Sapiência bêbada


SABEDORIA ETÍLICA

Eu vinha retornando do almoço, ante-ontem no início da tarde, quando me deparei, na vitrine de uma dessas lojas de 1 e 99, com estes três fantásticos copos (popularmente conhecidos como martelinho e destinados ao consumo precípuo de destilados dos mais diversos tipos, da canha azul de alambique de Santo Antônio da Patrulha ao absinto importado de França), que, se reforçaram a minha velha noção de que é neles que se encontra a derradeira e profunda verdade, contrariam o que já afirmei em poema neste blog publicado, pois, no caso específico, esta se encontra na lateral e não no fundo do frasco.

Seja como for, porém, sempre soube, por experiência (própria ou alheia), que a natureza das revelações alcoólicas, por mais profunda e inusitada que fosse, não alcançava definições tão óbvias e triviais, embora aparentemente cósmicas e essenciais, como esta:

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“Quem não bebe não vê o mundo girar”

Pode parecer pueril, mas é simplesmente revolucionária esta constatação da absurda e inexplicável incapacidade de 99,999999999% de nossa espécie (exceto o autor da veneranda sentença é claro) em se dar conta, no uso pleno e  sóbrio dos cinco sentidos do corpo humano, do movimento contínuo, autônomo e eterno desferido no espaço pelo  planeta que se encontra sob os nossos pés. Ao ler a frase me senti exatamente como se tivesse recebido um banho gelado nas fuças, arremessado do décimo terceiro andar ou, levado aquele tabefe de torcer a cara que só as mais furiosas viragos são capazes de aplicar!

Afinal, é bem verdade que Galileu quase foi assado, e Giordano Bruno virou carvão, no churrasquinho disciplinar da Santa Inquisição, por trazer a público a realidade do giro planetário, então tido por absoluta heresia pela Santa Madre Igreja Católica. Mas ninguém, ao menos em estado comum de consciência, jamais experimentou esta verdade científica senão por vias indiretas.

E se muito boêmio folgazão ou corno deprimido, desde os tempos das cavernas, presenciou, durante o transe próprio da possessão de Baco, alguma espécie de giro das coisas ao seu redor, simplesmente supôs tratar-se de um fenômeno exclusivamente epicêntrico, assim como se acreditava até o século XVI que eram os astros e o sol que giravam em torno da Terra.

Não é para qualquer um, portanto, um insight deste peso e, depois de bater de frente com ele, confesso que me sinto completamente deslocado e desolado por não poder permanecer incessantemente em plena consciência do que se passa logo abaixo dos meus pés, em sincronicidade com a terra mãe, a cada instante lento e inglório desta nossa malograda existência. Não tenho mais coragem, especialmente depois de ter casado, mas recomendo aos leitores mais audazes: não se deixem mais enganar, nem viver condicionados na hipnose diária que nos despeja a mídia e se façam senhores da própria consciência entornando o suficiente todo o santo dia para que possam, em pleno domínio dos fatos ao redor, ver literalmente a Terra girar!

Verdadeiro lugar-comum, incorporado mesmo à lengalenga xaroposa e repetitiva do mais reles (e talvez, por isto mesmo, iluminado) mendigo (ainda que, pelo menos na visão de Sartre e seus companheiros de filosofia, não possua exatamente todo este caráter de axioma), o cogito cartesiano (Penso, logo existo), pelo que eu conhecia até o momento, jamais havia sido exposto assim:

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“Penso logo… pego mais uma”

Haverá, evidentemente, os “eruditos” burros e arrogantes, da pior burrice, aquela digna de português de piada, incapaz de apreciar as sutilezas irônicas de um texto, que não acharão a menor graça e ainda, se der corda, me esgotarão até a última gota de paciência na tentativa de me demonstrar não só a falsidade, mas a completa incorreção, por falta de concatenação lógica entre premissa e conclusão, deste raciocínio.

Mas a pragmática sentença espelha efetivamente a mais pura, elementar e inquestionável verdade imediata, digna de um koan zen-budista destes que nos transportam a um insight profundo intuitivo e imediato – que poderia certamente figurar entre os ensinamentos do grande mestre butanês Drukpa Kunley 

E está aí para nos inspirar a não perder tempo e tratar de mandar ao diabo, de cara,  com um belo talagaço de canha, os efeitos emocionais e físicos dos infelicitantes incômodos de todo dia que que povoam a vida da grande maioria da espécie humana, composta de peões fudidos no trabalho extenuante e jamais recompensado, como nós.

