O Causo da Vodka


Fazia já algum tempo que eu não via aquela puta amiga (que na verdade era uma amiga puta), que conheci nos velhos tempos de diretor executivo do Sindjus (para ser exato, nas primeiras expedições ao extinto Bagdá Café, em 1996), e desde aquela época era moradora de Gravataí.

Assim, não a reconheci, quando, da mesa em que bebericava uma cerveja com meu companheiro de executiva municipal do PDT (na época), Gerson Monteiro, num bar próximo da praça de São Geraldo, na parada 72, avistei aquela morena bonita cuja voz me parecia familiar, sem que atinasse de quem se tratava.

Foi somente na hora de ir embora que, passando por sua mesa, reconheci ser a “M” (preservo seu nome, justamente por se tratar de uma digna profissional do amor e não uma destas patricinhas pequeno-burguesas arrogantes, metidas a devoradoras de homens, na reprodução do antigo papel dos machos cafajestes).

Rapidamente, enquanto o Gerson pagava a conta no caixa, me contou que havia largado do Le Boheme, na Pinto Bandeira, Centro de Porto Alegre e se encontrava na feliz condição de dona do próprio “bar”.

Por ironia do destino, eu acabaria reencontrando-a alguns anos depois novamente na Cláudia Bar Drink, na Marechal Floriano, de volta à função de simples puta, já entrada então na segunda metade da década dos trinta. Mas naquele dia em Gravataí, ela que era a mais constante e uma das melhores amigas da madrugada que tive (e que “conheci” no sentido literal e bíblico nos três principais bordéis que frequentei ao longo de minha carreira de boêmio: Bagdá Café, Cláudia Bar Drink, Le Boeheme e Cláudia Bar Drink, novamente, da última vez que a vi, há uns dois anos), vivia sua  lua de mel com o destino, dona de bar e dignamente casada com um ex-cliente, o Djalma.

Como eu não me lembrasse do sujeito, o que ela achava impossível, tratou de me lembrar de fato sucedido na Cláudia Drink há coisa de uns 11 onze anos atrás (9 anos no dia da conversa), do qual me esquecera por completo, mas era um dos mais legendários do pequeno cabaré “familiar” (como o caracterizara o taxista baixinho, gordinho e bigodudo que eu apelidara de Teixeirinha, que havia se tornado meu amigo), onde, nas noites de sábado se realizava de tudo, de festa de aniversário e casamento de puta com garçom a churrasco, e eu pontificava de “intelectual” que “lá ía buscar um amor que não existe”, como um dia me definiu, completamente bêbado, um professor da UFRGS (assim auto-identificado, do que não duvido até hoje), aí por 1999.

Anos mais tarde a Cláudia se tornaria evangélica e aí o cabaré, infelizmente, não abriria mais aos sábados, o que frustrou as primeiras tentativas que fiz de levar meu amigo Luiz Ferraz (emérito putanheiro baiano) a conhecê-lo, lá por 2003.

Mas, voltando ao causo, “M”, bastante surpresa com minha falta de memória (afinal a história ficara gravada em letras maiúsculas nos anais do bordel), tratou logo de avivar as lembranças, que então vieram-me à tona como se fossem daquelas que deletamos ao ter uma amnésia pós-alcoólica e se tornam vívidas algum tempo depois que um amigo trata de nos trazer à baila:

“Ô Bira, o Djalma é aquele  que apostou contigo quem entornava maior número de copos altos de vodka antes de cair e acabou perdendo para ti. Até hoje ele fala nisto”. O detalhe é, comparativamente ao meu um metro e cinquenta e cinco centímetros de altura (e aos cinquenta e um quilos que pesava na época), o Djalma, era um sujeito de “peso” de quem se esperava tivesse maior resistência aos efeitos da manguaça que o magricela e mirrado “intelectual” da safadeza putanheira aqui.

