O TÉDIO INSTITUCIONALIZADO


Segunda-feira é um dia que deveria ser varrido do calendário, juntamente com o domingo. Não há coisa mais tediosa que o descanso “obrigatório” . Se, por um lado, ele garante ao escravo assalariado, pelo menos, um dia da semana longe da rotina opressora do trabalho (o que, com a reforma trabalhista e as “flexibilizações” do Inácio, pode vir a desaparecer), por outro, “obriga” a peonada (90% da humanidade) a “repousar” e se “divertir” exatamente no “domingo”. E voltar no dia seguinte, sob a presunção de que está “recomposta” mental e fisicamente, à despersonalização e opressão nossa de cada dia.

Na verdade o capitalismo (o escravismo assalariado) tem como prioridade exclusivamente o luxo, a vadiagem e o sadismo (o prazer de mandar e pisar em alguém) da escassa minoria de senhores “proprietários” (patrões) que se impõem sobre a massa de trabalhadores. O único direito reconhecido ao peão, de fato, é o de estar vivo e a serviço da “gandaia” da classe dominante. É nesta visão que o próprio dia de folga é chamado pela lei de: “descanso semanal remunerado”. Note-se bem: “descanso”. Não há qualquer menção à “diversão”, que (está implícito) é privilégio da classe que vive do trabalho alheio.

Mas, como ninguém suporta a permanente rotina de desgaste e mero descanso (pela exclusiva vontade do burguês trabalharíamos todo o tempo em que não estivéssemos dormindo, com a mínima exceção para criar novos escravos necessários, na “reprodução” sexual, e nos alimentar), a “plebe” ainda tenta divertir-se. E, como tudo que é obrigatório, dá com os burros ´n’água. Ou se aliena nos churrascos que se estendem pela tarde (pois a carne, quando não é escassa, é mero pretexto: o que vale é a cerveja) e na assistência dos “Fantásticos” (e outras abobrinhas televisivas) à noite, ou simplesmente cai no tédio. O que dá no mesmo.

Embora já desacreditado há decadas, no fundo do inconsciente coletivo do Ocidente, paira, ainda por cima, a velha obrigação do “dia do senhor” (domine die, de onde derivou o “domingo” nas línguas novilatinas). Quando a Igreja (a sócia ideológica dos “senhores”, que se encarregava, antigamente, de cumprir a missão de fazer a cabeça do “povão”, para perfeita submissão ao papel de servo ou escravo) impunha a todos a o fardo de devotar o domingo a “Deus”.

Ou seja, ainda que mecanicamente estabelecida a folga (sem qualquer relação com os ritmos biológicos e emocionais do homem e, portanto, necessariamente alienada e desprazerosa), há uma necessidade enorme da elite dominante em impedir que ela se preste ao prazer legítimo e à reflexão do escravo assalariado.

A interdição velada ao pensamento questionador e reflexivo (que se dá empurrando milhões de asneiras, cheias de regras sub-liminares de comportamento, através da hipnose rádio-televisiva) é uma necessidade mais ou menos óbvia da dominação. Mas o que surpreende os menos observadores é a proibição indireta do prazer. Que decorre do próprio caráter mecânico, e apartado da natureza humana, da folga “obrigatória”, e fixa, em determinado dia.

Pois, se o deleite ocorrer de forma genuína (isento dos condicionamentos e “substitutos” anti-naturais como o fumo ou as drogas pesadas), por um instante, a cada semana, que seja, poderá suscitar o desejo de sua repetição. O que estará em frontal contradição com a necessidade de dedicação “séria” e permanente do gado humano ao trabalho que sustenta o privilégios de seus “donos”.

Se a peonada gostar da coisa pode virar a mesa e colocar abaixo o sistema que a transforma em mero acessório do calendários e dos relógios, em busca de sua “humanidade” perdida em meio às engrenagens da máquinas e computadores. E aí, ai da nobreza burguesa! Sem escravos vai ter também de pegar no cabo da enxada. Boa semana de trabalho para todos!

Ubirajara Passos

QUANDO O TÉDIO VIRA AMOR DESESPERADO


Havia escrito um desafabo ideológico e antropológico sobre o tédio do “domingo” (cheguei a acordar o meu amigo Valdir para ler o texto antes de publicá-lo), postei-o e, quando fui atualizá-lo, graças à “reina” da Internet, o blog acusou que “a página havia expirado”, se apresentou uma tela em branco na minha frente, que eliminei, e já era texto! Não era nenhuma “Brastemp”, mas tinha a substância da minha mente e emoção no momento que foi escrito.

