão aos opositores, inclusive aos comunistas de Prestes, ocorreram atos bárbaros como a entrega de Olga Benário grávida nas mãos da polícia nazista de Hitler, mas colaboradores como Filinto Muller (o responsável pelo ato), assim como o tenente de 30 Juarez Távora, foram justamente os que vieram a formar a segunda corrente, que resultou na outra ditadura, a inaugurada pelo golpe de 1º de abril de 1964, e que é a corrente colonialista.

Propaganda oficial da política social de Getúlio durante o Estado Novo

Propaganda oficial da política social de Getúlio durante o Estado Novo

Não é casualidade nenhuma que oficiais como Castelo Branco e Cordeiro de Farias (que atuaram na Frente Expedicionária Brasileira, nos campos da Itália na segunda mundial, sob o comando e em estrita colaboração com o imperialismo americano) tenham sido justamente os protagonistas do golpe de 64 e da ditadura dele resultante, que reduziu o Brasil definitivamente à situação de colônia informal de americanos, europeus, japoneses e grupos econômicos transnacionais em geral.

Se na ditadura de Getúlio se estabeleceu a proteção legal do Estado à classe trabalhadora, na ditadura de Castelo Branco e seus sucessores tais direitos começaram a ser suprimidos (exemplo clássico é a estabilidade no emprego aos dez anos de firma, revogada na prática com a criação do FGTS). E se na ditadura de Getúlio deram-se os primeiros passos rumo à independência econômica e tecnológica do Brasil, com a instalação da indústria metalúrgica em Volta Redonda, na ditadura dos generais gorilas submissos ao imperialismo “ocidental” se consolidou a entrega da economia nacional aos grandes grupos econômicos internacionais.

Findo o Estado Novo (com a deposição de Getúlio pelos candidatos a presidente da república de direita, Eurico Dutra – PSD-  e Eduardo Gomes – UDN, ambos altos oficiais militares) surgem como representantes clássicos de tais correntes o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro, do qual eram membros Jango e Brizola) e a UDN (União “Democrática” Nacional, que de democrática e nacionalista não tinha nada), que, juntamente com o PSD (Partido “Social Democrata”), representava os interesses das elites latifundiárias e dos apaniguados do imperialismo yankee. Getúlio, no princípio, liderava tanto PSD (formado pelos inicialmente pelos quadros burocráticas de sustentação da ditadura de 1937-1945, próximos ao coronelismo latifundiário das diferentes regiões) quanto o PTB. Mas, após ser eleito, pelo voto popular, Presidente da República em 1950, assumirá, de vez, o PTB como seu partido, tomando medidas que afrontavam diametralmente os interesses de oligarcas nacionais e grupos internacionais, como a duplicação do salário mínimo (sugerida pelo ministro do Trabalho João Goulart) e a criação da Petrobrás. Tais atitudes determinaram a campanha difamatória movida pelo principal político histérico da UDN (o ex-comunista Carlos Lacerda), que resultou na crise do pretenso atentado a Lacerda (que teria sido, segundo os lacerdistas, coordenado pelo chefe da guarda pessoal de Getúlio, o qüera Gregório Fortunato) e no suicídio de Getúlio Vargas. Por trás da gritaria udenista estavam, na verdade, os interesses de empresários e governo dos Estados Unidos.

João Goulart no comício da Central do Brasil (13 de março de 1964)

João Goulart no comício da Central do Brasil (13 de março de 1964)

Eleito Vice-Presidente, sucessivamente, nos governos de Juscelino Kubitcheck de Oliveira (mineiro do PSD, com o qual o PTB estabeleceria aliança estratégica até o início dos anos 60) e Jânio Quadros (que fazia oposição a Juscelino, Jango só se elege porque o vice-presidente na época não concorria em chapa casada com o presidente, se votava para ambos os cargos em separado), João Goulart assume a Presidência da República em setembro de 1961, após a renúncia de Jânio no mês anterior, graças à resistência de Leonel Brizola ao golpe dos militares ligados à corrente colonialista/udenista (Odílio Denis e Orlando Geisel, entre outros), que pretendiam impedir sua posse sob o pretexto de que era “comunista”, a fim de garantir os interesses da burguesia nacional e seus associados pró-yankee contra o possível governo dos trabalhistas/nacionalistas. Uma manobra dos partidos clássicos da direita (PSD e UDN principalmente) impõe o regime parlamentarista (contra o qual Brizola se revolta, e por isto não vai à posse), a fim de limitar o poder efetivo de Jango na Presidência.

Em 1963, entretanto, em plebiscito que resulta da ampla mobilização das forças nacionalistas e de esquerda (de que um dos grandes líderes era Leonel Brizola), Jango tem devolvidos plenamente seus poderes de chefe do Executivo do país. Daí até o golpe militar que o derrubou, a guerra ideológica explícita entre os defensores da reforma agrária, da limitação da remessa de lucros de empresas multinacionais ao estrangeiro, da reforma universitária (entre outros instrumentos de construção de um Brasil independente e com condições mínimas de vida digna para a peonada) e os seus opositores, defensores do latifúndio, do imperialismo econômico internacional e do ranço autoritário tipicamente fascista se radicaliza. Assim é que fazendeirões tradicionais do PSD e “modernos” representantes da pequena burguesia urbanizada da UDN se abraçarão aos prantos pelo temor das reformas defendidas por João Goulart, pelo PTB e pelos movimentos sociais de esquerda, articulando o golpe que assassinaria de vez os interesses nacionais e operários.

