LULA SE REELEGEU: SÓ NOS RESTA DERRUBÁ-LO


Antes que algum leitor “democrático e de bom-senso” tenha um ataque com o título acima, é preciso mencionar que a “democracia” brasileira pode corresponder à vontade majoritária e inquestionável da maioria de seu povo (o que é muito duvidoso, já que este negócio de urna eletrônica à prova de fraudes é rídiculo – qualquer um que entenda um mínimo de computação sabe que a fraude se torna mais eficaz, pois é mais difícil de fiscalizar do que o voto de papel) sob o ponto de vista da formalidade, mas da não vontade livre e efetivamente “consciente”.

A grande maioria da população trabalhadora vive e vota conforme os condicionamentos que a hipnose diária da mídia lhe impõe. Tivesse a oportunidade de questionar por um único instante o seu quotidiano e as “instituições” que lhe definem o destino e não estaríamos assistindo à comédia trágica deste dia. O povo brasileiro, ao invés do velho mito dos intelectuais elitistas não padece por ser malandro e vagabundo, mas justamente por estar apegado ao máximo ao bom comportamento, ao cumprimento das regras e da moral que lhe impõe a classe dominante; ao respeito por qualquer canalha que detenha um grão de poder e represente a autoridade, tamanho é o medo de liberdade (sinônimo de caos e “fim do mundo”) que lhe é incutido desde a mais tenra infância. E é este apego ao bom-mocismo e horror à rebeldia que o mantém aferrado à vida de cão vira-lata.

Só esta índole (que é filha da moral autoritária e das manipulações psicológicas mais torpes e refinadas praticadas pela toda poderosa mídia eletrônica, a nova religião messiânica dos nossos dias) explica que este povo tão cioso do cumprimento às regras morais, reeleja, identificado com ele na sua frustração diária, o reizinho D. Luís Inácio. Justamente o homem que se deu ao desplante de se apropriar da renda pública gerada pelo suor deste mesmo povo para praticar a mais requintada patifaria da História do Brasil.

Os deputados de partidos da direita (de PMDB e PP à PL e PSDB, passando por PFL e PTB) foram eleitos para servir aos interesses da classe dominante e manter o voto popular afastado dos que realmente possam defender os interesses dos trabalhadores. Sua missão é aprovar os projetos que venham ao encontro da vontade do capital nacional e multinacional, elaborados nos pomposos gabinetes do patife-mor do Executivo, o Inácio. Mas a sem-vergonhice tomou uma sofisticação tal que os representantes da sacanagem burguesa fazem beicinho e chantagem com o chefão da corja e exigem uma mesada (o mensalão) para votar projetos de seu próprio interesse (e de seus financiadores).

Descoberto o esqueminha de sacanagem premiada, o seu próprio idealizador e comandante, o chefe da quadrilha, Inácio dos nove dedos, faz beicinho maior ainda e (em trejeitos de dar inveja a Dom Corleone, o poderoso chefão) balbucia inocentemente; “eu não sabia de nada”! E o rebanho amedrontado das ovelhas trabalhadoras, apavorado com os desígnios severos do “papai do céu”, frustrado, mas incapaz de rebeldia (que isto é coisa de mal-feitores e bandidos) choraminga e vai se encolher no colo do pai protetor (o cafajeste do Inácio), lhe dando mais um mandatinho.

É claro que a vitória do Geraldo significaria a implementação das mesmas “reformas” que os ricos daqui e “d’além-mar” exigem para que o Brasil se converta definitivamente num criadouro e santuário a serviço de suas necessidades de lucro, exercício sádico do poder e, sobretudo, das reservas de minerais, bio-diversidade e água potável que americanos e europeus necessitarão para continuar sua farra, a custa do sacrifício dos nossos lombos.

Mas a vitória do Inácio, longe de ser espelho de uma democracia inexistente (pois não há deliberação consciente e questionadora na maioria do eleitorado, mas condicionamento e manipulação psicológicos), significa exatamente a consecução do plano imperialista através da implantação de um Estado Forte, que acabará por suprimir as últimas possibilidades de divergência e exercício precário da mínima liberdade de manifestação e ação política que possuímos. O caráter histérico do fascismo petista (com o qual se identifica a massa frustrada e acomodado ao poder) encontrará na colaboração da própria burguesia liberal, e dos tantos incautos pobres adeptos do messianismo do Inácio, as condições necessárias para estabelecer um verdadeiro regime de terror, e sepultar de vez qualquer possibilidade “democrática” de alteração dos rumos do Brasil a favor de seu próprio povo.

Quando o povinho humilde que apóia o novo Luiz Napoleão (não o sobrinho do imperador corso, mas seu clone sul-americano, o Lulinha) se der por conta da revogação de seus últimos direitos garantidos em lei e se ver à mercê total dos patrões, sem direito à férias, 13º salário, aposentadoria ou jornada de trabalho limitada, será tarde demais!

