O ASSASSINATO DE CRISTO – VII


 

Terceira parte do último capítulo de “O Assassinato de Cristo”, do mestre Reich:

É sempre a estrutura de caráter média daqs massas que determina a natureza e atividade da liderança. Essa tem sido uma das observações mais certas da orgonomia social. Ela é válida tanto para o rei como para o ditador. Reis e duques e ditadores e padres e mascates da liberdade são produtos do povo. Isso vale também para nosso novo líder. O líder do futuro, que terá aprendido bem a lição do Assassinato de Cristo, será também um resultado da estrutura de caráter do povo em geral.

A necessidade de conhecer a importância básica da conduta social do homem mediano foi imposta ao mundo pelas ditaduras que se desenvolveram a partir do brado do povo “Heil, mein Führer. Deve-se esperar que, exatamente da mesma forma, a grande compulsão do povo para Assassinar seus Cristos impeça a emergência de um novo tipo de líder dos homens.

Observe os estas características tal como elas necessariamente devem emergir daqueles traços de comportamento do povo que culminam, periodicamengte, no Assassinato de algum Cristo:

O novo líder terá de escolher entre a aclamação peals pessoas e a fidelidadeà sua percepção do que as pessoas fazem a si mesmas por seu eterno imovilismo. Conseqüentemente, ele fará pouco do que compõem as ações do político de hoje. Não se servirá da aprovação do público. Perceberá que a tal aclamação, por mais reconfortante e agradável que seja, por mais que pareça dser “reconhecimento”, é o primeiro passo certo para a extinção daquilo que ele afirma. Portanto, não se importará ou mesmo tentará evitar tanto quanto possível o que é chamado reconhecimento público. A reivindicação de “reconhecimento” é, da parte do pioneiro, medo de ter de ficar sozinho, e da parte do povo em geral, é covardia de pensar por si mesmo. A reivindicação de reconhecimento é basicamente medo da não-conformidade e do conseqüente ostracismo social.

Isto não significa que o novo lídr desempenhará o papel de uma moça desprezada que não tem com quem dançar. Ao contrário, sentirá maior independência na realização dessas tarefas. Isso exigirá muito maior determinação e força genuína do que se exige do político que escala alguma árvore social. Isso dará muito maior solidez às bases da atividade do novo líder.

Isto não significa que este novo líder irá desprezar as pessoas, ou que não estará desejoso de aclamação pública. Se ele tem de fazer sua tarefa, permanecerá humano até o final. Mas sabendo por que o povo confere honras às vítimas de sua adoração, escapará silenciosamente dessa armadilha, como um bom educador que evita certas ações quando sabe que elas não servirão ao seu propósito último de ajudar adolescentes sob determinadas condições.

Conseqüentemente, o novo líder não “irá ao povo”; não “escreverá para o povo” e não tentará “convencer o povo” da verdade ou da importância social do seu conhecimento. Escreverá sobre que coisas que ele acredita serem  verdadeiras e não para o povo. É extraordinário descobrir como os ensinamentos humanos mais elaborados e mais realistas acabam sendo vítimas do velhos hábitos de fazer coisas “para o povo” ou de “entrar no meio do povo” para lhe ensinar o que parece ser bom para ele.

Se o povo precisa do bem e do amparo e do esclarecimento, deixem-no procurar isso; deixem-no encontrá-lo por si mesmo. Deixem-no desenvolver a habilidade de distinguir as palavras de um vilão ou de um político tagarela ou de um mascate da liberdade, dos ensinamentos de algum homem sério. O problema não é o fato de Hitler ter desejado o poder, mas o fato de consegui-lo. É um grande problema: como puderam milhões de homens e mulheres adultos, laboriosos, eficientes, sérios, deixá-lo ter poder sobre suas vidas.

Nessas mudanças de concepções básicas sobre o povo, o novo líder crescerá em sua tarefa. Uma nova regra, que à primeira vista soa estranha, está tomando corpo:

Se ouvires a salvação ser proclamada de uma maneira que pertence ao passado, deves suspeitar de que a verdade está exatamente na extremidade oposta da linha.

Isto é absolutamente natural em face da característica básica do homem de evitar o essencial e apegar-se ao supérfluo. Se uma geração inteira de psiquiatras, após ter estudado com empenho o núcleo energético das ideáis confusas do homem sobre sua existência, encontrar o sexo frustrado como o denominador comum de tudo, podemos estar certos de que o povo em geral tentará escapar disto e estimulará e tornará famosas as escolas psiquiátricas que eliminarem esta parte crucial do conhecimento, substituindo-a por alguma besteira-padrão, banal, de uns cem anos atrás, vestida como uma boneca nova para se brincar com ela inocentemente. Ela encontrará seu apóstolo que assim se elevará ao topo das ondas da aclamação política. Deixem-nos! Eles não farão muito mal enquanto houver centros que mantenham limpas e claras as questões. Certamente, haverá períodos de desgaste quando a doutrina evasiva cair como uma folha podre e quando aquilo que esteve crescendo em silêncio, por muitas décadas, pronto a emergir na corrente geral dos temçpos, for buscado ansiosamente.