Costa e Silva, Geisel e Castelo (em trejaes civis de presidente

Costa e Silva, Geisel e Castelo (em trajes civis de "presidente"

Finda a ditadura militar, que torturaria e assassinaria centenas de opositores (esquerdistas ou meros liberais democratas) nos porões da repressão, impondo o monopólio do capital e a cultura americana (de que derivaria a miséria, a violência e narcotráfico que campeiam no Brasil de hoje), Sarney (um velho coronel feitor da ditadura na sua “fazenda”, o Maranhão), Collor (filhote das elites agrárias alagoanas sustentadoras do regime militar) e Fernando Henrique Cardoso (opositor formal da ditadura, cooptado e integrado aos planos de sucessão que resultaram no seu governo e de Lula, tramados pela inteligência gorila em meados dos anos 1970) tratarão de dar continuidade ao regime formalmente revogado, perpetuando no “Estado de Direito Constitucional” o que antes se impunha pela força do arbítrio.

Nos anos pós-1985, com exceção de pequenos partidos da esquerda real, como o PSTU e o PC do B, Leonel Brizola e o PDT serão os únicos representantes da corrente popular-nacionalista derrotada em 1964, até se dissolver (após a morte de Brizola) na geléia geral do governo do Inácio, que criou o Brasil do partido único informal, o próprio Lula e seus aliados felinos de todas as pelagens, sob cuja fantasia socialisteira se pratica a maior corrupção, a mais escancarada inexistência de direitos sociais, a plena submissão aos interesses estrangeiros, e, ultimamente, a mais soturna e informal repressão ditatorial, jogando no lixo a liberdade de expressão, sob o pretexto da defesa da honra pessoal e da imagem, justamente, dos maiores lacaios corruptos pró-colonialismo.

O Brasil do partido único fascista disfarçado de esquerda corrompeu até os herdeiros do Brizolismo

O Brasil do partido único fascista disfarçado de esquerda corrompeu até os herdeiros do Brizolismo

Ubirajara Passos

DISCUSSÃO DE TRÊS MILITANTES POLÍTICOS BÊBADOS NUM BAR DA “CIDADE BAIXA, EM PORTO ALEGRE


Nestes dias em que os velhos moralistas petistas desvelaram de vez sua máscara hipócrita para defender a pouca vergonha mais reles e vulgar (daquela vulgaridade de que não vale nem a pena falar para não se cair no lugar comum dos sermões anti-corrupção em que os petistas fora do poder eram tão exímios) dos corruptos mais óbvios e poderosos, acabamos, eu o Alemão Valdir, numa manhã destas, em conversa pela internet, por parir o argumento da peça teatral que segue (que está mais para número mambembe que peça propriamente dita), mais tarde escrita por nós a quatro patas. Pra variar, o Alemão é autor de alguns versos. Dou um prêmio pra quem descobrir quais são. Qual o prêmio só revelo se alguém descobrir, também.

Como se verá, a peça não é nenhum primor de literatura e muito menos de política ou filosofia. Seu texto é até ingênuo (poderia estar na boca de qualquer funcionário público revoltado de Passo Fundo, no interior do Rio Grande, por exemplo), mas cai como uma luva no fascismo explicitamente corrupto do governo do Inácio, em que a censura (com o disfarce de ação judicial) foi reinaugurada justamente para impedir que a imprensa possa denunciar a coisa mais óbvia e encardida das últimas décadas da política brasileira, qual seja o fato de que a família Sarney (catapultada ao trono feudal maranhense, como dinastia permante, pela ditadura fascista imperialista inaugurada em 1.º de abril de 1964) é corrupta, vive da corrupção e não comete um ato político ou econômico que não esteja relacionado a sugar o próprio estado burguês. O Estadão, entretanto, não pode divulgar as falcatruas do Sarney Jr. para não manchar-lhe a honra e o direito fundamental de imagem… Mas, enfim, vamos ao texto:

Discussão de três militantes políticos bêbados num bar da “Cidade Baixa”, às duas horas da madrugada, em Porto Alegre

(encenação em um único ato)

Cenário: um obscuro bar com duas portas paralelas na fachada, prédio do estilo dos anos vinte do século passado, mesas na calçada, numa das quais se acham sentados os personagens no início do ato, postes de luz ao lado esquerdo das mesas, de luz amarelada, com canteiros de grama molhada de chuva, salpicados de tocos de cigarro à direita das mesas.

Personagens: o Portuga Libertário, o Pelotense Petista, o Alemão Batata Vermelho, um garçom vestido da forma tradicional, alguns figurantes bebericando às mesas.

Abre a cortina.

