O “anarquista” Darcy Ribeiro


Na crônica “O Vinho do Carlão”, há quase dois anos (em abril de 2006, quando eu recém iniciava este blog, ainda no provedor do Terra) eu citava, a respeito do protagonista da narrativa (o Carlão), que havia me mandado “uma mensagem em português todo empolado para este blog” e arrematava afirmando: “comentarei isto outro dia”. E desde então tenho deixado os leitores da época (ou que acessaram o texto posteriormente), e mantém a freqüência ao blog até hoje, na mais absoluta ignorância e frustração.

Mas, conforme fiz, na última semana, com a questão do DDA, cumpro hoje (com vinte e um meses de atraso) a promessa então feita – se é alguém ainda se lembra dela (o Carlão provavelmente lembrará). Pois a mensagem do sujeito, postada no primeiro texto do blog, o poema “Esconjuro Ateu e Libertário”, era assinada sob o pseudônimo de “Fernando Sabino” (o cronista preferido do Carlão, que como eu, ficou conhecendo seus textos na antiga coleção didática “Para Gostar de Ler”, da Editora Ática, lá nos tempos do “1º grau”, no final dos anos 1970). E lascava; “Texto de excelente construção léxica, demonstrando que o autor é um anarquista de fazer inveja a Darci Ribeiro”.

Nada de mais quanto ao irônico elogio sobre a “construção léxica”. O único problema é que Darcy Ribeiro (cuja última entrevista, pouco antes de sua morte, em janeiro de 1997, Carlão assistiu aqui em casa, em vídeo-cassete que gravei e ainda conservo comigo), tecnicamente falando, jamais foi anarquista. Ao contrário, antes de se integrar ao trabalhismo , após o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, e se tornar um dos fundadores do futuro PDT de Leonel Brizola, e signatários da “Carta de Lisboa” (o encontro de trabalhistas exilados e residentes no Brasil), em 1979, foi militante, nos anos 1930 e 1940, do “estalinista” Partido Comunista Brasileiro, de Luís Carlos Prestes. Mas, assim como Brizola, possuía traços bastante próximos de um libertário e, se não advogava a liberdade absoluta ou a “sociedade sem estado”, encarnou vida a fora a figura de um sujeito radicalmente livre, seja como pensador e cientista social, seja como político. Ele e Brizola foram, desde os meus quatorze anos (lá em 1979), as figuras que me influenciaram mais profundamente.

Darcy e Brizola

Leonel Brizola foi o grande arquétipo político da minha vida, mesmo que eu tenha me tornado anarquista. Ele encarnava a coragem e a segurança absolutos e, sobretudo, o radicalismo (aquela profunda crença no ideal, aquela energia interior de quem realmente quer mudar as coisas), e uma autenticidade a toda prova, que não dobrava a espinha aos críticos intelectualóides da esquerda “caricata”, nem às distorções difamadoras da mídia..

E em suas atitudes se podia constatar um profundo e real compromisso com o sofrimento do brasileiro comum que rala todo dia, bem como a mais incoercível oposição ao imperialismo capitalista que submete um dos mais ricos países do mundo (o Brasil) à situação de colônia miserabilizada (em que 90% da população sequer tem acesso a um computador ou a Internet, no fundo estou aqui escrevendo para a “pequena-burguesia”, não no sentido ideológico, mas daqueles “remediados” financeiramente como eu, cujo salário permite ter um computador e uma linha telefônica em casa).

Mas, se Brizola era a verdadeira encarnação do revolucionário sem armas, nem dogmas (ainda que socialista ou “social-democrata”, nunca foi “marxista” e não andava por aí recitando as teses do “Capital”, nem enquadrando os fatos na dialética do materialismo histórico, como muitos burocratas comunistas, mas vivia a prática revolucionária nas atitudes), uma espécie de “Super-Homem” nietzchiano da esquerda, nunca me inspirou a menor intimidade pessoal.Darcy na praia de Copabana, celebrando a vida
Com Darcy foi diferente. Embora nunca o tenha visto de perto (ao contrário de Brizola, que, em agosto de 1995, cheguei a seguir, da Carta Testamento na praça da Alfândega, em Porto Alegre, até a então sede do Banco Meridional,hoje Santander, quando embarcou no carro, sem coragem de abordá-lo, tímido sindicalista que eu era então), desde a primeira entrevista sua na televisão tive a impressão de estar diante de um camarada de pensamento e de buteco.

