Paixões, Asneiras e Tristezas finalmente publicado


Jamais usei este blog para promover minha vaidade (que simplesmente não existe, por questões meramente técnicas e não por inclinação emocional, é claro). Tanto que, quando uma crônica deste blog (A foda sagrada de Drukpa Kunley) foi ao ar, na primavera de 2011, com direito a comentários efusivos e sacanas de mais de meia hora em programa noturno da KFK, rádio web de meu amigo Barata Cichetto, não dei a notícia aqui.

Mas este velho livro de poemas foi tão maltratado nas tentativas feitas, no século passado e neste, pelas editoras nacionais, que sua autopublicação no site da multinacional Amazon (em versões e-book e impressa) e no nacional Clube de Autores (versão impressa sob encomenda que pode ser paga com boleto), merece o registro neste blog, no qual seus poemas foram integramente publicados.

Não há no livro, portanto (com exceção da profunda revisão ortográfica e gramatical) grande novidades para os leitores do Bira e as Safadezas, além do possível prazer de ter os poemas reunidos num único volume impresso ou num prático e-book.

Mas, para que a frustração não seja completa, reproduzo abaixo alguns trechos da biografia constante no final, que mencionam alguns fatos ainda não mencionados neste blog sobre a “República” do Alemão Valdir no bairro Petrópolis, em Porto Alegre:

“Com a chegada do sobrinho de Valdir, Rogério Seibt, de Santa Rosa, que se hospedou no apartamento para realizar o curso pré-vestibular, em abril de 2002, se constituiria, no Edifício Morumbi da Rua Amélia Telles, a lendária “República do Alemão Valdir” (que durou até janeiro de 2004, quando o alemão retornou a Santa Rosa), frequentada, entre outros, por Alexandre Vorpagel (o “Gordo Ale”), amigo e conterrâneo de Rogério, que cursava Radiologia na capital, e por Luiz Miranda Pedreira do Couto Ferraz (o “Baiano Luiz”), emigrado de Salvador, formado em Física e Filosofia e emérito boêmio, blogueiro e colecionador de falenas, que Valdir conhecera no Hotel Elevado, na Avenida Farrapos, quando viera morar em Porto Alegre, em 1996, e se tornaria parceiro de cachaçada, boemia e sacanagem de Bira e Valdir na sauna La Luna, na rua Barão do Amazonas.

Aí, na “República” (como Valdir constatara se parecer o apartamento, numa súbita inspiração num almoço de domingo), os fins de semana, e às vezes os dias úteis, eram agitados pelas infindáveis conversas, anedotas e histórias rocambolescas dos frequentadores, sempre devidamente regadas à cerveja, com exceção do “dono da casa”, que mantinha, desde 2001, tratamento com antidepressivos e raramente bebia. Às vezes, na ausência do Luís, em noites entediadas, muitos poemas amorosos deste livro vieram à tona pela primeira vez na internet, nos “chats” do alemão Ale com suas namoradas virtuais, enquanto Bira os lia em voz alta. E aí nasceram uns quantos poemas datados de Porto Alegre, aqui publicados, como “!” , Amargo Mate da Amargura , Embriaguez e Menestrel Equívoco.”

Ubirajara Passos

A negra noite da alma


A negra noite da alma

A dor da madrugada,
O desatino duro e distante dos quartos anônimos,
O mergulho na embriaguez disforme
Da escuridão silente e indiferente aos gritos

Desesperados dos que se perderam
De si nas brenhas diurnas da rotina
E penetraram na profundidade
Apavorantemente branca

De uma vigília eterna cumpridora dos deveres
E vem buscar refúgio nos porres tristonhos
De velhos butecos de luz amarela.

Uma rota bandeira que já não balança
Nem nas tardes mornas de um céu de domingo.
Um café sem açúcar, esquentado de novo.
O riso obrigatório da euforia falsa.
As novidades velhas das redes sociais.

