COM O DIABO LÁ DENTRO!


A frase é um dos lugares comuns mais batidos, ainda que sempre hilário e chamativo: “moço, ele tá com o diabo no corpo” (ou no couro, dependendo da região ou contexto sócio-cultural em que é pronunciada). E nos dá conta de uma realidade, aparentemente, irrefutável, autônoma e sem maiores matizes: o sujeito foi “possuído” (no sentido mais ingênuo e simplório possível) pelo demônio e pronto! Não há mais o que explicar, questionar ou conjecturar. Salta aos olhos a visão do cara furibundo, a baba a escorrer de uma boca furiosa que profere os mais cultos e ferinos impropérios, ou debochados e “pornográficos” xingamentos; os olhos normalmente esbugalhados, o corpo tenso como um tronco de árvore, os membros a se movimentar de forma rápida e ríspida.

Mas o que eu não conhecia ainda, até umas três semanas atrás, é a versão sofisticada e insinuante do adágio. Uma estagiária, que segundo alguns é a versão “feminina” (com todas as qualidades clássicas prováveis que o adjetivo encerra) do Peruca, me entrou, outro dia, em pleno cartório, com aquele ar de quem havia visto o capeta e, tão circunspecta quanto um humorista inglês, nos contou que uma parte em disputa com outra numa audiência do Juizado Especial Criminal (aquele setor que, entre coisas, atende majoritariamente às reclamações do povão a crimes do tipo: “doutor, minha vizinha me chamou de corno”) lhe havia avisado, aos gritos: “moça, é bom chamar os brigadianos (os policiais militares do Rio Grande do Sul) que ela tá com o diabo lá dentro!”.

Juro que se não fosse o tom de humor contido da minha cara estagiária, eu não teria dado maior bola à frasesinha, tomando-a por sua irmã similar e mais comum, e teria continuado a maldita e insossa rotina dos cálculos judiciais – coisa, que no início é até interessante, mas depois de vinte anos se torna mais banal e sem graça que aquela matrona com que o leitor se casou aos quinze anos, gatinha linda, gostosa e doidona, e agora, aos sessenta, se tornou rabugenta e horripilante, o verdadeiro dragão do inferno.

O inusitado da situação, entretanto, despertou-me a atenção para a versão fora do comum da coisa. “Com o diabo lá dentro!?”. Antes de mais nada, dentro de quê? Se estar com o diabo no corpo é algo inespecífico, que não anima muitas dúvidas, o “lá” deixa a entender um órgão bem delimitado, de onde se extrai as mais diversas e estapafúrdias hipóteses!

“Lá” dentro onde? Na buceta, o que pode ser uma resposta tremendamente entusiasmante para os mais inveterados tarados, boêmios ou simples amantes, como eu, da coisa mais gostosa e linda que a natureza criou ? Ou simplesmente no fígado, no pulmão nos rins, caso em que a possível conseqüência, além das obviamente supostas (como no útero, quando poderá, segundo os badalados filmes yankees nascer o anti-Cristo de uma “Rosimeri” qualquer, ou até mesmo o clone do Inácio dos Noves Dedos), pode tanto ir de um devastador câncer a um incremento dos portadores da peste emocional fascista. A idéia de se localizar no cérebro, ou no coração não é muito criativa, já pressuposta na expressão “diabo no couro”, mas, para os cornos mansos, “ter o diabo nos cornos” pode até servir de alguma coisa…

Porém, a coisa não fica por aí. Se está lá dentro por onde (e como) entrou? Sabendo que as possíveis respostas da anatomia (excetuada a capacidade de atravessar matéria sólida) envolvem não mais que uns sete buracos, dos quais pelo menos uns três se prestam à mais safada orgia, devemos crer que não se trata, provavelmente, de um diabo qualquer (se bem que “entrar o diabo pelo cu” é algo meio “vulgar), brigão e impertinente como chefe de repartição pública e maldoso e intrigueiro como puxa-saco de patrão, mas “O Diabo”, com todas as qualidades que justificam sua fama de rebelde e imoral perante o moralismo judaico-cristão, assim como a seus congêneres greco-romanos (Dionísio e Baco), africanos (Exu e seus comandados) ou islâmicos (os djins, gênios não necessariamente identificados com o mal, mas que fogem ao controle da razão burocrática ocidental). Ou seja, um diabo folgazão, putanheiro e sem-vergonha, e, dependendo do possuído, até adepto da Marcha do Orgulho Gay!

