Os retiros de Jesus Cristo


Calma que não entrei em crise, nem me tornei, às vésperas do carnaval, boêmio encarcerado no casamento, um beato arrependido. Isto nem as orações de todos os crentes que já passaram por este blog me esconjurado, ou preocupados em me converter, pela simples menção a “Satanás”, conseguirão.

Mas o fato é que justamente o cárcere da vida familiar (mulher, dois enteados, a minha filha Isadora que é a parte doce e apaixonante da “prisão”) não tem me permitido fugir da rotina de permanente exposição pública ou doméstica e desaparecer da frente de todos, “tirar um tempo para mim mesmo” e pensar com meus botões. O que é enlouquecedor para um portador de DDA. Especialmente para mim que, além de minhas pretensões artísticas e intelectualóides (literárias e políticas, ínclusive as póeticas) passei boa parte da minha juventude “viajando” (sóbrio, sem sequer uma cerveja à mão) sozinho, nas tardes modorrentas e nas madrugadas silenciosas da casa paterna, em Gravataí, ou nas dunas desertas da Nova Nordeste, na praia gaúcha de Mariluz.

Nestas ocasiões eu simplesmente construía e destruía mundos de ficção inteiros (muitos envolvendo histórias políticas em mundos paralelos, ou nem tanto) e perpassava por todos os escaninhos de imaginação, meditação e filosofia possíveis. Este diálogo interno, essencial para mim, era muito mais real do que o quotidiano e a vidinha concreta em casa, na rua ou na escola, e nele, certamente, se construiu muito mais do que penso hoje (e de boa parte das minhas atitudes, apesar das “limitações” auto-consentidas como o casamento formal) do que na prática escolar ou política.

Maior influência no meu imaginário e em meus trejeitos ideológicos e “artísticos” só mesmo as leituras aleatórias (que incluíam de detalhes poucos explorados em manuais de História editados nos anos 1930 às origens dos idiomas latinos em velhas gramáticas dos anos 1940 e 1950, todos da biblioteca de meu pai, que surrupiei ainda piá), nas madrugadas adentro.

Ou mesmo assistindo velhos clássicos hollywoodianos legendados, do tempo em que a Globo, por exemplo, levava ao ar o “Cineclube” (creio que este era o nome) às sextas-feiras no final da noite (ocasião em que assisti, lá por 1987, todos os grandes filmes de Chaplin, incluindo a Corrida do Ouro, The Kid, Luzes da Ribalta, Tempos Modernos e o Grande Ditador).

Mas foi a nostalgia dos tempos em que podia ruminar horas comigo mesmo em êxtase intelectual que me trouxe à baila o que, embora muito pouco divulgado, era um hábito corrente do arquétipo ocidental do “salvador”, o Cristo, que encontramos frequentemente no texto dos evangelhos.

Volta e meia, Yeshua (seu nome judeu), enchia o saco dos discípulos, e segundo os evangelistas, se afastava para montes e campinas desertos a reinar, ou meditar, consigo mesmo. O que a Bíblia não menciona, mas me parece mais ou menos óbvio, é que, nestas ocasiões, ele se escondia não somente da ignorância proverbial de seus apóstolos e discípulos (que, volta e meia, se supunham participantes do Big Brother e começavam a disputar entre si quem era o mais querido do Mestre ou quem expulsava mais demônios do couro das prostitutas palestinas – sabe-se lá com que método!), mas mesmo de Deus e o Diabo (o último com D maiúsculo, sim, que, na mitologia cristã, ocupa o verdadeiro lugar de opositor equivalente do primeiro).

E aposto que, ao invés de ensaiar seus sermões, se preocupar com a cruficação de que provavelmente derivaria sua pregação anarco-religiosa, ou procurar a verdade absoluta e profunda do tudo, ele simplesmente “viajava” e criava algum poema de pé quebrado do vôo de qualquer passarinho fugidio e da torrente de qualquer nascente em meio à rocha árida. Quando não ficava por lá, evidentemente, simplesmente escutando a voz do vento, sem atinar em mais nada, num verdadeiro nirvana búdico espontâneo e heterodoxo.

Eu ía acabar a crônica por aqui, e cheguei a publicá-la, instantes atrás, sem estes últimos parágrafos que vos cansam os olhos, ó caros leitores entediados por este cronista nostálgico e metido a besta. Mas não me aguentei e resolvi trazer um grão de realidade rouca e barulhenta das ruas para a conclusão. Junto com uma recomendação aos leitores.