O sem sentido tão grande
Que nem dói, mas só arrasta
Nossas mentes insones num mar branco e sem ondas.

Não grite ao portão de granito quando vierem
Te visitar todas estas “entidades”.
Pois não há rogo que as afaste e só após varrerem
Todo sossego modorrento e informe
Te abandonarão ao calor de um novo dia.

Gravataí, 17 e 20 de julho de 2016

Ubirajara Passos

Agourento 2014, tende piedade de nós!


Conforme a nossa vida vai avançando, a morte vai se tornando mais e mais nossa parceira.

Não apenas pelo fato de nos aproximarmos crescentemente dela, enquanto decrescem os anos que nos restam, numa equação em que pouco importa o valor inicial do termo (o número de anos da vida), variável a cada instante – conforme nossas decisões e atitudes – e em que a razão da progressão pode aumentar ou diminuir a vontade, mas cujo termo final é uma constante absoluta, fria e terrível, por mais complexas que sejam as expressões intermediárias entre o início e o final, que é sempre igual a zero.

Mas, pela simples consequência matemática e biológica dos fatos, é verdade estabelecida que é possível medir intuitivamente o quanto estamos “ficando velhos” pela proporção de parentes, amigos ou conhecidos que vemos partir a cada ano, que naturalmente vai aumentando até que chega o dia em que nos vemos quase que completamente solitários no mundo, em que já não resta muita gente, além de nós próprios, que se lembre mesmo daquela célebre atriz de Hollywood, gostosíssima, de olhos eloquentes e nariz estranho (e, por isto mesmo, chamativo e sensual).

A oito meses de completar meu primeiro meio século (que espero realizar, apesar do trago e da mania de me desgastar lutando contra este nosso mundinho opressivo e infelicitante, o sonho do meu avô – e de 99,99% da espécie humana – de atingir pelo menos cem anos), não estou exatamente no caso extremo, mas, assim como todo mundo que conheço, nunca vi um ano tão absurdo, com tantas mortes de celebridades, ou mesmo de pessoas próximas, no espaço de um único giro da Terra ao redor do Sol.

Algumas, previsíveis, são daquelas que apenas confirmam que estamos, inapelavelmente, nos aproximando da velhice e que (contra a maldita convicção de nossa mente, que é desementida a cada manhã, sem muito resultado, pelo espelho) aqueles personagens quotidianos que nos pareciam eternos já estão necessariamente no momento de partir.

Foi o caso da Shirley Temple (a eterna garotinha prodígio), da Virgínia Lane (e a eterna beleza das pernas mais belas do Brasil), Marelene (a eterna Rainha do Rádio) e de Gabriel García Marquez (autor de livros eternos, como Cem Anos de Solidão e O Amor no Tempos do Cólera). Além do poeta Manoel de Barros, da atriz Lauren Bacall,  o escritor Rubem Alves; Max Nunes, Marcelo Alencar, Antônio Ermírio de Moraes, Adib Jatene e  Mãe Dinah (que não tinha a menor previsão a respeito de seu passamento).

Outras já, embora possíveis, nos surpreenderam e chocaram, como foi o caso de Ariano Suassuna e Hugo Carvana.

Mas quando se foram, sem mais nem menos, figuras como José Wilker,  Jair Rodrigues, Nelson Ned, João Ubaldo Ribeiro, Robin Willians, Eduardo Campos (que tinha minha idade – sendo a mais badalada morte do ano), começamos a nos preocupar seriamente e chegamos à conclusão que, ainda que as estatísticas possam apontar para um certo padrão de mortes anuais de famosos, dentro dos quais os falecimentos citados estariam incluídos, nunca se viu, um mês após o outro, tantas mortes relevantes em tão pouco tempo.