O novo líder sentir-se-á impaciente, mas aprenderá a esperar eternamente. Ele saberá, ou aprenderá pela experiência, que não é possível  às boas coisas da vida subirem ao céu como foguetes, que elas precisam crescer lentamente, que em desenvolvimentos cruciais nenhum passo pode ser saltado sem pôr em perigo o todo, e que as coisas duradouras devem testar suas asas em pequenos perigos muito antes de transformarem o mundo em grande escala, crescendo através dos perigos. Só é possível esperar pacientemente se não tens ambição de conduzir ou salvar as pessoas. Deixa as pessoas salvarem a si mesmas. Fará muito bem a elas aprender como é se afogar devido à própria estupidez. Essas lições nunca são esquecidas e produzem inúmeras novas possibilidades.

O antigo líder teve de aprender como fazer amigos e como evitar fazer inimigos. Para fazer amigos, foi preciso destruir a essência das idéias mais frutíferas. Formulações cortantes tiveram de ser suavizadas a fim de não ofender ninguém, arestas tiveram de ser aparadas, e a expressão indireta teve de substituir a direta e aberta: o modo furtivo, absolutamente de acordo com o medo que as pessoas têm do contato imediato, prevaleceu. Entretanto, o povo sempre prefere o homem decidido ao político. Elas o temem mais, é verdade; elas o evitam e parecem apreciar apenas o deturpado. Mas, no final, sua admiração, mesmo que apenas de uma grande distância, é pela retidão.

Aqui a cisão básica em sua própria estrutura se revela: elas vivem, na verdade, de acordo com as regras da evasão do essencial, mas desejam, ao mesmo tempo, o contato direto, pleno, simples com as coisas. As pessoas acabam se saindo bem, realmente. Conhecer esse medo inicial ao direto e correto nas pessoas é um dos maiores requisitos do novo líder.

O novo líder não tera medo dce fazer inimigos, se for necessário. Não deixará de pensar corretamente pelo fato de alguém poder odiá-lo por isso. Mais cedo ou mais tarde aprenderá que alguns de seus inimigos são amigos muito mais chegados e muito mais conhecedores de sua essência do que muitos dos amigos mais chegados. Ele não tentará provar sua opinião ofendendo as pessoas, mas distinguirá a ofensa pela própria ofensa da ofensa por se dizer alguém que é certo. O que certamente mata a peste política política que assola este século XX é o modo pelo qual os fascistas atacaram seus inimigos com uma verdade profunda, a força do anseio ardente pela Vida; contudo esta força foi usada apenas no sentido negativo, não da forma positiva. Eles realmente não tinham nada a oferecer e foram vítimas do fraco que o povo tem por espetáculos de demonstração de força e resistência. O novo líder será naturalmente firme, mas não terá nenhuma característica intrínseca de showman, na medida em que se trate de ter força. Se necdessário, baterá com força, mas sempre honestamente.

Depois de muitas e perigosas experiências com o apego do homem  ao forte, o novo líder lentamente desenvolverá uma sensibilidade aguda para perceber as pessoas inclinadas a se apegar como um piolho ao cabelo ou como uma sanguessuga à pele. Perceberá o amigo que irá caminhar um pouco para então permanecer no lugar como uma mula, não se movendo nem uma polegada, obrigando assim o agente a refrear o passo ou parar de se mover junto com ele. O novo líder também conhecerá bem o ódio que em geral se desenvolve em pessoas que são deixadas para trás, instaladas no imobilismo. Cuidadosamente, ele se porá em guarda contra essas possibilidades, fazendo menção, constantemente, a esta característica proeminente dos homens que são sanguessugas. Ele lhes dará como que injeções mentais profiláticas, dizendo a eles de antemão o que eles provavelmente estarão inclinados a fazer contra ele caso os deixe para trás, imóveis, sem fazer nada. Para sofrer menos com a perda do líder, eles o farão parecer ruim, menos importante, retratá-lo-ão até mesmo como um mau-caráter.

O novo líder enfrentará a dolorosa tarefa de amar as pessoas e, ao mesmo tempo, não se tornar ligado a elas da maneira como acontece usualmente; conhecer a fraqueza delas, sem desprezá-las ou temê-las. Antes de tudo, ele enfrentará a solidão, a vida em amplos espaços sozinho com apenas alguns amigos. E mesmo esses amigos poderão vir a ser intrusos provocadores ou incômodos, uma vez que todos querem a salvação. Cada um, de algum modo, deseja algo dele. Pouco a pouco ele ficará sabendo, com espanto, o quanto são infinitos os desejos que as pessoas têm de obter coisas. Não o que elas querem. São o desejo e a obtenção que importam. E ele estará bem consciente do preço que lhe é pago pela obtenção: admiração vazia. Conseqüentemente, não cairá na tentação, tão comum ao político, de embeber-se com esta admiração como uma esponja.

O novo líder terá de atuar sem muitas das coisas que usualmente compensam as várias dificuldades da liderança. Não gozará da facilidade com que os movimentos geralmente se difundem por meio da exaltação do líder. Sempre terá consciência de que aquilo que conta é o que um líder descobriu ou disse ou propõe, e não o que ele próprio gostaria de desfrutar. Terá aprendido da história passada que o sacrifício da essência do trabalho duro de alguém é o preço pago pelo sucesso formal. Em suma, sempre terá consciência da tendência bem oculta nas pessoas a ver as coisas apenas no espelho, a assumir grandes coisas apenas para torná-las impotentes, a se preocupar muito mais com a admiração por alguém do que com aquilo que esse alguém ter a oferecer, a se reunir em torno do que não é importante e levar o que é crucial à impotência.

