Os Portugueses Voadores


Não se assuste o leitor acostumado a encontrar neste blog o radicalismo político e a inf0rmalidade verbal rebelde dos palavrões. É bem verdade que, ultimamente, ambas as características estão bastantes desvanecidas nas crônicas que escrevo, o que é antes resultado do tédio e da depressão do que de eventual caganeira decorrente da perseguição a que fui submetido, juntamente com os principais líderes de meu grupo político sindical, no último ano. Mas não virei um intelectualóide acadêmico adamado, destes capazes de discorrer sobre algum circo alternativo ou coisa parecida, enquanto a safadeza da opressão organizada fode com a vida de 95% dos brasileiros em prol da gandaia dos 5% restantes.

Os tais portugueses não são, portanto, um grupo circense. Nem o título se refere a uma paródia teatral da ópera de Richard Wagner. E também não se trata da narrativa de uma piada sobre ilustres imigrantes lusitanos se atirando do centésimo andar de um prédio, no intuito de chegar à lua.

Domingo passado eu me encontrava, na maior ressaca dupla (aquela que resulta de um porre de dois dias seguidos sem quase nenhum  intervalo), curtindo o tédio da tarde abafada e calorenta, na casa de meu pai . E o velho (que completará, no próximo dia 19, seus oitenta e cinco verões), em meio à conversa truncada e similar a dois monólogos paralelos que mantínhamos, um octagenário solitário e DDA e um DDA quarentão em ressaca alcoólica, psicológica e moral, resolveu me chamar a atenção para um casal de passarinhos empoleirado nas guias do telhado da garagem de meu cunhado.

O macho, bastante estabanado, saltitava histérico sobre a fêmea, subindo e descendo, sem lograr êxito no seu intento sexual (fato cada vez mais freqüente em certos círculos de festa alternativa da pequena burguesia “revolucionária”), quando o velho Almiro, após ironizar a desgraça do bicho, olhou bem sério para os passarinhos e repetiu três vezes a mesma frase enigmática, enfático e divertido: “os portugueses, os portugueses!”.

Eu já ía imaginando se tratar de uma manifestação típica do “alemão” (não o “Valdir”, mas o mal de Alzheimer, que atendia, no tempo em que meu pai era jovem, pelo nome mais comum de “caduquice”), quando ele concluiu: “O pardal! Veio de Portugal esta praga!”. Vi salva, assim, por um triz, a já precária integridade mental de meu velho pai, mas segui adiante com qualquer outro assunto que não fluiria e seria respondido pela menção de outro e assim por diante.

A curiosidade a respeito da origem do pardal (de que eu, um típico descendente de portugueses da quinta ou sexta geração, não tinha a menor noção que não é um pássaro nativo brasileiro) ficou, entretanto, a me bater nas guampas. E a pesquisa feita na internet acabou por saciar, até regurgitar, a minha fome do assunto.

Assim, tomei conhecimento de que o bicho se encontra sobre o solo (e no ar) pátrio há coisa de cem anos e que é acusado por umas tantas correntes ecológicas ou de produtores agropecuários de se constituir em um competidor maldoso e feroz das aves nacionais (teria sido o responsável pelo sumiço do tico-tico de várias regiões do país), bem como de devorador de plantações ou, simplesmente, de feioso estrangeiro poluidor visual da nossa paisagem (fatos estes que justificariam a qualificação de “praga” que meu pai lhe deu). Outras correntes desmentem  as acusações e exaltam o pardal como um útil caçador de insetos, e por aí vai a exaustiva discussão sobre o dito “português”.

O leitor, com certeza, já está arrancando o saco fora com toda esta lenga-lenga e se perguntando, afinal, de onde veio o tal pardal. Para que não fique mais puto da vida do que está, portanto, vou atalhando a enrolada crônica e fornecendo de imediato a resposta. O fato é que, embora originariamente presente nas mais diversas regiões da Eurásia, o pardal veio parar no Brasil justamente vindo de Lisboa. Não nas primeiras caravelas (como pensei inicialmente), em companhia dos invasores portugueses que, arrancando as terras aos índios e trazendo os negros à força, como gado, da África criaram o Brasil. Mas justamente por obra dos brasileiros, em pleno período republicano. Entre 1903 e 1909,  não se sabe se objetivando usá-lo como auxiliar na caça aos animais portadores da febre amarela, ou simplesmente para dar um ar cosmopolita e chique (similar ao “de Paris”), foi importado pelo prefeito do Distrito Federal de então (a Cidade do Rio de Janeiro), o engenheiro Francisco Pereira Passos (o saneador e reformador do Rio), cujo último sobrenome casualmente coincide  com o meu, e é típico de descendentes portugueses.

 

Não pretendo entrar aqui no debate sobre os benefícios ou malefícios da importação do pássaro estrangeiro, muito embora, além de anarquista, eu seja um nacionalista anti-imperialista ferrenho. Nem muito menos discorrer sobre a sua pretensa influência estética negativa (que, para a mentalidade comum –  tanto a do observador cachaceiro de trailer de xis burguer, quanto a do burguês cocainado do bistrô “sofisticado” –  é suficiente para justificar a sua ojeriza ao passarinho), até porque o importuno urbano preferido do meu ódio espontâneo é a pomba (o bicho, não o órgão sexual que se identifica pelo apelido – não vão os leitores entender mal minhas palavras…).

Mas, cá entre nós, este negócio de importar pardal para tornar a antiga capital do Brasil mais parecida com as grandes metrópoles internacionais é a própria prova de que a devoção entreguista de nossos dirigentes políticos, historicamente, é tão extremada que chega ao cúmulo do ridículo, além de não lograr, neste caso, o seu verdadeiro intento. É mais ou menos a mesma coisa que pendurar num quadro, ricamente emoldurado, uma folha de papel higiênico trazida de um motel suíço para enfeitar a sala de estar!

Ubirajara Passos