UM SONHO DO CARALHO


Juro que, apesar das características de piada de programa humorístico de sábado da Rede Globo, a coisa realmente aconteceu comigo e, dada a força com que ocorreu, dificilmente seria o remanescente de algum episódio literário ou rádio-televisivo esquecido.

O fato é que, curtindo aquela preguiça louca da manhã, no último domingo, eu acabei adormecendo novamente e, como em tantas ocasiões já me ocorreu nos últimos anos, de repente me vi em meio a um sonho consciente. Ou seja, um daqueles sonhos cretinos em que o sujeito está sonhando, sabe que sonha e, na maior parte das vezes, tenta controlar o roteiro do sonho, conseguindo ou não, ainda que não tenha, como eu, lido a “A Arte do Sonhar” do Carlos Castaneda, que – apesar do meu materialismo tingido de contraditório misticismo ateu – me fez percorrer corredores, abrir portas e tentar correr rumo a um horizonte que se ía enegrecendo, até acordar, nos mais diversos episódios oníricos, desde que dei com o livro, uns quatorze anos atrás.

E, antes de prosseguir, é necessário que eu advirta, também, os pobres leitores, que já devem estar com o saco pra lá de cheio com toda esta enrolação de cronista amador (o Kadu, se estiver me lendo, a esta altura já deve ter chutado umas dez vezes o retrato de sua professora de Ciência Política), que, nem na noite anterior, nem na manhã do fato, eu havia tomado qualquer porre de absinto, conhaque, vinho de garrafão ou cachaça paulista daquelas que, ao que parece do efeito, devem ser fabricadas com álcool para automóveis. Assim como não fumara qualquer cigarrinho do capeta – coisa que fiz apenas uma vez na vida, na casa de uma amiga, há uns quantos anos, já burro velho, e que, além de não me dar muito barato, tanto que me lembro perfeitamente do ocorrido durante a inalação da marijuana, achei tremendamente insossa frente a um bom porre etílico, mantendo minha exclusiva condição de bêbado irremediável.

Fique também claro que não tomei nenhum chá de cogumelo ou bala de êxtase e que, apesar das semelhanças, o protagonista do sonho não possuía, ao que se verifica, nada em comum com o o asno de Balaão ou com o rinoceronte do delírio de Brás Cubas, no famoso e melhor (na minha opinião, que vejo em Dom Casmurro uma obra menos sensacional) romance do mestre Machado de Assis, que li, comungando do espírito sarcástico do livro, aos quinze anos de idade.

Mas eis que, me achando nos braços de Morfeu (que, conste para os desavisados, é o deus grego do sono e não nenhum leão de chácara de boate gay), eu estava deitado em uma cama de uma casa que sabia não ser a minha, numa luminosa manhã, e, me virando para a esquerda, onde havia uma pequena escada de uns três degraus, dei com o inusitado ser. Que, pela energia forte que senti, velho leitor do junguiano Roberto A. Johnson (o autor de He, She, We, entres outros livros), com certeza devia ser um poderoso arquétipo (um padrão de energia e comportamento emocional universal da psicologia humana), ainda que me lembrasse um simples personagem simbólico de fábula de um velho filme holywoodiano que assisti há mais de vinte anos, quando minha mãe ainda era viva.

A criatura, entretanto, era bastante estranha para representar um deus pagão, um elemental ou uma consciência intemporal qualquer, apesar do ar de autoridade e irrefutável sabedoria, que a distinguia perfeitamente de qualquer vaidoso Tarso Genro. Era nada mais que um “pato” ou ganso, de barriga azul celeste , bem claro, e bunda branca – a que faltava apenas uma mancha preta para ser gremista, que é uma qualidade fundamental para um pato, na minha modesta opinião de colorado pouco entendido em futebol.

O bicho era fascinante. Podia ser meio inusitado. Mas foi justamente o ar exótico e a fantástica e forte emoção que inspirava que me fez pedir: “Pássaro azul, me diz a verdade!” E, não sei como, pois que o mestre animal não fez qualquer gesto além de me encarar com aquele supremo jeito de quem sabe, soube e saberá tudo (uma verdadeira “divindade” no sentido emocional profundo da coisa, muito além da chatice antropomórfica do deus cristão), entendi que devia encostar o ouvido ao seu bico.