Com isto, o novo líder fará com que muitos se voltem contra ele. Ele terá roubado a esses muitos um objeto ao qual possam agarrar; um pé de feijão sentiria o seu conforto roubado se tirássemos a estaca que o apóia.

O novo líder terá de se arriscar a permanecer ignominioso por toda a vida. Mas também estará certo de que é muito melhor para sua causa e para o bem público ele permanecer sozinho do que ver sua boa causa tomar conta do mundo de forma ruim, de forma contrária ao que se pretendia, a tal ponto distorcida pelas pessoas que poderá desencadear o desastre. Isto se aplicará especialmente quando estiverem envolvidas questões de vida sexual. O animal blindado inevitavelmente criará uma religião da foda a pargtir do fato extraordinário da potência orgástica, assim como criou o sistema mais elaborado, mais infernal de espionagem e de espoliação contra a liberdade a partir da antiga boa conspiração dos combatentes revolucionártios pela liberdade.

O novo líder sentir-se-á de certa forma reconfortado pela convicção de que a verdade e aquilo que é útil ao povo irão acontecer invevitalmente mesmo que isso leve um milhão de anos. Ele ainda não fará nada PELAS pessoas, mas simplesmente fará coisas, fazendo-as bem. Novamente, deixará as pessoas salvarem a si mesmas. Saberá que ninguém mais pode fazê-lo por elas. Simplesmente viverá à frente das pessoas e deixará que elas se juntem ou não a ele. Será antes um guia do que um líder. O guia apenas conta como chegar a salvo ao topo da montanha. Não determina qual montanha o turista deseja escalar. O novo líder pode muito bem estar conduzindo um mundo inteiro sem que ele mesmo saiba que está conduzindo, ou sem o que o mundo esteja ciente de que está sendo dirigido por este único líder. Cristo foi um líder assim. O modo de ser do novo líder, suas idéias, sua conduta e objetivos podem ter penetrado imperceptivelmente  a mente pública, sem que ninguém tenha notado. Pode ser que ele ainda tenha de assumir a culpa por distorções que não são de sua autoria ou por males que nunca propôs, e pode, no final, ser crucificado exatamente como Cristo  o foi, mortalmente. O novo líder saberá que isto poderia muito bem acontecer a ele. Sente-se responsável não pelo povo mas pelo que está acontecendo no mundo, exatamente como cidadão do mundo se sente responsável pelos eventos mundiais. Esta é também uma nova característica da nova liderança: o sentimento de responsabilidade em cada cidadão do mundo por tudo o que está acontecendo, mesmo em cantos longínquos do globo. O saco vazio, tagarela, tapa-nas-costas, mexeriqueiro, piada-suja, fodedor, de um cidadão irresponsável de um páis livre é uma coisa do passado. Isso é certo.

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O ASSASSINATO DE CRISTO – VI


 

Segunda parte do último capítulo de “O Assassinato de Cristo” de Wilhelm Reich:

A partir de sua própria experiência dolorosa e perigosa, nosso líder saberia que tornar-se um líder das pessoas com a estrutura que elas têm significaria que uma das seguintes coisas aconteceria.

Ele se entregaria plenamente aos caminhos do povo e, com ele, permaneceria imóvel no lugar. As grandes promessas e expectativas e programas logo seriam meros recitais de feriados e litanias rotineiras sem nenhum significado ou qualquer sentido. As pessoas estariam silenciosamente desapontadas, mas não falariam muito para efetuar uma mudança, pois tudo isso estaria absolutamente de acordo com o seu letárgico imobilismo. Esse imobilismo continuaria até que aparecesse o tipo mais ativo e aventureiro de líder.

Esse outro tipo de líder seria igualmente uma vítima da necessidade que as pessoas têm de salvação e promessas de céu na terra. O futuro ditador é desse tipo. Ditadores desse tipo se entusiasmam pelos anseios genuínos das massas. São seduzidos a prometer ao povo tudo o que o povo deseja ouvir.

Absolutamente ingênuos e honestos (a menos que demos conta desta honestidade dos ditadores, seu poder sobre o povo não pode ser realmente compreendido), eles juntarão as esperanças do povo, impossíveis de realizar, às suas próprias esperanças, impossíveis de realizar, até que tenham erigido diante do povo um edifício magnificente de um grande império, de um céu final, de poder e glória ou de uma terra onde só mel e leite correm nos rios.

Ao fazer isso, esses líderes acreditam honestamente que conduzem e dirigem as pessoas, que são os salvadores da sociedade. Não têm nenhuma consciência de que apenas caíram presas do mais típico e mais pernicioso dos sonhos dos povos por toda parte. Foram arrebatados por um rio gigantesco, e ainda acreditam que eles são os únicos que fazem o rio fluir. É claro que são apenas marionetes agindo como grandes imperadores do rio que realmente os carrega e os arrebata. Eles não têm a menor idéia a respeito da natureza do rio no qual são carregados desamparadamente; nem saberiam nada sobre como dirigir o rio para um tipo diferente de leito ou como construir uma barragem contra seu poder de inundação. São como os palhaços de circo que fazem certos gestos para fazer o público acreditar que eles são os únicos que fazem o show começar ou para, que movem montanhas no palco pelo simples gesto. São como mágicos que mantêm as pessoas pasamas até que os truques sejam  plenamente revelados e outros mágicos com diferentes tipos de truques apareçam em cena.