Assim só resta aos últimos brasileiros conseqüentes tomar as ruas para derrubar D. Lula. E, neste ato de redenção necessária, todos os métodos são válidos: se a oposição burguesia não encaminhar o “impeachment” que já deveria ter sido votado, cabe o protesto e a exigência de renúncia e até a revolução a pau e pedra! O Brasil não pode continuar, para a eternidade, a ser “um moinho de queimar gente para adoçar a boca de europeu”, como o saudoso Darcy Ribeiro definia o processo colonial.

Ubirajara Passos

LULA, O HITLER BRASILEIRO


Apesar de seu passado pretensamente vermelho, o “ator” político Luís Inácio (devidamente treinado nas escolas yankees da CIA), revelou-se, em seus quatro anos de governo, tão burguês e entreguista quanto os demais chefões da direita nacional, tal como Fernando Henrique Cardoso (seu coleguinha da causa americana), Sarney, Delfim Netto e Collor de Melo (“casualmente” seus apoiadores) e seu atual oponente às eleições presidenciais.

Elevado à presidência na esperança popular de um governo de esquerda, que arrancasse o povo trabalhador da miséria e da opressão, através de empregos e salários dignos, o Inácio mostrou-se mais “radical” que muitos de seus antecessores burgueses (como Itamar, Juscelino e o próprio Sarney), mantendo o salário mínimo nos níveis de fome canina e dificultando, a ponto de quase extinguir, a aposentadoria da peonada do funcionalismo público, através do aprofundamento da Reforma Previdenciária aprovada por FHC.

A política econômica recessiva e monetarista continuou a escravizar o Brasil ao pagamento da agiotagem dos grande banqueiros internacionais e o resultado, apesar da propaganda em contrário, é o desemprego avassalador. E se a política de privatização de empresas públicas nacionais, como a Vale do Rio Doce e Cia. Siderúrgica Nacional, não prosseguiu na mesma velocidade de FHC, não houve a menor revisão das privatizações ocorridas no período anterior, que se esperaria de um governo dito “socialista” e “nacionalista”.

A própria retórica (tipicamente fascista, a la UDN e Carlos Lacerda) do moralismo “ético e cidadão” esboroou-se na prática da mais descarada corrupção, movimentando montanhas de milhões de reais para comprar o voto de deputados e senadores de direita para aprovar projetos de lei de interesse da própria direita!

Mas há algo que diferencia o Luizinho de seus amiguinhos burgueses, embora esteja a serviço da mesma classe dominante que eles e dos mesmos interesses multinacionais. É justamente a vocação autoritária de quem pretende convocar Constituinte exclusiva, formada por notáveis, no próximo ano, para outorgar a carta magna que deseja para o Brasil, que o aproxima do falecido ditador fascista Benito Mussolini (o qual, antes de fundar o partido da histeria, os “camisas negras”, fora membro do Partido Socialista Italiano, de cujo jornal, o “Avanti”, era o redator-chefe antes da primeira guerra mundial).

A tentativa de manietar a já bastante tendenciosa imprensa brasileira com a instituição de um Conselho Nacional, cuja verdadeira função seria a “censura” revivida e legalizada; a sanha característica dos governos petistas em controlar cada detalhe da vida de seus “súditos” não deixam dúvidas. O PT e o Inácio não são apenas direitosos comuns, mas fascistas! A própria histeria moralista é característica do fenômeno definido pelo psicólogo Wilhelm Reich como “peste emocional” e que corresponderia à compulsão totalitária e destrutiva de massas humanas (e seus dirigentes) a um comportamento anti-prazer e anti-liberdade, responsável pela opressão e coisificação inumana da classe trabalhadora nos últimos seis mil anos. Peste esta de que o regime nazista era a expressão política concreta levada ao poder.

A reeleição de Luís Inácio envolve, portanto, muito mais do que a continuidade da política direitista nos rumos do Brasil. Mas estabelecerá uma ditadura concreta, capaz de cercear (com maior intensidade do que a estabelecida no 1º de abril de 1964) os mínimos direitos de expressão, organização política, crítica e movimentação social de que ainda, precariamente, gozamos.

Um segundo governo petista significará a presença de um “inquisidor” raivoso em cada esquina – tão corrupto e safado quanto o seu chefinho Lula, mas sequioso (como o mais cretino beato) da “moral” autoritária e pronto a denunciar e prender quem quer que não reze pela cartilha petista do bem-estar (que se resume a devolver migalhas ínfimas do que é roubado dos trabalhadores e desempregados sob a forma de esmolas, como o “bolsa-família” e o “luz-para-todos”, enquanto ajuda patrões e banqueiros a massacrar o rebanho passivo e identificado com a sua “moral” histérica).

Não apenas veremos desaparecer direitos sociais mínimos, com o 13º salário, férias, jornada máxima de 44 horas semanais (o que significará praticamente a revogação da “Lei Áurea”), como o menor suspiro de inconformidade será controlado e “punido” pelos asseclas do novo Adolfo Hitler: Lula o homem dos nove dedos (já imaginaram se tivesse os dez?).