Finalmente eu conheceria a verdade (que nem sei porque solicitei no sonho). Mas não uma verdade qualquer! Dali, daquele estranho primo do Pato Donald”, sairia “A Verdade!” Me seria revelado todo o mistério da formação e da composição profunda do Cosmos. Quem sabe o remédio supremo para o sofrimento humano, o significado oculto das mais estapafúrdias tropelias das nossas pobres vidas, ou o segredo absoluto da Pedra Filosofal, capaz de transformar em ouro uma existência de esterco de vaca, para nós, miseráveis mortais acorrentados a uma extinção certa, apesar de toda rica e envolvente agitação que nos faz desejar mais e mais vida!

O momento era solene. De uma solenidade que eu, velho anarquista cético e avesso à pompa e ao artificialismo ritual, reconhecia válida e viva. E aí o bico sagrado se moveu e dele, numa voz roufenha e estridente, como o auto-falante de uma kombi ou carroça de verduras, veio a frase:

Ô meu, tu dá muito doidão!

Ubirajara Passos

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STALIN ERA ESPIÃO DO CZAR


–ESCRITO NA NOVA ORTOGRAFIA REVOLUCIONÁRIA DA LÍNGUA PORTUGUESA−

O PT, kuando de sua fundasão, já posuía nesesariamente matizes ke antesipavam as karakterístikas atuais do governo Lula. Fundado por padres vermelhos (ke, apezar de vermelhos, não deixaram de ser padres, e, portanto, totalitários) estudantes universitários e intelektuais pekeno-bugeses de eskerda (ke podiam ser de “eskerda”, mas kontinuavam a pertenser a uma pretensa “elite” kultural arrogante, kom ábitos e ideolojia identifikados à klase dominante) e por sindikalistas, posuía nos seus kuadros a perfeita reseita de bolo do fasismo vermelho ke pouzaria seus pés no Palásio do Planalto em 2003 kom uma kara kada vez mais prósima a de seus konjêneres da direita formal. Entretanto, não fose o Inásio dos Nove Dedos, seu líder maior, um sindikalista pelego treinado na eskola yankee do Iadesil (“Instituto Amerikano de Sindikalismo Livre”, patrosinado pela ajênsia sekreta do imperialismo amerikano, a CIA) e não viveríamos, hoje, no Brazil, a perfeita réplika, modernizada e em rejime formalmente demokrátiko, da polítika sosial, ekonômika e internasional da velha ditadura militar fasista e pró-imperialismo.

Pois komo na istória nada é kazual, o fato é ke, apezar do perfil um tanto autoritário da proposta sosialista de Marx e Lênin, o “sosialismo real” ou fasismo vermelho só se transformou na mais burokrátika, kontroladora e butral opresão da umanidade trabalhadora, sob o pretesto paternalista de sua própria defeza, grasas ao karáter, ao pasado e à formasão do sujeito ke konsolidou-o na antiga União Soviétika, o kamarada Josef Stalin, ke sofistikou seus métodos e refinou sua ideolojia komo ajente provokador infiltrado e espião da polísia sekreta polítika do Kzar (o monarka ruso), ke no grande império não atendia pelo nome de DOPS, Doi-Codi ou CCC, mas por Okhrana.

A koiza está esplikada na revista História Viva (de ke os artigos estranjeiros konstituem a edisão brazileira da franseza História) de marso pasado, kuja matéria sita, entre outros itens de bilbliografia, o livro “Rabotchëie dvjenie i sotsial-demokratia na Kavkzie”, de S. T. Arkhomed (Genebra, 1910!) e o artigo “Stalin i tsarkaia okhranka”, publikado no Sovierchenno Sekretno nº 7, de 1990, por Z. Serebriakova. O ke elimina kualker posibilidade de mera espekulasão sensasionalista ou difamasão direitoza deskabelada, a moda das reportajens publikadas pela brazileira Veja, no último ano, sobre Che Guevara e Fidel Castro.