Seja como for, o pior de tudo é saber como tirá-lo de “lá”. Afinal, contra um capeta tão sofisticado e especializado (que bem poderia se enfiar no núcleo básico de formação da matéria e energia e criar meios de destruição, ou de transformação inusitada, do mundo “concreto” que conhecemos bem mais complexas que as bombas nucleares ou os pretensos poderes para-normais ou a alquimia) não é qualquer exorcismo de padre gagá, broxa e/ou pedófilo que resolve! E muito menos a atitude bronca e direitosa de qualquer comandante de polícia militar estadual enfrentando revolucionários de palhaçada por aí a fora… Presumo que para expulsar este tipo de entidade infernal somente uma overdose do prazer maior que justifica sua localização na parte precisa do corpo pode surtir efeito! Isto se não for um diabo viciado. Porque aí não tem jeito mesmo.

Seja como for, fica lançado o desafio aos leitores que se animarem a comentar esta crônica: onde é mesmo que o diabo se encontra, por onde entrou e como é que vai sair?

Ubirajara Passos

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… NEM TODO TONTO É PERUCA!


Eu ia saindo macambúzio do Foro, naquele final de expediente de sexta-feira, devido a uma discussão idiota, por telefone, com a minha gata preferida (que em breve se tornará minha mulher) quando fui cercado pela dupla Peruca e Kadu, que, com ar de moleque que cagou nas calças, entre a ansiedade e o deboche, foi me disparando:

— Ô Bira, olha o que colocaram no teu bolso! – vai, dizendo o Kadu, enquanto o Peruca sacode os cornos, concordando com o outro sem-vergonha.

Conhecedor da cretinice especializada dos dois safados (especialmente do Kadu, que dispensa comentários) fui logo abrindo aquele sorriso descrente:

— Gurizada, vamos deixar de frescura que não tô pra brincadeira. A criatura me deixou reinando!

— Ô Bira, nos tamos falando sério! Quando tu ía passando pela porta, passou um cara a mil e botou uma coisa no teu bolso. Olha aí! – arremata o Peruca.

Procuro nos mais diversos bolsos e nada! E já vou me mandando, quando o Kadu insiste:

— Cara, olha no bolso da jaqueta!

E o idiota aqui, convertido no mais novo membro da espécie burrus pateticum, apalpa o interior do bolso, estufado de papéis, dinheiro, um frasco de descongestionante nasal e outro de removedor de cera dos ouvidos (para debelar o resultado do vento minuano, que resolveu gelar o Rio Grande do Sul antes da entrada oficial do inverno), encontrando uma coisa cilíndrica e enrolada, com consistência suficiente para ser um filhote de cobra ou uma minhoca.

Fóbico que sou com este tipo de bicho, ainda que de brincadeira(como a cobra de plástico, com mola, que o Cabelinho, primo do Peruca, andava segurando, faz um ano, nos portões do foro), emputeci e intimei os dois aos gritos:

— Tira esta coisa daqui, tropa de safados filhos de uma puta!

E os dois cornos dispararam correndo, o que só confirmou o meu pânico. Cobra viva não devia ser, mas uma de borracha já seria suficiente para um ataque de fobia (reação que jamais me ocorreria se fosse um cabeluda aranha). E se fosse um punhado de minhocas, podiam começar a se mexer, no meu caminho a pé até em casa.

Não havia jeito: para confirmar e evitar um vexame na rua, maior do que já havia dado, eu teria de esvaziar o maldito bolso, o que era melhor fazer na sala da Distribuição e Contadoria, em que trabalho, longe dos olhos dos colegas dos demais cartórios, que saíam, já que os meus já deviam ter ido embora.