Quando morreu Nico Nicolaiewsky, no início de fevereiro, li  a dolorida entrevista de seu parceiro na vintenária comédia Tangos e Tragédias, Hique Gomez, e fiquei imaginado como seria a minha vida política, literária e pessoal sem a presença do meu irmão gêmeo de ideias, lutas, trago e atitudes, o companheiro Valdir Bergmann.  Mas jamais imaginei que ele viria a compor o mais doloroso e irremediável item das mortes imprevistas e absurdas deste ano apoliptico, morrendo de uma pancreatite aguda dois dias antes de completar seus jovens 57 anos.

Só que a coisa não parou por aí e já havíamos nos convencido de que 2014,  embora não tenha testemunhado a deflagração de nenhuma guerra mundial como seu irmão do século passado, era um ceifador cruel e inveterado de almas, quando velhos amigos de minha família, e meus, com presença importante em pontos capitais da minha biografia, como Juarez Vargas e o colega Adroaldo Rocha, morto tragicamente em acidente automobilístico, praticamente às vésperas das festas de final de ano, foram-se também.

Assim é que chegamos ao último dia de 2014 erguendo as mãos por ainda estarmos aqui  o esconjurando e nos ajoelhando e erguendo as mãos perante tão nefasta entidade para pedir: “Agourento 2014, tende piedade de nós!”

Ubirajara Passos

Revelação


Poema escrito em plena madrugada, após algumas horas de relaxamento e “revelação” diante do canal Arte 1 da TV a cabo:

Iluminou-se minha madrugada.
Um ar feroz se insinuou nos cantos
Do arvoredo
E fez saltar as rochas
Sobre o abismo da perplexidade,
Do impasse oco, imóvel,
Porém prestes,
A estatelar-se num vôo interrompido,
Em meio ao frio da escuridão rígida e espessa.

Sobre o velho banco de granito
Orvalho o cristal fez-se
E o hermetismo do discurso derreteu-se.

A indefinível inquietude estéril,
Que se envaidece do seu sem sentido,
Fundiu-se no calor de um vinho rubro
E a emoção pura e bribtrante alçou seu grito
Sobre os sisudos telhados coloniais
Contra tela de aço do infinito.

Gravataí, 21 de março de 2014

Ubirajara Passos

A Caverna das Chuvas Eternas


Um ano e meio depois, mais um capítulo de Erótilia, para cujo perfeito entendimento, sugiro aos leitores acessar, na coluna lateral deste blog, o LIVRO ELETRÔNICO correspondente onde constam os capítulos anteriores:

A Caverna das Chuvas Eternas 

Caminharam como dois malucos por um dia inteiro até alcançar uma clareira na fralda de uma colina, onde às margens de uma cachoeira se encontravam as mais diversas oferendas a todos os deuses possíveis e imagináveis, muitas em pleno estado de putrefação, outras brilhando ao olhar do luar e dos cúpidos andantes, com suas redondas formas de amarelo brilhante e intenso, ouro e absoluto  ! Ali, pleno início noite, sentaram-se de qualquer jeito e, consumidas as provisões de pamonha dos alforjes, trataram de encharcar-se do suco fermentado da cana, sucumbindo aos seus apelos oníricos e roncando  “indecentemente” até a madrugada.

Três horas de uma noite pesada, densa e eterna, acordaram-se sob os gritos estridentes de um luar histérico e puseram-se novamente a caminho. O dia já nascia quando finalmente atingiram o destino programado pelo gordo mestre e Epicuro, trêmulo, e ainda meio bêbado, deixou-se levar pelas pernas e ser engolido pela abertura longilínea e elíptica na negra pedra, que o conduziu a uma enorme caverna, estranhamente iluminada por uma onda de verde flutuante que projetava sombras de todos os cantos. Repentinamente pareceu-lhe que a onda verde agigantava-se, ao mesmo tempo em que adquiria maior força (perceptível na própria pele) e velocidade e passava a descrever no ar rarefeito uma série de elipses sobrepostas, que o agitavam nas mais diversas direções, fazendo-o girar para todos os lados, em alternância enlouquecida e sucessiva, até que viu-se completamente suspenso, flutuando em meio a tudo.