Darcy na praia de Copabana, celebrando a vida

E o pensamento e as tiradas do Darcy eu os conheci não através da fama distorcida de mero planejador de CIEPs (quando Vice-governador fluminense e Secretário da Educação de Brizola) ou “intelectual importante” (inclusive membro da Academia Brasileira de Letras) das cartilhas partidárias do PDT. De Darcy li os principais livros (O Processo Civilizatório, O Povo Brasileiro), assim como seus poemas (Eros e Tanatos, editado postumamente), o romance Maíra, o recordatário do Brasil no século XX “Aos Trancos e Barrancos – como o Brasil deu no que deu”, as antologias de ensaios “Gentidades” e o “Brasil como Problema”, além, é claro de sua auto-biografia, fantástica, as “Confissões”. E além dos livros, sempre me impressionaram suas entrevistas na TV (especialmente as concedidas a Roberto D’Ávila, como a última de sua vida) e eventuais participações em documentários.

Darcy com os  ndios do Planalto Central

E se Brizola era o que havia de mais próximo dos sentimentos do povinho comum, Darcy era o intelectual mais gaiato, menos hermético, mais entusiasmado, crítico, humano e sincero possível da nossa “esquerda” pensante. Ainda mais que não era intelectual de gabinete. Como etnólogo viveu por dez anos entre os índios do Xingu (cuja criação do “Parque Nacional” foi obra de sua pressão, dos irmãos Vilas Boas e de Noel Nutels sobre Getúlio Vargas). E como educador esteve à frente da criação da Universidade de Brasília. Sem falar nos cargos políticos exercidos em momentos capitais da história brasileira, como Chefe da Casa Civil do Presidente da República João Goulart, cargo que ocupava quando do golpe fascista de 1.º de abril de 1964, o que lhe valeu o exílio por boa parte do período autoritário.

Mas o que mais impressionava em Darcy Ribeiro, além do humor gaiato e inteligente, bem distante da “seriedade intelectual” dos burocratas do pensamento (na última entrevista faz uma entusiasmada recomendação, com uma felicidade de moça debutante, aos telespectadores que tivessem dor, como ele vitimado pelo câncer, para que “tome morfina meu irmão, morfina é muito bom”), era seu completo desapego do “bom senso” e sua ousadia sem espetacularismos, que o fez voltar ao Brasil (ele, figura proeminente, e tida por ideologicamente perigosa, do governo trabalhista deposto), com a cara e a coragem, em 1968, época dos protestos estudantis e do AI-5, em plena ditadura fascista raivosa e espumante.

E esta mesma ousadia “irresponsável”, moleque é que o fez fugir do hospital para viver plenamente e escrever seus últimos livros (como o Povo Brasileiro e as Confissões). Com certeza foi este jeitão irrequieto, absolutamente DDA, que saltava aos olhos no menor parágrafo de texto, a absoluta autenticidade e o humor de suas manifestações que fez com que o Carlão o identificasse, não de todo errado, como um “anarquista”, que, se não o foi na teoria e militância, o foi no exercício da própria vida: uma alma absolutamente livre, humana, defensora absoluta do direito a uma vida digna de gente para cada ser humano, e sobretudo incansável e entusiasmada.

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Darcy nunca reinou e ruminou sobre as nossas desgraças nacionais e aDarcy, o utopista sem fuzil frustração da revolução socialista, mas sempre manteve acesa a chama da construção de um Brasil digno para os brasileiros, não como mera esperança intelectualóide, mas na atividade prática. Foi o nosso Che Guevara embalado em samba e sem fuzil, melhor e mais tolerante, mas não menos indignado e determinado, por que batizado nas águas indígenas e africanas.

Na introdução de “Aos Trancos e Barrancos” (escrito em 1985), os dois últimos parágrafos dão uma idéia de sua ação e pensamento :

“Desejo apenas que este livro faça algum jovem pensar que é tempo de tomar este país nas mãos. Para construir aqui a beleza de nação que podemos ser. Havemos de ser! Para tanto, é indispensável impedir o passado de construir o futuro: quero dizer, tirar da gente que nos regeu e infelicitou através dos séculos o poder de continuar conformando-deformando nosso destino.