Stalin jovem

Iossif (Josef) Vissarionovitch Djougachivili, nascido na Jeórjia (então provínsia do Império Ruso) em 21 de dezembro de 1879, era rapazote ainda kuando estreou a série de traisões ke akabariam-no konduzindo ao komando da futura União Soviétika e da lideransa de partidos e governos komunistas mundo a fora até o meio do sékulo XX. O seminarista (koinsidênsia, não?) Zezinho do Aso, lá pelos seus vinte anos, em 1899, andava um tanto entediado, apezar de ter se filiado a um sírkulo revolusionário sosial-demokrata (nome por atendia, na époka, o marxismo em jeral nos países não-latinos – só kom a revolusão de 1917 os sosialistas marxistas da ala eskerda pasarão a se auto-denominar komunistas). E, kansado de dar o ku (não konsta da matéria, mas ele estudava em um seminário, né…), rezolveu fazer koiza mais rentoza: eskondeu os panfletos subversivos ke resebia no partido entre os objetos pesoais de seus kompanheiros internos e depois dedurou todo mundo komo komunista komedor de kriansinhas pro reitor do seminário. O rezultado foi a espulsão de 45 pobres estudantes (já ke eskola relijiosa era uma rara posibilidade de aprendizado para os mizeráveis proletários rusos).

Daí por diante, até sua prizão na Sibéria em 1913, ensetará a mais fantástika eskalada de sinismo e disimulasão, ke kulminará numa das mais fulminantes karreiras polítikas da istória. Em 1901 vamos enkontrá-lo trabalhando komo kontador no observatório da kapital de sua provínsia natal, Tífilis, e imprimindo e distribuindo tresloukadamente seus panfletos rebeldes, em sosiedade kom um bandido armênio xamado “Kamo”, kom o kual montara uma tipografia klandestina. Já então seus dirijentes sosial-demokratas konstatam sua vokasão de futuro “Kabo Anselmo” da Rúsia: os panfletos dão mais pau nas lideransas do partido operário ke nas autoridades do kzarismo imperial opresor. E Koba, apelido ke adotara e ke bem poderia ser “Kobra”, ajuda a konvokar e organizar uma manifestasão de 1.º de maio arkitetada pelo DOPS ruso, kuja pauleira dezenfreada rezulta na prizão do enviado lokal de Lênin, Victor Kournatovski. A reperkusão foi tamanha ke o Ministro do Interior (ao kual era subordinada a Okhrana) determinou investigasões sobre as orijens da manifestasão e o xefe lokal da polísia sekreta não teve outra saída, para disfasar, ke não fose akusar o Zezinho do Aso. Ke espertamente foi se eskonder na sua sidade natal, Gori, no interior da provínsia. Mas, komo kara de pau konvensido ke era, voltou à Tífilis uns sinko mezes depois e tentou se elejer komo líder dos poukos revolusionários ke aviam eskapado ao masakre. Os sosial-demokratas de lá não eram, entretanto, tão imbesis kuanto Lênin, e o mandaram pastar, espulsando-o do partido, em 11 de novembro de 1901, por unanimidade votos!

Três anos depois, entre prinsípio de 1904 e meados de 1905, Koba e seu amigo Kamo se dedikam à nobre arte do asalto nos arrabaldes tifilienses, além de se distraírem nas reuniões da faksão bolxevike do Partido Sosial-Demokrata lokal, ke não konhesia o epizódio do Zezinho do Aso entre os menxevikes. E não é por akazo ke o xefe jeorjiano dos bolxevikes, Stepan Chaoumian, ouve dos polisiais, kuando de sua prizão em 1905, estatelado, o seu endereso sekreto, ke só era konhesido de um inosente kamarada: o noso amigo Ko(br)a!