Mas lá chegando, dei com metade da equipe ainda se enrolando pra abandonar o serviço. Com exceção da dupla de veados (o Peruca e o Kadu, é claro), da chefe e de uma estagiária que encontrei no corredor, lá estavam todos os demais três oficiais escreventes (entre eles o Castello Branco) e a loirinha mais linda e gostosa do setor, que depois que largou o namorado (um gordo safado e metido a dominador machista) deixou de ser uma tímida puritana cuja frase preferida, a propósito de qualquer irreverência um pouco mais picante, era “que nojo”, e agora se tornou a mais animada e extrovertida gata do cartório, se bem que não a ponto de rir de uma piada cavalarmente explícita.

Pois foi justamente pra loirinha, que deu o azar de cruzar na minha frente antes de qualquer outro, que pedi:

— Fulana, tu é mulher, mas é mais valente do que eu. Tira tudo que tem no bolso da jaqueta pra mim. – E lhe dei o casaco de couro marrom, do qual ela foi tirando, pacientemente, papéis, remédios, notas e moedas, sem aparecer o troço roliço.

— Bira, só tem isso aí!

— Ô guria, não pode ser, tem mais alguma coisa. Os putos do Kadu e do Peruca me enfiaram um negócio aí e saíram correndo! Vai lá,mete a mão no fundo!

E foi então que saltou da sua mão, vinda das profundezas do bolso, uma camisinha aberta, cheia de uma substância branca (que a dupla de gozadores confessou , mais tarde, ser maisena), provocando o coro de risadas, inclusive da própria guria (vítima involuntária da palhaçada) e a minha estupefação furiosa. Pois eu supunha que a porra falsa fosse cola tenaz, o que me estragaria o casaco. Não fosse isso teria me mijado de rir na frente da própria gatinha gostosa, e não em casa, ao me lembrar do fato!

Com o que ficou provado, naquele modorrento final de dia, que, se nem tudo que há no bolso é grana, nem todo tonto (como eu) é Peruca!

Ubirajara Passos

NEM TUDO QUE HÁ NO BOLSO É GRANA…


Por mais óbvio que pareça o título deste post, ao menos para 98% dos brasileiros, que sabem muito bem o que é a tristeza infinita e sem consolo de possuir uma versão em miniatura e sem glamour dos famosos “buracos negros”da astrofísica em suas próprias calças, a coisa não era tão evidente assim para o Peruca!

Mesmo tendo sido assaltado por um traveco sado-masoquista, com o qual manteve “estreitas” relações durante meses, e, por esporte e necessidade financeira, tendo exercido todo seu ímpeto animalesco de jegue “no cio” sobre um proeminente, temperamental e respeitável “bambi” da pequena-burguesia pretensamente aristocrática de Gravataí, por diversas vezes, mediante o fornecimento de uns simples trocados, o nosso tonto predileto ainda acreditava que em bolsos masculinos só existiam notas de “dez reais” (vem com o “Tio Pedrinha” que ele te dá dezinho – já dizia o monitor pedófilo e taradão da creche que o Peruca freqüentava ainda piá), e, no máximo, aquele cigarrinho de maconha (coisa que conhece só de ver na mão do “Charuto” e outros parceiros do Dente Hugo).

Até que um dia, entorpecido de cerveja, foi abordado, em pleno posto da Avenida Centenário, pelo Camarguinho-chama-o-Hugo, completamente alcoolizado com meia dose de uísque batizado, que berrava desesperadamente e inconsolável: “Eu perdi! Puta que pariu, onde  foi parar? E agora, o que vai ser de mim sem isso? Eu prometi que ía dar pra ela, amanhã sem falta! E agora, meu Deus do céu? Ô Peruca, mete a mão aqui no meu bolso, que acho que tá furado, e ele já era!”