Não se esqueça, companheiro, mesmo quando tens a chance de viajar de forma totalmente livre com a tua mente ao pé de uma cachaça na roda de amigos (ou só com o melhor amigo), que é uma outra forma de introversão criativa, sempre que possível, nem que seja sentado no vaso sanitário, reserve uns minutos para pensar e fantasiar qualquer besteira descompromissada.

Isto, além de preservar a “saúde” mental, é uma profilaxia perfeita contra o condicionamento de nosso pensamento e sua escravização aos conceitos pré-fabricados da mídia, da tradição cultural e do costume. Não é por acaso que os patrões de todo tipo (do budegueiro da esquina ao acionista da maior multinacional financeira) procuram “ocupar” permanentemente (até nas “horas livres”) a mente da peonada. É  para que ela não tenha tempo de imaginar outra vida, menos servil e brutal e mais livre e prazerosa – e, consequentemente, contrária às necessidades das classes dominantes, de existência de uma horda de bestas de carga humanas a seu serviço!

Ubirajara Passos

 

A Fi(n)cada


Os leitores mais radicais ou adeptos da razão absoluta vão me matar e espancar mentalmente. Mas, pela centésima, vou usando o argumento da exceção e me desculpando descaradamente antes de detonar o que, para muitos deles, parece uma contradição com o meu ideário manifesto e o a linha programática deste blog.

O fato é que não sou nenhum moralista (do que é a prova a profusão de palavrões que se encontra, especialmente, no item “mais lidos” da coluna lateral deste blog), muito menos um beato anti-sexo ou um machista.

Mas outro dia, pra ser exato um belo fim de tarde, depois do expediente, me vi mais uma vez surpreso, junto ao caixa do supermercado, com a conversa que a loirinha gostosa (na casa dos seus vinte e poucos anos) mantinha com o empacotador.

Começou contando que custara a se adptar à solidão quando se separou e foi morar sozinha e que sua família (que é extremamente superprotetora) acampou na sua nova casa no primeiro fim de semana e só saiu de lá depois que se convenceu que ela não ía se suicidar desitratada de tantas lágrimas.

Aí, com o ar mais despreocupado, de quem está discorrendo sobre o preço da banana, arrematou dizendo que está “ficando” com um cara há uns seis meses. E que, por incrível que pareça, apesar da insistência dele, ela não pretende ainda “namorar”. É muito cedo, e chegou a ameçar o pobre homem de não vê-lo mais se insistir na idéia. Afinal, se ele continuar com esta idéia de namoro é melhor não ficar mais!

Certamente é nesta altura da crônica que o leitor libertário, de mentalidade elástica, me encherá de impropérios em razão da minha surpresa. Mas convenhamos: apesar da pretensa revolução de costumes (especialmente sexuais e dos papéis de gênero) desde os anos 1970, a verdade é que a maioria das mulheres ainda se pauta pelo antigo comportamento carregado de preconceitos e papéis pré-determinados, típico das dondocas. E os machos, mesmo tendo assimilado uma certa inversão de papéis, em geral não chegam ao extremo de se constituir nas novas dondocas românticas, carentes, apegadas e rejeitadas!

Leitores mais antigos e atentos deste blog pinçarão uma terrível incoerência da minha estupefação e dirão que eu próprio já havia diagnosticado este tipo de comportamento feminino na crônica As Jararacas Emancipadas, publicada há mais de 4 anos.

O detalhe é que, se o comportamento da gatinha é uma constante sociológica entre a maioria das mulheres em nossos dias (ainda que, normalmente, da pequena-burguesia para cima), o empenho romântico emotivo do candidato a namorado é, no mínimo, grotesco.

Mas o que mais me chama atenção é a nomenclatura da coisa, que, confesso, desde que surgiu o termo, nunca entendi. Afinal qual a diferença entre “ficar” e “namorar”? Se a primeira palavra designa uma relação em que rola de tudo, especialmente o sexo, e a segunda pressupõe apenas uma certa sofisticação da primeira, se distinguindo pela freqüência e caráter rotineiro da coisa, não estaríamos diante de um novo “código moral” artificioso e heterônimo no comportamento sexual? O novo “namoro” dos modernos casais não estaria, contraditoriamente, se constituindo numa relação institucionalizada, cheia de regras e cobranças obrigatórias, vindas de fora e opressivas (o que não tinha todo este caráter nos tempos em que a Filomena tagarelava, e se esfrega furtivamente, com o Felisberto no portão de casa)?