Nosso líder, que não é deste tipo, sentiria e se comportaria, pelo menos por um momento ainda, como um ditador, levado por sua inclinação natural a saborear cada pequena porção dos negócios humanos, para conhecer tudo por sua própria experiência pessoal. Nosso líder, portanto, também se deixaria conduzir no topo das ondas de adoração do herói humano. Seu gozo com a louvação teria de ser genuíno a fim de realmente saber como é ser louvado e adorado e encarado como o salvador do povo. Ele seria diferente do verdadeiro futuro ditador na medida em que, mais ou mais tarde, desenvolveria um gosto ruim em sua boca quanto a toda louvação e os gestos do povo à espera de salvação. Certamente ele se sentiria, de alguma forma, esvaziado da seiva de sua vivacidade e produtividade natural. Sentiria que esteve gastando espíritos e idéias. e certamente começaria a sentir a insensibilidade e o vazio das formas estereotipadas, sempre reincidentes pelas quais o povo torna seus líderes orgulhosos de si mesmos. Apenas nos primeiros tempos ele sentiria que o ardor dos discursos é levado a sério; que a determinação manifesta de trazer o bem para este mundo é auto-sustentadora; que, uma vez no poder, era só ir até a miséria e varrê-la com uma grande vassoura.

Embriagado de tal forma por espíritos embusteiros e por uma disposição crescente de salvação, nosso líder começaria a se sentir rançoso. E faria uma das descobertas mais perturbadoras:

ELES REALMENTE NÃO PRETENDEM ISSO. É tudo um espetáculo de bondade. Não é mais do que uma promessa vazia. Isto ele perceberia em pequenas questões; questões que usualmente não chamam muita atenção.

Naturalmente, nosso líder se deve cumprir sua função, tem de saber como trabalhar, como realizar uma determinada tarefa, como fazer a vida com as coisas práticas, como construir uma mesa, como tratar de um ferimento, ou como deter a ansiedade asfixiante em uma criança, ou reparar uma situação confusa de uma família, ou pilotar um helicóptero, ou polir vidro para fazer lentes, ou derrubar uma árvore, ou pintar um quadro, ou decifrar o enigma de uma doença, ou dispor um experimento a fim de resolver um problema da natureza, ou como emprender o tratamento de um adolescente na agonia da frustração genital e muitas outras coisas altamente desinteressantes para a alma de um ditador.

Nosso líder, em suma, saberia como trabalhar e o que realmente significa trabalhar; quanto esforço, esforço detalhado, minucioso, está envolvido mesmo numa pequena realização. Ele sentiria isso. E este sentimento, mais cedo ou mais tarde, fá-lo-ia tomar consciência de que o que as pessoas dizem a ele é apenas conversa fiada. No momento em que tentasse colocá-las a caminho para fazer coisas práticas, elas começariam a desprezá-lo, ou apenas falariam, falariam, falariam sobre o elevado ideal da carpintaria, da medicina ou educação ou indústria ou pilotagem. Mas, na verdade, elas não moveriam um dedo, apenas falariam e sentariam em rebanhos ao redor de mesas agradavelmente arrumadas com comida ou bebidas em cima delas, ou apenas se sentariam imóveis.

A princípio, ele se recusaria a aceitar sua noção nítida de que eles estão apenas falando, transformando cada pequena tarefa prática em meras idéias de fazer isto e aquilo. Instalar-se-iam no imobilismo, como os milhões de camponeses russos se instalaram por séculos, quando não moviam susas costas doentes e rígidas por um pedaço de pão. Instalar-se-iam no imobilismo como o coolie chinês se instalou por séculos, quando não puxava seu riquixá pela rua de alguma cidade grande, suando para ganhar seu pão diário. Este imobilismo os faladores chamam de a natureza filosófica do homem oriental, não sabendo nada sobre a doença de massa do Oriente, que é a rigidez do corpo através da couraça. E, sonhadoramente, falariam sobre o que eles fariam quando arrebatassem o poder sobre uma nação oriental ou ocidental, como eles iluminariam as pessoas e lhes trariam liberdade, e os conduziriam ao Socialismo que inevitavelmente estava chegando, tendo acabado de atingir o fim da primeira fase tal como é descrita no evangelho socialista, e estando a prestes a entrar na segunda fase do desenvolvimento, o Comunismo plenamente amadurecido.

