De como não assisti ao show do Zé Ramalho


Houve uma época, nos velhos tempos da República do alemão Valdir, que, tendo o Rogério Seibt retornado a Santa Rosa, e o baiano Luiz, se casado (e se afastado dos amigos), os frequentadores do apartamento de Petrópolis se restringiram ao próprio Valdir, a mim e ao alemão Ale, com o qual eu costumava varar as madrugadas de sábado para domingo enxugando um litrão de fanta com uma vodka de garrafa plástica (que era o máximo que nossos escassos reais permitiam), enquanto o Valdir (na época se tratando com a Dileusa e com pisquiatra e, portanto, se mantendo abstêmio) roncava solenemente.

Pois nestes dias em que a minha carteira andava mais vazia que cabeça de periguete fanqueira, mesmo assim me cotizei com o Alemão Valdir e compramos ao salgado preço (para a época) de R$ 100,00 por cabeça os ingressos para o show exclusivo, de uma hora de duração, que o Zé Ramalho daria no auditório Araújo Viana, numa sexta, em Porto Alegre, incluindo além dos nossos o do Ale.

Durante uma semana inteira, entusiasmado, eu não falava em outra, perturbando à farta o ouvido dos estagiários da Contadoria Forense com o fato de que eu iria a um show do “Raul Seixas” (apesar de me policiar, trocava a cada vez o nome do cantor), ouvindo de volta a informação de que para tanto só fosse à mesa branca, pois este há mais década já passara por outro lado.

Quando, finalmente, chegou a noite esperada, entretanto, o Valdir e o Ale (que embora cursasse radiologia na época já manifestava os pendores culinários que o levariam à futura profissão fora do Rio Grande, ao invés de agilizarem-se, resolveram, justo próximo da hora do espetáculo (que se iniciava por volta das 9 h) fazer uma senhora janta, com dinheiro a porco assado, sob os meus protestos – contestados com a frasezinha: “show de rock sempre atrasa!”.

Assim, quando os glutões inveterados já haviam satisfeito sua “larica” sem maconha, e cedendo aos meus rogos, e chegamos ao Araújo já eram quase dez horas da noite e o resultado foi darmos com a massa do público saindo port’afora, um amigo do Ale escorado na saída, dizendo que o show (que já havia pontualmente terminado) estava muito bom.

Na volta, ainda tentei recuperar a noite e convidei a dupla para fazer algo de útil e prazeroso na extinta Sauna La Luna (puteiro da Barão do Amazonas), mas diante da recusa, tive de me contentar em sorver algumas long neck de Brahma Extra, compradas em qualquer posto de gasolina no caminho.

Foi assim que, por causa do porquinho gordo (e quem sabe por vingança do gaiato fantasma do roqueiro), não pude estar presente ao show do Zé Ramalho e, de certa forma, “assisti ao show do Raul Seixas”, que sendo realizado por fantasma ninguém viu mesmo!

Ubirajara Passos

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Um e-mail das Arábias


Era a milésima vez que recebia por e-mail aquelas versões “internacionais” do golpe do bilhete, do tipo “tenho uma grana enorme que não posso aplicar em meus país conflagrado no Oriente Médio e sei que o senhor pode me dar dicas de investimento em seu país”.

Mas, agora, a coisa era completamente diferente. Viera em português. É bem verdade que num português sofrível, capaz de injuriar o próprio Inácio dos Nove Dedos (e sua sucessora, a “presidenta” aclamadora de mandiocas – na qual a mídia e o aparato institucional da direita explícita andam ultimamente querendo enfiar de vez a mencionada raiz) ou mesmo o patrício de mais estropiado sotaque emigrado do Líbano ou da Palestina. O texto dizia o seguinte: 

“Respondi Urgente Para Investomento!!!
Lamento se meu e-mail incomodá-lo, eu decidi entrar em contato com você, porque eu sinto que você vai me entender melhor ..Estou realmente precisando de sua ajuda,    pois requer uma resposta urgente de você. Por favor, esta é uma mensagem pessoal para você, eu preciso de algumas directivas de você para investir algum dinheiro ou de capital no seu país, EU e meu marido era industrial e um membro do conselho de empresários de petróleo síria em Damasco, Síria. Devido a matanças,decapitações bombardeios e conflito crise guerra em Síria que milhares de civis relatados fugindo como batalha por Aleppo, Síria,intensifica à medida que a guerra se intensifica a partir de hoje, eu não posso investir o dinheiro aqui na Síria isso é quando eu entrar em contato com você E ver como podemos parceria no negócio e intensificar complexo multinacional.
Responder-me explicar melhor para voce nesta e-mail: aishaalrashid1@qq.com

Sra.Aisha Al.Rashid

Por breves e imbecis instantes, o nosso herói quase caiu na asneira de levar a sério a coisa e responder a mensagem da forma como solicitada, já sonhando com a fortuna que poderia abarcar com o tesouro do milionário árabe. Ficou imaginando a imensa e infinda farra que faria num harém particular, contratando as mais gostosas e safadas “odaliscas” dos mais chiques (e também dos mais fuleiros, desde que tivesse aquele rostinho sem-vergonha e aquela malícia ronronante que põe qualquer leão furioso desvairado mansinho como gato de madame) da capital, na qual poderia acabar, literalmente, morrendo de trago e gozo.

Mas, antes que as mãos digitassem apressadamente o que seu cérebro de asno ditava, o zé pelintra que o acompanhava soprou-lhe ao ouvido a tremenda encrenca em que ia se metendo e, ao invés de simplesmente deletar o e-mail, como fizera com os outros tantos, resolveu se divertir e devolveu a tentativa da golpe da maneira mais sacana que encontrou:

“Não se preocupe. Você enviou este e-mail para a pessoa certa. Eu e meu amigo baiano, dr. Luisinho Sugacheca, não temos um único puto na carteira, mas conhecemos todas as putas de Porto Alegre, capital do Sul do Brasil, onde prolifera o negócio mais rentável deste país: a putaria. E moro justamente  na cidade periférica da Região Metropolitana daonde provém a maior parte destas putas!
Podemos, tranquilamente, investir os petrodólares de seu marido num FANTÁSTICO PUTEIRO GIGANTE, com direito a 2 torres gêmeas de 14 andares, cada qual destinado a shows e práticas públicas e privadas de boquete, streap-tease, sessenta-e-nove, sexo anal, vaginal, oral, nasal, umbilical, espanhola, ucraniana e polaca, sexo bizarro com cães, vacas, ovelhas, camelos, gordas, velhas, ciganas e mães de santo em pleno transe da pomba gira kadija al-sacanidi, bem como diversos gays de barba grisalha e com um dedo a menos na mão esquerda (perdido no cu do povo brasileiro), especializados em fuder nações e continentes inteiros como o Brasil e a América Latina.
Para construirmos esta mega instalação e contratarmos os profissionais e a logística adequada necessitamos tão somente da módica quantia de 24 trilhões de euros!