Foi então que o verde foi escurecendo até transmutar-se por completo e projetar-se a sua frente um estranho e remoto mundo. Num único e violento jorro viu uma diminuta força transparente agitar-se numa vibração cada vez mais contundente e ir-se tornando cada vez maior e mais visível, até adquirir o aspecto de uma rubra e pastosa fogueira, que foi girando, girando e girando, até tornar-se uma esfera escalavrada azul e cinzenta, que se revelou a própria Terra primitiva.

Um chiado insistente e ensurdecedor, tomou então conta de seus ouvidos, a ponto de não entender uma única palavra do mestre Pancius, que gritava como doido em requebros, relinchos e coices de êxtase primevo. A frente de Epicuro se desenrolou por horas que duraram milênios e milhões de anos, uma torrente contínua, persistente e desgastante de chuvas, que desenrolou-se na paisagem de montanhas, vales, planaltos e depressões.

 A torrente incessante  penetrava cada vez mais e mais na terra, e na consciência de Epicuro, com uma força constante e envolvente, e ía cinzelando vagarosamente os contornos mais imprevisíveis sobre o solo, enquanto sua monótona e arrebatadora música ía forjando  profundamente todo os eventos vivos e dinâmicos dos milênios, milhões e bilhões de anos seguintes. Criando e cruzando histórias e personagens, imagens e abstrações mentais profundas e bizarras, que mergulhavam Epicuro até o fundo das águas, e além, até o núcleo líquido e incandescente, trazendo-o de volta à tona, e, por fim, projetaram-no numa encruzilhada escura, em meio da floresta, em que mal se via, sob um silêncio absoluto e aterrador, uma tênue fresta de luz à frente. Pancius, liberto de sua última missão (conduzir o imberbe discípulo narcisista às fraldas do nada), rebentou, num estrondoso tombo, junto à pedra da caverna, e seus cacos (que tornou-se, na queda, rígido qual estátua vítrea) reagruparam-se espontaneamente, até formar um chifre de ponta furada, que Epicuro, ainda semi-ínconsciente, juntou do chão e tocou reproduzindo a melodia da garoa eterna.

Gravataí, 16 de abril de 2011

Ubirajara Passos

O Espírito do Mundo


Vai publicado a seguir o resultado de um transe consciente induzido pelo vinho na última madrugada de sábado para domingo, que, apesar de todo seu formalismo, se pretende uma descrição da intocável “substância” empírica de tudo:

Animus Mundi

É madrugada intensa e indefinida,
Onda perdida entre outras tantas
Num vórtice eterno e aleatório,

E no silêncio atemporal e abstrato
Sinto insinuar-se o espírito do mundo.

Uma energia primeva e sem qualquer limite
Um nada auto-determinado,
Feito de imensos vazios,
Mas cheio de vontades,
Flui pela imensidão do espaço azul-escuro
E faz-se em cada coordenada
Os mais diversos seres e sentidos.

Não é um deus porque não criou nada
Nem fez-se superior árbitro, distante,
Dos destinos do resto universo.

Não é um reflexo complexo auto-consciente
De interações físicas imanentes
E determinante de mudanças pré-escolhidas,
Porque nem sabe formalmente de si mesmo.

Mas é uma pura e inciente vibração,
Uma agitação indefinida e ilimitada,
Uma vontade sem peias, nem tutores
Que vai suberventedo a estabilidade
Dos elementos estanques e sem graça
Da natureza e recriando a cada breve
E infinito instante a vida espontânea
E absolutamente irreverente!

Gravataí, 11 de julho de 2010

Ubirajara Passos

Até a mídia burguesa reconhece: o capitalismo é irracional e está no limite do insuportável!