stalin prezo em 1908Mas o mais sensasional veio a segir: nakele ano, na Finlândia, o Zezinho, ke agora uzava o nome falso de Ivanovitch, konhese a besta Valdimir Ilitch Ulianov (Lênin), ke, impresionado kom sua perísia profisional, o dezigna komo “espropriador ofisial’ do Partido Bolxevike e ainda o leva konsigo em uma viajem sekreta a Berlim, kapital do Império Alemão. Não é presizo mensionar ke a Okhrana fika sabendo de kada paso dado por Lênin, através de um relatório asinado kazualmente por um tal de de “Ivanov”. O Zezinho, então, estava no auje de sua karreira de dedo-duro e komparese ao Kongreso Social-Demokrata de Estokolmo em 1906 e de Londres em 1907, ambos minusiozamente relatados ao Doi-Codi ruso, kom o kodinome sekreto de Ivanov. Entre uma e outra okazião é prezo por seus kolegas da Okhrana, em abril de 1906, kuando tratava de rekrutar espropriadores bolxevikes ausiliares, mas logo é solto, após revelar o endereso da tipografia menxevike klandestina de Avlabar, ke é empastelada pelos kosakos e pela polísia em 15 de abril de 1906.

Em 1908, porém, o seu xefe maior, o Ministro do Interior, rezolve tirá-lo de sirkulasão , determinando sua prizão, por dekreto espesial, em Vologda. Nove meses depois, a própria Okhrana trata de ausiliar a sua fuga a fim de infiltrá-lo entre os nasionalistas e sindikalistas revolusionários armênios de Baku, dando-lhe um pasaporte kom o nome Totomiantz, “armênio de Tífilis”. Lá o noso “erói”, porém, komesaria a se dar mal. Primeiro por ke tem o azar de dar pela frente kom seu es-xefe bolxevike de Tífilis, Chaoumian, ke traíra deskaradamente, e segundo porke seu ímpeto arrogante e direitozo o leva a ser akuzado abertamente de “ajente provokador” pelo prezidente do sindikato dos tipógrafos. Chaoumian konfirma as suspeitas e o Zezinho está pra ser julgado pelo komitê do partido sosial-demokrata de Baku em fins de marso de 1910, kuando a polísia invade a reunião e prende todo mundo. Sem mais nenhuma serventia, o futuro Stalin é enviado pela Okhrana de volta a Vologda para terminar de kumprir sua pena, o ke se dá em 1911.

Stalin, Lenin e Kalinin em 1919Nakele ano, no Kongreso Pan-Ruso de Praga (kapital da Boêmia, então provínsia do Império Austro-Úngaro, e oje Repúblika Txeka), em junho, o Zé do Aso pensou ke estava por sima da karne seka e akabou kometendo sua kagada fatal komo ajente sekreto do poder imperial. Tinha sido eskolhido pelo asno Lênin komo ajente do komitê sentral , mas não gostou muito, porke outro kolega seu do DOPS ruso (o infiltrado Roman Malinovski, keridinho do Ulianov, ke, pelo visto, ou era kompletamente imbesil ou gostava de tranzar kom os ajentes kzaristas) foi nomeado pelo xefe Vladimir para membro do dito komitê. Kom a vaidade ferida, e vingativo ke era, o Ivanov/Zé do Aso tratou de dedar o Malinovski, deskrevendo-o, em karta ao Vise-Ministro do Interior do Império, Zolotarev, komo algém ke “de fato era um partidário de Lênin e trabalhava mais asiduamente pela kauza bolxevike ke pela polísia”. O Vise-ministro, nada trouxa, mandou-o kurtir uma grade na Sibéria, na prizão de Tourokhansk, nas prosimidades do sírkulo polar ártiko, para onde o velho Ko(br)a, ke agora uzava o kodinome de Vasili, foi enviado em 23 de fevereiro de 1913, e donde somente sairia às vésperas da glorioza revolusão de outubro de 1917.

Desde então, ao ke parese, o Zezinho se kansou de seus afazeres komo espião do Kzar e resolveu uzar suas abilidades de intrigueiro e puxa-sako no próprio Partido Komunista, onde, apezar de konstar seu kodinome Vasili komo um dos doze prinsipais ajentes da Okhrana infiltrados, em lista publikada logo após a revolusão bolxevike, lambeu tanto as bolas de Lênin ke susedeu-o, após sua morte em 1924, no komando da União Soviétika, kuando adotou seu kodinome defintivo: Stalin (omem de aso).