Sentado em meio a essa multidão palradora, nosso novo líder permanecerá calado. Perguntar-se-ia: mas e quanto à mente mística, a crença em fantasmas, e quanto aos rastros de sabujos ferozes às bruxas, e quanto à miséria nas alcovas conjugais, e ao espancamento das crianças por desrespeito, e quanto aos pesadelos daqueles que ingressam na puberdade? E quanto ao trabalho espontâneo, aos cuidados com utensílios, à direção segura, à pilotagem de trens e avi~eos em segurança e a tempo, e todo o resto? O que vocês farão com relação a tudo isso?, ele pode ousar questionar. Oh, isso é mera coisa de burguês. Uma economia planificada dará conta disso. E quem planificará? A Comissão de Planejamento, é claro. E o nosso líder verá com seus olhos interiores as aldeias queimadas dos camponeses ucranianos feridos mortalmente ou mandados para a Sibéria por “sabotagem”. Esses camponeses apenas se instalaram e foram incapazes de mover-se além das tarefas diárias mais essenciais, necessáfrias para manter a vida caminhando; e eles simplesmente não tinham a menor idéia do que estava acontecendo, porque tiveram de ser conduzidos à “liberdade” por rapazinhos ignorantes, espertalhões, que sentiram o cheiro do poder e se embriagaram com ele, e começaram a alvejar camponeses que carregavam o resultado da velha peste de mil anos em suas costas enrijecidas, transmitindo-o a seus filhos por meio de espancamentos.

A partir desta imobilidade do corpo, desta restrição da vida nos membros e nas entranhas, emerge toda a irresponsabilidade, porque as pessoas simplesmente se tornaram incapazes de assumir a responsabilidade; todos estão desamparados, porque foram atirados ao desamparo ou, então, tornaram-se impotentes por um modo de vida cruel, ignorante, de muitos milhares de anos de estagnação.

Rapidamente nossos mascates da liberdade se tornam ladrões de liberdade. Não há mais nada que eles possam fazer, uma vez aque não há nada que eles saibam desta doença de massas. E mesmo que soubessem o que não ousam saber, uma vez que isso os faria fluir, eles não saberiam o que fazer a respeito. O mascate da liberdade não deve ser acusado por esbravejar contra a miséria diante de milhares de ouvintes. Ele DEVE ser desmascarado por NÃO PRETENDER O QUE DIZ, ou, se ele o pretende, por não saber absolutamente como lidar com as coisas depois de atrair as pessoas ao jugo de seu poder com as suas promessas.

Nosso líder sderia arrastado ao mesmíssimo rio de agonia se não fosse um homem do TRABALHO que sabe o que significa lidar com as coisas, FAZER, CONSTRUIR, PENSAR. Uma vez no poder, seria carregado ao topo pela necessidade de salvação por parte das multidões de pessoas imobilizadas; simplesmente para não ser despedaçado por seus próprios admiradores, teria de manter as crianças indo à escola; teria de prover a ñação de pão e milho e batatas e às vezes até de carne. E por ter apenas falado e não ter preparado nada para cumprir as promessas que tão prodigamente fez às multidões, ele agora deve tornar-se o ditador cruel, de forma muito pior do que o industrial do século XIX ou o imperador a quem ele feriu mortalmente.

O Ventre da Montanha (visão de um sonho em plena consciência)


Estou há três dias cumprindo a suspensão que me foi imposta (cujo desconto da metade do salário antecedeu-a em 23 dias!), sem nenhuma atividade, portanto, além de auxiliar nos afazeres domésticos e andar em casa, pra cima e pra baixo, com a Isadora no colo, conduzindo-a pela mão nos seus primeiros passos, ou simplesmente a acompanhando no andador.

E, no fim da manhã do último sábado chuvoso, acabei por parir, aos quarenta e quatro anos, este poema adolescente, que se insinuou nas minhas guampas, sexta-feira à tarde, quando subia a arborizada e poética Rua Barbosa Filho, no rumo de casa, após gastar uns cobres num “Tri Legal”, na esperança de ganhar um prêmio de loteria.

Ele cheira fortemente a plágio, e parece ter umas cores de Castro Alves ou Olavo Bilac, muito embora, como tantas vezes, tenha se desenvolvido a partir dos primeiros versos, em pura improvisão, diante da visão da montanha andina que nunca visitei, na viagem tão planejada e jamais realizada que eu e o Alemão Valdir faríamos, atravessando o deserto de Atacama, até encontrar o Oceano Pacífico, em Antofagasta, saídos do outro lado do continente, após nos despedir do Atlântico, em Tramandaí. Mas é, entretanto, o único produto, por enquanto da minha “vagabundice institucionalizada” e aí vai publicado para que os leitores possam ter a chance de ler alguma coisa neste blog além da pura (embora ótima) transcrição dos escritos do mestre Reich. Divirtam-se, se puderem:

O Ventre da Montanha
(visão de um sonho em plena consciência)

Silêncio absoluto! A hora é intensa
De uma solenidade sem fronteiras.
A cordilheira aos meus pés se ergue
Como uma catedral gótica rasgando
O céu gelado e tenso do poente.

No coração, envolto em neve, da montanha
Se abre o portal de um espelho transcendente
Que acolhe os raios translúcidos da tarde,
Me convidando a um sono em tons azuis.

Lá, no profundo do seu ventre mágico,
Sei que se encontra o sabor perdido
De um forno a lenha perfumando a tarde
Com sua fumaça, assando roscas de polvilho.

No extremo oeste, a milhares de quilômetros,
Venho encontrar, escondido, bem enterrado,
O crepitar saltitante, o entusiasmo
Bobo de passear na rua
Sob o frio transparente de um sábado à tarde.

Venho rever o encantamento de correr,
Piá solto, o arvoredo, espiando
De longe o canto obscuro
Em que ardem, hipnotizantes,
As chamas de uma ancestral fogueira.