É hora de lavar os olhos para ver nossa realidade. é hora de passar o Brasil a limpo para que o povão tenha vez. No dia em que todo brasileiro comer todo dia, quando toda criança tiver um primeiro grau completo, quando cada homem e mulher encontrar um emprego estável em que possa progredir, se edificará aqui a civilização mais bela deste mundo. É tão fácil: estendendo os braços no tempo, sinto na ponta dos dedos esta utopiazinha nossa se realizando.

Ponha o ombro no andor, companheiro, faça força você também. Se não cuidarmos deste país que é nosso, os gerentes das multi e seus servidores e sequazes civis e militares continuarão forçando o Brasil a existir para eles.”

Para terminar este panegírico, que vai ficando extenso e pouco diz do elogiado (nem sequer citei o que seria o maior “orgulho institucional” dos burocratas do PDT: o fato de Darcy ter sido senador do partido, pelo Rio de Janeiro, nos últimos anos de vida), reproduzo abaixo o prólogo das Confissões (1996), que neles o leitor “sentirá”, mais do que constatará racionalmente, a essência do que era o vulcão Darcy Ribeiro:

“Escrevi estas Confissões urgido por duas lanças. Meu medo-pânico de morrer antes de dizer a que vim. Meu medo ainda maior de que sobreviessem as dores terminais e as drogas heróicas trazendo com elas as bobeiras do barato. Bobo não sabe de nada. Não se lembra de nada.Tinha que escrever ligeiro, ao correr da pena. Hoje, o medo é menor, e a aflição também. Melhorei. Vou durar mais do que pensava.

Se nada de irremediável suceder, terei tempo para revisões. Não ouso pensar que me reste vida para escrever mais um livro. Nem preciso, já escrevi livros demais. Mas admito que tirar mais suco de mim nesta porta terminal é o que quisera. Impossível?

Este livro meu, ao contrário dos outros todos, cheios de datas e precisões, é um mero reconto espontâneo. Recapitulo aqui, como me vem à cabeça, o que me sucedeu pela vida afora, desde o começo, sob o olhar de Fininha, até agora, sozinho neste mundo.

Muito relato será, talvez, equivocado em alguma coisa. Acho melhor que seja assim, para que meu retrato do que fui e sou me saia tal como me lembro. Neguei-me, por isso, a castigar o texto com revisões críticas e pesquisas. Isso é tarefa de biógrafo. Se eu tiver algum, ele que se vire, sem me querer mal por isso.

Quero muito que estas minhas Confissões comovam. Para isso asDarcy nos últimos meses de vida escrevi, dia a dia, recordando meus dias. Sem nada tirar por vexame ou mesquinhez nem nada acrescentar por tolo orgulho. Meu propósito, nesta recapitulação, era saber e sentir como é que cheguei a ser o que sou.

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Quero também que sejam compreendidas. Não por todos, seria demasia. mas por aqueles poucos que viveram vidas paralelas e delas deram ou querem dar notícia. Nos confessamos é uns aos outros, os de nossa iguala, não aos que não tiveram nem terão vidas de viver, nem de confessar. Menos ainda aos pródigos de palavras de fineza, cortesãos.

Quero inclusive o leitor anônimo, que ainda não viveu nem deu fala. Mas tem coração que pulsa, compassado com o meu. Talvez até me ache engraçado, se alegre e ria de mim, se tiver peito. Não me quer julgar, mas entender, conviver.

Não quero mesmo é o leitor adverso, que confunde sua vida com a minha, exigindo de mim recordos amorosos e gentis, apagando os dolorosos, conforme sua pobre noção do bem e da dignidade. O preço da vida se paga é vivendo, impávido, e recordando fiel o que dela foi dor ou contentamento.

Termino esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras. A você que fica aí, inútil, vivendo vida insossa, só digo: ‘Coragem! Mais vale errar, se arrebentando, do que poupar-se para nada. O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Essa é, aqui e agora, a nossa parte. Depois, seremos matéria cósmica, sem memórias de virtudes ou de gozos. Apagados, minerais. Para sempre mortos’.”