Nosso bocaberta e altruísta personagem, apesar da preguiça proverbial, que já o impediu até de usar o que possui entre as pernas com uma tarada prima minha (o que lhe valeu, além da tradicional e justa “galhada”, o título honorífico de irmão avantajado do pincel de paredes, a famosa broxa), bufou uns bons três minutos, entediado, e sem coragem de levantar a buzanfa da cadeira, mas a gritaria era tanta e tão histérica, que acabou acorrendo à insistência do amigo, cravando fundo a mão no seu bolso, e dando com aquela coisa mole, roliça e meio cabeluda – que ele realmente estava furado, mas dali não saíra nada. Antes entrara, não se sabe se por cálculo do dono, ou caso fortuito, uma piça “barroca” (igual a de anjo de igreja católica seiscentista) e desativada!

Dizem as mãos línguas do bairro da Várzea que foi depois do episódio, e não no Festival do chopp de Feliz, que o Camarguinho apareceu de nova maquiagem, com a falta de dois dentes e meio na linha frontal de sua boca!

Mas, desde então, o Peruca ficou mais esperto: agora, pra evitar tão inconveniente absurdo, quando vai beber, leva consigo um vistoso par de luvas cirúrgicas!

Ubirajara Passos

A BÍBLIA DO PERUCA: Adão peruca, a cobra e a banana


Deus Peruca, depois de 6 bilhões de anos, montando e esculhambando, e remontando, desastradamente, o Universo, finalmente havia terminado sua tarefa e, numa enjoativa tarde de sábado, curtindo uma ressaca “eterna”, resolveu descansar, dando aquela cochilada na rede da varanda. Mas como era Peruca, apesar de Deus, havia se esquecido de inventar a rede no jogo lego da Terra, o último pedaço fabricado do Universo. E, tomado por aquela preguiça divina, ficou por ali mesmo, pelo jardim do sítio do Itacolomi, que alguns milhares de anos depois seria o monte das revelações do Law-Moisés sem-pirâmide-com-dinastia, caminhando, va-ga-ro-sa-men-te… e babando sonolento!

E era tão lenta sua caminhada, e tão lerdos estavam seus neurônios, que o Universo inteirinho entrou em hibernação, reduzindo quase ao frio absoluto o movimento de suas moléculas, e a baba do Peruca Criador de Tudo se solidificou e surgiu um estranho boneco, com cara de bundão, que era a sua cara e semelhança. E Deus Peruca tropeçou no próprio clone e, após cem anos, viu que era o seu retrato e era “bom” e abobadão e deu-lhe o nome abreviado de “Adão”.

Mas a figura era muito sem graça. Não falava, não corria, nem (pecado supremo) abria a boca pra comer nuvens de galáxias, à semelhança de seu imenso pai supremo. E, então, o Deus Peruca, resolveu dar-lhe vida! E como tudo ainda andava, apesar da animação, muito gelado, peidou, com seu buzanfão infinito, sobre o Peruca Adão, que pôs-se em pé, lentamente, passando uns bons duzentos anos de quatro, e, logo avistou seu criador, abriu a boca num espanto infinito e começou a babar, enquanto uma ínfima comichão no cérebro lhe deu a noção de que 1+1 é 2 e daí por diante tudo é muito!!!

Tudo andava muito bem no jardim do Paraíso do Itacolomi, mas Deus Peruca percebeu que seu fiho predileto andava entediado, perdera o tesão de tentar contar os dedos dos pés e ultimamente andava tentando somar um mais cinco, num estranho movimento de socar mandioca! E Deus Peruca pensou: meu pobre filho precisa de uma companhia e de algo que o acorde deste sono quase eterno! E deu-lhe por parceira uma mula!

No princípio Adão Peruca achou tudo muito interessante, mas a mula era por demais semelhante a ele mesmo, convicta, impermeável à inteligência e teimosa! E quando resolvia enfiar o próprio rabo entre as pernas e escoicear o Adão tarado, que queria lhe plantar a mandioca, nem Deus Peruca conseguia dissuadi-la.