Como anarquista não sou nenhum destes militantes socialistas ingênuos (nem um de seus matreiros líderes propagandistas de asneiras) para acreditar em análises políticas superficiais e espetacularistas, ou em simples fórmulas pré-estabelecidas, como aparenta o título provocativo desta crônica. Mas o fato inédito que, como se verá, sequer pode ser confundido com o mero puxa-saquismo do falso verniz socialista do governo do Inácio, parece justificar, desta vez de forma real e válida, a tese de que a opressão da massa de trabalhadores fudidos, de todas as camadas e matizes, atingiu tamanha intensidade (o que não deixa de ser verdade no fascismo informal do Brasil de hoje) que as consciências se libertarão na porrada das amarras que as mantém sob o jugo da safadeza alheia, da auto-submissão masoquista e da ignorância mútuas.

Desde piá (muito antes de aprender a ler e escrever) convivo com a presença do Almanaque do Pensamento, velho guia astrológico anual que publica, no Brasil, previsões e (como todo almanaque) artigos de curiosidades e utilidades os mais vários, há exatos 97 anos. Foi no do ano de 1982, por exemplo, que tomei, pela primeira vez um contato um pouco mais estreito com as previsões mileranistas de Nostradamus e outros, que alimentaram o meu misticismo ateu (podem crer: como contradição em pessoa, consigo ser simultaneamente anarquista e brizolista, racionalista e místico, predominando sempre a consciência livre e questionadora sobre tudo). Como quase todo esquerdista revolucionário, aliás, sempre nutri esperanças secretas e inconfessáveis de que os apolicapses da vida fossem uma obscura confirmação da da derrocada inevitável da sociedade hierarquizada e a assunção da igualdade e da liberdade absolutas para a humanidade.

Ocorre, entretanto, que, apesar das minhas suposições e interpretações íntimas, o referido almanaque jamais teve qualquer familiaridade com ideais de redenção da classe trabalhadora, se atendo sempre aos assuntos próprios do seu gênero e, sempre que abordou política, em suas diversas edições ao longo do tempo, reproduziu fielmente o discurso da mídia burguesa, se esmerando, por exemplo, em sua edição para 1972, na louvação mais descarada ao general gorila mais sanguinário e anti-povo dos que ocuparam o poder na última ditadura fascista formal , Emílio Garrastazu Médici.

Na página 2 da edição citada, pode-se ler no horóscopo para o Brasil referente ao quarto trimestre de 1972, por exemplo: ” Esse aspecto vaticina notáveis mudanças, favoráveis aos meios sociais e governamentais; haverá modificação nas ações do govêrno, porém sempre de modo acertado(grifo nosso); haverá igualmente melhora financeira e progresso nos assuntos relacionados com o poder judicial“.

Na edição para 1989, em pleno governo inaugural da ditadura informal (já promulgada a Constituição de mentirinha de 1988, para ser desrespeitada escancaradamente todo dia), na gestão do senhor feudal José Sarney, a rasgação de seda governamental e a falta de contato com a realidade efetiva é mais explícita e violenta ainda. Veja-se estes trechos:

“Haverá melhorias para a população de maneira geral, o que permitirá que as pessoas individualmente, vivam melhor, ainda que numa escala social maior tudo permaneça confuso e indefinido”;

“Ainda não haverá um acordo total entre o governo e os anseios da população, sendo necessárias algumas reformas que, até o final do ano, serão iniciadas (especialmente após o mês de setembro, mês em que é delineado um novo horóscopo anual para o país”;

“Até esse mês, as ações individuais (seja cuidando da própria vida, seja cuidando de negócios particulares), serão mais produtivas do que as ações conjuntas com o governo ou na dependência deste”; “Mas entre setembro e novembro a situação reverterá, dando impulso para uma fase nova e produtiva do nosso país” (casualmente se elegeria o mais badalado corrupto esquizofrênico – ainda que não tão eficaz na corrupção quanto o Inácio – o Fernandinho do Pó).