Especialmente nestes dias ansiosos e acelerados de internet onipresente nos mais comezinhos celulares,  a nos importunar, a todo momento, com as informações mais relevantes e reveladoras possíveis, nos “status” de facebook, atualizados seiscentas vezes por dia, e em que nossos caros “amigos” nos dão conta de coisas surpreendentes e inusitadas como o fato de que estão cagando ou se sentindo entediados e infelizes (sabendo-se de antemão, quem os conhece de perto, serem funcionários públicos gaúchos atingidos pelo pagamento de salário parcelado e reduzido a R$ 600,00 pelo governador Ivo-viu-a-uva Sartori, por exemplo). 

Até porque, como dizia, o velho herói dos áureos tempos de Hollywood (anos 1940 e 1950), Humphrey Bogart, e nunca é demais repetir: “o grande problema da humanidade é que está sempre uma dose aquém do necessário”!

Ubirajara Passos

Dos filhos e as nossas (pouquíssimas) horas de sono: uma relação eternamente incompatível


Desde os meus quatorze anos luto contra uma insônia crônica, que começou da forma clássica (aquelas infindas madrugadas passadas em claro apesar do esforço em dormir, que acaba, justamente, por decretar definitivamente a vitória da falta de sono) até a típica da depressão, que se tornou minha companheira nos últimos anos, e que consiste em, apesar de agora conseguir engatar tranquilamente o motor do sono, vê-lo engasgar e me acordar, aos sobressaltos, uma ou duas horas antes daquela necessária, arruinando definitivamente a corrida pela restauração diária de mente e corpo combalidos pela tentativa de sobrevivência consciente nesta vidinha de peão metido a intelectual cada vez mais fudido financeira, física e psicologicamente.

Vivo, portanto, uma eterna batalha contra o sono (que se recusa, incessantemente a se fazer presente nas horas e na profundidade necessária a uma vida saudável), pelas minhas próprias idiossincrasias. O que não seria tão grave, não houvesse as circunstâncias externas, ligadas ao tema desta crônica, que acabam por torná-la bem pior ainda.

Até encerrar minha carreira de solteirão emérito, aos 43 anos e 2 dias, o problema era todo e exclusivamente meu, ou no máximo dos objetos inertes, do aparelho de tv e dvd aos livros e revistas consumidos na tentativa de cansar a mente e dormir por extenuação.

Mas depois que, simultaneamente, me casei e me tornei pai da coisa mais linda do mundo (a Isadora, atualmente com 6 anos) e padrastro do Erick e da Larissa (ambos na adolescência, o primeiro com 16 e a segunda com 13), descobri o grande tormento de todos os pais mundo a fora com o eterno ciclo dos filhotes humanos, desde o nascimento até o dia em que resolvem nos largar e sair pelo mundo atrás do primeiro rabo de saia, par de calças, ou de qualquer loucura que lhes justifique viverem sozinhos – o que, no meu caso, ainda não aconteceu com nenhum deles.

É inacreditável, mas terrivelmente real, e talvez seja a única verdade absoluta, indesmentível e inalterável do universo, depois da certeza da morte, a relação entre crianças, jovens e pouco sono dos respectivos pais ou cuidadores.

Quando recém-nascidas, é inevitável, mesmo que sejas o pai, a interrupção sobressaltada do sono, durante as horas mais imprevistas, em razão do choro reivindicatório da criatura enlouquecida pela teta materna.

Passada esta fase, quando, inocentemente, relaxamos e imaginamos que o problema está resolvido (pois agora a criaturinha, que logo começará a ensaiar seus primeiros passos e palavras, uma vez adormecida, ronca profunda e profusamente), descobrimos a total incompatibilidade entre a preguiça matinal que nos levava, quando jovens (mesmo não sucedendo noites em claro de boemia ou festas), a nos erguer da cama, aos arrastos, lá pelas 2 horas da tarde, e as criancinhas novas.