É inverno. Um vento forte (o minuano) corre o cenário, carregando folhas secas de árvores e fazendo esvoaçar guardanapos de papel e as melenas dos personagens. Os três militantes se encontram sentados na mesma mesa, bebericando. O Portuga Libertário à esquerda, o Pelotense Petista à direita e o Alemão Batata Vermelho ao fundo. O Portuga sobe na mesa e principia a falar.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (de cabelos desgrenhados, casaco preto cheio de caspa, óculos ensebados de gordura, de pé sobre a mesa, cuspindo fogo… e cachaça):

Republiqueta colonial,
semi-feudal,
neo-capitalista…

O PELOTENSE PETISTA (gordo e baixinho, cabelo preto penteado para trás com gel, terninho preto e gravata cor de rosa choque, com o nó frouxo atado pelo meio, um broche de estrela pespegado no peito, jogado na cadeira, segurando um copo de uísque Nato Nobilis cheio de gelo derretido):

Por culpa dos anarquistas,
só querem baderna.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que peida, enquanto tenta se equilibrar sobre a mesa):

… em que não serve simplesmente fuder-se o operário,
mas, sobretudo, para que o poviléu bovino
fique tranqüilo com sua bolsa-esmola,
é necessário,
pra caralho,
na republiqueta,
dar de mamar, muito mamar, mamar demais,
com toda “honra”, só mamar na teta,
a Sarney, ao irmão do irmão do primo
filho da mãe do bodegueiro,
da sobrinha
do industrial,
do feto que nem mãe ainda tinha…

O PELOTENSE PETISTA (derramando o uísque “chique” sobre a gravata, com aquele olhar esbugalhado de quem perdeu a propina no bolso furado):

Cala a boca, subversivo,
horrendo
comunista comedor de criancinhas.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que se levanta após um trambolhão, tira o copo da mão do Pelotense com um safanão, dá um talagaço, e o joga contra a parede):

… republiqueta maldita! A etiqueta
dos punhos brancos se mistura com a farinha
rala do escaveirado sertanejo,
dos sem-terra, dos sem-teto, dos “sem-teta”,
e algoz e torturado dão-se as mãos
nesta ciranda sádica (punheta
que o “dono” bate com a mão alheia
do servo submisso,
no seu sócio
de vigarice,de orgia e vício…)

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (de cor e ideologia… vestido dos pés à cabeça de farda militar camuflada, óculos escuros em plena noite, com um copo de underberg à mão):

Mas que negócio é este de punheta?
olha a censura!

O PELOTENSE PETISTA (furibundo, avançando sobre o Portuga, que se esconde de quatro em baixo da mesa):

Censura não há, seus desbocados pecadores!
O que há é o chicote exemplar da Lei
que só existe para que os senhores,
e os do seu tipo não desgracem tudo
e desonrem a República Mãe Nossa
com esta conversa fiada de falsos moralistas…

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que sai, de gatinhas, do outro lado da mesa e se volta para o Pelotense, abrindo a braguilha e brandindo o censurado, que logo esconde, para desapontamento do Pelotense):

Punheta sim! Que os descarados socam
pra se esporrar, com seus punhos rendados,
sobre as cabeças miseráveis do rebanho
de cuja angústia, do medo, do castigo
provém o hábito de lamber o sapato
dos entojados “proprietários” da nação!

O PELOTENSE PETISTA (que olha para o sexo do Portuga entre fascinado e furioso, e murcha quando a braguilha é fechada):

Olha, “bandido”, desregrado, “fiô da puta”,
pra ti, terrorista debochado,
censura é pouco,
tens que ser banido
do convívio austero e disciplinado
de nossa honrada e impoluta sociedade!

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (secando o copo de underberg e pedindo um chope):

Vê o que diz este safado pelotense
autoritário,
que só quer submeter-nos
pra impedir que se mexa em “seus” pertences
havidos com a expropriação
do suor alheio
(expropriação séria e honrada!)

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que se aproxima da mesa e toma um gole do chope do alemão):

Ele só diz e faz tudo isto
porque existe o rebanho submisso!
Como se há de aclarar a consciência
do servo massacrado cujo braço
é o único capaz de esgoelar o algoz
explorador, sem a menor pena,
para poder realmente então viver?

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (dando um soco na mesa, não se sabe se por entusiasmo ou contrariedade com o gole roubado pelo parceiro Portuga):

Meu caro Portuga anarquista,
tu muito bem conheces,
Eu que fui “estalinista”,
hoje concordo com o Reich:
o problema tá no rabo!
Ele não disse, mas acho:

Ou se arranca o rabo ou se lhe joga ferro em brasa
pro rabo parar de arder!
Senão como se há de dar cabo
de tanto idiota curvado
babando aos pés de outros tantos
imbecis, burros, vaidosos
que passam, com a anuência
dos idiotas de baixo,
o tempo esfregando o rabo,
roubando, e “lavando” o roubo,
e exercendo o poder?

Cai a cortina.

Gravataí, 4 de agosto de 2009

Ubirajara Passos e Valdir Bergmann