Peço paciência aos leitores que preferem textos mais ágeis e concisos, mas o resgate deste meu “guru” (nos trechos reproduzidos devem ter percebido algo da influência no que escrevo), há muito estava planejado, era necessário, e casualmente se fez no mês em que se completam os dez anos da sua morte (ocorrida em 17 de janeiro de 1997).

Ubirajara Passos

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PENUMBRA APENAS


Aí vai, para ajudar algum leitor entendiado a adormecer de aborrecimento, um triste produto da minha insônia, recém-parido:

Penumbra apenas

Três horas da madrugada.
Na rua os gritos pingunços
Sobressaltam a modorra
Dos ruídos uniformes
Dos carros na avenida.

A noite enjoada dormita
Sonhando as últimas horas
Dos butecos e bailões,
Transformando a euforia,
A dança de corpos, copos,
Na náusea das nebulosas.

Lua e estrelas bocejam,
Algumas até tropeçam
No canto desafinado,
No grito desatinado
Dos boêmios cambaleantes.

E eu, mais sem rumo que eles,
Mais entendiado que a lua,
“Lúcido” e ínsone, sem graça,
Ouço a noite e seus silêncios
Salpicados dos ruídos
Anônimos e tediosos.

Aborrecido, sou a noite,
Dos cães sou débeis ganidos,
Sou bêbados, sou motores
De carros, sou a penumbra
De uma madrugada eterna,
Repleta do sem-sentido
E falta de escuro ou luz.

Sou um eterno devir
Que jamais se faz presente
E carece de passado.

Gravataí, 20 de janeiro de 2008

Ubirajara Passos

PERUCA E A LOIRA NO CIO


Infelizmente não era o loiro dos cabelos (e pentelhos, que era uma loira “natural”!) o responsável pela reputação daquele pedaço (monumental) de mau caminho.

Branirrilde (como fora registrada pelo escrivão analfabeto ao ouvir a pronúncia do nome alemão), apesar de ter “secretariado” o advogado cível mais famoso da região de Cacimbinhamburguer, possuía dotes intelectuais tão vastos quanto o Peruca. Um de seus maiores feitos foi lascar, numa prova de Direito Processual, que “embargos infringentes” é o que ocorre quando um homem bota o saco pra bronzear ao sol do meio-dia!

Dizem as más línguas que só obtivera o emprego, e era aprovada nas provas da Faculdade, graças ao volume, consistência e alucinante formato curvilíneo do traseiro, que lhe valeu o apelido de “Bundilde”. Aliás, não era uma bunda qualquer! A coisa era estupenda, um monumento aos olhos brasileiros, e se fazia acompanhar de generosos seios, daquela cinturinha de vespa e de um sorriso de mula no cio que virava a cabeça da homarada! E o pior de tudo: a criatura botava no chinelo qualquer jogador de basquete norte-americano: um metro e noventa de pura gostosura, ou, conforme depoimento do “pastor” Kadu Macedo: “como diria meu velho avô, é uma égua de tão gostosa”!

E aquele tanque de guerra sexual, vindo do interior com a família (o pai era preparador físico e fora contratado por um time de divisão inferior da capital), veio estacionar justamente na Universidade Luterana (a Ulbra) de Gravataí!

Durante um mês a coisa foi um completo rebuliço e a epidemia de cio tomou a universidade a ponto de obrigar a suspensão das aulas. Bastava Branirrilde pôr os pés no corredor que a gurizada dos mais diversos cursos (da Psicologia à Administração) abandonava a sala e se punha de quatro a zurrar e babar enquanto assistia o desfile da “ingênua” potranca, que passava lentamente, de mini-saia e salto alto, com aquele ar de puta feliz que ganhou duzentão pra ver o “cliente” sessentão roncar na cama!

Mas a loira safada era exigente: apesar da provocação dissimulada não dava bola pra ninguém! E ainda fez espalhar o boato (completamente “verdadeiro”, segundo a sua coleguinha mais chegada, a “Nega Um Sete Um”) que honrava a portentosa bunda e a coisa que mais gostava de fazer era dar o cuzinho… mas só pra jogador de futebol, em quem papai confiava!