Favor enviar esta grana para a Caixa Beneficente das Putas e Gays do Brasil, agência 024, conta 694324 – titularidade da senhora Dilma-Ahma-Mandyioca-Emmet Abanananopovo.

Aguardamos com muita ansiedade e entusiasmo a sua resposta.

Assinado: Salym Al-Assad-Ocudosviga-Ristasimeim-Becys”

Pelo que se sabe, até hoje, passados uns 3 meses, muito embora nosso amigo, contra os próprios hábitos, acorde de madrugada e salte da cama como um cabrito embrigado para conferir em seu computador, até hoje não recebeu a minima resposta.

Ubirajara Passos

Conto de um Velho Tempo


Após a derrota do Movimento Indignação nas eleições para a direção do Sindjus-RS, em maio de 2010, decidi que iria escrever “literatura para ganhar dinheiro”, como andava me recomendando o companheiro Régis Pavani, e um belo dia resolvi participar de um concurso de contos.

O detalhe é que o texto não poderia ter menos de 20 páginas e tinha exatamente um mês para escrevê-lo. E, passados uns vinte dias, eu havia redigido no máximo os sete primeiros parágrafos e o poema que o segue. Comentei, na época, com o alemão Valdir este meu projetinho de conto e ele, para variar, se entusiasmou e me disse que, a pretexto do que já havia escrito, poderíamos aproveitar para discorrer sobre as mais diversas questões filsóficas e políticas, parindo um verdadeiro conto de tese!

No embalo da euforia bergmanniana (não do sueco escandinavo, mas do “alemão” sul-riograndense descendente de imigrantes), escrevi os parágrafos 8º a 23º, mas então já estávamos em 13 de setembro (o conto havia sido iniciado em 10 de agosto), e o prazo de envio para o concurso já se havia ido.

O conto ficou engavetado e tempos depois acabei por copiar um diálogo meu com o companheiro Valdir no msn que pretendia aproveitar nele e simplesmente esqueci-o.

Semana passada, indo revê-lo, tive o maior susto ao dar com a cópia da conversa no final do texto, de que já não me lembrava, e, acrescentando os 6 últimos parágrafos (no qual cometi um certo anacronismo na fala final do “Fausto” em relação ao ano em que passa a conversa no texto) e, trocando os nomes, aproveitei-a na íntegra, até para homenagear o velho amigo, dando o conto por finalizado e deliberando publicá-lo aqui.

Saiu-me, infelizmente, um texto bastante sofrível, cheio de discussões e devaneios filosóficos, mas até por recordatário, resolvi publicá-lo. Ao leitor que tiver a coragem de emaranhar-se nesta selva literária, garanto que, apesar da forma, não perderá de todo seu tempo, desde que tenha a devida paciência. Segue o texto:

Conto de um Velho Tempo

Naquela manhã, pouco antes do nascer do sol, levantou-se, na penumbra, sob a luz quase morta da lamparina, vestiu a toga e foi andando lentamente até a ampla porta envidraçada que dava acesso ao balcão.

Na clareira em frente, os primeiros raios pálidos do dia se esgueiravam, preguiçosamente, rompendo a semi-escuridão povoada de sombras esquivas e fugidias.
Enquanto a brisa úmida e gelada lhe roçava o rosto, sorveu a taça metálica com vinho e sentiu a estranha presença.

Não. Não se tratava do espírito mensageiro daquela estranha seita oriunda dos confins do Oriente, cujo apelo místico-histérico e escatológico era tão forte que se espalhara como um rastilho de pólvora pelo Mediterrâneo ao ponto de entusiasmar a própria mãe do Imperador, que a ela aderira e convencera seu filho a dar-lhe alguma proteção.

Nem era Lídia, desperta de um profundo sono, povoado de sonhos maravilhosos e envolventes, que vinha, lânguida e doce, lhe entusiasmar o corpo com um devoto e apaixonado beijo na tábua do pescoço e suas mãos a percorrer-lhe o peito, sob a túnica, num afago enternecido e provocante.

Mas era uma vibração profunda e densa, dotada de uma luminosidade arrebatadora, convincente e entusiástica como a carne fresca da mais dedicada, espontânea e excitada amante. Não havia naquela ante-manhã qualquer ruído além do farfalhar das folhas e do bater de asas abrupto e veloz da última das aves noturnas a largar de seus afazeres e ir buscar o repouso nos braços de Morfeu. Porém, era como se o próprio Pan estivesse, absorto e inspirado, a tocar melancolicamente a sua flauta, no encerramento da farra dos elementais.

O mergulho nas ondas edênicas do inconsciente rompeu-se, então, importuno e inesperado. Um galho seco estalou no chão, no canto sudoeste do jardim, e surgiu, diáfano como um espectro habitante do Hades em viagem entre os mundos, a figura de um velho ancião, cuja postura ereta, intensa e decidida contrastava com as melenas brancas, que desciam, pródigas, desde o topo da cabeça, engrossando e confundindo-se na barba espessa, como uma branca e espumante cachoeira. O aspecto revolto e volumoso, agitado no verbo do poderoso arquétipo feito carne, lhe dava exatamente esta impressão: a de uma corredeira veloz e violenta a romper em meio a um declive coberto de plácida e densa relva.

E, tronitoante e metálica como o a cachoeira, irrompeu a voz, que dizia:

“Sou o espírito do tempo,
No espesso breu dos confins do universo
Eu dormitava, imóvel,junto ao pólo
Do setentrião, enquanto os homens se agitavam
Nos afazares vãos e iguais de todo dia,
Até que tua mente despertou-me
Com um ruído que rompeu a aurora!”

– Maldito vinho é este que me faz ver sombras falantes no primeiro gole, e, ainda por cima, esnobes e metidas a eruditas, a fazer discurso em tom declamatório?