Só quem nunca foi pai ou mãe ou vive em qualquer planeta diferente desta nosso Terrinha jamais passou pela experiência. Por uma misteriosa configuração quântica ou mágica, basta o sol apontar seus primeiros raios pálidos na linha do horizonte para se ter um pirralho ou pirralha agitadíssimos saltitando sobre a tua cama e te arrastando pelo dedo indicador da mão para ir brincar com os filhotinhos da gata ou da cachorra da casa, quando não, porque é verão e o calor é terrivelmente convidativo, para se jogar na água fria da piscina, num choque apocalíptico para quem recém saiu, sem muita convicção e completamente chapado, dos lençóis noturnos.

Aí, lá pela proximidade da puberdade e adolescência a dentro, quando imaginamos que a gurizada, mesmo não tendo ido a nenhuma balada noturna, tratará de acordar bem tarde como fazíamos na sua idade e finalmente vamos conseguir dormir até umas 10 h pelo menos, descobrimos, cruelmente, que o que irritava nossos pais não era tanto o fato de atrasarmos para o almoço, mas os ruídos inevitáveis da tv, do rádio ou qualquer outra precária mídia da época, pela madrugada morta. O que hoje, com os tantos jogos e chats on line que permitem se comunicar verbalmente, com viva voz, a qualquer parte do globo, transforma-se qualquer casa onde esteja um piá adolescente num debate ou conversa animadíssima noite a dentro – que impede completamente o sono alheio e nos convida a nos reunir à boemia eletrônica ou a saltar, se for possível, para o mais próximo bar e encher a cara, porque para dormir, definitivamente, não dá mesmo.

Se a coisa é feia, fase após fase, imagine-se o terror do meu caso: viver as 2 últimas simultanamente, com a perfeita garantia de que a mais nova, estará, quando nos livrarmos das estripulias dos mais velhos, entrando na 3ª fase daqui a alguns anos.

Mas tudo bem. Estes percalços fazem parte e, confesso sem qualquer pieguice: apesar de tudo os filhos são a alegria das nossas vidas. E um dia, afinal, baterão as asas de casa e nos deixarão com aquela frustração eterna e mesmo com a saudade de sua gritaria pela madrugada ou das manhãs agitadas. Assim pensam aqueles que, como no meu caso, ainda têm os filhos debaixo da própria asa e do teto.

Mas a experiência alheia, infelizmente, desmente esta tranquilidade final e acaba decretando a eterna incompatibilidade entre a condição paterna ou materna e o bom sono. Poderás já ser avô, caro leitor, mas não te iludas, que sempre haverá ocasião para esmurrares o bidê ao lado, diante do telefone que toca insistentemente, pontualmente às 3 h da madrugada, e, uma vez atendido, transmite a voz chorosa de uma filha, filho ou até neto, que acaba de brigar com a respectiva cara-metade e não encontra outro ombro acolhedor para despejar sua desgraça íntima durante horas a não ser o teu, desventurado ser que cometeste a imprudência de colaborar para perpetuar a espécie humana.

Ubirajara Passos

Agourento 2014, tende piedade de nós!


Conforme a nossa vida vai avançando, a morte vai se tornando mais e mais nossa parceira.

Não apenas pelo fato de nos aproximarmos crescentemente dela, enquanto decrescem os anos que nos restam, numa equação em que pouco importa o valor inicial do termo (o número de anos da vida), variável a cada instante – conforme nossas decisões e atitudes – e em que a razão da progressão pode aumentar ou diminuir a vontade, mas cujo termo final é uma constante absoluta, fria e terrível, por mais complexas que sejam as expressões intermediárias entre o início e o final, que é sempre igual a zero.

Mas, pela simples consequência matemática e biológica dos fatos, é verdade estabelecida que é possível medir intuitivamente o quanto estamos “ficando velhos” pela proporção de parentes, amigos ou conhecidos que vemos partir a cada ano, que naturalmente vai aumentando até que chega o dia em que nos vemos quase que completamente solitários no mundo, em que já não resta muita gente, além de nós próprios, que se lembre mesmo daquela célebre atriz de Hollywood, gostosíssima, de olhos eloquentes e nariz estranho (e, por isto mesmo, chamativo e sensual).

A oito meses de completar meu primeiro meio século (que espero realizar, apesar do trago e da mania de me desgastar lutando contra este nosso mundinho opressivo e infelicitante, o sonho do meu avô – e de 99,99% da espécie humana – de atingir pelo menos cem anos), não estou exatamente no caso extremo, mas, assim como todo mundo que conheço, nunca vi um ano tão absurdo, com tantas mortes de celebridades, ou mesmo de pessoas próximas, no espaço de um único giro da Terra ao redor do Sol.