E, aliás, seguindo na linha distintiva da “duração temporal” e da “rotina e do costume”: se uma foda, que deve incluir necessariamente algumas distrações não puramente sexuais (como uma cervejinha no bar ou um programinha de TV asssistido a dois, em pleno quarto de motel), já ultrapassou seis meses sendo praticada com certa regularidade pelo mesmo casal, já não teria ultrapassado há muito o status da “fincada”?

Ubirajara Passos

(A)pelação à beira-mar!


A história não se passou no último veraneio, mas num modorrento final de feriadão, na segunda-feira, 20 de setembro (data em que a gauchada do Rio Grande do Sul comemora a sua data nacional, o início da Revolução Farroupilha).

Peruca, Nenê (o primo mais novo do Peruca) e Kadu, entediados, bojecantes e babões, respectivamente na ordem inversa, não suportavam mais o mormaço pré-primaveril da provinciana cidade grande de Gravataí, onde até os mosquitos se deixavam infectar pela doença do sono e, tontos, perdiam o rumo do vôo e, em meio a uma espiral desusada, acabavam por topar entre si, na cabeçada, indo ao chão (quando não caíam, moles, na boca do Peruca, evidentemente).

Afinal, na pretensiosa sede do único complexo automobilístico do extremo sul do Brasil, não acontecia nada de novo há mais de 14 anos, quando a petezada fascista, analfabeta e petulante derrotara a dinastia peemedebista lambe-cu da (formalmente) extinta ditadura pós-1964, assumindo a prefeitura, após quase trinta anos de dominação, que tivera apenas algumas  interrupções (uma no início dos anos 1970, quando o partido da ditadura, a Arena, assumira o poder e outra no final dos anos 1980, quando o trabalhismo não vendido, governara, através de um popular prefeito do PDT). Desde então os petistas eram os novos “coronéis absolutos da cidade”, perpetuando-se mandato após mandato.

Mas a turma do Peruca não meditava sobre tais injunções políticas. Sabia apenas que a única coisa digna de admiração na cidade inchada, que conservava os maneirismos de sonolenta vilinha colonial, era a piada que explicava o seu nome, atribuindo-o a uma furibunda matrona do início do século XX, que, dando com a pudica filhinha a boquetear o namorado em plena praça do quiosque, se esbagaçou gritando pra guria: “o que é isto minha filha?” E, recebendo a resposta cretina (“nada mãe, tô só arrumando a gravata dele!), arrematou: “gravat’aí, minha filha?”

– Ô meu, não tem nada pra fazer nesta merda!

– Vamo tomá um goró, Peruca burro! – disparou Kadu.

– Mas aqui não tem graça, nem o Bira bebe mais. Agora que casou, nem no Lucy Bar vai mais o homem – contestou Nenê, concluindo – Vamo pra praia, pra Tramandaí, que lá que é legal. Marzão, brisinha  boa pra se refrescar e ainda uma dúzia de loiras gostosas pra gente admirar enquanto mergulha na loira da garrafa! Vamo lá seus tontos!

O Peruca preferia ficar em casa e chamar o Dente Hugo com uns DVDs pornôs piratas, que loira boa de ver é aquela que trepa com quatro ao mesmo tempo e ainda dá risada. Kadu, louco pra encher a cara em qualquer buteco, achava muita mão de obra comprar fardos de cerveja e gelo, acomodar no cooler e andar 100 km free way afora só pra curtir uma praiazinha. Ambos não atinavam com a reais intenções de Nenê, mas, depois de muito xaropice, se deixaram convencer.

E, plena tarde de mar e sol, ali se encontravam, junto à barra do Tramandaí (a praia mais fudida da cidade, onde a caganeira urbana corre solta pelo rio, e do rio para o Atlântico), enchendo as guampas de caipira e cerveja, com aquele olhar estranho que nos torna vesgos de uma hora para outra, quando deram com aquela trupe de gatinhas gostosas (uma das quais era funcionária da promotoria em Cachoeirinha, conhecidíssima dos três e alvo da paixão platônica do Nenê).

Agora sim, podia se chamar aquele monte de areia salpicado de bosta de praia. Trataram logo de gastar os últimos cobres em martinis, keep coolers e sorvetes, que as gatas eram manhosas e não estavam muito a fim de papo furado, mas tinham, segundo elas, um tesão imenso por garotões alegres e endinheirados, e estavam loucas por umas bebidinhas e guloseimas.