Mas, ao tocar o coração do monte,
Tudo se esvai em cinza, em minhas mãos
Só restam grãos tímidos de sonho,
O mundo berra
Aos meus ouvidos com as contas por pagar!

Levanto, em um salto lúcido, e bato,
Forte, no muro duro e invisível
Do quotidiano de peão metido a poeta.

As correntes da rotina me maneiam
E já não há fuga apaixonada e mística.
Só o torpor de porre de cachaça
Pode me anestesiar de sua aridez intensa!

Gravataí, 24 de outubro de 2009.

Ubirajara Passos

O ASSASSINATO DE CRISTO – V


Publico abaixo a primeira parte do último capítulo do apêndice de O Assassinato de Cristo, do mestre Wilhelm Reich, que resume, de forma candente, os antecedentes.

O NOVO LÍDER

A História ensina quais os maiores erros que podem ser evitados durante o avanço para o desconhecido. Ela não pode ensinar ao líder emergente como será ó futuro, se sonha com um futuro diferente da vida social presente e passada. É certo que a sociedade humana se move para diante, resoluta, resistindo a qualquer interrupção do movimento. Mesmo as grandes sociedades asiáticas que tinham permanecido inalteradas por longos períodos de tempo, começaram a se mover para frente, e entraram mesmo num fluxo rápido quando se puseram em contato com o pensamento ocidental.

A Revolução Russa de 1917 forneceu a experiência qjue mostra que não há nenhum objetivo determinado a ser derivado do passado. A visão marxista da “necessidade histórica” apenas se manteve enquanto se tratava da necessidade de mudança. Falhou completamente na medida em que contéudos e formas de desenvolvimento futuro foram previstos; o resultado real da libertação da escravidão feudal na Rússia no século XIX foi o aumento da escravidão em vez do crescimento da autodeterminação humana.

Com o ingresso de grandes massas humanas na cena social por toda parte – pessoas que carregam todas as misérias e distorções ao mesmo tempo que as esperanças do passado num futuro obscuro –,  a determinação mecânica de metas fixadas e objetivos distintamente delineados de desenvolvimento social torna-se naturalmente impossível. Uma das maiores razões para o caos generalizado deste sélculo XX, de transição e transformação da sociedade humana, é que massas de povos em movimento encontram-se com pilhas de idéias humanas, a maioria das quais ou são remanescentes do passado, carentes de conhecimento da natureza humana, ou, para começar, inteiramente irracionais.

Moldar o destino humano de acordo com planos, da mesma forma como se constroem impérios industriais, tornou-se obseto. De fato, isso nunca foi possível, desde que os grandes empreendimentos imperais de um Napoleão ou de um líder de massas ditatorial dos tempos recentes não são mais do que episódios breves, insignificantes no tremendo movimento que apanhou a sociedade humana sobre todo o planeta.

Uma outra razão maior para o caos de nossos tempos é que as questões cruciais que estão na base toda a comoção são inteiramente sobrepujadas por questões de uma natureza injuriosa que governam a cena da política e dos políticos. Como um médico ou trabalhador social numa pequena comunidade em algum lugar, compara o que vês com teus olhos no domínio da miséria humana com o que lês nos jornais sobre a existência do homem, e compreenderás imediatamente o profundo abismo entre a vida oficial e a vida privada, verdadeira.

Além do mais, uma outra característica dos tempos é que um tipo inteiramente novo de movimento social está nascendo, e que pessoas que não têm a mais vaga noção do que está acontecendo, são os estadistas dirigentes; esses líderes dos homens moldaram suas idéias de acordo com padrões de pensamento passados e estão se fixando rigidamente no erro.

À primeira vista, é espantoso, mas absolutamente lógico, que nenhuma das questões básicas dos movimentos e sublevações radicais do povo seja mencionada em lugar nenhum da disputa gritante, berrante, gesticulante que tomou conta de nossas vidas.

É de conhecimento geral, e não há necessidade de nenhuma outra prova, que a comoção atual na sociedade humana não tem nenhum líder autêntico; em outras palavras, não se vislumbra ninguém no horizonte que se pudesse desenvolver a ponto de se tornar aquilo que um Cristo veio a significafr para a era Cristã ou um Confúcio para a cultura asiática. Os lídres atuais não são mais do que agentes da sebgurança deste ou daquele aspecto do status quo, ou simplesmente bandidos em mares sem lei. são como saqueadores numa pilhagem generalizada durante uma enchente ou um terremoto. Infelizmente esses ladrões são tomados por novos líderes pelos inúmeros Babbits muito deslumbrados, sentados entre ilhas daqueilo que ficou de um passado mais feliz.

Vamos agora cacterizar um líder que emergiria do caso atual e seria capaz de observar e manipular as principais correntes na comoção social. Que tarefa, que decisão fatal esse líder teria de enfrentar?

Freqüentemente se diz que um líder em nosso tempo teria de ser muito semelhante a um super-homem, um homem nietzscheano distanciado de seu companheiro humano. Conseqüentemente, é difícil imaginar um líder assim.

Uma tal imagem de liderança para os nossos tempos deriva claramente da necessida antiga, gasta, que o homem tem de mistificar a liderança, mesmo antes de o líder ter ingressado na cena pública. No caos de nosso dias ela promoveu e afastou o líder para uma região onde ninguém  possa alcançá-lo, assim ninguém pode nem mesmo chegar perto de ser como ele.