Adão Peruca e sua "Eva" Mula

Aí apareceu a cobra, que veio do nada, imprevista que estava no roteiro do vídeo universo Peruca, e foi logo mostrando pro Adão Peruca uma fruta enorme, colorida e chamativa denominada banana! E convenceu-o, apesar da teimosia (que era a maior semelhança com seu criador), a engolir a banana até o fundo, donde manou leite e mel! E o Adão Peruca ficou atordoado, maravilhado, endoidecido – até dançou um funk à velocidade da luz, lerdo que era – e resolveu que essa coisa de fêmea de jegue não tava com nada e que, dali por diante, só ia se divertir com a cobra e com a banana!

Foi então que Deus Peruca, que havia se esquecido, entre um cochilo e outro de proibir seu filho de não dar trela à cobra louca do deserto e não chegar perto da fruta de folha mole e quebrada, sacudido de seu sono eterno, por um relincho mais agudo de sua cria predileta, viu a pouca vergonha que se tornara a Terra, mandou a cobra curtir uma de coruja nas margens do Rio dos Gravatás junto à Anta Vaidosa, e expulsou o Adão Peruca pro deserto, mas não sem lhe deixar uma companhia de infortúnio, que era a culpada do desviadão: mandou junto a mula, amansada, e do “menage a trois” do Perucadão (que foi o novo nome que lhe deu o “Criador”), da mula e da banana, nasceu a “Dinastia” Delta-Rede, que gerou a grande raça dos bocabertas sobre a terra! Alguns milênios após, a lei de Deus Peruca seria novamente revelada aos puros descedentes, esquecidos da safadeza original, por Law Moisés, libertador dos trouxas!

Ubirajara Passos

CANIVETE DE CANIBAL


canivete de canibal

Não, não se trata de um simples “canivete suíço” (made in Paraguay), um destes utilitários que possui, em uma dúzia de centímetros, acopladas as mais diversas ferramentas em miniatura, desde serra, chave de fenda philips, tesoura, chave de arame ou alambrado, até a pra de la inútil lixa de unha – afinal, qual é a mulher que vai andar com um canivete? ou o leitor já viu um homem “praticante”, não um destes que é, nominalmente, membro da religião masculina, mas à noite rebola e quebra a mão na Avenida Farrapos, em Porto Alegre, ou no chafariz da praça da prefeitura, em Gravataí, lixando as unhas?

Se o leitor observar atentamente, verificará que se trata de um inovador, prático eeu fantasiado de canibal cismado eficiente canivete para canibal. Destinado, portanto, ao deleite e conforto daquela turma cujo esporte preferido é comer gente.

Advirto, desde já, entretanto, aos que comungam do QI (quociente de inteligência) semelhante ao do Peruca, que o canivete não possui camisa de vênus e não serve para facilitar o defloramento de senhoritas virginais àqueles tarados que, por também nunca terem fudido, supõem que a coisa é muito trabalhosa e têm preguiça de romper um cabaço (pelo que sei só se encontra este raro tipo em hospício, ou nos confins da Amazônia).

O mágico instrumento é para uso de antropófagos, mesmo. Aquele povo que adora degustar uma costelinha humana! Senão para que serve faca, garfo e colher no mesmo canivete? É simples a resposta: o sujeito mata com a faca, come com o garfo e se a vítima for um primo do Peruca, o que significa que tem o “miolo mole” pode lhe comer o cérebro de colher!

E, claro, é possível, também, sua utilização por velhos comunistas, daqueles que matam velho pra fazer sabão e comem criancinhas (com os dentes e não a moda do Michael Jackson), conforme o direitoso imaginário popular.

os talheres do antropófago

O detalhe é que, quando cheguei ontem no foro de Gravataí, com esta minha mais nova aquisição das lojas de R$ 1,99, a reação do Castello Branco, do Kadu, e do próprio Peruca, provou que somos todos, inclusive eu, em maior ou menor grau, tão inteligentes quanto o Peruca! Pois se o garfo e a faca estão fixados, cada um, em uma das pontas do cabo, como o sujeito faz para cortar a carne? Ou são necessários dois canivetes para tanto? Totalmente convencido da inutilidade prática do objeto, resolvi, entretanto, dar-lhe utilidade literária, discutindo seu possível emprego antropofágico e, tendo ido fotográfa-la para ilustrar a matéria, acabei por descobrir, acidentalmente, que o canivete se desdobra em dois, permitindo tranqüilamente sua utilização como talheres, sem nenhuma problema, e com a possibilidade, inclusive, de comer aquela orelhinha de gente com o acompanhamento de um bom vinho ou de uma cervejinha, já que possui os tradicionais saca-rolhas e abridor de garrafas.