Algumas, previsíveis, são daquelas que apenas confirmam que estamos, inapelavelmente, nos aproximando da velhice e que (contra a maldita convicção de nossa mente, que é desementida a cada manhã, sem muito resultado, pelo espelho) aqueles personagens quotidianos que nos pareciam eternos já estão necessariamente no momento de partir.

Foi o caso da Shirley Temple (a eterna garotinha prodígio), da Virgínia Lane (e a eterna beleza das pernas mais belas do Brasil), Marelene (a eterna Rainha do Rádio) e de Gabriel García Marquez (autor de livros eternos, como Cem Anos de Solidão e O Amor no Tempos do Cólera). Além do poeta Manoel de Barros, da atriz Lauren Bacall,  o escritor Rubem Alves; Max Nunes, Marcelo Alencar, Antônio Ermírio de Moraes, Adib Jatene e  Mãe Dinah (que não tinha a menor previsão a respeito de seu passamento).

Outras já, embora possíveis, nos surpreenderam e chocaram, como foi o caso de Ariano Suassuna e Hugo Carvana.

Mas quando se foram, sem mais nem menos, figuras como José Wilker,  Jair Rodrigues, Nelson Ned, João Ubaldo Ribeiro, Robin Willians, Eduardo Campos (que tinha minha idade – sendo a mais badalada morte do ano), começamos a nos preocupar seriamente e chegamos à conclusão que, ainda que as estatísticas possam apontar para um certo padrão de mortes anuais de famosos, dentro dos quais os falecimentos citados estariam incluídos, nunca se viu, um mês após o outro, tantas mortes relevantes em tão pouco tempo.

Quando morreu Nico Nicolaiewsky, no início de fevereiro, li  a dolorida entrevista de seu parceiro na vintenária comédia Tangos e Tragédias, Hique Gomez, e fiquei imaginado como seria a minha vida política, literária e pessoal sem a presença do meu irmão gêmeo de ideias, lutas, trago e atitudes, o companheiro Valdir Bergmann.  Mas jamais imaginei que ele viria a compor o mais doloroso e irremediável item das mortes imprevistas e absurdas deste ano apoliptico, morrendo de uma pancreatite aguda dois dias antes de completar seus jovens 57 anos.

Só que a coisa não parou por aí e já havíamos nos convencido de que 2014,  embora não tenha testemunhado a deflagração de nenhuma guerra mundial como seu irmão do século passado, era um ceifador cruel e inveterado de almas, quando velhos amigos de minha família, e meus, com presença importante em pontos capitais da minha biografia, como Juarez Vargas e o colega Adroaldo Rocha, morto tragicamente em acidente automobilístico, praticamente às vésperas das festas de final de ano, foram-se também.

Assim é que chegamos ao último dia de 2014 erguendo as mãos por ainda estarmos aqui  o esconjurando e nos ajoelhando e erguendo as mãos perante tão nefasta entidade para pedir: “Agourento 2014, tende piedade de nós!”

Ubirajara Passos

Tinha uma pedra no meio do caminho


Sempre achei extremamente abstrato o famoso poema de Drumondd. E a interpretação costumeira de sua genialidade sintética e simples diante do fenômeno universal e onipresente dos obstáculos, nos mais diversos locais e circunstâncias possíveis, sempre me pareceu muito óbvia e pouco provável.

Até que há coisa de um mês e meio atrás, tive uma dura e concreta experiência. Uma pedra atravessada no canal do ureter, grande o suficiente para não arrastar-se aparelho urinário abaixo, depois de semanas de sofrimento e investigações médicas infrutíferas acabou por me levar a uma  das aventuras que mais temi na vida, a cuja extinção supunha pudesse me levar: uma cirurgia para sua extração, mediante uso de ultra-som, introduzido justamente pela uretra. O que significa que, além de passar pela sempre temida operação, ainda fui “comido”, isto é sofri a introdução de um corpo estranho dentro de mim,  através do meu próprio pau. Coisa no mínimo bizarra e, depois de passada a anestesia e a sedação, tão sofrida quantos os ardores e dificuldades dos primeiros dias do pos-operatório.