Consumido o estoque do improvisado pic nic, bem como o dinheiro e a paciência do trio, que não conseguia dar nem uma bolinadinha nas safadas (toda vez que se aproximavam, eram repelidos com um recatado risinho e um “depois, meu amor”, primeiro quero curtir o frescor do mar), apareceram uns sujeitos musculosos e mal encarados, boné de aba virada, pinta de aviãozinho de favela (uma tigrada braba, como os descreveu o Peruca) e deram de mão nas pudicas senhoritas, que foram se amassar com eles atrás de umas dunas.

Nenê estava simplesmente desconsolado. Se esvaia em lágrimas pela rejeição da amada e Peruca ameaçou até ir dar umas porradas naqueles tipos (afinal, a última vez que ficara sem absolutamente um puto no bolso foi quando deu com o famoso traveco violento que o assaltou no Bradesco). Mas Kadu, o mais “malandro e experiente” dos três pinguços desengonçados, tratou de acalmar e “trazer à lógica” os outros dois:

– Mas o que é isto. Que choradeira braba! E que porrada coisa nenhuma! Tem  um jeito bem melhor da gente se vingar e divertir, na boa! Vamo estragá o namoro destes panacas. É só a gente tirá a bermuda e ir lá, no meio das dunas, corrê pelado!

Nenê, magoado, mas ainda preocupado em fazer boa imagem para sua paixão, resistiu violentamente, mas, debaixo de porrada, arrancado o calção, foi arrastado junto.

Peruca não teve a menor dúvida. Jegue embriagado, cujos últimos restos de sensatez e inteligência migraram além do cu, aderiu ao plano, entusiasmado.

E foi assim que, naquela tarde de fim de feriado, a fria praia gaúcha se viu despertada pela agitação dos três branquelas sacudindo o instrumento e tropeçando uns nos outros (ocasião em que parece que o Peruca teve a chance de recordar “concretamente” de seu falecido amante traveco), aos gritos de olha aqui que coisa mais linda, enquanto os casais de patricinhas e maloqueiros corriam afoitos duna acima (interrompidos no doce ofício das preliminares menos sacanas)… Mas não por vergonha ou indignação, mas simplesmente para se mijar de rir e vaiar, enquanto os três anjos barrocos broxas (afirmação da preferida do Nenê) eram detidos e conduzidos “à vara” por uns quantos robustos brigadianos.

Ubirajara Passos

O Milenarismo Revolucionário no Almanaque do Pensamento


Há cerca de um ano publiquei extensa matéria neste blog, sobre a mudança de paradigma ideológico do quase secular Almanaque do Pensamento, nas previsões astrológicas gerais para o Mundo e o Brasil no ano de 2010. Referi mesmo o imenso entusiasmo que me tomou, e ao alemão Valdir, com as profecias de revirada revolucionária socialista e libertária gerais que haveriam de sacudir o planeta.

E, com exceção da revolta popular anarquista que tomou as ruas da Grécia, e entusiasmando o país e sacudindo as mentes sobressaltadas da burguesia imperialista européia, acabamos por nos decepcionar com os prognósticos, que ou não se realizaram ou ficaram aquém do esperado.

No nosso caso particular, e do Movimento Indignação, que lideramos, as mais vivas e pulsantes esperanças foram varridas por um vendaval de acomodação e conservadorismo e o resultado é que perdemos, desde abril de 2010 até o último janeiro três eleições sucessivas.

Primeiro, concorremos a direção executiva do Sindjus-RS (Sindicato dos Servidores da Justiça do Estado do Rio Grande do Sul), obtendo apenas 22% dos votos. Depois, apoiamos a candidatura de nossa companheira Simone Nejar à deputada estadual na Assembléia Legislativa gaúcha, que lançamos como a candidata dos servidores, vinculada aos sofrimentos, necessidades e objetivos maiores deles. E a derrota foi mais ridícula ainda. Apenas 527 votos, que não reproduziram nem os concedidos à nossa chapa na eleição sindical.