Instalado no poder ditatorial e supremo, o es-seminarista, e agora metalúrjiko onorário (não era o omem de aso, afinal?) podia realizar a grande obra pela kual sempre lutara. Após ezilar e/ou eliminar fizikamente seus adversários (komo o es-jornalista e komandante do Ezérsito Vermelho, o revolusionário Leon Trotsky) e todos os revolusionários komunistas lejítimos, ke kontrariaram sua tirania dezumana, após matar milhões de kamponezes ke se negaram à koletivizasão forsada, pariria a mais abjeta das kriasões umanas: a transformasão do komunismo marxista em fasismo vermelho e a redusão das masas de trabalhadores a gado asustado, sob um poder diskrisionário ke não lhes regrava a vida sósio-ekonômika apenas, mas lhes vijiava kada paso e kada pensamento em kada eskina.

stalin e Hitler

Em 1939 Stalin konsagraria o seu proverbial sinismo, fexando um pakto kom seu arki-rival, e kompanheiro de peste emosional, o ditador fasista Adolfo (Htiler), kom kem invadiria e repartiria a Polônia, dando inísio à Segunda Guerra Mundial. Seis anos depois, atakadas pelo es-aliado, as tropas rusas tomariam Berlim, estingindo a tirania nazista. Pelo kaminho, entre Moskou e a kapital alemã, uma dúzia de nasões konkistadas pelas armas e submetidas à kondisão de kolônia do imperialismo soviétiko.

Kontam as más línguas ke, kuando Stalin morreu, em 1953, vieram à tona os arkivos ke komprovavam sua longa karreira de espião do rejime kzarista. Mas seu susesor, Nikita Krushev, teria ergido as mãos para o alto e bradado: “É impossível! Iso signifikaria ke noso país foi dirijido durante 30 anos por um ajente da polísia sekreta do kzar!”

No Brazil de oje, kazualmente, o governo mais anti-trabalhador e anti-nasionalista já visto, é dirijido, desde 2003, já kom 2 mandatos e aspirando ditatorialmente a um terseiro, por um es-metalúrjiko sindikalista, treinado na eskola da CIA (Sentral de Intelijênsia) norte-amerikana, ke era prezo e solto todo dia, durante a faze de kriasão de seu partido (o PT), pelos jenerais gorilas, para kriar as kondisões de, finjindo-se vermelho, kumprir o papel de suseder os erdeiros da antiga ditadura militar fasista de 1964. E impedir ke revolusionários nasionalistas e sosialistas autêntikos komo Leonel Brizola e Luiz Carlos Prestes xegasem ao poder e derrubasem a elite infekunda ke nos submete, a nós povo brazileiro, à triste e vil kondisão de gado umano, a mourejar na mizéria e na opresão kuotidiana, para propisiar o luxo vadio e fútil de burgezes amerikanos, europeus, japonezes e outros tantos senhores do imperialismo ekonômiko multinasional. Ver a respeito a krônika Lula, o Eruditchio, neste blog.

Lula ontem e hoje

Ubirajara Passos

ALMANAQUE DO PERUCA – 1


Na falta de assunto melhor (e para que os leitores possam sacudir um pouco o tédio desta modorrenta tarde de quarta-feira), reproduzo abaixo algumas frases geniais proferidas pelo Peruca, cujo contexto em que ocorreram não rende um conto ou crônica, mas são absolutamente imprescindíveis ao engrandecimento intelectual da humanidade internauta:

  • “Ô meu, se não tá aqui, tá lá!” (furioso, tentanto explicar, para o Kadu, como descobrir se um processo judicial remetido à Contadoria do Foro já foi devolvido ao Cartório Judicial – nem Sócrates seria capaz de chegar a uma conclusão tão luminosa e inesperada). O melhor amigo do Peruca me confessou, debaixo de muito segredo, e após entornar um goró violento, que presenciou o filosófico estagiário quase torrar os neurônios em prolongadas e sofridas meditações solitárias e em debates infindos noite a dentro, com seus companheiros de cachaça, no Bar e Restaurante da Magrinha, no Passo das Pedras, até determinar esta síntese universal absoluta, incontestável e absolutamente indispensável à compreensão do cosmos e da existência humana.