Ubirajara Passos

Inquietude Infinda


Poema que compus, hoje de tardinha, enquanto ía do foro à casa do meu falecido pai (que herdei) pegar o presente de Natal que minha irmã, Dirce, deixou para a Isadora, na mesa da cozinha:

Inquietude Infinda

Depois que te mirei o olhar,
Que te beijei, sentindo o mundo desmanchar-se,

Depois que tre provei o fruto
Aveludado que escondes entre as pernas,

Que gargalhei contigo,
Novamente uma criança de dois anos,

Com entusiasmo, de qualquer besteira;

Depois que ouvi a tua voz suave,
Que afagaste, descuidada,
Num gesto terno e solto,
Os meus cabelos,

Desde então o mundo se tornou exílio
E onde esteja sinto-me ao largo.

Faça o que faça, na maior paixão,
Se não estou contigo sou incompleto,

E, nos mais pungentes devaneios,
Um travo amargo me comprime o íntimo.

Sofro de um tal fascínio que o desejo
É infinitamente maior até que o estar contigo

E só encontro cura no nirvana
De um cósmico amplexo mudo
Testemunhado pela luz das três marias.

Gravataí, 23 de dezembro de 2010

Ubirajara Passos

O “valor” de um blog “vermelho”


Na semana passada o alemão Valdir, que possui bastante tempo, e um saco enorme, para ficar fuçando todos os escaninhos da internet, me deu a informação de que havia achado em um site yankee a avaliação do valor “comercial” do blog do Movimento Indignação, no qual nos dedicamos a bater forte nas injustiças patronais do Poder Judiciário do Rio Grande do Sul e na conivência pelega da diretoria petista do Sindjus-RS.

E, pasmem(!), com toda a pauleira e qualificação técnica, política e corporativa do blog, segundo os irmãos do norte, ele não vale mais que reles R$ 434,88!

É bem verdade que não é um blog de enorme tráfego. Em geral a média de visitantes diários é de uns 100 a 300 por dia e só em ocasiões muito especiais (quando pipoca uma polêmica salarial ou funcional qualquer, ou há uma assembléia geral ou reunião no sindicato) tem batido alguns recordes de mais de 1.000 visitantes ao dia. Mas imaginávamos, pela variedade e profundidade das questões debatidas e das notícias veiculadas (que não ficam só no mundo corporativo dos servidores, passando pelo Judiciário do país em geral, assim como pela política nacional eventualmente) deveria valer alguma coisa bem mais apreciável no “mercado virtual”.

Não é que estejamos preocupados em vendê-lo, arrendar direitos, vender espaço para anúncios, ou qualquer outra falcatrua burguesa clássica. Mas nos decepcionamos com a “avaliação” feita por um deste sites de “ranqueamento” de blogs e sites. Quem sabe por seu conteúdo ser excessivamente “vermelho” e revolucionário, tenha sido cotado por tão pouco (afinal imperialista yankee não é burro, não vai “valorizar” justamente o pior inimigo)?

Seja como for, nos consolamos com o fato de poder, com as ralas centenas de reais avaliadas  (que constituem uns 20 dias de trabalho de um pobre peão brasileiro remunerado pelo salário mínimo de fome canina que nos propicia o Inácio dos Nove Dedos) tomar algumas cervejas. Não as populares Skol, Brahma, ou a nossa preferida (e de meio Rio Grande do Sul) Polar, mas umas daquelas importadas da Puta que Pariu, em qualquer recanto nórdico europeu, que devem ser sorvidas por deputado gagá em cabaré de rico (os parlamentares estaduais do Rio Grande do Sul, ontem, por exemplo, deram um jeito de “reajustar” seus salários em 70%, que ele estava muito defasado – uns 20 mil reais – coitadinhos!).

O detalhe é que concluímos, depois de extenso debate, que, mesmo que pudéssemos ingerir as tais garrafas de suco de cevada, nem assim ficaríamos mais tontos e embriagados do que ficamos ao escrever no blog do Indignação. Não há, efetivamente, dinheiro que pague o prazer de berrar bem alto e claramente na internet contra precariedade da vida de uma classe de trabalhadores reduzida infelizmente a gado (como o funcionalismo público em geral), sem a garantia da menor dignidade como gente, dadas as suas condições salariais e funcionais. E, de quebra, ainda deitar o sarrafo na burguesia em geral.