Por fim, nos incorporamos fortemente à campanha do desembargador gaúcho Rui Portanova, porta-voz aguerrido e combativo dos direitos humanos, especialmente dos segmentos, ainda hoje, discriminados e dominados, sob o pretexto da cor da pele, do gênero e da orientação sexual (negors, mulheres e homossexuais), pela sua indicação como Ministro do Supremo Tribunal Federal. E o que vimos, no início deste 2011, a sucessora desprezar  fascismo petista, Dona Dilma, a Renegadora de Coturno, desprezar o perfil e a luta do magistrado, em favor da conveniente identificação do escolhido com a Presidência da República.

O Almanaque do Pensamento de 2011, entretanto, embora de forma mais comedida, continua na mesma linha do ano anterior, embora procure explicar a timidez da realidade em relação às expectativas criadas, especialmente no horóscopo para o Mundo:

“Depois do dia 5 de abril, Neutno sai do signo de Aquário para entrarf em seu próprio signo, o de Peixes, onde ficará até 30 de março de 2025.

Durante esses quatorze anos, mesmo com Urano gerando uma atividade mundial violenta até 2017, como já avisamos em 2010, Netuno revelará ideologias que já considerávamos definitivamente inexistentes. Ele reanimará opiniões e convicções religiosas, políticas ou sociais que se deparaão com líderes fanáticos e adeptos combativos para propô-las e, quando possível, impô-las.

Por enquanto trata-se dos germes de uma revolução subterrânea em que o mundo tomará consciência da grandiosidade dos fatos vindouros dos quais não tomou conhecimento nos anos anteriores.

Mas não devemos nos enganar, pois a fonte e a semente de grandes movimentos sempre acontecem na surdina. Quando eles vêm à tona é preciso combatê-los, aceitá-los ou resolvê-los na medida do possível.”

Muitos leitores dirão que se trata de mera desculpa para a folha ocorrida no número anterior do periódico anual. Mas a verdade pura e simples é que a continuidade da agitação da Grécia, ainda no final de 2010, e as recentes revoltas populares de massa na Tunísia e Egito (que não chegaram aos pés de uma revolução socialista, mas representaram um forte questionamento laico das pessoas comuns nunca visto no teocrático Oriente Médio), parecem confirmar as teses do dito Almanaque.

Muito próximo do campo de atividade política do meu grupo sindical, vimos, inclusive, nos últimos tempos, a manifestação de um juiz batendo fortemente na necessidade de democratização na escolha da cúpula do Poder Judiciário Brasil como algo premente até para evitar o uso indevido das estruturas do poder em favor de privilegiados ligados à alta administração e a distorção das decisões nos tribunais em decorrência dos interesses sócio-econômicos das elites – texto que publicamos no blog do Movimento Indignação e representa um brado inimaginável até pouco tempo atrás, quando éramos, eu Valdir, Simone Nejar e outros companheiros punidos por manifestar nosso pensamento político interno, combater o nepotismo e a defender a decência do Judiciário do Extremo Sul do Brasil.

Marco Longari/01.02.2011/AFP

Aliás, falando em Brasil, o Almaque do Pensamento de 2011 não foca tanto a questão revolução, mas em um pequeno trecho lança um questionamento um tanto surpreendente, polêmico e enigmático, após outro de caráter mais ameno, mas igualmente revelador:

“Ao passar para a casa IX, Saturno vai focalizar a educação superior e os assuntos judiciários: será que finalmente teremos uma reforma judiciária em nosso país? (…)

Urano fará conjunção com Plutão, regente do Meio-do-céu e representante do poder executivo no mapa do Brasil, ainda em março: será possível haver um golpe de Estado em nosso país no ano que vem? Tudo é possível sob a batuta de Urano, o revolucionário, que costuma romper, cortar, eliminar sumariamente o que encontra pela frente.”

Fantasia, mera especulação ou resultado da intuição da mudança profunda de mentalidade que pode estar se processando no seio das massas trabalhadores do planeta, as previsões parecem continuar a refletir muito da realidade potencial que teremos pela frente. Nos resta a esperança de que em nosso país ela não se consubstancie na institucionalização formal do fascismo “cor-de-rosa” (que o vermelho desbotou há muito tempo) vigente.

Ubirajara Passos

O Verbo e a Virgem


Outro dia, eu comentava com o companheiro Gerson Monteiro que, se antigamente, eu escrevia num jorro só (embora, raríssimas vezes, o resultado eventualmente não fosse o melhor), ultimamente ando precisando de inspiração em fatos do quotidiano e de um certo amadurecimento dos textos, especialmente as crônicas.