Se compreendêssemos bem a lição do Assassinato de Cristo, um tal líder certamente não conseguiria dirigir os movimentos das massas do povo-em-comoção a partir do passado para uma existência futura racional.  Teria de falhar, pois estaria fazendo pouco mais do que fornecer um outro símbolo místico às multidões sexualmente frustradas, carentes de amor, destituídas das garantias básicas da vida.

Se aprendemos bem a lição do Assassinato de Cristo como temos razões para acreditar, um líder de povos em nosso tempo seria quase o oposto exato do que as pessaos estão tão ansiosas por ver ou aclamar como seu líder. Em sua vida cotidiana, ele se distinguiria pouco dos modos de vida usuais do povo. Seria um homem que submergiria no rio da vida e nos movimentos do povo muitas vezes, aprendendo suas lições sangrentas de fracasso reiterado; cometeria muitos erros estúpidos e teria de aprendcer a corrigir erros imbecis sem se afogar.

Teria de passar por cada tortura do inferno humano em seu empenho por conhecer a natureza humana praticamente e eficientemente de dentro para fora e de fora para dentro. Teria de ter vivido com publicanos e pecadores e prostitutas e criminosos para conhecer o solo do qual se desenvolve tanto a esperança humana como a miséria. (Se ele fosse um líder como as pessoas gostam, apenas acrescentaria mais um palhaço à massa de pequenos e grandes fazedores de barulho que não significam nada no longo curso da história humana.)

Um tal líder teria de possuir ou desenvolver uma qualidade extraordinária, jamais vista, inimaginável do ponto de vista corrente de como deveria ser a liderança dos homens.

TERIA DE SUPERAR QUALQUER TENTAÇÃO DE SE TORNAR UM LÍDER E TERIA DE EVITAR QUALQUER ISCA POR PARTE DO POVO PARA SEDUZI-LO NA LIDERNÇA. SUA PRIMEIRA GRANDE TAREFA SERIA recusar ser um líder.

Um tal líder sentiria imediatamente o perigo que ameaça engolgar todo líder do povo, a saber, tornar-se um mero objeto de admiração e fornecedor de salvação e esperança para o povo. Um tal líder daria o primeiro passo no sentido de guiar o povo, ao levar o povo a sério e ao dexiar que ele se salvasse a si mesmo, com o respaldo das garantias sociais, econômicas e psicológicas necessárias.

Um tal líder certamento ou teria lido a história do Assassinato de Cristo ou, por experiência própria, logo teria aprendido que as pessoas criam seus Cristos vivos a fim de se submeterem a eles ou, se os Cristos se recusarem a se tornar Barrabases, mata-os instantaneamente apenas para que sejam promovidos ao céu em proveito da salvação, sem que elas mesmas movam um dedo.

Almanaque do Peruca – 4


 

Recebido diretamente da central de fofocas do Kadu, pois o estágio do Peruca terminou e não temos mais acesso direto ao personagem e suas aventuras, seguem abaixo as últimas façanhas do estudante mais brilhante de Gravataí na Ulbra local:

Em uma prova oral de Direito Civil , indagado se o cego possui capacidade jurídica,  o Peruca respondeu, convicto como um jegue diplomado: “Sim,  possui plena capacidade,visto que consegue entender a língua dos SINAIS e também, ler em HEBRAICO!!!”

Definição de Edital, segundo o Peruca, em uma avaliação dissertativa de Direito Processual:  “é uma forma de fazer uma pessoa saber o que ela não sabe. O único problema é que ,
muitas vezes, porque não lê o jornal, ela não vai mesmo ficar sabendo".

Em um teste aplicado  ao Peruca no final do ano de 2001, quando já cursava por 6 longos anos o curso de  Direito, foi lançada a seguinte questão: "Cite um exemplo de crime formal."
A resposta, inspirada pelo atentado de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos da América, foi: explosão mediante sequestro.

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Submergindo na Inciência


Após quase dois anos sem escrever uma única palavra neste livro eletrônico, embalado neste renascer de primavera (que continua insistindo em ser inverno, os termômetros registram 14º C neste momento), resolvi dar seqüência, hoje, à fábula Erótilia. Segue aí mais um pequeno capítulo:

Submergindo na Inciência

Nos dias que se seguiram, mestre e discípulo imergiram totalmente nas brumas alcoólicas, e, porre após porre, ressaca, após ressaca, Pancius foi instruindo Epicuro nas artes do desapego absoluto e do desprendimento dos hábitos de comportamento automáticos e auto-limitantes. Todas as rotinas imóveis e encarceradoras de postura, todas as etiquetas, do falar, do comer, as dissimulações hipócritas do modo de olhar e de falar, as regras da rigidez nos gestos íntimos ou públicos foram colocadas em questão e demolidas. Não pelo discurso racionalista. Nem pelas exortações panfletárias e milenaristas dos místicos revolucionários. Mas justamente pelo descontrole pessoal das situações, o deixar-se levar e o rompimento fisicamente obrigatório com os “bons modos” e a autodisciplina.