Houve algum tarado mais afoito que ainda insistiu (como o Camarguinho-chama-o-hugo, que tomou um pifão de dois copos de cerveja pra criar coragem e passou uma semana com a cara torta a tapa, num torcicolo “intencional”), mas por fim o gelo despeitado tomou conta da matilha de estudantes.

Até que um dia a cadelona “ingênua” ia fazendo o seu desfile solitário, desconsolada e de beiço caído por falta de platéia, quando esbarrou – literalmente – no Peruca! Ninguém sabe explicar, mas parece que a coisa foi “tesão à primeira vista”. E, não fosse a fidelidade do lendário bocaberta a sua Schuvaca Horripilis, teria se cumprido a profecia do Apocalipse: a união das duas bestas ao quadrado – cuja fórmula esotérica explosiva, em relação a qual o capeta seria um mero gatinho a balbuciar “miau”, não seria “666”, mas “696996”.

Branirrilde, entretanto, era persistente, possuía uma determinação inversamente proporcional ao quadrado do seu Q.I. e, num belo dia, aproveitando um “apagão” no prédio, investiu com artilharia pesada, suspirante e dengosa, em ataque contra o estudante refratário: “Ai, Peruca… Me disseram que tem um tarado a solta atacando as gurias aqui na Ulbra! Tu não podias descer comigo a escada até o banheiro? Eu acho o caminho mesmo no escuro, mas tô sem calcinha e vai que o taradão me ataca!”.

O convite não foi nada sussurrante e a canalha masculina entrou em júbilo de relincho e coice: finalmente a cretina cedera a um seu igual! Franja (Gílson Dinastia), Camarguinho-chama-o-hugo e Kadu Macedo só não “rasgaram suas vestes e se cobriram de cinzas” como os hebreus do Velho Testamento, não de tristeza como aqueles, mas de absoluto alívio, por não possuírem os apetrechos necessários e a coisa andar meio fora de moda há uns bons dois milênios!

Mas eis que, como diziam as velhas carolas amigas de minha mãe, parece que um anjo estava de plantão no céu, pronto a emitir o seu “amém” (assim seja), justamente no momento em que o Peruca se debatia nas brasas da dúvida, naquela hora do dia em que seu cérebro entrava em “black out” (exatamente como a faculdade) e a resposta foi um não redondo, estrondoso e apavorado!

Na modorrenta penumbra ouviu-se, então, um coro, não de anjo ou de demônios, mas profundamente humano, doído, assustador e soturno: “Isto não existe! Eu não acredito!” E, murcha e de orelhas caídas, a turma do Peruca tratou de se arrastar até o quadro de chaves elétricas, no porão, e restabelecer a luz, que a armação pouco adiantara!

Desde então não há outro debate: Kadu jurou-me acreditar, em nome de São Goró, um dia destes, em plena mesa de bar, que “o Peruca só não é gay porque é teimoso – já que possui todo o kit necessário para isso”. E Camarguinho-chama-o-hugo, do alto de sua inspiração etílico-budista me jurou: “não é bem assim, a Schuvaca é que é hermafrodita, por isso continua o casamento!”.

Ubirajara Passos

PEQUENO DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO SOCIAL – 4


Vaidade: originária dos termos latinos vanitas, vanitatis – cujo significado é, nada mais nada menos, que vacuidade (o que é próprio do vácuo), ou seja: VAZIO ABSOLUTO! A palavra equivalente em espanhol (vanidade) é ainda mais esclarecedora, pois sua própria sonoridade (que no Português perdeu o anasalado do primeiro “a”) nos faz identificar a referida característica psicológica com aquilo que é vão, fútil, inútil e sem qualquer importância.

O vaidoso típico, portanto, não é aquele sujeito arrogante (mas eventualmente competente), grávido das suas qualidades e que se julga superior a todos, nem o narcisista orgulhoso e apaixonado por si mesmo.

O que caracteriza profundamente o vaidoso “clássico” (não só no sentido linguístico do latim, mas típico em termos de comportamento) é o imbecil cheio de si, que se auto-atribui a maior importância e valor, mas que (ao contrário da auto-promoção sofregamente procurada) é, na verdade, um redondo e absurdo “NADA”. Aquele cara tão medíocre e desprovido de qualquer capacidade que o distinga de um asno, que necessita, viltalmente, impor sua miragem de fama e superioridade a manadas e hordas de milhares, milhões e bilhões de seres humanos, seus irmãos de espécie, para não cair no caos interno e no suicídio.

