Pero Vaz de Caminha e a Buceta índigena


Nada como tratar, em plena véspera de Natal e após o frustrado “fim do mundo”, de assunto sério e paradisíaco, relacionado profundamente com os destinos e a formação do Brasil.

Se o leitor caiu de pára-quedas neste blog, num vôo cego e acidental pela internet, a partir de tags sisudas e sem graça, como política ou história e (apesar da advertência constante em sua barra lateral) resolveu se embrenhar nesta mata literária, provavelmente tomará por sacanagem e invencionice pura o tema desta crônica (para ele) cretina, apelativa e despropositada.

Se veio parar aqui a partir de indexações do tipo putaria, velhinhas trepando com jegue fogoso e outras asneiras que, devido ao erudito vocabulário deste cronista, acabam por conduzir a este blog, certamente estará mais indignado ainda por não encontrar os vídeos ou contos pornôs de pobre imaginação e precária construção verbal que, infeizmente, costumam povoar a pornografia internética padrão, reduzida, como a pornografia em geral, ao estilo cru e “analfabético” dos piores funks globalizantes do sadismo sexual imbecil e sem imaginação.

Mas o tema deste post não é gaiatagem minha, muito menos invencionice, e nos dá, de certa forma, uma palha da predestinação do caráter brasileiro, a partir da informalidade, bom humor e plena desenvoltura mental dos primeiros portugueses que aportaram por estas terras e, concretamente “seduzidos” por sua natureza edênica, lhe acrescentaram a pimenta da malícia ibérica, que mais tarde a padralhada trataria, em conluio com o sadismo bandeirante, de maltratar, ao ponto de quase extinguir, debaixo do carrancismo moralista de um catolicismo imperialista histérico e opressor.

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É bem verdade que os invasores lusitanos, nesta parte da América Latina, não foram menos funestos que seus vizinhos espanhóis e fizeram dela, no correr dos séculos, como dizia o saudoso companheiro Darcy Ribeiro, um moinho de gastar gente pra adoçar a boca de europeu. Na fornalha de sua fome sádica e furibunda por enricar e viver à forra, nossos “colonizadores”manietaram, escravizaram, torturam e torceram, com o mesmo entusiasmo da inquisição religiosa na peninsula, mas com o objetivo bem mais concreto e paupável do enriquecimento ao custo do sofrimento e embrutecimento alheio, os corpos e almas de multidões de índios e negros, cujo sofrimento forjou a riqueza de europeus e o cadinho de um país enorme e rico, mas ainda submetido à lascívia estrangeira sádica, e, apesar de tudo, pontilhado por uma alegria de viver e um estilo despachado que haverão de garantir, no dia em que nos fizermos donos de nosso próprio destino, o verdadeiro paraíso na terra.

Se o bandeirante ou o colono luso posterior era violento e carrancudo, entretanto,o fato é que os primeiros patrícios a aportar por aqui, a maioria degredados deixados na costa em navios como o de Cabral, tinham um estilo bem mais sutil e malandro, típico do esteréotipo nacional posterior. Tratavam de se enfiar no meio da indiarada e, gozando de institutos culturais estabelecidos como a poligamia e o cunhadismo (noção de que todos os membros de uma aldeia são parentes de quem se casar com uma índia dela e, como tal, tem obrigação de auxiliar o “cunhado”) se fartaram na utilização das bucetas, e dos braços masculinos, para prover suas necessidades de diversão e mantimentos, se tornando verdadeiros barões tropicais, felizes e poderosos,com um exército de solícitos e ingênuos índios, dispostos a satisfazer seus menores desejos materiais, com toda bonomia de seu caráter naturalmente empático e solidário. Eram terríveis malandros estas criaturas, como João Ramalho e Caramuru,que, infelizmente, acabaram por se fazer auxiliares do imperialismo brutal, que mais tarde transformaria o éden tropical num inferno,pleno de choro e ranger de dentes, por muitos séculos, até conformar o Brasil que conhecemos hoje.

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Mas, antes que o leitor me mande à puta que pariu pela tagarelice historiográfica e antropológica, vamos ao assunto principal do texto. Está lá, na certidão de nascimento do Brasil, inscrito em todas as letras, o olhar embevecido e lúbrico, desatinado de tesão, surpresa, e até de uma certa ingenuidade, do escrivão da armada cabralina, logo no início de sua carta a El-Rei, dando o tom de admiração e apaixonamento diante daquele mundo perfeito de corpos nus e folgazões, dedicados ao prazer, ao trabalho e à caça, sem qualquer grilhão que os obrigasse a uma rotina obrigatória, opressiva e sofrida sob o tacão do dominador.

Na transcrição de Sílvio Castro (L & PM, Inverno de 1985), o embasbacado burocrata lusitano, descreve com todo o gozo de um êxtase místico, a cena maravilhosa que tinha à sua frente (depois de semanas terríveis, chacoalhando entre maremotos e calmarias, cercado de machos,no infecto navio), na inimaginável praia baiana:

“Ali andavam entre eles três ou quatro moças, muito novas e muito gentis, com cabelos muito pretos e compridos, caídos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos vergonha nenhuma”.