Já na edição para 1991, em plena era Collor, a coisa assume ares defintivos de defesa do regime vigente e das análises econômicas falcatruas do neo-liberalismo fernandiano:

“O ano de 1991 começará de forma muito positiva para os brasileiros, pois devido a bons aspectos da Lua progressada, a população como um todo terá melhores  condições de saúde, higiene, alimentação e trabalho”.

“Nos meses de janeiro e fevereiro a população receberá essas condições de vida, através de acordos feitos tanto com o governo quanto com a classe empresarial”.

“Os trabalhadores terão momentos difíceis nos meses de junho e setembro, quando poderão sofrer uma diminuição de salário, ou alguma forma de dificuldade financeira. Mas o mês de julho trará uma melhoria significativa no âmbito econômico, de forma a contrabalançar possíveis prejuízos”(grifo nosso).

No último trecho das previsões para aquele ano a epifania governista  atinge o auge do orgasmo astral: “O país será governado de forma estável e forte por seu dirigente máximo, dando continuidade à sua maneira de governar, desde que assumiu a Presidência do país”.

No ALMANAQUE DO PENSAMENTO 2010 (98º ano), entretanto, para espanto absurdo de quem tenha acompanhado a publicação ao longo das décadas (de que dei apenas 3 exemplos clássicos, haveria muitos outros entre os volumes que possuo em minha coleção) o discurso mudou diametralmente, a ponto de fazer tremer o menor pentelho (como diria, e escreveu certa feita no jornal do Sindjus-RS, o Lutar é Preciso, o meu amigo Moah, para escândalo dos diretores pelegos de plantão).

Nas previsões de caráter mundial  pode-se ler, por exemplo:“Um Vislumbre de 2010”(…) “Haverá protestos da população no mês de janeiro, e depois de abril a setembro”

“Independentemente das medidas políticas adotadas pelo governo, a situação econômica e financeira do país se revelará insatisfatória. O aumento de taxas e impostos cria insatisfação na população.”

“A partir da primavera tudo será questionado e até dezembro o mundo viverá um período de calma de pouca duração.”

“O ano se encerra numa atmosfera de lentidão: tanto os jovens como as pessoas idosas terão bons motivos para demonstrar sua insatisfação (…)

Já nas de caráter nacional, o compromisso com a realidade econômica e social concretas (e não a interpretação distorcida da imprensa submissa aos interesses da classe dominante) se faz plenamente presente:

Horóscopo para o Brasil no ano de 2010″

…) “O cenário macrocósmico estará dramático: quatro dos cinco planetas coletivos  estarão se relacionando de forma tensa no céu e nos primeiros graus dos signos cardinais, considerados por um lado como criativos, heróicos e renovadores, mas também impulsivos, bélicos e explosivos. A última vez que uma configuração semelhante ocorreu foi nos anos 30 e nos deixou como legado daquela época a queda da bolsa de Nova York, alguns golpes de estado, falências bancárias, redução drástica do comércio mundial, graves índices de desemprego, invasão da Manchúria pelo Japão, emergência de regimes totalitários, criação da bomba atômica, desmoronamento do liberalismo econômico na Europa. É claro que houve mudanças positivas, mas não são delas que nos lembramos.  E agora, o que podemos esperar? Um período de desafios sem semelhantes e de mudanças radicais para a humanidade e para o planeta.”

No parágrafo abaixo a coisa se aprofunda e assume o caráter nítido de análise socialista do mundo e da história humana:

“Na verdade, o paradigma em que nossa civilização mergulhou parece estar falido. Desde a Revolução Francesa vimos sendo orquestrados pela batuta de uma classe que chegou ao auge da dominação econômica e detém 95% dos principais ramos da economia e da sociedade atuais: o bancário, o do petróleo, o armamentista, o da mídia/comunicação/tecnologia, o químico/farmacêutico e o religioso. São muito poucos os indivíduos que dominam os 6,5 bilhões de seres humanos carentes e ignorantes da sua existência e atuação sem escrúpulos e sem ética. O estágio de incivilidade e de insustentabilidade que atingimos só tem sentido sob a ótica deles, do consumo, do poder ou do abuso do poder desses setores e classes dominantes. Atingimos o máximo que o racionalismo pôde chegar, fomentado pela ganância e pela sede de poder dos que estão por cima. A civilização contemporânea está de luto pela morte dos sentimentos, pela perda de sentido e pela ausência de significado que atingiu. Os aspectos que estão por vir, inaugurados por Plutão em Capricórnio, derrubam velhas e rígidas estruturas, porém são tremendamente criativos e e nos estimulam à reconstrução de uma nova sociedade, de uma nova estrutura, que partirá do físico, do básico, do concreto, do alicerce.(…)

Se o leitor já se encontra apavorado com o salto mortal do posicionamento ideológico e filosófico, leia então os trechos que se seguem, encharcados na mais pura e engajada propaganda revolucionária:

“É claro que o Brasil não poderia ficar à margem destas grandes mudanças. No entanto, por aqui as transformações serão mais concentradas nos aspectos político e social do que no econômico. Economicante, o Brasil parece estar bem, parece estar forte e deve atravessar a crise econômica mundial sem grandes percalços. No entanto, não esqueçamos que estamos num contexto e que o mundo está em crise. Mas é politicamente que por aqui não sobrará pedra sobre pedra e que finalmente chegou a hora dos velhos caciques da oligarquia brasileira darem lugar ao sangue novo, ao empreendedorismo, à criatividade e à juventude que intenciona replantar uma sociedade em bases mais justas, éticas e sustentáveis. O ano de 2010 representará uma quebra de paradigma na civilização humana e a tensão celeste ativará bastante o mapa natal do Brasil: assistiremos mudanças radicais ocorrerem nos poderes legislativo e executivo do nosso país, com direito a descobrirmos toda a corrupção e bandalheira que existe por trás destes poderes. Assistiremos ainda a verdadeiras convulsões  sociais, fruto do aumento do aumento da violência urbana e da indignidade do povo brasileiro que não aguenta mais tanta fome, miséria e injustiça.”

(…) Devemos agradecer por estarmos vivos neste momento tão importante da história humana, pois poderemos assistir o Brasil e o mundo se transformarem a olhos vistos”.

Confesso que a natureza da profecia é entusiasmante e fez a mim e ao Alemão Valdir (para quem enviei, no mês de janeiro, por e-mail, os trechos de 2010 reproduzidos) delirar em transe místico-anarquista por semanas. Mas, a parte a validade científica das “previsões”, o fato é que temos pela frente um fenômeno extremamente original, que não se explica nem por uma pretensa orientação vermelha da redatora dos textos (cujo site acessei e pude verificar não justifica tamanha verve revolucionária, ela até se pretende assessora esotérica de empresários). E que só pode ter uma única justificativa cabal: a pressão concreta da voracidade e do sadismo do escravismo assalariado no Brasil, e quem sabe a nível internacional, atingiu um limite tão absurdo que a própria imprensa burguesa baba-ovo, prenunciando (não pelos métodos mágicos ou paranormais, mas pela simples sensibilidade sócio-antropológica, que, talvez seja facilitada no âmbito dos profissionais da astrologia e outras práticas místicas) o estouro da boiada e a revolta generalizada contra tais condições, já está tratando de se adequar aos novos tempos, abandonando os capitães do mato de luxo da classe dominante (leia-se políticos e ideólogos de todo tipo, a começar por sacerdotes de tudo quanto é culto).

Talvez não vejamos realizado nem um centésimo do furor revolucionário previsto, e a alteração diametral de posição do anuário seja apenas um fato a ele restrito. Mas, como diz o próprio texto reproduzido, tal aceitação tão escancarada da realidade política e social, tal qual ela é, e vem sendo denunciada pelas gerações de revolucionários, é, no mínimo,paradigmática!

Ubirajara Passos