Um Darcy Ribeiro (que adorava um elogio sobre si), por exemplo, até poderia ser um narcisista, mas criaturas como Lula (além de safado, completamente inábil e medíocre – vide a famosa gafe em visita ao continente africano: “achei aqui tudo muito limpo, nem parece a África”) ou George Bush são o protótipo do vaidoso, que, como um ciclone ou um tornado, nada possuem em seu interior (o centro), mas espalham catástrofe e desgraça por toda área atingida pelo raio de sua circunferência.

Ubirajara Passos

QUE DIABO É “DDA”?


Detesto os escritores ou palestrantes metidos a besta que mencionam um conceito ou termo obscuro, para a maioria, anunciam que vão defini-lo outra hora, e deixam todo mundo a ver navios, para se fazerem importantes. E, como no último post citei pela vigésima vez a siglazinha cretina, que há meses prometi explicar, e tenho a mania da coerência, aí vai uma tentativa de caracterização do que já foi conhecido, ridícula e perjorativamente, como “disfunção cerebral mínima ” (o que equivalia, nos anos 1970, para a maioria do povo a debilidade mental) e, pelo que se sabe das biografias, já foi “doença” constitucional de criaturas como Newton ou Albert Einstein.

Distúrbio do Deficit de Atenção (DDA) é a denominação, completamente inadeqüada, que se dá a uma síndrome (uma interação entre uma condição biológica e sintomas emocionais) caracterizada pela “inconstância” da atenção, a conseqüente hiperatividade física ou mental e os freqüentes lapsos de memória, a impulsividade, “desorganização” prática e super-concentração mental que acomete seus “portadores”.

Se o companheiro que me lê é daqueles sujeitos que, tendo ido da cozinha ao quarto buscar algum objeto, não se lembra mais ao chegar nele o que ia fazer e, no meio do caminho, se viu absorvido pelos mais diversos estímulos físicos ou mentais (daquele calendário enlouquecedor com a “Siri” do Big Brother pelada àquele insigth genial que surgiu do nada) ou simplesmente “viajou na maionese”… Ou costuma fazer dez mil coisas ao mesmo tempo (como assistir televisão, escrever ao computador, bater uma punheta e dar uma cantada telefônica na vizinha gostosa), não suporta uma aula ou discurso longos e monótonos e se põe a rabiscare balançar as pernas, e outras tantas situações semelhantes – seja bem vindo: o “clube do DDA é o teu lugar”.

A teoria mais aceita entre os especialistas (neurologistas e psicólogos) é de que tais criaturas humanas sofrem de uma irrigação sanguínea deficiente no lobo frontal do cérebro, que – segundo eles – é responsável pela “censura” e travamento dos impulsos recebidos das mais diversas partes do encéfalo, possibilitando à “humanidade normal” (a maioria) um comportamento contínuo, padronizado e previsível, e sobretudo “organizado”! E por isso, tanto podem ser uns desmemoriados e dispersivos completos quanto (o que admitem os próprios especialistas) podem se concentrar durante horas e dias em assuntos do seu interesse, mantendo em relação a estes uma memória prodigiosa!

Quem “sofre” de DDA, já tendo ou não sido submetido ao tradicional tratamento com ritalina (uma prima da cocaína que estabiliza estes doidões) ou à psicoterapia cognitivo-comportamental, já sentiu no couro, independentemente das teorias médicas, sua “diferença” da maioria do rebanho humano. E que há algo de físico ou genético que condiciona seu “funcionamento”. Mas o que salta aos olhos na própria literatura especializada é a importância enfática que é dada à imprevisibilidade, à falta de “controle” e à indaptabilidade do sujeito DDA às rotinas rígidas, ao cumprimento de horários e protocolos, à obediência pura e simples e todo o corolário que caracteriza a saudável humanidade adestrada ao trabalho robotizado do moderno capitalismo industrial e informatizado. Ou seja, apesar de uma certa base biológica constatável, a síndrome é abordada e tratada, sobretudo, na perspectiva de um “desvio” da regra socialmente aceita, uma espécie de moléstia geneticamente condicionada, perigosíssima, que pare seres humanos livres e (o que é pior para o poder dos senhores proprietários) geniais (os próprios estudiosos admitem o “Quociente de Inteligência” elevadíssimo dos DDAs e, não por acaso, encontram traços da “doença” entre gênios como Mozart, Da Vinci, Beethoven, Fernando Pessoa ou Marlon Brando)!