Os poemas, entretanto, continuam a sair-me num impulso quase inconsciente.  E foi assim, sentado à beira do lago do Parcão de Gravataí, ontem à tarde, enquanto a minha enteada Larissa se divertia em alimentar tartarugas e patos, que praticamente psicografei o poema que publico hoje. Como em geral, o primeiro verso surgiu meio do nada, apenas com a intenção de retratar o primeiro olhar de um casal.

Era para tratar de quaisquer desconhecidos, com nomes comuns na tradição luso-brasileira. Poderia ser o dos pais do Cristo, José e Maria, mas a inspiração insistiu em colocar João, e a partir daí nasceu o texto, que poderá parecer polêmico a evangélicos, católicos, cristãos e moralistas em geral. Aos quais, desde logo, previno que não tive a menor intenção, ateu ex-católico, de “denegrir” a imagem de sua santa “virgem”, cuja maior e concreta “pureza” foi a de dar apoio, sofrendo ao lado, do mártir revolucionário que cometeu a loucura de desafiar um império só com a palavra, sem armas na mão.

Quis apenas celebrar, num momento de ficção, e a pretexto do episódio em que Cristo entrega seu díscipulo mais amado e sua mãe para que se cuidem mutuamente, o amor real, prazeroso, feliz e transformador, que nasce nos corpos, porque é feito da pura energia vital básica, o átomo do tesão, a que o Mestre Reich chamava orgone. Aliás, creio, que se alguma forma de psicografia se manifestou foi o velho Guilherme (Wilhelm) que “encostou” ao meu lado, enquanto rabiscava o bloco de papel. Seja como for, segue abaixo o poema:

O Verbo e a Virgem 

E eis que João olhou para Maria,
Depois que o Cristo lhe pediu que a protegesse,
E viu não uma mãe, mas uma amante!

E desejou-a tão intensamente
Que surpreendeu-se ao ser correspondido.

Ele, o apóstolo mais obscuro,
Pouco dado a manifestações
De eloquência e entusiasmo,
Mas, apropriadamente,
Depositário dos mais íntimos segredos,
Confessionário ambulante do Messias!

Não poderia crer que a “eterna virgem”
(Naquele tempo uma ilustre cinquentona,
Sofrida mãe de uma meia dúzia

De machos loucos dados à guerrilha,
Dos quais o Mestre era o mais manso nas armas,
Porém o pior questionador no verbo)
Pudesse responder com um sorriso aberto
E com trejeitos de fêmea no cio,
Em plena execução do filho mais amado.

Mas assim foi e se abraçaram ambos,
Com as bênçãos do pastor trintenário,
E se afastaram, de mãos dadas, enlevados
Num encanto mútuo, andando sobre as nuvens.

Uma delas, cinzenta,
Lhes barrou o caminho
E se voltaram, pesarosos, para o Cristo.

Mas eis que o Salvador, quase morrendo,
Gritou com o último fio de voz que lhe restava:
Vai em paz, mãe, sejas feliz e faças
A este irmão e filho meu feliz.
Vos alcançastes
O supremo grau de elevação do ser humano!

Que o amor do Pai frutifique em vossos corpos
E vossa mente possa ser a chama
Que resgate a humanidade do pecado
E a liberte da culpa, da dor e do sadismo.

E assim morreu, enquanto ía
O novo casal rumo ao futuro do amor vivo!

Gravataí, 19 de fevereiro de 2011

Ubirajara Passos

Os assaltos que sofri em Porto Alegre – 2


O episódio narrado na madrugada da última quinta-feira foi o primeiro dos 4 assaltos por que passei nas madrugadas da capital gaúcha, entre o final de 1998 e  início de 2001, todos eles ocorridos na saída de cabarés da cidade.

Os dois últimos foram terrivelmente vexatórios e violentos, não valendo a pena discorrer a seu respeito. E em comum possuem o fato de eu ter acionado a Brigada Militar após sua ocorrência. Mas os primeiros tiveram uma tal aura de romantismo ingênuo e comicidade que eu não poderia deixar de contar sua história um dia neste blog.

Uma bela quarta-feira, após trepar com a minha namoradinha de bordel no cabaré Gauchinha Bar (que situava-se na Riachuelo, no andar exatamente acima do Beco dos Livros, a uma quadra do Palácio da Justiça), a Diana (morena linda e compreensiva com que eu me perdia em beijos de língua e confissões de minhas outras aventuras eróticas no salão, para depois comer-lhe, em pelo, só o cuzinho no quarto), resolvi sair mais cedo (1 hora da madrugada) e acabei indo parar na Sauna Riachuelo, que havia se transformado em boate de putas free-lancer, a moda do Corujinha (bar “dançante” onde às putas íam para dar de graça, por mero prazer).