  • A gente faz o seguinte: na hora de pagar no caixa, tira umas latinhas e deixa o plástico bem arrumadinho, que eles não vão nem perceber!” (idéia sugerida ao pastor Kadu e ao Gílson Pirâmide para pagar menos por um fardo de cerveja no supermercado, diante da, crônica, falta de grana dos bebuns para comprar uma simples embalagem com uma dúzia de latas). O mais interessante, e bombasticamente dialético, da tese é que o preço do fardo é único. Mas a teoria da relatividade de Einstein deve explicar a coisa: vai ver que a cerveja bebida à velocidade da luz aumenta sua quantidade em litros de forma inversamente proporcional ao seu volume. Assim, quanto menos latas se consome, mais líquido se bebe e maior é o teor alcoólico (que resultado complexo!). O único problema é que o “Padre Balão” desapareceu de vez e não vai poder emprestar seu super veículo voador para a turma do Peruca tentar a experiência, acelerando à velocidade de 300.000 km/s com uma concentração mental bem forte, que o Pastor Dinastia garante que a coisa acontece.

Ubirajara Passos

“AVISO AOS PAIS” (que queiram criar filhos beatos e assexuados)


Um amigo que mandou ao Diabo que o carregue as mais arraigados frescuras burguesas e patriarcais, ao ponto de transcender a própria noção ideológica doméstica comum de sujeira, e ter o maior prazer de se mijar todo em qualquer lugar, inclusive na garupa da moto de um camarada seu (ocasião em que a molecada de sua cidade natal, vendo passar a intrépida dupla, disparou: “ô tio, tá vazando a gasolina na canela do motoqueiro aí!”), possui na barra lateral de seu site a seguinte advertência (que eu nunca me dera ao trabalho de ler, até por ter de abrir o link):

“Este site é de conteúdo adulto e contém fotos e vídeos expondo nudez e sexo, além de linguagem inapropriada a menores de 18 anos. Para proteger os seus filhos de verem conteúdo que possa, de alguma forma, contribuir negativamente para a formação deles, sugiro a instalação de um programa de Controle para Pais, onde você pode determinar que tipo de conteúdo seus filhos podem ver na Internet. Um ótimo programa gratuito para isso é o Crawler Parental Control, que pode ser baixado seguindo o link abaixo:

http://baixaki.ig.com.br/download/Crawler-Parental-Control.htm

Seguindo essa orientação, você vai estar protegendo os seus filhos contra a visualização de conteúdo inapropriado na Internet, uma responsabilidade que é unicamente sua.”

Aparentemente, nada fora do normal, apesar de ser um site da melhor e mais radical putaria (com um padrão estético e erótico sofisticado e realmente excitante, que foge ao sado-masoquismo e ao improviso tosco das típicas produções pornôs norte-americanas e brasileiras, respectivamente).

É comum em qualquer site pornográfico o uso hipócrita deste tipo de alerta. Mas o tom sisudo e neutro do texto (que admite como verdades absolutas a idéia de impropriedade do sexo para menores) me chamou a atenção, ainda mais que seu autor é um fiel seguidor de “Nosso Senhor dos Passos”, o santo protetor das putinhas, das fodas alegres e dos putanheiros (ver, a respeito, a crônica “A Maldição do Santo Putanheiro”, no blog do wordpress).

Antes de mais nada, este negócio de nudez e sexo ser “inapropriado” para menores de dezoito é a mais rematada, e mais hipócrita,  sacanagem  moralista, remanescente do patriarcalismo tradicional (já que o moderno admite, formalmente, a liberação dos costumes, mas só a admite na prática para permitir que que os proprietários burgueses comam o cu do povão e se esporreiem todos no prazer de pisar cabeças submissas todo dia). Qualquer biólogo sabe que  é, justamente, na puberdade (o evento que transforma os filhotes em perfeitos animais  reprodutores), e nos anos seguintes, quando o tesão estoura à flor da pele, que os jovens “mamíferos e mamíferas” não  pensam noutra coisa além daquilo. E proibir a foda das criaturas, exataqmente quando seus corpos estão no auge sexual, é justamente a forma mais sádica e filha da puta de adestrá-las para a vida de sofrimento e submissão como fiéis membros do rebanho que trabalha penosamente, a cada dia, para gerar a vadiagem luxuosa da classe dominante.