Aliás, pelo que imaginamos, a tontura não é só nossa. É muito maior, com a nossa metralhadora verbal, a tontura que damos nelles (especialmente nos pelegos diretores sindicais).

Ubirajara Passos

Extra! Descoberto anti-depressivo natural mais eficaz que a fluoxetina: a banana!


Não se preocupe o leitor, que este blog, apesar do título acima (redigido no mais perfeito sensacionalismo irreverente, a moda das manchetes do jornal porto-alegrense O Sul), não se rendeu ao charlanismo médico-científico da mídia capitalista colonial, nem pretende comercializar a fruta pela internet.

O fato é que, outro dia, me encontrava absorto em meu trabalho, quando uma colega me apontou no “Clic RBS” (site noticioso do império jornalístico da família Sirotsk, associada da Rede Globo no sul do Brasil) a notícia inusitada, veiculada com todo o ar de novidade e dogmatismo peculiar a nossa imprensa burguesa.

Segundo o informativo eletrônico, a banana é riquíssima em vitamina B-6. Possuindo, portanto, excelentes propriedades no combate da insônia, irritabilidade e fadiga (sintomas secundários que, reunidos simultaneamente, são típicos da depressão).

Não foram necessários nem dois segundos de reflexão para que um safado como eu se desse conta de que, além dos evidentes e irrefutáveis efeitos terapêuticos neurológicos e emocionais referidos, há outros (ao menos no plano metafórico) de que o mestre Reich já sabia há uns bons setenta anos!

Conforme o descobridor do orgone (a energia fundamental do tesão cósmico, responsável pela vida e pela excitação sexual dos seres vivos), a absoluta maioria da humanidade padecia as piores neuroses e doenças psico-somáticas justamente pela falta (especialmente no caso das matronas ou solteironas rabugentas, autoritários e delatoras) ou mau uso da banana (de que derivaria a incompletude do clímax do prazer corporal nos seres humanos, inclusive nos machos sádicos cuja banana serve antes como instrumento de agressão que de prazer recíproco). Do que concluía que o consumo físico e emocional adequado e prazeroso da banana humana resultaria na própria redenção da espécie.

Mas, com mais dois segundos de reflexão, constatei algumas utilidades diversas das já apontadas, relacionadas diretamente às características linguísticas metafóricas e antropológicas do “falo vegetal” que, casual e estranhamente, dá em qualquer canto do Brasil, país abençoado por todos os tipos de foda (nem que seja aquela que os burgueses e governantes propiciam diariamente ao grosso do povo com sua opressão).

Assim  é que, devidamente utilizada, uma bela banana dada para patrões, fiscais de trânsito, venerandas e masculinizadas matronas opressoras, pode muito bem nos libertar de 90% dos pequenos e acachapantes empecilhos quotidianos que empesteiam nossas vidas.

Para extirpar os outros 10%, entretanto, é preciso mais que saco cheio e irreverência. Ou seja, uma boa dose de coragem e completo desapego pelo falso conforto de uma vidinha pequeno-burguesa “remediada”. E total nojo, bem como uma santa raiva, dos ladrões com registro na Junta Comercial (os capitalistas) e seus ilustres lacaios (políticos, jornalistas, agentes do Estado e da mídia de um modo em geral), nos quais   é necessário enfiar a banana até o fundo, de modo a fudê-los (no mau e justificadamente sádico sentido) e fazer desaparecer definitivamente do planeta suas infelizes carcaças e atitudes exploratórias e opressivas.

Seja qual for o teu problema, caro leitor, não se esqueça. Muito possivelmente a sua solução não se encontra em nenhum manual de auto-ajuda ou nos cursos cheios de glamour e gracinhas pseudo-humorísticas (que não têm graça nenhuma, pois se destinam a nos fuder o fiofó com o disfarce pretensamente bem humorado de sua vaselina) da “qualidade total”. Mande solenemente à merda todas as recomendações e insinuações  domesticadoras e imbecilizantes e faça bom e absoluto uso da banana (tanto da própria quanto da alheia ou, até mesmo, da simples fruta tropical)!