Eu não estava muito a par da mudança de caráter do estabelecimento e assim fui logo me enfiando com aquele trio em que se destacava uma morena baixinha, de rosto lindo, nariz empinado e corpo gostosíssimo. Dançavam como umas loucas em frente ao balcão do bar, acompanhadas de um negrão de cabelo rastafari, que foi logo declarando que não tinham qualquer envolvimento com elas além da amizade (nem atinei que poderia ser o gigolô, por exemplo), e logo me convidei a me “gelar com eles”.

Embora a moreninha não me desse muita bola, eu, pra variar, bêbado como um gambá que mergulhou no tonel do alambique, estava doido de tesão por ela, e não me fiz de rogado, dando-lhe uma meia dúzia de onças (notas de cinquenta reais) para trocar, cada vez que resolvia pedir uma rodada de cerveja. Para coroar o ridículo da minha imponente figura de otário, eu as retirava do bolso interno da capa de chuva de gabardine marrom que usava, conjuntamente com o chapéu de feltro (verdadeiro detetive de filme yankee dos anos quarenta), pois era uma noite de chuva.

Conversa vai, conversa fiada vem e me convidaram para “ir ao barzinho”. E eu, supondo situar-se em andar superior ao da “sauna”, me vi, de repente, subindo a Rua Doutor Flores, com o mal intencionado quarteto (as três putas e o negrão), que estranhamente não falavam muito, além de frases soltas das duas putas mais altas de que eu e a baixinha tínhamos algo em comum e isto ía dar ainda em namoro, e da minha tentativa de conversa com ela, que resultou, no máximo, na troca de nomes (após eu  me “apresentar”,  ela me disse que se chamava “Tanajara”!?).

O clima era bastante estranho e qualquer malandro com 2 segundos de experiência entenderia que havia algo muito fora da ordem na situação. Mas, torto de goró e tara, a minha esperteza havia se reduzido à capacidade mental do Peruca e assim logo me vi na escadaria da Praça Raul Pila, abraçando a baixinha contra a amurada, enquanto o negrão picava fumo com uma faca de cozinha, destas de serrinha, no muro oposto (após ter me dito pra dar uma namoradinha), logo depois das duas outras putas terem “constatado” que “o barzinho estava fechado”.

O meu romance putanheiro a céu aberto não durou meio minuto. Tão logo tentei beijá-la, a Tanajara tratou de inverter a posição e me vi de costas para o muro, sem entender muito porquê. E entendi menos ainda quando o negrão saltou sobre mim com a tal faca de serra, uivando que ía me matar. Jegue alcoolizado, imaginei que eram ciúmes e logo me vi catapultado à mais crua e triste realidade, quando a minha parceira enfiou a mão inteirinha no meu peito (para ser exato, no bolso da capa de chuva) e me subtraiu, de uma vez, as últimas quatro onças (duzentos reais) que me restavam da farra noturna.

O rastafari, drogado e entusiasmado no seu papel falcatrua de amante enciumado, continuou ali, me furando a camisa social com a mísera faca, enquanto eu, tirando calma sabe-se lá de onde (provavelmente do “cu do conde”), lhe dizia que não fizesse a besteira de me matar, e, como ele não cedia, lhe abri os olhos chapados:

– Ô meu camarada, deixa de ser otário! Tu taí me cutucando com este troço e enquanto isto as tuas companheiras já tão lá adiante, subindo as escadas com todo meu dinheiro e te deixando sem nenhum puto!

Estremunhado, o tipo largou de mim e saiu, otário metido a malandro, pior que eu que não partilhava do seu quotidiano de marginal da noite, atrás das três, na inglória esperança de reaver sua parte no butim.

“Livre” do assédio, desci as escadas em direção à Avenida João Pessoa, que subi, desolado, passando pela frente do “Corujinha”, em cuja frente um brigadiano cumpria o seu papel de sentinela da putaria porto-alegrense. Pensei em abordá-lo e lhe narrar minha desventura. Mas logo concluí que, além de não servir para remediar a penúria resultante do assalto em nada, poderia ainda me enrolar e acabar, eu vítima do velho e surrado “golpe do suadouro”, preso pelo dito cujo.