Como não poderia, aliás ser diferente, já que não foi fabricado em Portugal (que, já vou avisando antes que algum policial literário petista reclame do “preconceito”, instigado pela gozação com os veados, é a pátria dos meus antepassados).

O diabo é que, como não há mais canibais no Brasil desde uns dois séculos, o canivete vai servir, mesmo, é pra comer churrasco, de gado vacum e não de veado, fique claro!

eu de Canibal doidão, me estourando de rir dos leitores crédulos e sérios

Ubirajara Passos

Uma profissão de fé na vida, no verdadeiro amor, na liberdade e na espontaneidade


Não costumo responder aos comentários dos meus leitores, mas este, postado no texto “O Chamado do Demônio”, acabou me cutucando de tal forma que resultou na mensagem abaixo, que, devido ao tamanho e à inspiração, resolvi não publicar no espaço de comentários, mas como post específico, que acaba sintetizando em alguns parágrafos a grande parte do meu pensamento. Quanto às minhas afirmações sobre o Cristo, recomendo ler o post “O Anarquista Jesus Cristo”. Mas enfim , vamos ao texto:

“Caríssimo Cristiano: se o companheiro se deu ao trabalho de ler atentamente a página “Quem é Ubirajara Passos”, assim como a epígrafe que vem logo após o título deste blog, ou mesmo suas principais matérias, deve ter percebido que sou um libertário racionalista (um anarquista) e, conseqüentemente, descrente na existência física de figuras como deus ou o diabo (tecnicamente falando, e sem nenhuma conotação de validade ou reprimenda cultural, um ateu).

O próprio texto que comentas é uma introdução ficcional a um livro de ensaios, ainda incompleto e impublicado, em que exponho, em tom oratório e gaiato, mas sobretudo, sincero e veemente, as minhas visões sobre temas cabais da cultura e da sociedade humana, sob um ponto de vista mais universal, se bem que lavadas no quotidiano do Ocidente.

O diabo figura no texto como personagem que é do próprio folclore e da cultura judaico-cristã, identificado, como em outros tantos sistemas religiosos e culturas, com as forças da liberdade, da autenticidade ainda primitiva e do prazer que se identifica com a vida pura e simples – ainda não contaminada da repressão totalitária dos sistemas de poder das tradicionais sociedades patriarcais, que reproduziam, na figura absoluta de deus, um pai severo e um monarca inquestionável a sancionar (validar) toda a opressão e repressão da liberdade, da alegria e da saúde humana, a postura e os interesses do prazer sádico dos poucos poderosos que estão no topo político, econômico e cultural (no sentido de forjadores das verdades ditas inquestionáveis que se derramam boca abaixo da maioria, – o rebanho – condicionando suas idéias e atitudes para o auto-flagelo e a privação voluntários).

A máxima existência que credito a deus e ao capeta é a de grandes arquétipos psicológicos, representantes das energias emocionais da disciplina e do pensamento organizador, do compulsório (o primeiro) e da liberdade, do prazer e do jogo bem humorado e espontâneo da vida sem complexidades intelectualizadas (o segundo, que, não por acaso, teve à sua figura judaica assimilados deuses pagãos da alegria boêmia como Baco e Dioniso e os sátiros mitológicos).

Não se preocupe: também creio que Cristo Salva! Mas o Cristo livre, questionador, bondoso, alegre, festeiro e revolucionário, cujo primeiro milagre foi transformar água em goró (no caso, vinho); que descia a marreta nos hipócritas moralistas que infelicitavam o povo com mil etiquetas de comportamento superficial e acomodado só para tê-lo como cordeiro no sacrifício da exploração por romanos e judeus ricos.