– Não é o vinho, meu caro amigo. Não te preocupes que não estás delirando, mas mais sóbrio do que nunca! Vives, todo dia, tua vida em quase absoluto sonho, inciente e heterônimo, e agora despertaste, em meio às estranhas e acidentadas fronteiras entre a escuridão prateada e a dureza pétrea da claridade!

– E, além de intelectual almofadinha, é metido a poeta de quinta! Puta que pariu! Se não é o delírio do princípio do envenenamento (sabe lá o que Lídia não anda pretendendo – tanta espontaneidade na entrega e tanta doçura é de desconfiar mesmo!) é loucura, com certeza! Pelo visto as minhas engrenagens mentais se desarranjaram de vez e ando pior que os adeptos do tal Nazareno!

– Se delírio fere, experimenta isto então! – E o vetusto vulto, deslocando-se em uma velocidade instantânea, veio bater-lhe com um bastão no cotovelo, provocando aquela sensação de choque elétrico, que na época devia ter outro nome, o que lhe fez desconfiar que – talvez – estivesse bem acordado e senhor absoluto dos seus sentidos.

– Muito bem, meu camarada, se não és o produto da minha pobre mente insana (que diabo é isto? estou eu mesmo, agora, a falar em tom empolado e declamatório!), que diabo fazes aqui e o que pretendes?

– Como te disse sou o espírito do sempre, o presente absoluto, que, paradoxalmente é limitado e eterno! E, já que me rompeste o imensurável descanso, vim te mostrar algumas coisas que te farão perder a tranqüilidade pelo resto de teus dias, mortal impertinente!
– O tempo é sádico, então?

– E tu tens alguma dúvida sobre isto? Basta olhar ao teu próprio redor e terás as provas mais banais, óbvias e esclarecedoras! O velho Cronos é extremamente cruel e tosco, e tem o mau hábito de seguir sempre na mesma direção, e nunca pára por nada, nem ninguém! Além disto é surdo, senão dissimulado, e não adiantam rogos, nem lamentos. Nem mesmo espinafrações. Por mais que o mandem tomar no cu ou o ameacem, ele que é o próprio fiofó do universo, jamais volta atrás! E pior de tudo, é que, além de teimoso e rabugento, tem um oceânico humor negro. Basta que uma peça de qualquer coisa saia fora de seu próprio lugar que, se deixares a coisa por conta do Tempo, vão outras se perdendo, e a coisa vai se desmontando e desfazendo numa bagunça infinda, da qual não há volta e nada sai de útil e organizado. Ou quem sabe pensas que é por acaso, ou culpa exclusiva de forças como a gravidade, que tudo aquilo que vive pendurado, e no início aponta para cima, com o andar do Tempo, vai cansando, perdendo as forças e pendendo para baixo até cair e, muitas vezes, arrojar-se ao chão e apodrecer! E tudo quanto é liso ou brilhante e belo, mesmo a cara ou a bunda da mais culta e fogosa hetaira, fatalmente acaba por enrugar-se, desbotar e transformar-se num horrendo monte de ruínas, qual mocréia palaciana ou escrivã cristã? Ou te iludes que é a ação do vento, do sol, ou o desgaste do uso repetido que faz as coisas que crescem e aceleram irem depois diminuindo e se tornando vagarosas e, por fim, mortas e paradas? Porque não crescem, se tem dentro de si o tesão do aumento da estatura e do movimento, para sempre e acabam chochas, moles e sem graça? A culpa toda é do tempo!

– Me desculpe, sábio e calculista mestre (que medes muito bem o teu discurso, como fosses senador), mas não lhe parece que esta força da Natureza deveria, como um dos criadores deste mundo, agir segundo propósitos racionais e organizados e não por uma vontade arbitrária e temperamental, qual deus grego reinento e vingativo?

– Meu caro e ilustre “pupilo”, não concluas do que falo que ele é pérfido e maldoso! O Tempo possui lá os seus, por mim nominados, defeitos, mas são particularidades da constituição de sua personalidade e de seu temperamento, não o resultado de decisões sacanas e propositais! Se os seios de uma princesinha cheirosa, cheia de mimos e maliciosas e birrentas vontades nocivas, (como aquela gostosa e exótica dançarina da nobreza colonial da periférica Palestina, que atendia pelo apelido meio italiano de Salomé), acabam por perder suas cores, sua tepidez e se transformam num nauseante monte de rugas caídas, ou se um garboso e arrogante escravo reprodutor, forte e imbecil como Peruca Camargorum, acaba por se tornar um raquítico, cambaleante e inofensivo ancião, sem serventia nem prazer nenhum, certamente a culpa não é do velho Tempo. Há um outro deus, cretino por princípio este, de nome Genes, que se diverte à custa dos mortais e lhes amarra os pés na caminhada sem volta nem desvio por que os leva Cronos, e, depois de alçá-los ao cume dos montes, se acaba todo em gozo e gargalhadas (as mais doidas e agudas dos infernos) ao jogá-los ao mais profundo e pantanoso abismo!

– Que tenha um cúmplice safado se admita. Mas convenha, meu nobre “Senhor” (com todas as prerrogativas do termo, que parece que és mais teimoso ainda que o próprio asno, ou o tal gladiador de serviçais bucetas), nestas coisas de levar ao absoluto dano tudo quanto tem um mínimo deslize há sem-vergonhice pura, pensada e caprichosa!

– Pois é neste ponto, justamente, que o rio dos sucessivos momentos é mais inocente e poderia, amoral e livre, apesar de seu jeito arredio e sem imaginação, tornar-se o mais brilhante e benfazejo colaborador dos homens! Se ele não pode contra seus irmãos mais poderosos, que respondem pela constituição da essência dos mortais, a estes foi dado o poder, ao qual o Tempo, infelizmente, não tem o menor acesso, de mudar suas atitudes e decisões e de repor ou reparar a peça quebrada ou deslocada, ou reorganizar e mudar o plano todo de suas existências específicas, e o tempo, burro e limitado como é, que segue sempre em frente e para um único ponto, acabará, por guiar as coisas pelos novos rumos determinados pelos pobres tipos humanos, sem nenhuma concessão, até que seus cósmicos irmãos reconduzam os mortais ao atroz e final destino. Nada mudará no final da jornada dos precários animais pensantes. Todos fatalmente serão conduzidos à cova para desfazerem-se como objetos largados ao léu e desaparecem da memória das gerações vindouras, mas, se ao invés de se envolver em minhas lamuriosas e recalcitrantes manifestações, se desviarem do mal enjambrado, do monótono e do repetitivo (da tradição de seus anciões azedos, inclusive), se refizerem seu itinerário como se fosse possível renascer e reiniciar todo dia tudo, terão a mim, Eternidade unidirecional, burra e obediente, por aliado o suficiente para gozar de algum prazer e validade em sua condição precária e provisória!

