Flashes da Infância: a cadeirinha


Esta é outra que muitos atribuem à memória fabricada a partir de narrativas de meu falecido pai e minha irmã, que testemunharam o fato. Mas a pura e irrefutável verdade é que tenho nítida na mente ainda a cena de uns cinquenta e alguns atrás.

Havia eu passado da fase do engatinhar e andava ensaiando andar sozinho pelo corredor central da velha casa de meu pai (especificamente no trecho que corria a sala intermediária entre a cozinha e a sala de estar, a que chamávamos “varanda”), debruçado em uma cadeirinha de madeira do meu tamanho (obra de marcenaria do meu polivalente genitor) que empurrava, abraçado, à minha frente, quando ela escapou para o lado e eu segui caminhando, ereto e sem qualquer apoio, sozinho.

Não tenho plena certeza quanto à data (que pode ser de alguns dias ou semanas depois), mas vem claramente à memória, o fato de zanzar o dia inteiro pelo enorme pátio do terreno de quase mil metros quadrados, localizado na antiga Avenida General Flores da Cunha, nºs 203 e 195 (hoje Dorival Candido Luz de Oliveira, 1586 – casa de minha irmã, e 1594 – estacionamento da funerária próxima na parte que, me cabendo na herança do velho, vendi ao seu proprietário), inaugurando inclusive uma atitude que se tornou hábito nos primeiros anos: correr da minha mãe que, com o prato e uma colher à mão, tentava me forçar a comer comida de sal na hora do almoço.

Já adulto, lá pelos vinte e poucos anos, e desde então, continuei a ter hábitos de frequência alimentar bastante precários, não abrindo mais mão do almoço (que, ironicamente se tornou minha principal e necessária refeição do dia e, por muito anos, o horário em que eu socializava, almoçando normalmente com um colega ou amigo, e tomava contato físico e concreto com o mundo circundante no centro da cidade) em Gravataí, ou Porto Alegre (nos anos em que trabalhei no seu centro, como diretor do Sindjus-RS).

Mas, mais incrível ainda, é  a lembrança, neste mesmo dia, da frase mais longínqua ouvida, especificamente de minha mãe, que reclamava, visivelmente cansada: “Já é meia noite e este menino não quer  parar, agora que começou a caminhar!

Já então prefigurava o meu pendor, a partir da juventude, de dormir tarde, varando madrugadas, fosse lendo ou assistindo filmes, e, no auge dos meus anos de sindicalista e boêmio, farreando nos puteiros e mergulhando em oceanos de cerveja, nas conversas gaiatas e infindas dos bares porto-alegrenses, especialmente da Cidade Baixa, ou mesmo dos hotéis, como o Elevado, em que eu Valdir nos hospedávamos quando ele vinha a Porto Alegre, depois que deixou a República da Amélia Telles (outro cenário de tertúlias bêbadas noite afora) e nas residências do Alemão em Santa Rosa e no sítio de Giruá, às margens da cascata do Arroio Cascavel, onde uma vez, em pleno carnaval, fomos “almoçar”, plenos da embriaguez que já durava horas, às cinco horas da manhã de terça-feira.

E, igualmente, a mania da caminhada, que venho exercitando pela vida, indo, sempre que possível e as pernas alcançam, prioritariamente a pé aos meus destinos. Lá  pelos vinte anos, quase matei um primo mais novo, na praia, numa caminhada, ide e volta, de Mariluz à barra do Tramandaí, num total de 12 quilômetros contínuos percorridos numa única tarde.

Muitas vezes, descia, também, especialmente nas manhãs de segunda-feira, desde a República do Alemão Valdir, na Rua Amélia Telles no bairro Petrópolis, até o centro de Porto Alegre, nos tempos em que o dinheiro não autorizava andar de lotação, em 45 minutos contínuos de caminhada (o que por volta de uns 4 quatro quilômetros).

Ubirajara Passos

 

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