“Vergonha”, para quem não conhece a gíria quinhentista, é buceta mesmo. E “cerradinhas” quer dizer fechadas. A pena do Pero Vaz,prova, portanto que, nossos “descobridores” europeus podiam ser doidos por ouro, escravos e riqueza, mas, ao contrário de seus irmãos peninsulares, não desprezavam,mas antes admiravam profundamente o que era bom e apreciavam bem a maior riqueza já produzida pela natureza.

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Em outro trecho, adiante, comenta, entre irônico (“vergonha – que ela não tinha!”) e admirado, sublinhando o vivo contraste entre as índias e as portuguesas:

“E uma daquelas moças era toda tingida, debaixo a cima, daquela tintura; e certamente era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha – que ela não tinha! – tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais feições, provocaria vergonha, por não terem as suas como a dela.”

E os espertos portugueses, forjados no sangue celta e mouro, enfastiados com as raras e terríveis visões das “aranhas” européias (cuja contemplação implicava numa série de aventuras perigosas,prenhas de percalços e, no mais das vezes, fadadas a levar à breca o infortunado aventureiro – fosse na perda de seus patacões ou da própria vida) não eram nada bobos e trataram de aproveitar a exposição gratuita e inédita e entusiasmante da buceta raspadinha brasileira.

O descobrimento ficou imortalizado em quadro que retrata a “primeira missa”.Mas podem ter certeza que, naqueles dias, muito mais do que a arenga devota do latinório clerical, o que aproximou mais a marujada e a fidalguia da expedição cabralina do céu prometido por Cristo foi a visão absolutamente surpreendente e imprevista do paraíso terreste na buceta índigena!

Ubirajara Passos

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VAGINA, MASTURBAÇÃO E HOMOSSEXUALISMO


Não, meus caros amigos, não se preocupem que não me tornei um burocrata do intelectualismo sexológico, nem um desses falsos moralistas que até suportam alguma alusão sexual, desde que seja de “alto nível” e, ao invés de se utilizar dos palavrões da “ralé”, contemple os insípidos e envergonhados termos cultos do título deste post.

O fato é que, outro dia, um companheiro de movimento sindical, enquanto lhe contava que havia mantido ferrenha oposição contra a diretoria petista do Sindjus-RS, desde o dia seguinte à posse, através deste blog, me respondeu, entre constrangido e penalisado: “eu acessei o teu site ontem, o negócio é meio pornográfico”.

Como os textos mais lidos deste blog incluem “palavrões” no seu título (“A Buceta de Pandora”, “A Buceta de Óculos”, “Hino à Buceta e outras Homenagens”, “Tendinite de Punheteiro” e “O Traveco Violentooo”), ao invés das “educadas” palavrinhas do título acima, nem me dei ao trabalho de lhe perguntar o porquê da pretensa “pornografia” (termo, que no sentido comum do dicionário, significa qualquer coisa com a conotação de “obsceno”, “imoral”, “sujo”). E fui logo lhe justicando que, apesar da “linguagem” utilizada, jamais escrevi aqui uma cena de sexo explícito e que sou até meio erudito, pois a “Buceta de Pandora” é uma velha lenda da mitologia grega, que rendeu até um conto a Machado de Assis.

Mas o sujeito sustentou a opinião, afirmando que tais textos transformam o blog em algo nada recomendável para interagir junto à base do Sindjus, já que não são coisa que uma senhora, ou senhorita honesta venha a acessar… Não disse, mas ficou implícita a conclusão de que um blog com este conteúdo é coisa freqüentável apenas por machos safados, boêmios, beberrões e animalescos (pois este negócio de sexo é coisa contraposta à ternura e sensibilidade do “sexo frágil” – as eternas e “puras” crianças que são nossas mães e avós, presentes, futuras e passadas).

Eu não me preocuparia, não tivesse uma chapa de oposição utilizado uma cópia impressa do “Bira e as Safadezas…” para demonstrar a “imoralidade” do candidato a diretor sindical aqui e afastar o voto dos eleitores “sérios e responsáveis”. E não fosse o meu crítico companheiro sujeito dos mais esclarecidos e combativos politicamente, destes que passa a milhares de quilômetros de distância do peleguismo e do conservadorismo burguês.

Mas é nestas ocasiões que a gente vê o quanto o sistema de dominação e coisificação das criaturas, que infelicita a maior parte da humanidade, se sustenta nas “pequenas coisas” e nas questões formalmente “menos ideológicas” e mais “inquestionáveis” possíveis. Não é nos grandes temas públicos, mas nos hábitos mais pessoais e quotidianos que se alicerça a escravidão assalariada e é por isto que o anarquista que vos fala elegeu como uma das principais frentes do combate de sua vida a questão sexual e da livre expressão e exercício do pensamento e do prazer, e não por tara irrecuperável ou gaiatice sem limites (ainda que eu seja realmente um cara fascinado pela coisa mais linda que a natureza pôs na terra e um adepto feroz da boemia e da “pândega intelectual”).