O Cristo que se compadecia de figuras marginais, mal-vistas e excluídas, do Oriente Médio da época, como leprosos, mulheres, prostitutas e cobradores de impostos. Que curava a todos indiscriminadamente e não lhes pedia em troca nenhum tributo ou obediência, mas que acreditassem em si próprios e amassem, de forma doce e solidária (e não como obrigação ou sofrimento auto-imposto) seus companheiros de quotidiano, pela simples simpatia que eles lhes inspiravam e que admitia, portanto, inclusive a agressividade e o ódio a tudo e a todos que encarceram e encouraçam a vida, matando-nos antes do túmulo.

No que não creio, e acho que é coisa própria da tua visão de diabo, é na igreja cristã, que perpetuou a exploração, a expropriação e o sofrimento de milhões e bilhões de seres humanos (na escravidão, na servidão feudal, no capitalismo, de antanho e de nosso dias) e queimou milhares na fogueira da “Santa Inquisição” por pensarem livre e diferentemente do rebanho e de seus sádicos donos, por exemplo. Tudo isto em nome de um pobre Cristo cujo deus era antes uma mãe carinhosa e zelosa, um sopro de vida, riso e gozo, do que o severo Rei perverso e absoluto dos céus de imperadores e tiranos de todo tipo.

O inferno, não meu amigo, eu não o temo, pois ele é apenas o imaginário ampliado, e catapultado ao status de eterno, das penas e sofrimentos injustos e acachapantes impostos por nossos donos, sinhozinhos, coronéis, barões, duques, patrões, empresários e governantes autoritários e exploradores de todo tipo, desde que a humanidade é dividida entre uma meia dúzia de exploradores e algozes sádicos e espertos e um rebanho de obedientes e humildes criaturas infelizes, intensamente empenhadas, em sua maioria, em se manter na infelicidade semi-espontânea, em nome do medo, da “moral” e da “disciplina”, do compulsório, do “organizado” e do pavor do “caos”, enquanto a vida livre, feliz, solta e maravilhosa brada, violentamente e não escutada, aos seus ouvidos surdos! Leia Carl Jung e, sobretudo, o mestre Wilhelm Reich. Mas leia sem preconceito, com atenção e serenidade e, depois, se puder, me diga o que concluiu. Atenciosamente,

Ubirajara Passos”

CINTO DE CASTIDADE OU ARMA”DURA”?


Não, não se preocupem os corruptos gaúchos (sejam eles do PSDB, do PPS ou do PT, entre outros tantos) que esta crônica, apesar do sugestivo título, não possui qualquer relação com os últimos escândalos envolvendo o governo de Yeda Crusius (como o do Banrisul); nem as relações obscuras de um ex-deputado e um alto dirigente de bancada do partido do Inácio, em Porto Alegre, com as falcatruas e os privilégios (institucionalizados) praticados pelos membros de uma certa seita “secreta”, amplamente conhecida como grande influenciadora dos rumos da política na província de São Pedro do Rio Grande do Sul, desde antes da revolução farroupilha (1835-1845), e que são os mais aguerridos membros do “patriciado” local, que se protege mutuamente pelo pacto do silêncio, garantindo as gordas verbas da província para seus “magros” bolsos, enquanto o “poviléu” paga mais caro pelo pão em razão do imposto estadual; e sequer pode confiar em dar uma escapada para a birita nas madrugadas da capital, ou da região metropolitana, a pé, sem ser importunado, e roubado, por seus colegas de infortúnio mais ousados, já que o que sobra do grosso da exploração da burguesada provinciana e internacional, em forma de tributos, tem de ser priorizado para as pequenas “traquinagens” de nossos ilustres homens públicos, “de bem”, com as gurias da “tia Carmem”.

O fato é que, tendo ido comprar um cadeado para o portão de casa, eu, que este ano me encontro completamente afastado da boemia putanheira, em razão de ter sido “pedido em casamento” pela recalcitrante gata preferida (que jamais havia cedido às minhas propostas de juntar as escovas – de dentes, pô! – num só armário) e estar me preparando para me tornar pai e “marido” (eta nomezinho horrível além de autoritário!), ía babando, “a la Peruca”, quando, olhando o mudo e repressor objeto de metal, me lembrei, há décadas sem pensar na coisa, do velho cinto de castidade medieval.