Ubirajara Passos

LULA, O “PEDAGOGO DEMAGOGO”


Por Ubirajara Passos. De volta a Gravataí, mas ainda de folga.

O agente da CIA Luiz Inácio, entre outros tantos programas assistencialistas e clientelistas, apresenta como grande feito de seu governo o Pró-Uni, que daria cabo da injusta falta de acesso dos “pobres” ao ensino universitário. O dito programa consiste na doação de bolsas de estudo para estudantes cursarem faculdades particulares. Ou seja, o suado produto do nosso trabalho que é arrecadado para a União em forma de tributos é “caridosamente” destinado à “empresas” de ensino superior da iniciativa privada, sob a desculpa cretina do subsídio aos universitários carentes.

O que o Inácio não diz é que não haveria a menor necessidade do governo federal repartir o bolo do dinheiro público com universidades privadas, além dos deputados mensaleiros e sanguessugas, para dar acesso pleno ao povão oprimido ao ensino superior. A União possui Brasil a fora, por praticamente todos estados, universidades públicas de categoria, cuja receita vem exclusivamente dos cofres federais. São exemplos fantásticos no Rio Grande do Sul as universidades de Santa Maria e a UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) de Porto Alegre.

Entretanto, basta percorrer os corredores de tais escolas para verificar que quem lá estuda, em 95% dos casos, são os “filhinhos de papai” da alta classe média e da burguesia nacional. Isto porque, se utilizando do exame vestibular como forma de “seleção” para ingresso, tais instituições só são acessíveis a quem tiver grana para pagar os mais caros cursos preparatórios, tal a dificuldade das provas. Isto sem falar nos horários de aula que, se estendendo pelos dois ou três turnos para um mesmo aluno, inviabilizam a possibilidade de um trabalhador que rala oito ou mais horas por dia freqüentá-las, quando, por milagre, passa no vestibular.

Para resolver o problema bastaria estabelecer uma política de “quotas” ao contrário. Ou seja, estabelecer – ainda que se mantenha o exame prévio para ingresso – que para entrar nas universidades públicas os estudantes não possuam renda maior que uns R$ 1.600,00 por mês (o salário mínimo do Dieese) e comprovem a condição própria, ou de seus pais, de assalariados de baixa renda. Quanto aos horários, na remota hipótese de ser impossível adaptá-los aos dos horários comuns de trabalho (com a ênfase nos cursos noturnos), seria mais útil destinar o valor que é repassado pelo Pró-Uni (em forma de bolsas) aos negociantes donos de universidades privadas aos estudantes pobres que não pudessem trabalhar, pagando-os para estudar na faculdade, como se faz nas nações imperialistas européias, por exemplo.

Mas como a real prioridade do Lulinha não é dar acesso amplo à educação em todos os níveis ao povo que o elegeu e sustenta seu caviar , ele prefere manter faculdades do governo federal para ensino gratuito dos filhos dos ricos e pagar faculdades de propriedade dos burgueses com dinheiro público, a pretexto de comprar vagas para os estudantes “pobres” (os trabalhadores que sustentam a sacanagem de patrões, fofos governantes e apaniguados em troca das mais ínfimas migalhas). Viva Inácio, o Santo Padinho redentor dos brasileiros!

LULA, O CAPACHO DA BURGUESIA


Por Ubirajara Passos, direto de Santa Rosa-RS, onde curte férias.

 

Em 1954, meses antes de seu suicídio, Getulio Vargas se via obrigado a demitir o ministro do Trabalho João Goulart devido às pressões histéricas de militares fascistas diante da proposta de dobrar o valor do salário mínimo então vigente. Mas, mesmo demitindo Jango, decretaria o novo salário mínimo (cujo valor corresponderia, em termos de poder de compra, hoje, a aproximadamente R$ 1.800,00).

Dez anos depois o ex-ministro, agora Presidente da República, assinava, no comício de 13 de março, decreto que desapropriava as terras ao longo das rodovias federais para iniciar, dentro dos marcos permitidos pela conservadora Constituição de 1946, a Reforma Agrária, e era deposto no seguinte, e nada bobo, 1º de abril.

Pois o Inácio, que sempre sentou o pau, a torto e a direito, em Getulio, Jango e em Brizola, no antigo PTB e no PDT, tem hoje a cara de pau de alardear,no horário eleitoral gratuito, sua grande obra social: a elevação, nos 4 anos de mandato, do salário mínimo em 26% (chegando à cifra cretina de R$ 350,00) e a instituição da “esmola oficial” (o bolsa-família)!

Ou enlouquecemos todos, os brasileiros com um mínimo de sensatez e raciocínio lógico habitando o cérebro, ou Lulinha nos acha uns imbecis completos, prontos para receber as asneiras que caga para o consumo da grande “massa” de trabalhadores desempregados e levados à miséria justamente pela sua linda política!