– Isto de se refazer sempre, como se nada houvesse antes há de tornar-se monótono e besta também! Mas vem cá! Cadê os entes ou fatos inquietantes? Com truques como este do bastão tu prometias bem mais do que este discurso filosófico sem fim! Eu esperava mais ação! Meditações sobre a finitude humana eu as encontro em Sêneca, Heráclito ou em Platão e Sócrates… Pra um espectro elemental és um tanto humano! Quem te mandou aqui pra me encher o sac…

Não terminou a frase e, previsível e obedientemente (para nós que acompanhamos as acompanhamos de longe) as coisas começaram a mudar. Árvores, a casa, o céu, o chão, todo o cenário começou a girar como uma esfera, a trocar de lugar, a se desfazer e misturar como uma aquarela borrada. Tivessem aparecido aquelas luzinhas coloridas logo no início e suspeitaria ter fumado um daqueles estranhos cigarrinhos de hachiche que eram fabricados no Oriente, lá pelas bandas de origem dos tais nazarenos, que só podiam viver no barato da tal erva para seguirem ao sacrifício no Coliseu, direto à boca dos leões, com o olhar esbugalhado, cantando, alegres,como uns loucos. Isto até a Imperatriz-Mãe Helena adotar seu culto e resolver protegê-los. Pois agora tudo andava se invertendo em Roma, também, e os ex-perseguidos começavam a ocupar postos de poder e a oprimir por sua vez, igualmente.

Mas não vira qualquer luz diferente flutuando a sua frente. Simplesmente o mundo parecia estar se dissolvendo e revolucionando por si e por todo lado. O que reavivou suas suspeitas de envenenamento. E, antes que pudesse iniciar a ladainha de auto-piedade paranóica e hipocondríaca, viu-se projetado num novo mundo, estranho e barulhento, tremendamente sujo e tão ou mais agitado que a turba no espetáculo previsível e horrendo das arenas de jogos.

Não mencionarei aqui as surpresas de Lucilius (que este era o nome de nosso protagonista, se não o citei antes foi por estilismo frívolo e a fim avivar no leitor alguma inquietação mental no meio desta monótona e arrastada narrativa) com as tecnologias incompreensíveis (para os seus olhos, sobrenaturais) e as sutilezas excêntricas do novo cenário. Isto para nós é óbvio, além de ser um discurso narratório extremamente surrado. Cabe apenas mencionar que, excetuando-se alguns comportamentos de bizarra especificidade, os dramas e rotinas da vida conjunta entre os homens não diferiam absolutamente daqueles com que nosso personagem encontrava-se acostumado, uns 1600 antes, no amanhecer do casarão rural, Pois, como efeito do vórtice em que se viu envolvido, dera um pulo de mais de um milênio e se encontrava em 2003. Para ser exato, num sábado qualquer do mês de agosto, numa esquina da rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre, metrópole do extremo sul do Brasil, a maior população das nações de então das que nasceram da miscigenação dos soldados da velha Roma com os povos do Ocidente bárbaro europeu.

Bárbaro, aliás, era aquele desgrenhado e brusco germânico que gesticulava agitado, e bradava violentamente, a sua frente, contra a putaria política e social em que viviam. Ele, Lucilius, surpreendentemente, se deu conta de que não fora transportado ao futuro nem como espectro, nem como a si próprio em carne e osso, mas agora era outro (como um avatar indiano) e ali se encontrava semi-bêbado, em meio àquela dúzia de garrafas de cerveja que enfeitava a mesa que dividia com o seu amigo. E ambos partilhavam da rebeldia e da indignação com o mundinho estreito e filho da puta em que viviam. Muito embora reconhecessem que não podiam viver sem a fumaça dos velozes automóveis na rua, a barulheira das conversas em voz alta e o tilintar de garrafas e copos que enchiam o velho bar, o Alfredo, espécie de taverna em plantão permanente, que varava as madrugadas de portas abertas, e só fechava aos domingos.

– Puta que pariu, seu Lúcio! Me dá uma raiva! Ontem a noite a Vivo não me concedeu crédito nem para mandar um simples torpedo. É outra máfia que necessita pau perene!

– Olha, camarada Fausto, estas companhias telefônicas, os agiotas de luxo regulados pelo Banco Central, a nova burguesia petista, isto é tudo cria da mesma cadela: a sociedade de classes, melhor descrita como sociedade verticalizada, em que uma piça do tamanho do mundo desce desde das alturas olímpicas da burguesada pra arrombar o rabo do povo tacanho e lambe-cu.

– O pior é a gente saber que com alguns cartuchos dá pra conceder o descanso eterno a essa máfia e ficar aqui, bebendo cerveja, parados no meio do mundo, sem fazer o mínimo gesto que pode por fim a tudo: puxar o gatilho!

– É muito fácil acabar com o sofrimento. É só ganharmos coragem. Vivemos num regime de dominação. O cara monta no teu lomba e tu carregas ele. Nessa condição, “negociar” politicamente significa: não chicoteie tanto. Ou chicoteie com menos força. Mas continue chicoteando, ó meu amo e senhor! Pra sair deste maldito brete, o gesto é muito simples: é só sacudir bem as costas e jogar o safado que está montado, de patas pro, no chão duro!

– Duro é ter saco pra aturar esta putaria disfarçada de “ética”. Lúcio, acho que vou pro mato! Me enchi o saco disto tudo aqui. Tem um amigo meu de Giruá que está criando cavalos crioulos no interior do município. Me propôs uma sociedadezinha.

– Com o que, o companheiro pretende, então aburguesar?!

– Aburguesar um caralho! Se enrico tenho como comprar as bombas necessárias pra explodir esta safadeza toda. E o rincón é um belo lugar pra se fazer um treinamentozinho básico de guerrilha…

– Lá isto é. Mas espera aí que vou ao banheiro.

Nosso herói saiu cambaleando rumo à porta ao estilo saloon nos fundos do bar e, lá chegando, naquele modorrento sábado a tarde, enquanto tirava água do joelho e admirava-se, velho Narciso, ao espelho, quase rachando o pobre vidro de susto, simplesmente adormeceu, acordando novamente em seu solar rural, na velha Roma.