Na verdade, chego a ter pena, profundo pesar dos pobres tarados que acessam este blog a partir de termos de busca como “maior buceta do mundo”, “mulheres trepando com cavalos”, “trepada com desmarcado”, “putaria de macho”, “buceta fumando”, “buceta ardente”, “bundas imensas” e outras asneiras, na esperança de visualizar fotos ou vídeos safados, do melhor padrão sádico, artificioso e insosso de filme pornô “made in U.S., or Europe” (destes em que a mulher dá vinte gritos no limite da barreria do som por segundo, e a coisa parece mais uma tourada ou luta de gladiadores do que uma prazerosa trepada, além é claro das ridículas cenas de gatas babando de boca aberta, com cara de idiota, enquanto o pobre macho tenta acertar a pontaria da porra – isto “dá um tesão” tão grande, que nem com viagra se levanta mais o pau…).

Pois textos como “A Buceta de Pandora” e “Tendinite de Punheteiro” podem ter relação com qualquer coisa, menos com a pura e simples celebração erótica do sexo, e histórias como “O Traveco Violentooo” são não apenas de uma inocência digna dos causos contados nos domingueiros almoços “familiares”, mas não chegam nem perto das situações sexuais assumidas das novelas da Rede Globo em horário nobre. E quem se dar ao trabalho de verificar o número de textos existentes em cada categoria do blog, verá que os posts de natureza política ou poemas de amor representam bem mais do que a metade do total, enquanto as “Putarias” correspondem a apenas 30 de um total de 197 artigos publicados.

Na verdade o problema dos críticos de plantão que enxergam neste blog “a devassidão e a imoralidade” não está na pretensa “falta de recato”, nem na menção pura e simples do sexo (que representa para mim o que há de mais legítimo e natural no comportamento humano e não a pretensa aberração condenada pela sociedade autoritária e capitalista). O que os deixa horrorizados é a existência de um escritor “amador” que se utiliza da internet para combater a ordem sádica que reduz a grande maioria das criaturas humanas a mera ferramenta ou coisa para satisfação das frustrações e das tendências opressoras da psicopatia socialmente aceita (a dominação burguesa), que Reich, apropriadamente classifica nos cânones da “peste emocional”. Não duvido mesmo, embora não possa provar, que a grande maioria dos “pornógrafos” que aqui chegam à busca de imagens de “mulheres fogosas trepando com cachorros bem dotados”, se compõem dos mesmos “beatos” que clamam, entre si, contra a minha “falta de compostura e obscenidade”.

Quem crê que não é digno de uma mulher, e mesmo “ofensivo” a ela, a leitura de qualquer coisa que envolva sexo (o que suponho não seja o caso do meu amigo e companheiro de sindicalismo), na verdade está restringindo as fêmeas da espécie ao mero papel de “máquinas reprodutoras”, sem direito ao prazer puro e luminoso de seus corpos, e sequer à capacidade intelectiva e emocional de pessoas “adultas” (como se não existisse a “sexualidade infantil” e a racionalidade no pensamento das crianças) de seres tão ou mais dotados mentalmente do que os orgulhosos machos humanos. E o mordaz repressor do “erotismo” guarda na verdade, em relação a uma alegre e fogosa trepada, o mesmo pavor da presa frente ao caçador, porque suas concepções e instintos são de opressão e submissão (a bota que comprime a cabeça da lebre capturada contra o chão e o “prazer” de ver o medo e o pavor da vítima capturada) no que diz respeito ao assunto. São os “impotentes” mentais que só sentem prazer na tortura dos parceiros ou parceiras. Não é por acaso que na antiga Grécia a elite masculina valorizava acima de tudo o homossexualismo entre homens (o clube do bolinha gay) ao mesmo tempo em que celebrava como supremos representantes da humanidade os “heróis de guerra”. Os “machões” dominadores das fêmeas helênicas se compraziam tanto no contato do corpo masculino, uns com os outros, e estavam tão contaminados do sadismo decorrente da repressão do sexo espontâneo (os “impulsos secundários”, na terminologia reichiana, ou a simples raiva enlouquecida, a “reina” da linguagem popular gaúcha), que na carnificina da guerra gozavam muito mais que com as gostosas e sábias hetaíras.

Mas os meus críticos, no fundo, têm razão: este é um site terrivelmente “pornográfico”, sujo, nojento e rejeitável! Porque, além de menosprezar o rico léxico “decente” de nossa aristocracia capitalista (e usar palavras de “baixo calão”, só pronunciáveis sem pejo entre a “gentalha” que enche a pança e os bolsos da classe dominante com o suor e sofrimento do seu trabalho todo dia), defender a liberdade, o direito de cada um a ter uma vida digna de suas capacidades emocionais e intelectuais inatas, de viver plenamente a beleza e o prazer que corresponde à saúde com que a natureza nos gerou, e se opor à deformação e opressão das grandes maiorias em nome da estrutura emocional podre, infeliz e destrutiva da elite, num mundo que prima pela opressão e exploração desenfreada, tomar tais atitudes, realmente, é profundamente “pornográfico” e imoral.

Viva a anarquia!

Ubirajara Passos