Se, nos anos quarenta do século vinte, a propaganda governamental nos rádios insistia que era preciso acabar com a saúva, “ou a saúva acaba com o Brasil”, hoje, com certeza, a última (e remota) possibilidade que temos de nos livrar do totalitarismo circense da pax luliana (agora renovada por uma Presidente da República que parece possuir uma senhora banana caturra no meio das pernas, pronta para nos currar) é esquecer o acanhamento moralista e fazer uso da banana (nem que seja a de dinamite)!

Ubirajara Passos

VOCÊ DEVE PROCURAR O BISENO (Bêbados Incorrigíveis Sem Nome)?


Uma dúzia de  perguntas às quais somente você pode responder:

Somente você poderá determinar se o nosso programa de recuperação da dignidade perdida pela abstinência forçada de um dos mais doces prazeres abaixo do céu e acima da terra, a que lhe induziram o nariz torcido da jararaca da sua sogra e as falácias sacanas e propositais de pastores pentecostais e psicólogos do departamento médico patronal, lhe convém.

Infelizmente ninguém entre os nossos membros poderá decidir (e praticar) por você a integração no treinamento intensivo de readequação ao alterocopismo,  o que seria muito do nosso agrado. Mas, infelizmente, nosso tempo e nosso fígado já estão lotados pelos porres diários contínuos e não há espaço para assumir o compromisso alheio.

 

Nós, membros do Biseno, fundamos esta santa confraria porque reconhecemos que a falta de trago nos havia convertido nuns chatos neuróticos compulsivos, e que só a parceria alegre e dedicada da irmandade bêbada seria capaz de nos reconduzir ao bom caminho dos melhores vinhos, cachaças e cervejas (que uísque não é pra nossos bolsos).

A princípio, muitos de nós não queriam admitir que não conseguíamos mais tomar nem um inocente martelinho sem sentir aquela culpa danada, aquele suor frio idiota e cretino, como se da tonturinha boa pudesse derivar a derrocada da família, da empresa e da humanidade. Porém, quando veteranos na arte da beberagem nos contaram que o alcoolismo era para eles a redenção de todas as chatices, dos incômodos e da falta de graça de uma vida besta, levada tristemente sob o tacão de chefes e esposas irritadiças e irascíveis, nos concientizamos e voltamos a beber com a mesma determinação e destemor com que se enfrenta câncer.

Demos respostas honestas sobre nossa incapacidade de beber e a infelicidade decorrente no nosso dia-a-dia. Se você quer deixar de ser um babaca imbecil, seco e masoquista e mandar pro inferno esta compuslão maldita pela renúncia ao prazer (que qualquer dia vai lhe fazer até esquecer o sexo, e ainda ganhar um enorme par de chifres, por falta de “comparecimento” na cama da disciplinadora e hipócrita matrona), deixe de frescura e responda, com toda a sinceridade, para o íntimo do seu próprio ser:


1) Já conseguiu parar de beber por uma semana sem se sentir mal? Nós sabemos o quanto isto é triste. E terrível. Fizemos solenes juramentos aos nossos patrões e familiares e tudo que ganhamos com a abstinência, além do tédio, foi tomar no cu, trabalhando cansativamente como umas bestas quadradas, sem ganhar nenhum tostão a mais e ainda ouvir a reina em casa pela falta de dinheiro pra pagar as contas e garantir uma vidinha um pouco mais próxima de gente. Agora que viemos pro Biseno não prometemos mais nada a ninguém, nem a nós mesmos. Simplesmente nos esforçamos para tomar o primeiro gole e depois é só festa e alegria!

2) Ressente-se com os conselhos dos outros que conseguem fazê-lo parar de beber? Se você se enche o saco com a pregação moralista e imbecil dos beatos que creditam ao goró a falência da família e a crise do Brasil, ainda tem recuperação. Não dê ouvidos às pregações pseudo-científicas que equiparam o trago a uma droga perigosa e desvastadora da mente humana, porque, no meio desta sociedade autoritária e filha da puta, em que cada um se esmera como um louco em vigiar e dedurar o rabo alheio ao patrão, a única saída é um bom trago mesmo.