A alvorada se transformava, então, em dura manhã de sol escaldante. Lídia continuava a dormir e por perto não se via nada além dos passarinhos e da cachorrada que latia, distante, na vizinhança. De nada tinha certeza, mas parece que, num estranho transe, por alguns instantes, havia entrado numa nesga do futuro, numa nova Roma, tão conflituosa e precária quanto a velha capital do Mundo. Por alguns instantes ficou imaginando como se os tais cristãos não tinham alguma razão. A morte na boca de um leão, em plena arena, não seria, afinal bem melhor que esta sarabanda eterna em que se agita a vida, fazendo mil desvios pela estrada, rodando infinitamente para, por fim, terminar sempre no mesmo ponto? Desceu a escadaria e tratou de ir à cantina, entornar um vinho logo cedo, que tomar um porre, no momento, lhe parecia o mais lúcido e razoável a fazer.

Ubirajara Passos

 

Agourento 2014, tende piedade de nós!


Conforme a nossa vida vai avançando, a morte vai se tornando mais e mais nossa parceira.

Não apenas pelo fato de nos aproximarmos crescentemente dela, enquanto decrescem os anos que nos restam, numa equação em que pouco importa o valor inicial do termo (o número de anos da vida), variável a cada instante – conforme nossas decisões e atitudes – e em que a razão da progressão pode aumentar ou diminuir a vontade, mas cujo termo final é uma constante absoluta, fria e terrível, por mais complexas que sejam as expressões intermediárias entre o início e o final, que é sempre igual a zero.

Mas, pela simples consequência matemática e biológica dos fatos, é verdade estabelecida que é possível medir intuitivamente o quanto estamos “ficando velhos” pela proporção de parentes, amigos ou conhecidos que vemos partir a cada ano, que naturalmente vai aumentando até que chega o dia em que nos vemos quase que completamente solitários no mundo, em que já não resta muita gente, além de nós próprios, que se lembre mesmo daquela célebre atriz de Hollywood, gostosíssima, de olhos eloquentes e nariz estranho (e, por isto mesmo, chamativo e sensual).

A oito meses de completar meu primeiro meio século (que espero realizar, apesar do trago e da mania de me desgastar lutando contra este nosso mundinho opressivo e infelicitante, o sonho do meu avô – e de 99,99% da espécie humana – de atingir pelo menos cem anos), não estou exatamente no caso extremo, mas, assim como todo mundo que conheço, nunca vi um ano tão absurdo, com tantas mortes de celebridades, ou mesmo de pessoas próximas, no espaço de um único giro da Terra ao redor do Sol.

Algumas, previsíveis, são daquelas que apenas confirmam que estamos, inapelavelmente, nos aproximando da velhice e que (contra a maldita convicção de nossa mente, que é desementida a cada manhã, sem muito resultado, pelo espelho) aqueles personagens quotidianos que nos pareciam eternos já estão necessariamente no momento de partir.

Foi o caso da Shirley Temple (a eterna garotinha prodígio), da Virgínia Lane (e a eterna beleza das pernas mais belas do Brasil), Marelene (a eterna Rainha do Rádio) e de Gabriel García Marquez (autor de livros eternos, como Cem Anos de Solidão e O Amor no Tempos do Cólera). Além do poeta Manoel de Barros, da atriz Lauren Bacall,  o escritor Rubem Alves; Max Nunes, Marcelo Alencar, Antônio Ermírio de Moraes, Adib Jatene e  Mãe Dinah (que não tinha a menor previsão a respeito de seu passamento).

Outras já, embora possíveis, nos surpreenderam e chocaram, como foi o caso de Ariano Suassuna e Hugo Carvana.

Mas quando se foram, sem mais nem menos, figuras como José Wilker,  Jair Rodrigues, Nelson Ned, João Ubaldo Ribeiro, Robin Willians, Eduardo Campos (que tinha minha idade – sendo a mais badalada morte do ano), começamos a nos preocupar seriamente e chegamos à conclusão que, ainda que as estatísticas possam apontar para um certo padrão de mortes anuais de famosos, dentro dos quais os falecimentos citados estariam incluídos, nunca se viu, um mês após o outro, tantas mortes relevantes em tão pouco tempo.

Quando morreu Nico Nicolaiewsky, no início de fevereiro, li  a dolorida entrevista de seu parceiro na vintenária comédia Tangos e Tragédias, Hique Gomez, e fiquei imaginado como seria a minha vida política, literária e pessoal sem a presença do meu irmão gêmeo de ideias, lutas, trago e atitudes, o companheiro Valdir Bergmann.  Mas jamais imaginei que ele viria a compor o mais doloroso e irremediável item das mortes imprevistas e absurdas deste ano apoliptico, morrendo de uma pancreatite aguda dois dias antes de completar seus jovens 57 anos.

Só que a coisa não parou por aí e já havíamos nos convencido de que 2014,  embora não tenha testemunhado a deflagração de nenhuma guerra mundial como seu irmão do século passado, era um ceifador cruel e inveterado de almas, quando velhos amigos de minha família, e meus, com presença importante em pontos capitais da minha biografia, como Juarez Vargas e o colega Adroaldo Rocha, morto tragicamente em acidente automobilístico, praticamente às vésperas das festas de final de ano, foram-se também.

Assim é que chegamos ao último dia de 2014 erguendo as mãos por ainda estarmos aqui  o esconjurando e nos ajoelhando e erguendo as mãos perante tão nefasta entidade para pedir: “Agourento 2014, tende piedade de nós!”

Ubirajara Passos

Os assaltos que sofri em Porto Alegre – 2


O episódio narrado na madrugada da última quinta-feira foi o primeiro dos 4 assaltos por que passei nas madrugadas da capital gaúcha, entre o final de 1998 e  início de 2001, todos eles ocorridos na saída de cabarés da cidade.

Os dois últimos foram terrivelmente vexatórios e violentos, não valendo a pena discorrer a seu respeito. E em comum possuem o fato de eu ter acionado a Brigada Militar após sua ocorrência. Mas os primeiros tiveram uma tal aura de romantismo ingênuo e comicidade que eu não poderia deixar de contar sua história um dia neste blog.