O PT sempre denunciou o “caráter fascista” da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) promulgada por Getúlio (que, é verdade, mal garantia os direitos mínimos de condições de trabalho e remuneratória para aqueles que conseguiam empregos de “carteira assinada”), mas o governo do Inácio, ao invés de avançar na radicalização destes direitos e na revogação do regime de “escravidão assalariada”, rumo à eliminação da classe patronal e à instituição do socialismo, quer, simplesmente, revogar, na prática (pela “flexibilização”, que significa a não-obrigatoriedade de cumprimento da lei pelos patrões) a velha CLT, já bastante desfigurada pela ditadura (que revogou, com a instituição do FGTS, o direito à estabilidade aos dez anos de firma, por exemplo). Tal é a essência das reformas sindicais e trabalhista.

Os festejados R$ 350,00 sequer permitem sustentar o padrão de vida de um cachorro de madame, mas Lula diz que são um grande feito, bem maior do que a política salarial de Fernando Henrique (seu velho companheiro de militância a serviço dos yankees). A grande maioria do povo brasileiro padece fome, miséria e opressão diante dos patrões (o que se pode comprar com R$ 350,00?), isto quando consegue um emprego, mas o governo petista é tão “ético” socialista e “cidadão”, que todo seu mérito social é o velho clientelismo coronelista da pior espécie. O clientelismo puro e simples que sempre foi praticado pelos maiores canastrões de direita (fossem do PMDB ou do PFL): a doação de esmolas para desempregados e trabalhadores cuja renda sequer chega aos pés do milagroso salário mínimo.

Para que a grande burguesia e os senhores transnacionais do Brasil fiquem tranqüilos, Inácio encontrou a receita perfeita. Se a fome do povo transformar-se em desespero e este começar a reagir, como nos saques populares que ocorriam nos sertões do Brasil dos anos 50 e 60, este pode acabar derrubando os poderosos e instaurando a pau e pedra um governo realmente popular e marchar para a derrogação do capitalismo. Assim, Lula garante a apatia destas multidões oferecendo as migalhas do banquete burguês em troca de votos e conformismo! Nada ficamos a dever, portanto, à velha Roma Imperial da decadência. Já temos o pão, só falta chamar a Dercy Gonçalves para dar o circo (já que o da propaganda eleitoral não tem a menor graça)!

DAS VIRTUDES DA VADIAGEM


Transcrevo abaixo mais um dos “Sermões na Igreja de Satanás” (completando com ele o total de sermões até o momento redigidos):

DAS VIRTUDES DA VADIAGEM

Não fôssemos animais infelicitados por um cérebro capaz de ir muito além do conhecimento imediato e imergir nos mais refinados recantos do univero da possibilidade e da emoção, e o trabalho poderia justificar-se como uma “razão de viver” e não a tortura inevitável que a necessidade física da sobrevivência, e da existência em um mundo feito de matéria, nos impõe. Muito ao contrário da pregação hipócrita de seus maiores defensores (bons burgueses seríssimos, de veias túrgidas de gordura, que construíram suas vidas no árduo e austero “trabalho” de amealhar fortuna à custa do trabalho alheio, ou recalcados líderes de “esquerda”, contaminados pelo moralismo das sacristias), o embrutecedor e massacrante labor nada possui de virtuoso, dignificante ou realizador! É antes um entrave a seres forjados, pela condição que lhes deu a evolução biológica, para o prazer e a aventura e não para a insípida e tediosa rotina de autômatos de carne e osso.

Seja, porém, pela necessidade de fugir ao suplício da faina diária e recuperar, ainda que abstardado, o paraíso do prazer (só alcançável no mais genuíno e absoluto ócio), seja pelo deleite especial que lhes proporciona o exercício do sadismo, os mais aguerridos e astutos dentre nós arrojaram-nos, historicamente, a obrigação de não apenas mourejar contínua e dolorosamente por nossa própria vida, mas também pela deles, sob cuja prioridade passamos a existir.

Não bastasse, portanto, o séquito natural de incômodos decorrentes da atividade necessária, rotineira e, intelectual e emocionalmente, limitada e aborrecida (como o afã doméstico) que nos inflige a nossa própria condição mortal individual, o advento da dominação (na forma das correntes físicas da escravidão ou institucionais e ideológicas da servidão e do emprego) transformou o que era um purgatório inarredável no mais completo e exasperante inferno! Se o trabalho “livre” guarda ainda alguma possibilidade de prazer, conforme a solicitação intelectual e estética nele envolvida (um artesão de marcenaria ou oleiro poderá apaixonar-se pelas “obras de arte” que produz no seu torno), o exercido sob as patas do patrão elimina qualquer possibilidade de manifestação autêntica da personalidade e acaba por condicionar todo o restante de nossas vidas.

O mais dramático, no entanto, não é o embrutecimento inevitável presente na lida, mas o fato de que, não trabalhando, colocamos em risco a nossa própria sobrevivência física. Deitar-se permanentemente à rede, meditando sob os insondáveis desígnios e mistérios da alma humana e da vida, e apreciar o instigante desfile da luz, da brisa e do luar, pode se constituir num convite certo à morte… ao menos que pertençamos à classe daqueles que obrigam os demais a não um único momento para contemplar o encanto de quadris bamboleantges, absortos na severa “diversão” de se esbodegar pelo patrão.