3) Já tentou controlar sua tendência de trocar de bebida alcoólica para não se embebedar tanto e satisfazer aos chatos que o criticam? Sempre procurávamos uma fórmula salvadora para amenizar a apurrinhação alheia e cometíamos o soleno pecado de deixar os destilados (até o conhaque, que é bom e barato) em troca do vinho  e da cerveja e até incorríamos na abominação imperdoável de misturar água na bebida para diluí-la. Hoje, deixamos de ser bestas, porque percebemos que meio-barato é puro tédio e sofrimento e, quando nos dá veneta, entornamos logo um litro de vodka de garrafa plástica goela abaixo de uma vez!

4) Tomou um porre pela manhã nos últimos doze meses? Se você não teve coragem de mandar à puta que pariu a disciplina acachapante e xaroposa da vidinha abobada de peão conformado nesta escravidão assalariada sem sentido e não fez isto pelo menos uma vez neste ano, está quase irrecuperável. Venha correndo para o Biseno que daqui a pouco o seu problema pode não ter mais volta.

5) Inveja as pessoas que podem beber sem ser importunadas? Deixe de ser burro e largue da abstinência. Bebendo ou não, quem te jogou nesta fossa não vai parar de te xaropear mesmo, que isto é coisa de gente chata, insossa e recalcada. Tome vergonha na cara e vá agora mesmo pro buteco. De preferência com os amigos!

6) Sua falta de bebida vem se tornando cada vez mais séria nos últimos doze meses? Está comprovado cientificamente que muito da depressão e do vazio da vida de meia humanidade é tão somente o resultado de se encontrar uma dose abaixo do normal. Álcool dilata os vasos sanguíneos, cura a hipotensão e espanta a tristeza ligeirinho. Deixa disto e vem beber conosco!

7) A bebida já criou problemas no seu lar? Faça um inventário íntimo profundo de seu quotidiano e das razões que o levaram a casar com esta criatura ou fazem com que continue a viver com seus pais apesar dos violentos rolos e vexames a que te submetem por uma simples cervejinha. Liberte-se e vá viver a própria vida bem longe desta gente triste e frustrada. E, se não conseguir, ao menos preserve sua dignidade. E continue a bebericar sem culpas o seu licorzinho. Se eles têm raiva de bebida, o problemas é deles. Não sabem o que estão perdendo!

8 ) Nas reuniões sociais onde as bebidas são limitadas, você tenta conseguir doses extras? Se você freqüenta este tipo de festa, simplesmente é um otário!


9) Apesar de prova concreta, continuam duvidando que você bebe quando quer e pára quando quer? A culpa é sua, seu babaca! Você renunciou ao barato da água que passarinho não bebe, continuou na mesma, fodido e mal pago, sem nem um martinizinho pra aliviar o sofrimento, e ainda tem de aturar a implicância cretina destes igonorantes que não têm nenhum conhecimento da arte de beber? Toma vergonha na cara e trata de convencer a mulher (o marido ou a/o amante) de que um gorozinho não faz mal a ninguém, que sua falta é justamente a causa, também, da infelicidade deles, e que o álcool torna tudo mais colorido e divertido!

10) Faltou ao serviço durante os últimos doze meses por causa da bebida? Não? Se você não conseguiu achar um reles pretexto, nem consulta a médico, pra dar uma escapada da tortura do trabalho compulsório na firma e ir curtir um happy hour com os amigos naquele barzinho simpático, numa sexta-feira, não tem mais jeito mesmo. Mas vem pro Biseno, que a esperança é a última que morre e a fé embriagada remove montanhas, nem que seja de garrafas, ao tropeçar na mesa.

11) Já experimentou alguma vez aquela amnésia frustrante após um porre forte? Isto acontece a toda hora com todo mundo. É um efeito perfeitamente normal do excesso de entusiasmo que cansa os pobres neurônios, exauridos de tanto esforço na rotina inglória, e acaba por apagá-los para descansar à força um pouco. Se você parou de beber só por causa disto, caiu no conto do moralismo opressor e só vai se fuder mais ainda, se culpando e sobressaltando com as possíveis besteiras que fez e nem lembra. Qual o problema? Se fez fiasco o melhor não é esquecer mesmo?