Uma bela quarta-feira, após trepar com a minha namoradinha de bordel no cabaré Gauchinha Bar (que situava-se na Riachuelo, no andar exatamente acima do Beco dos Livros, a uma quadra do Palácio da Justiça), a Diana (morena linda e compreensiva com que eu me perdia em beijos de língua e confissões de minhas outras aventuras eróticas no salão, para depois comer-lhe, em pelo, só o cuzinho no quarto), resolvi sair mais cedo (1 hora da madrugada) e acabei indo parar na Sauna Riachuelo, que havia se transformado em boate de putas free-lancer, a moda do Corujinha (bar “dançante” onde às putas íam para dar de graça, por mero prazer).

Eu não estava muito a par da mudança de caráter do estabelecimento e assim fui logo me enfiando com aquele trio em que se destacava uma morena baixinha, de rosto lindo, nariz empinado e corpo gostosíssimo. Dançavam como umas loucas em frente ao balcão do bar, acompanhadas de um negrão de cabelo rastafari, que foi logo declarando que não tinham qualquer envolvimento com elas além da amizade (nem atinei que poderia ser o gigolô, por exemplo), e logo me convidei a me “gelar com eles”.

Embora a moreninha não me desse muita bola, eu, pra variar, bêbado como um gambá que mergulhou no tonel do alambique, estava doido de tesão por ela, e não me fiz de rogado, dando-lhe uma meia dúzia de onças (notas de cinquenta reais) para trocar, cada vez que resolvia pedir uma rodada de cerveja. Para coroar o ridículo da minha imponente figura de otário, eu as retirava do bolso interno da capa de chuva de gabardine marrom que usava, conjuntamente com o chapéu de feltro (verdadeiro detetive de filme yankee dos anos quarenta), pois era uma noite de chuva.

Conversa vai, conversa fiada vem e me convidaram para “ir ao barzinho”. E eu, supondo situar-se em andar superior ao da “sauna”, me vi, de repente, subindo a Rua Doutor Flores, com o mal intencionado quarteto (as três putas e o negrão), que estranhamente não falavam muito, além de frases soltas das duas putas mais altas de que eu e a baixinha tínhamos algo em comum e isto ía dar ainda em namoro, e da minha tentativa de conversa com ela, que resultou, no máximo, na troca de nomes (após eu  me “apresentar”,  ela me disse que se chamava “Tanajara”!?).

O clima era bastante estranho e qualquer malandro com 2 segundos de experiência entenderia que havia algo muito fora da ordem na situação. Mas, torto de goró e tara, a minha esperteza havia se reduzido à capacidade mental do Peruca e assim logo me vi na escadaria da Praça Raul Pila, abraçando a baixinha contra a amurada, enquanto o negrão picava fumo com uma faca de cozinha, destas de serrinha, no muro oposto (após ter me dito pra dar uma namoradinha), logo depois das duas outras putas terem “constatado” que “o barzinho estava fechado”.

O meu romance putanheiro a céu aberto não durou meio minuto. Tão logo tentei beijá-la, a Tanajara tratou de inverter a posição e me vi de costas para o muro, sem entender muito porquê. E entendi menos ainda quando o negrão saltou sobre mim com a tal faca de serra, uivando que ía me matar. Jegue alcoolizado, imaginei que eram ciúmes e logo me vi catapultado à mais crua e triste realidade, quando a minha parceira enfiou a mão inteirinha no meu peito (para ser exato, no bolso da capa de chuva) e me subtraiu, de uma vez, as últimas quatro onças (duzentos reais) que me restavam da farra noturna.

O rastafari, drogado e entusiasmado no seu papel falcatrua de amante enciumado, continuou ali, me furando a camisa social com a mísera faca, enquanto eu, tirando calma sabe-se lá de onde (provavelmente do “cu do conde”), lhe dizia que não fizesse a besteira de me matar, e, como ele não cedia, lhe abri os olhos chapados:

– Ô meu camarada, deixa de ser otário! Tu taí me cutucando com este troço e enquanto isto as tuas companheiras já tão lá adiante, subindo as escadas com todo meu dinheiro e te deixando sem nenhum puto!

Estremunhado, o tipo largou de mim e saiu, otário metido a malandro, pior que eu que não partilhava do seu quotidiano de marginal da noite, atrás das três, na inglória esperança de reaver sua parte no butim.

“Livre” do assédio, desci as escadas em direção à Avenida João Pessoa, que subi, desolado, passando pela frente do “Corujinha”, em cuja frente um brigadiano cumpria o seu papel de sentinela da putaria porto-alegrense. Pensei em abordá-lo e lhe narrar minha desventura. Mas logo concluí que, além de não servir para remediar a penúria resultante do assalto em nada, poderia ainda me enrolar e acabar, eu vítima do velho e surrado “golpe do suadouro”, preso pelo dito cujo.

Assim, retornei à Riachuelo, puto da vida, sem saber de onde tirar grana pra pegar o ônibus e voltar à Gravataí, onde tinha de trabalhar no dia seguinte, até que tomei a única decisão sábia e lógica possível: voltar à Gauchinha e pedir uma grana pra Diana. Ela, além de puta, era minha amiga, me considerava bem mais do que um mero cliente e haveria de resolver o meu problema.

E, assim que entrei no cabaré, ela abandonou a mesa que dividia com uma meia dúzia de piás folgazões (destes que vão a cabaré só pra encher a cara e rir das mariposas, mas não dão nem uma trepadinha de 2 minutos) e veio sentar-se novamente comigo:

– Voltou, meu amor? Quer uma cervejinha?

– Olha Diana, pra tu não pensar que é mentira minha, olha o estado da minha camisa (e mostrei o rasgão da faca. no lado esquerdo do peito). Saí daqui, fui à sauna Riachuelo e acabei assaltado por uma trupe de putas falcatrua e um rastafari safado. Fiquei sem nem um centavo. Tu não me arranja uma grana pra voltar à Gravataí?

A minha puta preferida do cabaré, após me censurar por deixar a sua companhia e ir procurar gozo em casa de péssima categoria, não pestanejou, foi até o proprietário, o Válter de León (uruguaio pai do proprietário do antigo Bagdá Café, o Johny), e voltou com 5 reais (que hoje equivaleriam, corrigidos monetariamente a uns 20, 3 vezes o valor da passagem do ônibus Direto), que me deu e jamais me cobrou de volta em um único dos tantos encontros que ainda tivemos nos anos seguintes.

Assim é que, na mesma madrugada, eu consegui a façanha de ser a mais ingênua vítima do golpe do suadouro e, pela única vez na vida, gigolear, com toda honra, uma puta.