Isto sem falar na sexualidade infantil. A julgar pela mentalidade a que a advertência se molda, os seres humanos, até atingir a adolescência, não são feitos de carne e osso, mas possuem asas angelicais e só lhes cresce um caralho ou uma buceta no meio das pernas ao completar doze ou treze anos! E aí precisam saber que só podem usar tais novos apetrechos na idade em que o Estado (o guardião da sociedade hierarquizada) legalmente o permite!

Quanto à linguagem inapropriada, nem quem foi criado em seminário de padres ou colégio de freiras desconhece os mais cabeludos palavrões. Eu mesmo, creio que a primeira palavra que aprendi a falar foi buceta! Talvez algum extra-terrestre possa sofrer uma síncope e morrer ao ler o pobre blog pornô!

E se ver mulher pelada ou fudendo influi negativamente na “formação” de um basbaque (ou patricinha) de dezesseis anos, estamos perdidos! Pois se a prática da foda, do prazer, da sacanagem imaginativa e refinada (que são o melhor que existe na pobre vida humana) constituem algo negativo, a ponto de a juventude não dever ser preparada para o seu exercício, o “positivo” só pode ser o contrário. Ou seja, se você quiser ter um filho ou filha imbecil, masoquista, mal-amado, torturador, psicopata ou sádico, uma destas criaturas feitas de gelo, sem nenhuma simpatia pela humanidade, que, por ter horror a fuder, fode com a vida alheia, não permita que acesse o site do meu amigo, e faça com que passe bem longe do “Bira e as Safadezas…”. Senão como a atual geração garantirá, no futuro, a continuidade de uma casta de recalcados e escrotos contra-mestres, gerentões, policiais e censuradores de todo tipo (todos muito “educados”) para impedir que a humanidade se liberte das garras opressão capitalista autoritária? Proiba, ou simplesmente culpabilize (o que é suficiente pra criar 90% dos males psicológicos da humanidade) até a punheta e a sirica . É a forma mais fácil e eficaz de se gerar petistas.

 Ubirajara Passos

SARAVÁ, MEU IRMÃO! OXALÁ JAVÉ/ELOHIM SE FODA!


Há quase uma década fui questionado por uma amiga (casualmente negra e um tanto cética) da minha gata preferida da época, em plena mesa do bar mais folclórico e conhecido de Gravataí (o “Quiosque” do Jorginho), num domingo à noite, depois de umas boas três cervejas entornadas, sobre a minha opinião quanto à macumba – que ela chamou, no jargão eufemístico de adepta, meio descrente, “a religião”.

E eu que, então, só conhecia do “batuque” o que as conversas das comadres da minha infância sobre o “saravá” e os livros (e adaptações televisivas e cinematográficas) de Jorge Amado haviam me permitido saber, respondi, num lance de puro diletantismo e intuição safada, o que a presença concreta em terreiras me confirmaria, nos anos seguintes.

Para mim, ateu professo e incoercível, a umbanda, embora fosse uma religião (e, como tal tivesse as características autoritárias e condicionantes de toda crença, e visão de mundo, imposta de fora sobre a livre consciência e comportamento das criaturas humanas) tinha uma vantagem fundamental sobre o cristianismo. Seus deuses, ao contrário do mudo e insondável deus cristão, se comunicavam, dialogavam pessoalmente com cada fiel, mero curioso ou desesperado que a eles recorria, e isto se fazia de forma concreta, através da voz de um filho de santo “incorporado” – a traduzir, em pleno transe hipnótico, as comunicações de um arquétipo – uma energia emocional típica – do inconsciente humano.