Mas todo este papo meio hipocondríaco, que deve estar fazendo os meus costumeiros leitores bocejarem e gritarem altíssimos “Bira vai à puta que pariu” (não necessariamente simultaneamente nem nesta ordem) é apenas para (tentar) justificar a minha ausência deste blog no período, que espero seja devidamente remediada e absolvida a partir de hoje. Houve muitos outros pedregulhos a causá-la, é bem verdade, mas a partir de agora espero que possamos, eu e os pacientes leitores, fazer uma sopa com a sua poeira.

Ubirajara Passos

“Curtura” livresca


Não sou dado a divulgar reclamações ou denúncias de consumidor, embora algum colega já me tenha solicitado algumas no passado, afinal este blog não é uma filial do Procon (sistema jurídico-assistencial de defesa dos consumidores, nos termos da lei específica vigente no Brasil), e tem objetivos políticos e culturais revolucionários bem mais amplos e profundos que a discussão específica e localizada da picuinha do dia (ao menos que ela se revista de um caráter exemplar, cuja repercussão o justifique).

Muito menos sou um elitista, um destes pretensos eruditos ou empolados desiludidos com a “decadência” da cultura e do ensino nacionais  – que, não sendo nunca grande coisa (inclusive na rede privada) com raríssimas exceções, já teria ultrapassado o Japão e se ido rumo ao centro da galáxia, caso estivesse, como se afirma, desde os tempos da colônia, em movimento descensional.

Mas tendo, pessoalmente, ido com meu enteado Erick, na tarde do último sábado, a uma livraria de porte de Gravataí ( cujo nome não citarei para não fazer propaganda), destas que deixa à disposição dos leitores até mesmo um recanto entre as estantes, com uma cadeira de vime, para que possa saborear tranquilamente alguns de seus volumes, resolvi correr os títulos, apesar da crônica crise financeira, que me permite, no máximo namorá-los à distância, sem deles nunca tomar posse.

E, em mais um episódio da série “balconista de farmácia” organiza estante de livros, dei, no escaninho reservado à literatura estrangeira, com o título Olympia (sem o nome do autor na lombada). E desconfiei, um tanto incrédulo, se tratar do romance do gaúcho, filho de imigrantes alemães do norte do Rio Grande do Sul, Fausto Wolff, combativo e irreverente escritor e jornalista, brizolista como eu, e um dos principais redatores do Pasquim (jornal combativo/satírico de oposição à ditadura militar fascista de 1964), falecido há uns 3 anos. Romance que, aliás, tenho na minha biblioteca, em casa, e com o qual muito me diverti, em meio à conturbada suspensão (a primeira, a remunerada) que sofri de meu cargo no judiciário gaúcho, como “punição” ao uso da liberdade de expressão em matéria publicada neste blog, que versava sobre as irracionalidades do disciplinamento dos estagiários daquele poder.

Não quis acreditar, mas logo tive de me convencer de que o funcionário encarregado de municiar os armários do estabelecimento deveria ter um péssimo treinamento ou experiência classificatória. Pois, pegando o livro em mãos, pude ver que era exatamente o que pensava. O pobre Fausto Wolff, com um nome tão incomum para os fãs do Big Brother ou do Pânico na TV, e um maldito sobrenome germânico, acabara, pelas mãos de um trabalhador inábil (embora pensante, o que se prova pela analogia imperfeita), na companhia de Virgínia, a genial e depressiva escritora inglesa (que o meu caro classificador deve supor ser yankee) de sobrenome semelhante (Woolf), e de um extraordinário, mas terrivelmente pessimista e denso, Franz Kafka (que não tem nenhuma relação com a antiga Cafiaspirina ou a Alka Seltzer, advirto, desde já, ao aprendiz de feiticeiro de livraria provinciana).

Mas tudo bem. Errar é humano (e como!) e vai que o sujeito que cometeu o engano estava com uma enorme dor de cabeça (e tinha acabado de ingerir uma Alka Seltzer, analgésico cuja pronúncia do nome deve dar resultado contrário, piorando a coisa e transformando em enxaqueca, dependendo da habilidade linguística do usuário) ou simplesmente tivera um lapso, destes que acometem a todo momento nossos mais honrados, democráticos e justos políticos, como José Sarney ou Lula, fazendo-os cometer deslizes infelizes como o esquema do mensalão e outras tantas banalidades.