12) Já pensou alguma vez que poderia aproveitar muito mais a vida, se não bebesse? Se você teve este tipo de pensamento está perdido definitivamente. Ou perdeu completamente a coragem de se opor à panaquice anti-alcoólica ou emburreceu de vez!

nossos patronos (Chico, Tom e Vinícius), felizes, na mais estrondosa manguaça

A contagem: se você respondeu SIM a mais de 4 perguntas, realmente está com sérios problemas com a bebida. Largue este tormento todo e vá tomar pelo menos uma taça de champanhe sem sentir culpa nenhuma. Mas se constatou que não consegue entornar sem se auto-flagelar moralmente, venha conosco do Biseno, que nós o salvaremos. Nós dizemos isto porque a experiência de milhões de bebuns recuperados para o bom esporte de levantar copo comprovou que, se o pileque não redime as injustiças,  pelo menos ameniza o sofrimento e nos inspira a combater os males que infelicitam a humanidade, especialmente o autoritarismo exploratório de patrões e o recalque delator de colegas de trabalho e familiares. Ressaca não mata ninguém. E, se a cirrose for inevitável, se lembre que mania de trabalho e excesso de preocupações também podem causar câncer!

Ubirajara Passos

Um Encontro com a Revolução


Há quase trinta anos, embevecido e entusiasmado, entre juras e lágrimas marquei um encontro.

Houvesse o que houvesse, temporais ou incêndios, tivesse de atravessar imensos desertos de sol escaldante e mil miragens arrebatadoras, descer centenas de quilômetros terra adentro, ou vogar agarrado a um pedaço de pau, entre as chacoalhadas das ondas gigantes do oceano, eu prosseguiria em seu encalço.

Por maiores que fossem os desvios, por mais pedregosos e espinhentos que fossem os caminhos, eu sempre encontraria como pular  cercas e romper cancelas, escalar barricadas e muralhas, transpor túneis estreitos e abafados, e reencontrar o rumo que conduz a ela.

Mesmo no fundo ignóbil da negra masmorra, ou em frente à fúria da turba assanhada, em pé no cadafalso, eu simplesmente não a negaria, e, no último instante de consciência, ainda a estaria procurando.

Por mais prazeres que encontrasse em outras, mais madrugadas azuis regadas a luar e vinho, não passaria um único dia em que não me recolhesse a um canto qualquer de arvoredo, e, por alguns instantes, renovasse o compromisso.

militante anarquista na guerra civil espanhola
Nos anos todos que passaram, desde então, a procurei nas ruas e palácios, nos parques, junto às multidões, nos sindicatos, em casebres rurais e apartamentos. Imaginei avistá-la em muitos bares, junto aos amigos, nas tertúlias cervejeiras, e até em alguns bordéis despretensiosos. Mas, sobretudo, senti sua presença, rondando-me sutil, no quotidiano do trabalho, e na rotina familiar do lar.

Muitas vezes estive apenas a alguns passos dela. Mas ao voltar-me para encontrá-la, como fumaça ela se desvanecia.

Por mais que tenha proclamado sua presença, e a descrito para os companheiros, no mais das vezes dela estive distante, e quase sempre a idolatro, hoje, mais do que a procuro. Creio mesmo que cada vez mais me afasto e já não há, hoje, como vê-la nem com telescópio.

Mas continuo ainda, da forma mais precária e espúria, freqüentemente rompendo com as juras feitas, a procurá-la e celebrar sua beleza. E ainda espero, mesmo na mais caquética velhice, um dia, finalmente tê-la inteira, altaneira, alegre, intensa e fascinante a minha frente, iluminando todo o mundo. Afinal ela é a minha única e autêntica amada: a Revolução Libertária e Socialista.

Ubirajara Passos

Memória de Elefante


O portador de DDA ouvia, com toda a paciência, pela quadragésima vez, a preleção da psicoterapeuta alternativa. E, não sabendo se segurava o riso ou o bocejo irreprimível (reações simultâneas que lhe vinham, ainda que contraditórias), lamentava a tortura a que se submetera como condição daquele empréstimo de mil reais pedido ao amigo fascinado pelo tratamento.