Ubirajara Passos

Os assaltos que sofri em Porto Alegre – 1


Noite “alta” (para bem dizer a verdade, madrugada), a cabeça mais altíssima ainda que a mais longínqua e friolenta estrela, sigo, passos meio incertos, a imitação de maleta em vinil traçando elipses pendulares na escuridão, pela rua da Praia, madrugada adentro.

Entupido de álcool e de putas, regurgitando cerveja e sacanagem, avisto, na obscura esquina da Marechal Floriano, um sujeito que me parece familiar. Todo sorrisos, um olhar abobalhado, e aquele ar bonachão de mãe às vésperas de dar o peito, o cara grita, com um entusiasmo digno do Sílvio Santos em programa domingueiro, nos tempos em que era apresentador na Globo, uns trinta e tantos anos atrás, todo simpatia:

– Meu baixinho!

E eu, completamente imbecilizado pela orgia etílico-putanheira, vou me achegando ao personagem, como totó que avistou osso na mão do dono. Assim que paro em sua frente, ouço a frase fatídica e cretina, proferida agora no tom mais seco e impositivo possível:

– Me dá um dinheiro aí, tio!

Pronto! Em dois anos de putaria isto nunca me acontecera. Acostumado a fazer o caminho entre o Bagdá Café, no final da lomba da Marechal, e o final da linha do Gravataí, na Chaves Barcelos, junto à Praça Osvaldo Cruz (caminho este que incluía subir,rumo centro, sob o viaduto da Borges), em plena madrugada velha, há  muito perdera meus temores, porque o máximo que me ocorria era tropeçar nos mendigos que dormiam, estirados nas calçadas, ou ter de dar uma nota de um real pro pingunço malandro de plantão, como o Nego Apolo.

Mas agora a coisa é diferente. Otário metido a malandro, é a hora da estréia. Não há nem o que pensar. É um assalto! O cara não tem arma (nem um reles canivete de 2 centímetros como aquele que brandi para um taxistas imbecil uma vez na frente do hotel Elevado, acompanhado do Mílton Dorneles, história que contarei outro dia), mas pelo tom, na madrugada morta, está mais evidente que se trata de um assalto! Não estivesse completamente bêbado, e não tivesse convencido a mim mesmo há alguns anos do valente personagem boêmio que sou, me borraria todo!

Estou “pra lá de Bagdá” tanto espacial quanto mentalmente e não sei se caio na risada ou levo a sério a triste e cômica situação. Mas diante da emergência e “gravidade” do momento, disparo, com o ar mais sério e circunspecto, sem alterar a voz (dentro do que me permite a língua, que insiste em se enrolar na boca, numa caimbra estranha, talvez seja o resultado das 3 ou quatro bucetas chupadas na orgia paga):

– Ô meu tio, as putas me levaram tudo! Gastei no cabaré o que podia e o que não podia, só me restam seis reais!

O idiota a minha frente, tentando manter a pose do seu malogrado papel de ladrão, cambaleando e enrolando a língua um pouco menos do que eu, tenta fazer um ar de brabo e perigoso facínora e vai me anunciando:

– Baixinho, nós te conhecemos! Tu tem dinheiro sim, vai despejando aí! E não te fresqueia, que acabamos de fugir do Presídio Central!

Sem nem prestar atenção na pessoa do verbo, avisto, na esquina em frente,  um outro tipo, alto, loiro, cara amarrotada e um pouco menos abestalhado que o nanico de bigode que tenta me amedrontar e, amortecido pelo álcool que  eu estava, sem bravata, nem medo, mas simplesmente indiferente, o chamo:

– Ô rapaz, o teu parceiro acha que eu tenho dinheiro! Vem aqui me revistar! O que tu achar pode pegar!

– Olha lá, hein! Se tu tiver mais grana do que disse nós vamos te moer a pau – ameaça o gordinho bigodudo.

Com a maior preguiça do mundo, o comprido vem até a mim, enfia as mãos no meu bolso e, encontrando um destes suportes para moedas com molas (em que se distribui em buracos de tamanhos distintos os valores), que na época se vendia às pencas em lojas de “um e noventa e nove”, me “sangra” os últimos três reais e pouco que tenho além dos seis em cédulas (que já saquei da carteira e passei para o seu valente líder).

Preocupado em como vou chegar em Gravataí, afinal tenho de pagar a passagem do ônibus, e tenho de ir para o trabalho de manhã, suplico, transtornado, aos dois assustadores assaltantes que me devolvam pelo menos uns dois reais e recebo um deboche carregado de bafo de cachaça nas fuças:

– Não te preocupa que ela vem linda!

Uma quadra e meia depois, resolvo remexer na maleta (lembram dela?) e constato que, além do talão de cheques e do cartão bancário magnético, que não me servem pra nada a estas horas, ainda tenho uns bons vinte reais em moedas no seu fundo.E vou, contente e admirado, me rindo por dentro, para a parada do Sogil. Meus terríveis ladrões realmente eram dignos de pena. Ou haviam tomado umas tantas mais que eu (que mal me aguentava em pé) ou eram simplesmente uns incorrigíveis amadores!

Ubirajara Passos

DISCUSSÃO DE TRÊS MILITANTES POLÍTICOS BÊBADOS NUM BAR DA “CIDADE BAIXA, EM PORTO ALEGRE


Nestes dias em que os velhos moralistas petistas desvelaram de vez sua máscara hipócrita para defender a pouca vergonha mais reles e vulgar (daquela vulgaridade de que não vale nem a pena falar para não se cair no lugar comum dos sermões anti-corrupção em que os petistas fora do poder eram tão exímios) dos corruptos mais óbvios e poderosos, acabamos, eu o Alemão Valdir, numa manhã destas, em conversa pela internet, por parir o argumento da peça teatral que segue (que está mais para número mambembe que peça propriamente dita), mais tarde escrita por nós a quatro patas. Pra variar, o Alemão é autor de alguns versos. Dou um prêmio pra quem descobrir quais são. Qual o prêmio só revelo se alguém descobrir, também.