É este caráter categoricamente indispensável do trabalho que cria a possibilidade (mesmo numa sociedade em que a tecnologia avançadíssima poderia nos aproximar a todos do Éden – reduzindo ao mínimo necessário o tempo e a natureza penosa da ocupação) de submetermo-nos à incessante rotina de humihação, cansaço, imbelecilidade e obediência cega e reverente diante dos mais vaidosos e burros feitores que executam a vontade dos nossos “senhores”.

A divisão do trabalho, o irracionalismo “lógico” da produção em série, ou a “necessidade” de atendimento eficaz e célere das demandas de serviços, nos transformam em zumbis, mais inconscientes do que as próprias máquinas operadas ou as rotinas formais dos procedimentos de escritório. Mas, muito além da inerente despersonalização pofr eles imposta, é a disciplina, fria e regulamentadora, da”ética laboral” a causa mais profunda, e onipresente nos vários ramos da atividade humana considerada “útil”, das tormentas na luta pelo pão que o diabo (ou Deus) amassou de cada dia.

Não há maior infelicidade para um ser pensante e sensível do que, além de ter negado o prazer e o mínimo de condições materiais de existência em nome do luxo e do capricho alheio, ser submetido, durante a maior parte de sua vida desperta, a atuar não segundo as inspirações e motivações da inteligência e da emoção próprias, mas ter de jungir-se à formalidade e à vigilâncias contínuas de regras o mais da vezes irracionais e profundamente impregnadas do maior carrancismo e moralismo autoritário, digno dos mais inverterados mestres-escolas, de palmatória em punho, dos tempos dos nossos avós.

Se a exigência de “bom comportamento” e austera seriedade está presente, ainda que oculta sob a tênue capa da tolerância “informal” da modernidade, em cada instância de nossas vidas (do trânsito ao leito, passando pela escola e até pelo bordel) é no trabalho que ela, pela necessidade de submissão total que a dominação pressupõe, atinge o seu ápice

O desconforto, o sofrimento físico e psicológico do homem transmutado em coisa, aferrado a ações automáticas, repetitivas (e, portanto, cansativas), fasditiosas e obnubilantes não são apenas uma conseqüência lógica das modernas formas e “imperativos” da produção, num mundo de complexidade tecnológica crescente, mas um componente ideológico necessário ao exercício do domínio. Não é possível obrigar um indivíduo a todo este sacrifício e degradação voluntários, senão imbuindo-lhe até a menor molécula do senso absurdo de auto-imolação, do dever de “ser útil” ou, pelo menos, do temor (reforçado pelo comportamento delatório e oportunista dos demais membros do rebanho) da autoridade e suas imposições de estrita e sisuda dedicação ao serviço (um cigarro ou uma gargalhada são um tempo “subtraído” imoralmente ao amo que alugou-lhe os braços ou a mente, assim como a menor satisfação pode trazer à tona o desejo de jogo, prazer e liberdade sepultados).

A exploração e domínio carecem da sujeição do animal humano a cangas, encilhas e bretes tão violentadores, que esta se faz, forçosamente, presente não apenas no espaço exclusivo do lavor, sob p0ena de se esfacelar. Assim, a alimentação, o sexo, o lazer (a vadiagem institucionalizada), os mínimos momentos, peripécias e detalhes que formam o estofo dos nosso dias passam, imperceptivelmente, a ter “horários”, conteúdo, e mesmo formas de exercício, regrados e definidos não segundo as necessidades biológicas naturais ou as inspirações emocionais e decisões do nosso arbítrio individual, mas conforme as contingências do lucro que propicia a vida faustosa e sem sobressaltos de nossos amos.

Outro não é o cenário no qual o que sobra das horas dedicadas aos afazeres mal se presta às rotineiras atividades necessárias à manutenção da existência do rebanho de trabalhadores. Se examinarmos atentamente o tempo “livre” de que dispomos, constataremos que (quando o parco salário nos permite e a fadiga da jornada não nos converte em abúlicos adoradores dos deuses eletrônicos – rádio e televisão) nele nos resta uma atabalhoada luta contra o tempo limitado, destinado às compras, ao estudo, ao cumprimento protocolar e frio dos papéis familiares e sociais e, quando muito, ao divertimento insulso dos fins-de-semana periódicos. Uma existência mecanizada, em que se destina um tempo e um local obrigatórios para cada atividade, ainda que em flagrante contradição com as condições emocionais ou físicas do momento. Em que os sentimentos e interesses mais caros e profundos não podem, nem devem, segundo a ética vigente, manifestar-se a qualquer instante, mas subordinam-se e são sacrificados aos sagrados reclamos do trabalho. A própria folga da trabalhadora grávida, sob o título de licença-maternidade, caracteriza-se como uma exceção que a produção econômica, assumindo a primazia, concede à natureza para continuar a perpetuar a vida!