Jogado num turbilhão incontrolável de vinhos, cervejas e destilados de ervas amargas e aromáticas, o noviço pagão perdeu completamente a vontade própria, conduzido pelo cansaço físico e a confusão de estados d’alma. E o gordo mestre tratou de ensinar-lhe então o prazer ou a simples satisfação de vomitar-se todo, no auge da bebedeira. De mijar na toga, cagar em qualquer canto de floresta, rolar-se no chão e sujar-se, caminhar pelado na chuva, comer qualquer fruta achada pelo caminho, com as mãos embarradas da terra mãe, e simplesmente respirar, comer e viver segundo as pressões imediatas do corpo, da luz solar e da escuridão, dos ventos, do calor tórrido e das neblinas.

No nono dia de “loucura mansa”, quando Epicuro se encontrava absolutamente envolto nas ondas do inconsciente, e preparava-se, extenuado, para dormir uns bons três dias sem intervalo, Pancius o acordou, seis horas enjoadas de uma madrugada de outubro e o conduziu para um banho gelado no lago local, o fez vestir-se impecavelmente e pôr-se em marcha por uma trilha pedregosa e completamente cerrada de mato, enormes troncos e cipós de ambos os lados.

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50 dias de silêncio


Segundo a Bíblia, Cristo, no início de sua carreira, passou quarenta dias no deserto, reinando consigo mesmo e batendo boca com o Capeta.

Ninguém sabe ao certo, até hoje, se o duelo verbal entre o profeta hippie e o bajulador chifrudo foi o resultado mental da privação de água e do calor desértico, ou se o piá divino havia se recolhido aos sertões da Palestina justamente para fumar sossegado aquela ervinha diferente.

O fato é que a besta idéia resultou num dos mais equívocos e irônicos embates de personalidades da História imaginária. Um subordinado do “Todo Poderoso” que oferece reinos ao seu próprio procurador humano plenipotenciário, como se este precisasse do puxa-saco para conquistá-los, em troca da sua adoração é, no mínimo, imbecil ou irremediavelmente vaidoso. O que destoa, por completo, da idéia do diabo malandro e  perspicaz que aprendemos.

Isto sem falar, é claro, na contradição entre um temido capeta perigoso e violento e os laivos gays de uma proposta do tipo: “por que não te atiras deste precipício para que aqueles anjos loiros e sarados venham te amparar nos braços”?

Mas o pior de tudo, mesmo, é o tal Deus vivo encarnado em homem se deixar levar na conversa inábil do tinhoso petulante e hesitar a ponto de quase cair no infernal golpe do bilhete!

Seja como for, duvido muito que o divino exílio tenha tido os percalços por que passei nestes cinqüenta dias sem escrever um ó neste meu site. Chegado aos quarenta e quatro (conjunto de algarismos etários que duplica a infelicidade desta ambígua fase da vida que atende pelo pouco casual nome de “meia idade”), em 30 de agosto, fui,  de um sobressalto a outro, me encolhendo e tornando  a me jogar, pretensamente audaz, ao seu enfrentamento.

A verdade é que a pindaíba crônica se viu agravada, neste dias, pela necessidade  de realizar uma festa decente de 1.º aniversário (completado em 1.º de setembro e comemorado no sábado seguinte, dia 5) à coisinha mais linda do  mundo, a minha filha Isadora. E quaduplicada não só pela ameaça de corte da URV do meu salário (bem como de todos os funcionários da justiça do Rio Grande do Sul), mas também pelas conseqüências salariais da suspensão a que fui condenado em razão das retaliações políticas que me move o patrão judiciário há mais de um ano – que resultou, com o desconto de metade do salário bruto, somado aos normais do contracheque, em nenhum centavo sequer para um gole de cachaça.

Neste meio tempo fui do entusiasmo de sindicalista ameaçado de perder direitos salariais garantidos à perplexidade e o medo covarde de funcionário acossado, sem recursos com que sobreviver e sustentar família senão aqueles que a solidariedade paterna, de parentes da minha mulher e de companheiros de luta e beberagem permitiu-me. Fica aqui a minha gratidão e homenagem a estas criaturas, que saberão quem são, sem necessitar nominá-las.

E, se escrevi e produzi alguma coisa intelectualmente, foi completamente absorvido pelos fatos, de modo que este blog viu-se relegado ao milionésimo plano frente ao seu irmão, o do Movimento Indignação, e aos discursos sindicais e providências materiais necessárias ao drible da secura salarial, que quase me faz delirar como a secura de água do Cristo no deserto.

E assim é que cheguei aqui, três horas da madrugada fria de uma primavera sulina que teima em se esconder e travestir de inverno, para simplesmente dar uma satisfação aos leitores, e, com a linguagem empolada de que volta e meia se reveste a minha dupla personalidade (já que o malandro, nestes tempos, correu em disparada) dizer que ainda estou vivo. E que, apesar de todo o temporal, e da sacanagem, me pego embevecido e terrivelmente feliz e fascinado com um simples sorriso franco, espontâneo, entusiasmado e gostoso da minha filhinha. Isadora, que a vida te seja mais doce e menos pesada do que tem sido comigo, mas, sobretudo, que não seja tediosa, nem tenha menos peripécias do que as que este teu pai louco quarentão tem experimentado.

Isadora no colo de seu avô octagenário, meu pai, Almiro dos Passos, ladeados por mim e minha mulher Janaina

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