Na verdade, não fosse a exigência absurda (que o camarada, antigo paciente, tratou de fiscalizar in loco no consultório, antes de liberar a grana), jamais teria comparecido a uma única sessão. E não fosse o temor de perder uma amizade antiga e profunda (destas que não se encontra nem meia dúzia ao longo da vida), simplesmente teria acabado o “tratamento” no segundo encontro com a psicóloga cognitivo-comportamental, auto-proclamada DDA, como seus pacientes.

Leitor voraz e apaixonado de Reich e Jung, seus sonho era parir, no puro  dilentantismo filosófico e antropológico, teoria que pudesse unificar as visões igualmente fascinantes dos dissidentes materialista e espiritualista de Sigmund Freud (de cuja Psicanálise possuía noções suficientes para se opor e propor, auto-didata, suas teses próprias).

Mas, nem por isto, tinha a Psicologia em conta de determinar o roteiro de sua vida, especialmente através de qualquer profissional institucionalizado e pago. Afinal seu anarquismo era o resultado de profundas convicções, questionamentos e experiências vividas e incorporadas existência afora e não um sintoma psíquico decorrente de qualquer desvio da química cerebral, ou de um suposto complexo neurótico.

Isto sem falar no comportamento excessivamente excêntrico da psicóloga, que, além do entusiasmo reducionista e do fôlego de padre carismático em sermão de manhã de domingo, era uma perfeita fofoqueira. Costumava atender seus pacientes ao telefone em plena sessão e se derretia de prazer em comentar os casos com o pobre coitado que se encontrava sentado na poltrona  a sua frente (ávido, evidentemente, em satisfazer a curiosidade atiçada), após a interrupção. Mas a coisa não parava por aí. Cansou de narrar saborosas confissões, feitas na confiança absoluta do sigilo profissional, pelo amigo e pela própria secretária deste, fofocando a torto e a direito entre os três, nos mais entusiasmados fuxicos ao estilo de matrona de favela.

Não fossem os violentos arranca-rabos que, com frequencia, resultavam do método nada usual de terapia, as fofocas até que eram divertidas. Pois o nosso herói, desde os cinco anos de idade, adorava uma boa e gorda indiscrição.

E, piá ainda impúbere e completamente desprovido de malícia, fudera, já naquela idade, por mera diversão, com a vida de um vizinho, cuja atenção bastante animada com a vizinha gostosa de mini-saia (um tanto atenciosa também) entregara à mulher do cara.

Que, agradecida ao guri, e furiosa com seu marido metido a cabrito pulador de cerca, moeu o conquistador a pau, dando a primeira lição de sabedoria apreciável ao futriqueiro-mirim, que concluiu naquele dia: “Receber a pobre vizinha em casa para emprestar gelo, com a persiana baixada, e esfregar suas pernas nuas pra espantar o frio, é mau negócio. Pode se acabar apanhando sem qualquer motivo”.

Mas, naquele dia, a doutora realmente se passara nas medidas. Pela segunda vez, como já o fizera na seção passada, lia para o nosso “distraído e desatento” protagonista (em cuja infância sua síndrome atendia pelo ridículo nome de “disfunção cerebral mínima” e era, na inexistência da ritalina em território nacional, tratada com gardenal mesmo) uma lista de exercícios destinados a auxiliá-lo na melhoria da memória, como visualizar mentalmente a disposição  e aspecto dos móveis e objetos em sua sala de trabalho.

Discreto, e um pouco tímido, como era, o paciente fazia a cara mais deslavada de curiosidade e solicitude diante da repetição, despercebida pela esperta doutora, da lição de casa. Vai que ela o fazia de propósito, só para testá-lo!

Mas não se aguentou e, mesmo segurando o riso, fez aquela estranha cara de quem sentou no formigueiro quando a dita cuja, com toda a pompa e convicção, no auge do frenesi palestrante, arrematou:

– Seu fulano! Se tu seguires direitinho estes passos, vai melhorar muito e, um dia, até ficar igual a mim. Eu tenho uma memória de elefante!

Ubirajara Passos