Como se verá, a peça não é nenhum primor de literatura e muito menos de política ou filosofia. Seu texto é até ingênuo (poderia estar na boca de qualquer funcionário público revoltado de Passo Fundo, no interior do Rio Grande, por exemplo), mas cai como uma luva no fascismo explicitamente corrupto do governo do Inácio, em que a censura (com o disfarce de ação judicial) foi reinaugurada justamente para impedir que a imprensa possa denunciar a coisa mais óbvia e encardida das últimas décadas da política brasileira, qual seja o fato de que a família Sarney (catapultada ao trono feudal maranhense, como dinastia permante, pela ditadura fascista imperialista inaugurada em 1.º de abril de 1964) é corrupta, vive da corrupção e não comete um ato político ou econômico que não esteja relacionado a sugar o próprio estado burguês. O Estadão, entretanto, não pode divulgar as falcatruas do Sarney Jr. para não manchar-lhe a honra e o direito fundamental de imagem… Mas, enfim, vamos ao texto:

Discussão de três militantes políticos bêbados num bar da “Cidade Baixa”, às duas horas da madrugada, em Porto Alegre

(encenação em um único ato)

Cenário: um obscuro bar com duas portas paralelas na fachada, prédio do estilo dos anos vinte do século passado, mesas na calçada, numa das quais se acham sentados os personagens no início do ato, postes de luz ao lado esquerdo das mesas, de luz amarelada, com canteiros de grama molhada de chuva, salpicados de tocos de cigarro à direita das mesas.

Personagens: o Portuga Libertário, o Pelotense Petista, o Alemão Batata Vermelho, um garçom vestido da forma tradicional, alguns figurantes bebericando às mesas.

Abre a cortina.

É inverno. Um vento forte (o minuano) corre o cenário, carregando folhas secas de árvores e fazendo esvoaçar guardanapos de papel e as melenas dos personagens. Os três militantes se encontram sentados na mesma mesa, bebericando. O Portuga Libertário à esquerda, o Pelotense Petista à direita e o Alemão Batata Vermelho ao fundo. O Portuga sobe na mesa e principia a falar.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (de cabelos desgrenhados, casaco preto cheio de caspa, óculos ensebados de gordura, de pé sobre a mesa, cuspindo fogo… e cachaça):

Republiqueta colonial,
semi-feudal,
neo-capitalista…

O PELOTENSE PETISTA (gordo e baixinho, cabelo preto penteado para trás com gel, terninho preto e gravata cor de rosa choque, com o nó frouxo atado pelo meio, um broche de estrela pespegado no peito, jogado na cadeira, segurando um copo de uísque Nato Nobilis cheio de gelo derretido):

Por culpa dos anarquistas,
só querem baderna.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que peida, enquanto tenta se equilibrar sobre a mesa):

… em que não serve simplesmente fuder-se o operário,
mas, sobretudo, para que o poviléu bovino
fique tranqüilo com sua bolsa-esmola,
é necessário,
pra caralho,
na republiqueta,
dar de mamar, muito mamar, mamar demais,
com toda “honra”, só mamar na teta,
a Sarney, ao irmão do irmão do primo
filho da mãe do bodegueiro,
da sobrinha
do industrial,
do feto que nem mãe ainda tinha…

O PELOTENSE PETISTA (derramando o uísque “chique” sobre a gravata, com aquele olhar esbugalhado de quem perdeu a propina no bolso furado):

Cala a boca, subversivo,
horrendo
comunista comedor de criancinhas.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que se levanta após um trambolhão, tira o copo da mão do Pelotense com um safanão, dá um talagaço, e o joga contra a parede):

… republiqueta maldita! A etiqueta
dos punhos brancos se mistura com a farinha
rala do escaveirado sertanejo,
dos sem-terra, dos sem-teto, dos “sem-teta”,
e algoz e torturado dão-se as mãos
nesta ciranda sádica (punheta
que o “dono” bate com a mão alheia
do servo submisso,
no seu sócio
de vigarice,de orgia e vício…)

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (de cor e ideologia… vestido dos pés à cabeça de farda militar camuflada, óculos escuros em plena noite, com um copo de underberg à mão):

Mas que negócio é este de punheta?
olha a censura!

O PELOTENSE PETISTA (furibundo, avançando sobre o Portuga, que se esconde de quatro em baixo da mesa):

Censura não há, seus desbocados pecadores!
O que há é o chicote exemplar da Lei
que só existe para que os senhores,
e os do seu tipo não desgracem tudo
e desonrem a República Mãe Nossa
com esta conversa fiada de falsos moralistas…

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que sai, de gatinhas, do outro lado da mesa e se volta para o Pelotense, abrindo a braguilha e brandindo o censurado, que logo esconde, para desapontamento do Pelotense):

Punheta sim! Que os descarados socam
pra se esporrar, com seus punhos rendados,
sobre as cabeças miseráveis do rebanho
de cuja angústia, do medo, do castigo
provém o hábito de lamber o sapato
dos entojados “proprietários” da nação!

O PELOTENSE PETISTA (que olha para o sexo do Portuga entre fascinado e furioso, e murcha quando a braguilha é fechada):

Olha, “bandido”, desregrado, “fiô da puta”,
pra ti, terrorista debochado,
censura é pouco,
tens que ser banido
do convívio austero e disciplinado
de nossa honrada e impoluta sociedade!

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (secando o copo de underberg e pedindo um chope):

Vê o que diz este safado pelotense
autoritário,
que só quer submeter-nos
pra impedir que se mexa em “seus” pertences
havidos com a expropriação
do suor alheio
(expropriação séria e honrada!)

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que se aproxima da mesa e toma um gole do chope do alemão):

Ele só diz e faz tudo isto
porque existe o rebanho submisso!
Como se há de aclarar a consciência
do servo massacrado cujo braço
é o único capaz de esgoelar o algoz
explorador, sem a menor pena,
para poder realmente então viver?

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (dando um soco na mesa, não se sabe se por entusiasmo ou contrariedade com o gole roubado pelo parceiro Portuga):

Meu caro Portuga anarquista,
tu muito bem conheces,
Eu que fui “estalinista”,
hoje concordo com o Reich:
o problema tá no rabo!
Ele não disse, mas acho:

Ou se arranca o rabo ou se lhe joga ferro em brasa
pro rabo parar de arder!
Senão como se há de dar cabo
de tanto idiota curvado
babando aos pés de outros tantos
imbecis, burros, vaidosos
que passam, com a anuência
dos idiotas de baixo,
o tempo esfregando o rabo,
roubando, e “lavando” o roubo,
e exercendo o poder?

Cai a cortina.

Gravataí, 4 de agosto de 2009

Ubirajara Passos e Valdir Bergmann