Assim, retornei à Riachuelo, puto da vida, sem saber de onde tirar grana pra pegar o ônibus e voltar à Gravataí, onde tinha de trabalhar no dia seguinte, até que tomei a única decisão sábia e lógica possível: voltar à Gauchinha e pedir uma grana pra Diana. Ela, além de puta, era minha amiga, me considerava bem mais do que um mero cliente e haveria de resolver o meu problema.

E, assim que entrei no cabaré, ela abandonou a mesa que dividia com uma meia dúzia de piás folgazões (destes que vão a cabaré só pra encher a cara e rir das mariposas, mas não dão nem uma trepadinha de 2 minutos) e veio sentar-se novamente comigo:

– Voltou, meu amor? Quer uma cervejinha?

– Olha Diana, pra tu não pensar que é mentira minha, olha o estado da minha camisa (e mostrei o rasgão da faca. no lado esquerdo do peito). Saí daqui, fui à sauna Riachuelo e acabei assaltado por uma trupe de putas falcatrua e um rastafari safado. Fiquei sem nem um centavo. Tu não me arranja uma grana pra voltar à Gravataí?

A minha puta preferida do cabaré, após me censurar por deixar a sua companhia e ir procurar gozo em casa de péssima categoria, não pestanejou, foi até o proprietário, o Válter de León (uruguaio pai do proprietário do antigo Bagdá Café, o Johny), e voltou com 5 reais (que hoje equivaleriam, corrigidos monetariamente a uns 20, 3 vezes o valor da passagem do ônibus Direto), que me deu e jamais me cobrou de volta em um único dos tantos encontros que ainda tivemos nos anos seguintes.

Assim é que, na mesma madrugada, eu consegui a façanha de ser a mais ingênua vítima do golpe do suadouro e, pela única vez na vida, gigolear, com toda honra, uma puta.

Ubirajara Passos

Tratado Geral dos Bordéis (CAPÍTULO 1: DEFINIÇÃO ABSTRATA)


Bordel, cabaré, boate, casa da luz vermelha, maloca (no interior do Rio Grande do Sul), puteiro (de Santa Catarina para cima, especialmente no nordeste brasileiro), pouco importa a denominação (e o colorido especial que ela encerra), filosoficamente falando, é um espaço destinado exclusivamente ao exercício do mais doce prazer do universo, verificável entre as mais diversas espécies animais, de todos os graus de complexidade, na nesga de mundo conhecida pela humanidade.

Embora acidental, é estatisticamente avassaladora, também a presença, neste espaço do segundo prazer mais procurado e gozado pela espécie humana, o consumo do fogo, do goró, do trago, da bebida, ou simplesmente do álcool etílico ( fermentado ou destilado a partir de substâncias vegetais), que geralmente se denomina de pileque, carraspana (no linguagem arcaico dos anos 1800), ou porre, quando não farra – nome genérico que pode tanto se aplicar ao prazer da beberagem quanto ao tal da putaria, e que resume em si a íntima e simbiótica relação que guardam entre si ambas as categorias, que dificilmente se manifestam na realidade concreta sem o acompanhamento simultâneo da outra.

E que, embora não necessariamente, se completa e se refina na boemia, que é o modo sutil, profundo e sensível da prática noturna do prazer espiritual do álcool e do prazer carnal do sexo, enlevando o ser humano no gozo mental e abstrato que advém do líquido e na emoção profunda e mística que incrementa, inspira e aprofunda o tesão dos corpos. E que, mesmo apartada eventualmente da farra de natureza erótica, enobrece a pessoa humana na convivência mutuamente prazerosa e dignificante dos bons amigos, cuja afinidade se alicerça no bom papo, no usufruto comum e voluptuoso das idéias e das emoções longa e cuidadosamente cultivadas e desenvolvidas.

Visto deste ângulo, restrito à essência de sua natureza, ao que lhe é próprio e imediato,  e aos acidentes que numericamente lhe são comuns, antes de toda e qualquer complexidade e idiossincrasia concreta, o bordel é o verdadeiro paraíso, e guarda um perfeito paralelo com o prêmio post mortem que o islã reserva aos bons muçulmanos (bem mais interessante e criativo que o frio e instrumentalista céu cristão, carregado de austero e infelicitante “bem estar” assexuado e apartado de toda e qualquer satisfação e conforto iluminado e entusiástico).

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