Não é, entretanto, por não haver fuga possível (sem prejuízo da vida ou de mínimo de dignidade humana) ao trabalho, que devemos nos sujeitar ao controle inelutável e doloroso da atividade assalariada, nem à interdição constante, em seu nome, dos deleites proporcionáveis por nossos corpos, emoções e intelecto. Não é, em suma, por ser um mal necessário, que devemos organizar, e permitir que organizem, nossas vidas no interesse do trabalho, ao invés de trabalhar, o mínimo necessário e com a máxima liberdade e satisifação própria de seres dotados de razão e sensibilidade, para vivermos de forma válida e agradável.

Ubirajara Passos

LULA, “O MONOPOLISTA DA LUTA SINDICAL”


Por Ubirajara Passos

Estava consultando o site do PDT-RJ quando dei com o artigo abaixo, que dispensa comentários:

História: Lula não recebeu Benedicto Cerqueira

Ascom PDT
25/9/2006

Luiz Inácio da Silva, então líder dos metalúrgicos do ABC, se recusou a receber o sindicalista Benedicto Cerqueira, também metalúrgico, quando este retornou em 1979 ao Brasil, após 15 anos de exílio. Trabalhista histórico, Cerqueira escrevera carta aberta a Lula cobrando posições equivocadas quando da fundação do PT. Companheiro de Brizola, Benedicto Cerqueira foi fundador do PDT. Vale a pena conhecer a carta à Lula – hoje um documento histórico.”

“CARTA ABERTA DE BENEDICTO CERQUEIRA A LULA

Prezado companheiro Lula:

Em primeiro lugar, receba o meu fraternal abraço e votos de êxito crescente em suas atividades sindicais na defesa dos interesses dos trabalhadores.

Em segundo lugar, desejo apresentar-me: BENEDICTO CERQUEIRA é o signatário desta. Trabalhador metalúrgico desde 1933. Exerci as funções de delegado sindical nas empresas em que trabalhei e fui dirigente da cooperativa dos metalúrgicos. Fui fundador da antiga União Geral dos Trabalhadores de São João Del Rei e participei de organismo similar em Juiz de Fora, no Estado de Minas Gerais, de 1933 a 1939.

Em 1953, fui eleito Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos do Rio de Janeiro. Exerci a direção do nosso Sindicato até 1964, quando fui derrubado pelo regime. A partir de 1956, fui o organizador dos sete congressos nacionais da categoria até 1963, como Presidente da Comissão Nacional. Além de muitas outras atividades e os muitos contratempos, prisões, despedidas e de participar da Diretoria da CNTI, os trabalhadores do Rio de Janeiro me elegeram deputado federal pelo PTB. Fui cassado em 64. Estou no exílio há 15 anos, sem que pudesse voltar à Pátria como um trabalhador livre.

Tenho acompanhado, companheiro Lula, a sua trajetória desde o seu aparecimento no movimento sindical e, também, de outros companheiros. Sua evolução tem merecido meus aplausos, embora note alguns aspectos confusos e pouco claros em seus julgamentos quanto às lutas anteriores de seus companheiros. As lutas sindicais vêm de longe. No meu tempo, fomos continuadores de muitos que se sacrificaram até mais do que nós. E as lutas, companheiro Lula, de hoje, são a continuação das de ontem. E assim será amanhã, também, as lutas dos trabalhadores.

Muito breve pretendo regressar ao Brasil e uma das minha primeiras atitudes será procurá-lo para um diálogo aberto e franco sobre a situação brasileira e dos trabalhadores. Estou certo de que muitos teremos a aprender desse diálogo, tanto eu quanto você.

Hoje estive lendo os jornais brasileiros e verifiquei que o companheiro, em sua atuação política, está fazendo críticas aos governos de Juscelino e Jango, e também ao PTB, em suas declarações feitas em Porto Alegre e em São Paulo. Antes, já havia lido outras feitas em Recife. O companheiro tem viajado muito em sua campanha pela criação do PT. Pensei que seria bom escrever esta carta ao companheiro, porque estou convencido de que a maioria destas críticas que vem fazendo são frutos da falta de informações sobre o que passou em nossa pátria, tanto na política como nas lutas dos trabalhadores, que têm uma memória muito mais viva do que muita gente supõe. Eu não desejaria ver os meus companheiros, principalmente um dirigente do seu valor incorrer em erro.”

Por exemplo, veja estes pontos:

1º – Não se pode comparar os governos de Juscelino e Jango com o de Médici. Posso te afirmar que nunca os trabalhadores tiveram maior liberdade para lutar pelos seus interesses que nos governos de Juscelino e, principalmente, no Governo João Goulart, quando éramos recebidos em palácio e em qualquer repartição com consideração e dignidade. Nesses governos, nunca houve violência contra os trabalhadores, a não ser de governadores que não eram do PTB, como Lacerda, Ademar, etc.