E, independentemente da coisa se destinar a impedir, na marra, o estabelecimento ou aumento da galhada do nobre corno cavaleiro, ou de simplesmente prevenir a presença, entre os contemplados da geração futura da classe dominante, de um ilustre “filho da puta”, me veio “às guampas” a constatação de que o nefando instrumento de opressão íntima das fêmeas da espécie seria, hoje, apesar de toda falsidade social da era pós-revolução sexual (ocorrida nos já vetustos anos 60 do século passado) uma tremenda piada!

Falando em piada, aliás consta que os velhos cavaleiros e senhores feudais ocidentais gostavam de se divertir no sado-masoquismo das c(r)uzadas do Oriente Médio com os outros machos, enfiando a “espada” pra tudo quanto é lado, enquanto a inalcançável dama tinha de se contentar em torturar, com suas interdições histéricas, as criancinhas do castelo e em chutar cachorros, devidamente “encarcerada” no tal cinto, enquanto seu dono se encontrava fora

Ninguém pode garantir, e a experiência pessoal de cada um de nós intui, que a sacanagem extra-genital não corresse solta em plena Europa feudal, mesmo (e principalmente) no topo da nobreza, como era já praxe no velho Império Romano e em todos seus antecessores mediterrâneos. A hipocrisia, dominante até a metade do século XX, entretanto, garantia que tais coisas eram “aberrações” psíquicas de tarados deformados mentalmente e não se faziam presentes nos “lares modestos e comuns da sociedade”.

Ainda que que as anedotas biográficas de nossas avós e tias velhas, inclusive as solteironas e beatas deixassem claro que a putaria enrustida de então era bem mais “pesada” e entusiástica que a de hoje. Quem não lembra das histórias contadas em “educado” tom de meia voz e sob a vigilância de olhares sobressaltados, que perscrutavam os cantos e portas da sala de estar para evitar que nós (então piás curiosos e punheteiros – hoje ilustres quarentões metidos a boêmios “maduros”) ouvíssemos suas “indecentes” aventuras e, preferencialmente, as das amigas e vizinhas?

Mas, eventualmente alguma duquesa burra ou uma baronesa babona, temerosa dos castigos do inferno da igreja católica, era tão bitolada que desconhecia as possibilidades sexuais além dos “países baixos” do corpo humano ou era carola o suficiente pra crer que uma simples “espanhola” a condenaria a passar a eternidade queimando e levando agulhadas debaixo das unhas do dedão do pé (é incrível a identidade entre as penas infernais reservadas às almas após a morte e as práticas de tortura legal da diabada sacerdotal da inquisição católica).

Nesta primeira década do segundo milênio, entretanto, por mais que o prazer mútuo continue a ser empesteado pela interdição da sociedade hierarquizada (que transformou a antiga – pífia e meramente formal – proibição num jogo de cartas marcadas e “segundas intenções” além do sexo, na prostituição acéptica, aceita e institucionalizada das cortesãs metidas a gostosona do bailão ao “garanhão” adolescente da classe média imbecilizado de “êxtase”, a balinha do barato e não o gozo puro e simples), as práticas físicas do prazer, abertamente realizadas, são tão ilimitadas, indo de uma doce e carnuda boca ao dedão do pé (o mesmo que paus mandados de militares fascistas brasileiros, fascistas vermelhos do sudeste asiático e velhos padres medievais torturadores feriam com agulhas ou finas varas de bambu), passando por seios, mãos, narizes e coxas, que o pobre corno medieval teria de providenciar não um “cinto”, mas uma armadura de castidade!

E, ainda assim, correria o risco de ser traído por aquela protuberância de ferro do cotovelo, tamanha a sede de gozo. O que prova que, apesar de toda tendência maldita em se deixar pisar e “disciplinar” contra sua própria natureza legítima, benfazeja, auto-realizadora e prazerosa, a humanidade ainda tem jeito!

Ubirajara Passos