Houve mesmo uma terapeuta “fora da ordem” e fofoqueira (daquelas que contava todas as “mazelas” de um cliente para o outro, principalmente se amigos ou colegas de trabalho), mas controladora, que se dizia igualmente DDA, que um dia me afirmou: “Bira, se tu disseres na rua que te falei, eu respondo que é mentira, mas se anda especulando que o ‘DDA’ é um sujeito que está na fronteira de transição evolutiva rumo  à ampliação do cérebro humano!” Do que não duvido – ao menos que a espécie, condicionada e domesticada por milênios de opressão e rotinização, tenha perdido as potencialidades que o antigo primata ancestral possuía e que hoje fariam o nosso supremo deleite intelectual e físico, diferente do tacanho mundo do “homem-relógio”, que faz tudo a horas e em lugares certos, sem prazer nem dor, sem gosto, como um bife de isopor. Caso em que a involução é que feriu historicamente a maioria, sendo malucos como eu e meu amigo Valdir Bergmann o resultado imprevisto da sobrevivência da velha forma original da mente!

Afinal, noventa por cento dos problemas psicológicos resultantes da síndrome (o sentimento de inadeqüação e rejeição social, a depressão, a tendência à solidão, a neurose e a timidez profunda, a completa falta de auto-estima…) são antes resultado da rejeição de um mundo “normopata”, fossilizado e aferrado ao automatismo bovino do trabalho compulsório e da sociedade hierarquizada e compartamentalizada (na qual os papéis fixos não deixam margem para a liberdade e a criatividade) do que dos “sintomas” objetivos do DDA. Não é por acaso – e aí cito Ana Beatriz B. Silva, autora não-DDA de “Mentes Inquietas” (cujo conteúdo excelente e esclarecedor me fez identificar como “portador”, o que não ocorreu em anos de tratamento com a terapeuta fofoqueira) – que o cara DDA pode não ser um bom “apertador de parafusos”, mas, um excelente ator, por exemplo!

Opinão da minha ex-terapeuta: “o DDA é uma piada de Deus”. Opinião do blogueiro tresloucado: O DDA, se é que há, é o anarquismo condicionado geneticamente! Gracias,

Ubirajara Passos

O SAPATO DO RAUL


Não sou muito dado a escrever sobre essas “banalidades” (como diz o meu amigo Valdir Bergmann), mas o fato é que ainda estou convalecendo mentalmente, o que me impede, por enquanto, de alçar maiores vôos políticos e literários e poupa Lula, a petesada da direção do Sindjus-RS e a governadora “gaúcha” nascida em São Paulo de uma saraivada de pau bem merecida, neste início de 2008.

Antes que algum leitor ou amigo apavorado imagine que desta vez não foi alarme falso (como na volta de São Paulo em março) e que tive um acidente vascular cerebral vou logo avisando: podem relaxar que não foi nada disto. Nem o meu sumiço de Gravataí ou do blog se explica pelo possível internamento em algum hospício como o São Pedro, em Porto Alegre (que é o destino de todo louco pobre).

O fato é que (devido a um encontro com a minha gata preferida que atrasou apenas sete horas) tive de mudar os planos de assistir a virada de 2008 na praia do Hermenegildo, no extremo sul do Brasil, com a ex-coordenadora geral do Sindjus, Magali Bitencourt e a turma da oposição sindical de esquerda, e fui passar o ano-novo em Santa Rosa-RS. E depois de sete dias contínuos de porre com o Alemão Valdir (que principiou já na madrugada de 31 de dezembro, quando lá cheguei pelas 6 horas, e se estendeu até o domingo dia 6), me vi com o cérebro totalmente formatado (ou seja, completamente vazio). Ainda mais que “somos intelectuais” e nossas bebedeiras são animadas pelas mais abstrusas discussões políticas, filosóficas, esotéricas, além de outras “banalidades”, é claro, cujo esforço mental exigido deixa um portador de DDA como eu completamente exaurido.Eu enchendo os cornos de goró na véspera do ano-novo