2º – É uma injustiça dizer que a sigla do PTB foi um engodo e que o PTB não tinha raízes populares. O Partido Trabalhista tinha raízes profundas no povo. Agora, é só haver liberdade e, não tenho dúvida, voltará a ser o maior partido popular. Há 15 anos vem sendo reprimido, impedido de funcionar. Cumpriu na sua época, antes de 64, seu papel de defensor das classes trabalhadoras. Que os digam os líderes sindicais da época e não os de hoje que não conhecem o PTB. Não houve, em todos aqueles anos, uma única greve em que o PTB não estivesse ao lado dos trabalhadores. Enquanto esteve em jogo o interesse nacional, lá estava sempre o PTB fiel aos seus princípios nacionalistas. Já vi alguém dizer que o PTB foi o que de melhor existiu naquele período como Partido, e eu te afirmo, companheiro Lula, que isto foi uma verdade. O PTB sempre esteve ao lado dos trabalhadores, como recomendava o seu inspirador, o Presidente Getúlio Vargas. E porque, então, todos estes ataques a um Partido que vem sofrendo 15 anos de perseguição?

3º – Quanto à reunião de Lisboa, informo aos companheiro que fui um dos seus participantes. Esta reunião não se realizou aí no Brasil porque muitos de nós ainda estamos impedidos de voltar, amargando duro exílio, e só podemos ser agradecidos aos companheiros que vieram até aqui para se reunir conosco. Melhor seria se pudéssemos nos reunir aí, como vocês estão fazendo tantas vezes e livremente. Assim mesmo, tivemos aqui uma importante representação sindical, principalmente de nossa categoria. Aqui estiveram o Presidente da Federação dos Metalúrgicos do Estado do Rio de Janeiro, Francisco Dal Prá; o Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio, companheiro Osvaldo Pimentel; o companheiro Derly Carvalho, seu antecessor no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, um dos promotores das primeiras greves após 1964, que vive ainda no exílio, como eu, e tem a lamentar a morte de três de seus irmãos na luta contra o regime de opressão.

4º – Não é de estranhar que o PTB, que recém-começa a reaparecer, ainda não tenha muitos dirigentes sindicais se movimentando. É uma questão de deixar correr os dias, num clima de liberdade, onde os trabalhadores puderem ir avaliando quem são os seus verdadeiros amigos e companheiros. Ademais, o PTB também é o Partido dos camponeses e de todo o nosso povo simples e sofrido que, infelizmente ainda na sua maioria, não está sindicalizado e cuja sindicalização em massa será tarefa nossa, dos trabalhadores e do novo PTB.

5º – O PTB não está surgindo de cima para baixo. Agora estamos recém-começando, como vocês do PT. Os inimigos também poderão fazer esta falsa alegação contra vocês, acusando-os, injustamente, de cúpula sindical, organizando um partido de cima para baixo, viajando de avião e discursando para auditórios de intelectuais. O mesmo que têm dito sobre o programa do PTB, poderiam dizer do programa do PT. Seria a mesma injustiça que estão propalando sobre o nosso programa, porque o PTB ainda não tem programa definitivo. Estamos levantando o assunto, colhendo sugestões, discutindo cada dia mais em assembléias populares, em seminários, até chegarmos ao nosso Congresso Nacional para sua aprovação.

6º – Ao contrário dos ataques que aí estão sendo dirigidos contra o PTB, reforçando as perseguições que sofremos há 15 anos, quero transmitir ao companheiro que, em nossa reunião de Lisboa, votamos uma moção de congratulações pela iniciativa da criação do PT e com todas as demais organizações políticas que venham surgir, vencendo as restrições do regime e principalmente de respeito aos princípios de todas as organizações progressistas.

Gostaria, companheiro Lula, de prolongar muito mais ainda esta carta, mas os muitos assuntos que desejaria discutir, deixo-os para quando eu voltar. Por exemplo, quero participar intensamente, com minha experiência, das discussões sobre o problema das relações entre partidos políticos e os sindicatos dos trabalhadores. Não é verdade que o PTB manipulava os sindicatos como se vêm afirmando. Nos sindicatos haviam companheiros de quase todos os partidos, e alguns nem eram filiados a qualquer partido. O PTB lutou para modificar a legislação sindical. Não tinha maioria para aprovação dos seus projetos no Congresso. E no Governo de João Goulart, todas essas leis opressoras dos sindicatos não tiveram qualquer aplicação. Tanto que funcionou, de fato, a Central Nacional dos Trabalhadores, representada pela CGT, grande aspiração de hoje da classe trabalhadora.

Já me alonguei demais, companheiro Lula, aceite com os demais companheiros o meu abraço fraterno e um até breve do

BENEDICTO CERQUEIRA Lisboa, 27 de junho de 1979.”

Após transcrever a carta do Benedito, o artigo termina com o texto seguinte:

Depois do Exílio, Lula não recebeu Benedicto

O sindicalista e ex-deputado federal Benedicto Cerqueira retornou ao Brasil em setembro de 1979. Neste mesmo ano, aproveitando um encontro entre Lula e um grupo político de Três Rios, no Rio de Janeiro, enviou-lhe um bilhete – através de seu companheiro Getúlio Ribeiro – propondo um encontro para conversarem sobre sindicalismo e partidos de esquerda. Lula não quis, alegando que a conversa “não teria nada a ver”.