Afinal, uma das coisas que me deixava mais perplexo quando piá (catecúmeno mais ou menos incerto das tais verdades religiosas aos onze anos ou mesmo adepto fervoroso do altruísmo franciscano babaca aos quatorze) era que – apesar das enfáticas recomendações de catequistas, freiras e padres de que conversasse com “Deus” – toda vez que me prestava a tão insano diálogo, no meio de uma missa, por exemplo, em flagrante devaneio no canto da igreja – o corno jamais me respondia e tudo que restava da crença mística no criador era um silêncio e um vazio absoluto, que só não ultrapassava o sol ou a mais longínqua, e visível, estrela porque entre mim e eles havia o teto do templo. Vai ver que, por ser deus “genérico” (que precisava atender a “todos”, como o Lula) eu dava o azar de invocá-lo justamente na hora em que estava ocupado com o industrial Gerdau Yohan Peter (o maior burguês do Rio Grande do Sul).

O que ainda não sabia, ou não havia ainda constatado em termos “lógicos”, é que a religião tipicamente brasileira – filha do sincretismo de candomblé, catolicismo e espiritismo; e afiliada da influência árabe-islâmica da África e do “xamanismo” índio brasileiro-, a dona UMBANDA, ía muito além do diálogo direto. Mesmo que contaminada pela tendência normatizante, e opressora, de qualquer crença institucionalizada sobre o indivíduo, está muito além do moralismo autoritário e masoquista da cultura judaico-cristã do Ocidente.

Na experiência viva com as terreiras mais legítimas ou falcatruas (as “igrejas universais” da macumba), a que a paixão completamente asnífera e não-correspondida me levaram a freqüentar, me deparei, quase sem consciência, com sua profunda dimensão humana. Um deus (orixá), um semi-deus (caboclo ou preto-velho), um “anjo-mensageiro” (exu, completamente “imoral” e não a-moral, como seus equivalentes do trio cristianismo-judaísmo-islamismo) ou um elemental (uma força da natureza pré-consciente, como uma “jurema”) podem até barganhar, e tentar escravizar, com suas exigências, o consulente, mas jamais lhe exigem uma moral de entrega imbecil e sofrimento.

Jamais lhe enchem a cabeça e o corpo de obrigações abstrusas na vidinha quotidiana de cada de ser humano. Estão como grandes médicos d’alma, psicólogos sem diploma nem empáfia, a recomendar as regras rituais que “religarão” a consciência do indivíduo aos mais profundo de sua essência cósmica de expressão de desejo e vida, e que propiciarão a resolução de seus dramas. Se a solução dos problemas de um sujeito envolver o ódio, a oposição e a supremacia sobre um desafeto que quer lhe empestear a vida, jamais veremos um “santo” afro-brasileiro recomendando a passividade e a submissão ao sofrimento e a opressão impostos. Ele procurará, com a oferenda exigida, resolver o problema e libertar quem a ele recorre.

E, ao invés do monopólio do sofrimento auto-imposto em prol do algoz, o “saravá” contempla todas legítimas e espontâneas reações e emoções humanas. Sua plêiade de seres extra-humanos reflete os mais diversos e intrincados aspectos da alma e da experiência, da consciência e da subjetividade mortal, não impondo uma regra parcial, monolítica e infelicitadora como o cristianismo organizado desde séculos. No que, paradoxalmente, o batuque está mais próximo do personagem Jesus original, que nunca identificou amor com sofrimento burro e submissão às taras alheias. Nem era um santarrão acusador e punitivo, mas andava por aí a falar sem compromisso, ouvir e sentir prazer no contato com os “marginais” mais hediondos de sua época: simples mulheres, putas, cobradores de impostos para os imperialistas romanos, “leprosos” e mendigos. E tinha verdadeiro ódio aos especialistas hipócritas da moral e da lei (os fariseus e escribas). Saravá, irmão, mande deus (e seus criadores e beneficiários capitalistas, e remanescentes feudais de todo tipo) tomar no cu e viva plenamente tua vida!

Mas, se puder, abdique de toda religião, e viva só com tua consciência e sentimentos.

Ubirajara Passos

P.S.: só no final do testo persebi tê-lo eskrito na ortografia mista ofisial. Agora, azar. A pregisa não me permite retifiká-lo, Fika para a prósima.