Teimoso que sou, entretanto, rumei para a estante de literatura espírita, esperando não encontrar coisa semelhante àquela com  que o Carlão deparou-se, estes tempos, na livraria da UCS, e desabei de vez, no meu recalcitrante otimismo. Vistoso e chamativo, me olhava daquela prateleira um exemplar de “A Casa dos Espíritos”, da chilena Isabel Allende, romance histórico sobre a ditadura militar de Pinochet, que virou até filme hollywoodiano no final do século passado. Espíritos, aliás, se é que existem, devem estar é “puxando os pés” do responsável pela localização do dito livro na estante, que, se for importunado por Machado de Assis ou Castro Alves (dois de meus ídolos literários da juventude), pelo menos terá a chance de aprender alguma coisa de literatura.

Seja como for, definitivamente, ou os gerentes de livraria andam muito ocupados com os estoques de brinquedos eletrônicos e badulaques chiques semelhantes (cujo preço salgado só permite sejam adquiridos pelos filhos da burguesia iletrada), que costumam abarrotar seus ambientes, para se ocupar de algo tão comezinho e secundário como a classificação de livros, ou os percalços do mercado de trabalho, e a avassaladora rotatividade do emprego resultante das exigências de lucro da nossa “culta” e voraz classe dominante, fez com que uma leva enorme de atendentes de tabacaria, auxiliares de açougueiro, contabilistas, estatísticos e, provavelmente, muitos economistas, políticos ou torneiros mecânicos  desempregados (vocações estas três últimas que frequentemente se encontram reunidas no mesmo proverbial indivíduo), estejam se empregando, por falta de melhor colocação,  justamente nas nossas livrarias.

Ubirajara Passos

Crônica de segunda-feira


Lá vem o Bira com mais um lugar comum! Parece que o casamento corroeu seu cérebro e picou em pedacinhos, bem medíocres, sua criatividade. Se o leitor acabou de ter um pensamento desconsolado e irritante destes, saiba que talvez o criativo esteja justamente na publicação deste pobre e vazio lugar comum!

Como tenho ultimamente escrito aqui, a função de “pai de família” não tem me deixado muito tempo para escrever, ou fazer qualquer outra coisa que não esteja vinculado ao estrito cumprimento das rotinas de sobrevivência e manutenção. Exceto, é claro, descobrir com a Isadora os pequenos encantos de um campinho, um monte de terra vermelha destoando em meio à calçada de pedra, dois cachorros birutas se pechando na correria afoita, e quase nos derrubando, tudo sob a sinfonia de uma brisinha de outono, num sábado à tarde.

Encerrada esta pequena digressão poética pequeno-burguesa e sentimentalóide, cabe dizer que ultimamente programo com semanas de antecedência qualquer texto a ser publicado, anotando de passagem as eventuais inspirações que se fazem presentes, para poder, na torrente de desvios e postergações eternas com que o DDA me empurra de um lado para o outro da ventania existencial, atualizar este pobre e maltratado blog.

Assim, hoje deveria finalmente publicar aquela crônica política reproduzindo o discurso do Brizola no comício de 13 de março de 1964, acalentada desde o fim de março (e escrita na madrugada do último sábado, sob a inspiração da cachaça, que, manhosa, tratou de me fazer deletá-la por acidente antes de publicar). Como deveria já ter publicado no blog do Movimento Indignação o relatório da última, e infeliz, Assembléia Geral do Sindjus.

Mas a segunda-feira me tomou de chofre e me fez arrastar o dia inteiro na pior modorra possível. E não permite mais que simplesmente dela me queixar, maldizer este ânimo sonolento, lento e sorumbático, que nos faz jogar-se a um canto qualquer do mundo e ficar olhando para tudo com um estranho olhar, abestalhado, mas eventualmente surpreso.

Nestes dias, que não costumam ocorrer somente às segunda-feiras, mas podem se manifestar até aos sábados, e não são incomuns nas tardinhas ou noites de quarta-feiras, a gente (pelo menos eu) se sente meio fantasma. E sai por aí vagando, e observando tudo, como se não existisse, muito embora esteja cumprindo a rotina comum de todo mundo e todo dia e nossa figura, tropeçando pela rua, não difira nem um pouco do férreo e duro martelar histérico do trabalho e da ansiedade de todo dia.