Benedicto Cerqueira faleceu, em 1982, sem saber que Lula tinha levado Lisâneas Maciel – amigo e grande companheiro – para o PT, oferecendo-lhe vaga para disputar o Governo do Rio de Janeiro. Benedicto Cerqueira estava doente e hospitalizado e morreu sem saber que Lysâneas, meses depois, disputaria a eleição contra Leonel Brizola. “

TÉDIO E POLÊMICAS


Acessava eu o site do companheiro xuxpaxota (xupaxota.com.br), que anda indignado porque seus leitores (inclusive o cretino que vos escreve) não estão colaborando com sugestões para suas enquetes de putaria, e me lembrei de lhe ter sugerido, há uns dois meses, uma safada pesquisa interativa: “Jesus era Pedófilo”? A reação de meu amigo baiano (velho putanheiro que há uma década vive em Porto Alegre) – apesar de toda sua sacanagem – foi de “bom senso”: a idéia não prestava, mas esta coisa de enquete bem que ele podia aprovetar no site.

O detalhe é que a tal perguntinha não havia me surgido, originalmente, como idéia a sugerir pro xupaxota. Outro dia, conversando com um colega de trabalho quase tão pirado quanto eu, recordei aquele trecho do evangelho: “deixai vir a mim as criancinhas”. De imediato imaginei a polêmica que haveria de inflar as visitas a este blog. Afinal, nestes tempos de espetacularismo fácil, meio mundo se impressiona com asneiras do tipo: Madalena fudeu com Cristo (coisa mais óbvia!) e tiveram filhos.

Sem falar no sucesso de mídia do tal “Evangelho de Judas”, que – afora a interpretação gnóstica mais próxima do misticismo cristão original – não traz nada que já não houvesse sido, pelo menos, insinuado nos evangelhos canônicos. Não consta deles que o próprio Cristo teria dito, na última ceia, para que aquele que o trairia, que o fizesse logo? E não está implícito que, na tese da redenção dos pecados humanos pelo suplício na cruz, Judas seria a peça necessária, desejada e prevista pelo “Deus onisciente”, à consecução dos “planos divinos?”

A idéia era, através da brincadeira safada (a insinuação de pedofilia tem tanto apoio no texto bíblico como a suspeita, esta admitida sem problemas por todos que o lêem, do idílio romântico e sexual da Madalena e do “Messias) suscitar o debate em torno do puritanismo anti-sexo e anti-prazer da sociedade ocidental (de que o cristianismo é a base profunda da psicologia e imaginário).

Mas bastou mencioná-la ao círculo de amigos, políticos e sindicalistas que me rodeiam e estes ilustres “filhos da cartilha” (cujo comportamento “revolucionário” se enquadra nos limites “aceitáveis” da mentalidade condicionada de seu “público-alvo”) me dissuadiram do projeto. Eu ia arranjar incomodação da grossa. O mínimo que poderia me acontecer era um processo judicial, sem falar em possíveis reações fanáticas. Podia aparecer até um assassino radical religioso que quisesse me arrancar o couro. E este não serviria nem pra tamborim!

É incrível, mas numa sociedade onde o mito religioso serviu pra fuder gerações de trabalhadores (acomodados na perspectiva de um paraíso na “outra vida” – proporcional aos sofrimentos desta, e apavorados com as punições do inferno – versão teológica amplificada do sadismo de seus amos – reservadas aos “rebeldes” e “egoístas” peões incapazes de amar o seu “senhor”), o simples gracejo com as pecualiriades de seu protagonista é capaz de mobilizar as mais irracionais histerias e amedrontar mesmo os mais inveterados boêmios!

A aura de seriedade e intocabilidade do “Messias cristão” se revela, nesta horas, bem pior que o pretenso fanatismo muçulmano, tão decantado pela mídia do Ocidente. O que só prova a profunda conexão do capitalismo vigente com as mesmas forças psicológicas que geraram a religião judaico-cristã. A repressão de todo prazer e – por conseqüência – a rejeição a todo bem-estar mental e físico da maioria dos indivíduos… para perfeita realização do gozo sádico da classe dominante!

Mas, como todo este discurso é apenas filho do tédio, vai a seguir um poeminha adeqüado a este insosso domingo (que, como todo bom domingo, se não for tedioso, não é domingo!):

Regurgitando o Fastio Meditabundo

Onde estará o tédio?
Nas coisas exteriores,
Nas horas mortas das noites antigas,
No tic-tac dos velhos relógios
Que a eletrônica fria emudeceu?

No enervante contínuo dos instantes,
No automatismo dos gestos repetidos
A horas certas, no sem fim dos ciclos,
Na sucessão das farsas reencenadas
Ou na imbecil rotina a que nos agrilhoamos?

Será a inércia o velho ruminar
De partículas e ondas previsíveis
Que se comprazem em arrotar mesmices
Ou é o produto da nossa indolência,
Desta hipnose auto-aplicada a cada dia?

Gravataí, 15 de outubro de 2005

Ubirajara Passos