O “diabo do Valdir” (que é DDA também), por exemplo, lá pelo terceiro dia de porre, num raro momento de lucidez, em que curtia a mais atroz ressaca, se viu tão desconfortado como o mundo e consigo mesmo que ameaçou, com os olhos esbugalhados e a boca escancarada, comer o ventilador de teto em movimento e, não tivesse eu lhe arrebatado das mãos os vidrinhos de sal e pimenta (com que tencionava temperar o pobre eletrodoméstico), a esta hora estaria soltando a maior ventania pela boca!

Mas vamos falar de coisas sérias, chega de asneiras subjetivas e cretinas! Lá o que querem saber os leitores da minha bebedeira, de quantos peidos (que são o foguete dos “sem-dinheiro”) soltei à meia-noite de 1.º de janeiro, ou se chamei o Hugo na primeira madrugada do ano (o que juro não ter feito). Há muito assunto profundo e grave a ser aqui esmiuçado. Como a plaqueta de madeira artesanal com que me deparei em uma tenda de camelô, no túnel que dá acesso à Estação Rodoviária de porto Alegre, na partida para o Noroeste do Rio Grande do Sul, no domingo dia 30 de dezembro: “Não adianta ser rico. A melhor coisa da vida a gente faz pelado“. Concordo plenamente com o autor. Tanto que, não fossem as limitações impostas pela minha timidez e falta de atributos físicos e artísticos padrão porque suspira a maioria das gatinhas (que não impediu, entretanto de comer umas oitenta mulheres ao longo da vida), fuderia umas três vezes ao dia, no mínimo. O filosófo popular se esqueceu, entretanto, que , na maior parte das vezes, o prazer sádico da classe endinheirada não só “fode” com a nossa vida de peões, como ainda obriga , pela força de seu poder social e econômico, velhos boêmios como eu a esvaziar a carteira para poder estar pelado com as mais gostosas e fogosas fêmeas.

 

O diabo do Valdir, puto da vida por que não lhe deixei comer o ventilador

O assunto, aliás, o sexo, parecia estar na pauta dos deuses da “sincronicidade” (a “coincidência” providencial de esotéricos e junguianos), naquele dia. Tendo de suportar uma espera de mais quatro horas pelo ônibus (e me encontrando na rodoviária por absoluta faltas de opção de lazer na noite de domingo da capital do extremo sul do Brasil), comprei em uma banca de revista o velho poema do romano Ovídio, “A Arte de Amar”, que me encontrava lendo quando uma abelha sentou-me mansamente no indicador da mão direita e ali ficou passeando até ser enxotada pela minha fobia histérica, sem picar. Resta saber se foi atraída pelo cheiro de algum resto da coca-cola que eu acabara de beber, ou simplesmente queria conferir as dicas do “Kama Sutra” latino.

Se algum leitor histérico já está babando de raiva, e querendo comer um ventilador de teto, a esta altura, por não entender a relação entre o título e toda esta tagarelagem inútil, aí vai a explicação: retornado a Gravataí na quarta-feira, após descansar da viagem de oito horas e recompor o corpo (que a mente o abandonou e ainda não voltou) fui ontem comprar um sapato novo, no centro da cidade e acabei por cometer a heresia de adquirir um sapatênis, coisa que até hoje não havia usado. Por mais irreverente e debochado que seja, este anarquista e boêmio quarentão que vos fala jamais levou a sua irreverência além do limite de transar com um aparelho de ar-condicionado (ligado no frio) e tentar ensinar matemática ao Peruca. E, já que estava comprando um sapatênis, resolvi comprar o modelo mais fora da ordem possível, digno de ser usado pelo velho Raul Seixas – o pirado, desbocado e sarcástico cantor anarco-esotérico que é um dos meus heróis e escreveu e cantou coisas como “vem cá mulher, deixa de manha,/ minha cobra quer comer tua aranha”, em plena sisudez da ditadura de João Figueiredo (o general gorila que preferia cheiro de cavalo ao cheiro do povo). Feliz 2008 atrasado para todos!

Ubirajara Passos
O sapato do Raul