Mas é estranho. Do nada, de repente, neste deslizar dissimulado, avistamos uma casa antiga, um pedaço torneado de cerca, um canto de varanda, uma velha vidraça de moldura bizarra cheia de arabescos, um vitral quebrado, e, por alguns instantes, zumbis adormecidos no mundo do necessário e do útil, acordamos para uma dimensão estranha e ali ficamos, boquiabertos, sonhando fantasias indefinidas, até que o ronco do motor, ou o latido do pit bull ao lado, nos traz de volta à vaca chata, morta e fria.

Desculpem os leitores esta crônica sem fim, nem princípio, e este linguajar meio balbuciante e afetado. É que hoje fui tomado de uma forma estranha, e completamente inédita na minha vida, pela maldição que desconhecia: a da segunda-feira mula sem cabeça, pé ou rumo. Boa noite a todos!

Ubirajara Passos

Biseno adverte: aumento da cerveja pode causar a “convulsão social” no Brasil


Conforme noticiado no site do “Jornal Pequeno” do Maranhão (nordeste do Brasil), na última quinta-feira, 17 de março, o preço da cerveja deve subir mais de 10% nos próximos dois meses (repondo a inflação desde o último reajuste, em janeiro de 2009).

A decisão foi tomada pela Associação das Indústrias de Bebidas, após reunião com o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, naquela data, que teria recusado proposta das indústrias de incrementar a produção de cerveja e refrigerantes (um investimento de  sete bilhões de reais que geraria 60 mil novos empregos , segundo o Vice-Presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv) e da Associação Brasileira da Indústria de Refrigerantes e Bebidas (Abir), Milton Seligman.

Após comentar que os preços do setor, historicamente, só são reajustados uma vez a cada mandato presidencial (o que nos parece extremamente razoável, dada a importância ocupada pelo produto na conformação psicológica e cultural de nossa sociedade), Seligman afirmou que as conseqüências no aumento dos preços ainda não são conhecidas.

Se o representante da patronagem das indústrias cervejeiras e de refrigerantes, por óbvia diplomacia burguesa frente ao governo da mulher mais masculina do Brasil (Dona Dilma dos Cofres Arrombados), não teve coragem  de nominar, o Bêbado Incorrigíveis sem Nome (BISENO) não tem o menor problema, e na defesa dos interesses maiores de seus associados, e da saúde mental dos últimos seres que ainda conseguem gozar um grão de felicidade sobre a terra brasileira, sabe e adverte: as consequências serão as mais graves possíveis!

A redução brutal de consumo deste elixir de primeira necessidade, que ocorrerá com o aumento dos preços,  há de causar, proporcionalmente, um violento baque nos porres e na gaiatagem pelos bares, ruas e praças das cidades afora deste país (além do óbvio prejuízo para o comércio do setor, de que advirá o desemprego de muito pai de família), que ficarão mais tristes e infelizes.

Teremos, como consequência direta o aumento desenfreado de casos de neuroses, surtos de loucura e histerismo, agressões físicas e crises conjugais nos lares, redução da frequencia sexual da mulher feia, exacerbamento das depressões controladas de cornudos e encalacrados, entre tantos outros fenômenos de verdadeiros caos social que se há de instalar.

Isto sem falar na evidente super-lotação de hospícios, consultórios psiquiátricos, hospitais e outros tantos serviços de saúde. E é claro, das delegacias de polícia, onde o fenômeno mais surpreendente será o incremento das estatísticas de suicídio.

Mas, sobretudo, estaremos vivendo num país onde o povo que ainda teima em ser feliz, gastando o pouco que pode de seus cobres para anestesiar a desgraça cotidiana, ou sonhar um pouco ao lado da miséria, tomando aquela cervejinha básica no buteco da esquina, vai ter de abdicar ou reduzir drasticamente o consumo, mergulhando no mais infame e negro desgosto. A própria criatividade artística (popular ou erudita), e o resto de imaginação que ainda sobra (muito pouco) no cenário cultural há de despencar águas abaixo.

Só nos resta o consolo de, quem sabe, as multidões premidas pela abstinência induzida pelo bolso, entrem num tal grau de desespero e desasossego que tomem consciência e coragem para ir às ruas derrubar o fascismo travestido de vermelho que comanda o Brasil no Palácio do Planalto, nos infelicitando a todos.

Ubirajara Passos