Assim me resta publicar mais uma parte do “estoque” literário. Segue um poema escrito para uma das maiores e mais equívocas paixões da minha vida:

Por que insistes nesta fria indiferença,
Aos meus arroubos respondendo com um “te quero como amigo”,
Por que transformas-me a cama em leito funeral
E me condenas a uma vida sem sentido?

Por que me jogas contra a alma apaixonada
A dura frase – “ Eu não te amo,
E, como me queres, nunca adorar-te-ei” –
Se o que me diz a tua boca o olhar desmente?

Por que transmudas em crime o meu carinho,
Quando eu te amo mais do que a mim mesmo?
Por que escondes, sob a fria capa
Da racionalidade inabalável,
Este tremor que te embaraça o gesto
E esta mão que aquece-se aos meus beijos?

Por que permites que o prazer faça-se tormento,
Por que amargas a minha alma insone
Com este “não” que gostaria de ser “sim”,
Te recolhendo à nostalgia do amor de ontem?

Por que condenas-te a viver na aridez
Das orgias frouxas de amor
E nos reduz a medíocres personagens
De uma ópera “policial” de pouco gosto?

Por que não deixas que este amor secreto –
Que, mal contido pelo frígido disfarce
Do teu rosto, se remexe no teu peito –
Possa ao meu peito se arrojar, selvagem,
E conduzir-nos, cálidos, ao Éden?

Gravataí, 7 de fevereiro de 2000

Ubirajara Passos

ANGÚSTIA


Por mais que a minha mente se ocupe de mil assuntos, sempre há aqueles momentos em que o tédio e a falta de sentido me invadem sem trégua. O poema de hoje é um retrato típico destes momentos:

ANGÚSTIA

Tédio infinito que me fere a alma,
Melhor seria a morte completa
Do que viver cada segundo inútil
Na angústia de abreviar o tempo,
Na obrigação de suportar o instante morto
Cumprindo o protocolo de existir.

A extinção do próprio ser é bem terrível,
Porém pior do que ela é odiar a vida:
Querer eliminar tempo do que resta,
Gastando o saldo insosso de existência
Na náusea sem limites dela mesma.

Também a dor cruciante clama à morte,
Como remédio único aos seus transes.
Mas ele mesmo, o sofrimento desmedido,
É mais benéfico, ainda, que tu, tédio –
Maldito algoz que nulifica a alma
E faz-me em vida morto, conscientemente.

Por que não vens, ó Tânatos cretino,
Num golpe inesperado o ser furtar-me
Deste vazio que injustifica tudo,
Ou, pelo menos – como a covardia
Não me permite o próprio suicídio –
“Assassinar este poema horrível?”

Gravataí, 20 de setembro de 1999

Ubirajara Passos

ÁUREO FANTASMA


Se no último poema publicado se encontra a mulher “abstrata e universal”, a característica psicológica primária que se identifica com o modelo construído concretamente no imaginário social do “feminino”, no poema de hoje trato da mulher de carne e osso, ainda que envolta na meia-luz da fantasia.

Como os leitores devem ter notado, os meus poemas anteriores a 1997 padecem de um certo formato “clássico” (no sentido de corresponder a grandes modelos pré-estabelecidos e consagrados) e distante do quotidiano. Pois foi com este poema que os eventuais leitores da época, colegas de trabalho e alguns amigos, reconheceram, pela primeira vez, a mudança do meu estilo para algo mais vivo e próximo da sensibilidade sem frescuras.

ÁUREO FANTASMA

Era pura poesia aquele anjo
Do céu caído. O ar dormente, vago,
Com que encarava o mundo a sua frente
Prometia-me mil êxtases celestes,
Na aura loura de sua cabeleira,
Em que, transparecendo, o luar dourava-a.

Quanto mistério, quanta dor profunda
Vive, ignota, talvez, sob esses cachos.
Quanta lágrima ardente, sufocada
Na quotidiana opressão, quanta desgraça…
E eu, no entanto, só via, em sua beleza,
A encarnação apaixonante do sublime.

A realidade nunca saberei.
Os meus próprios recalques, o clamor
Paralisante da rotina me deteve
E deixei-a ir sem abordá-la.
Da linda mulher de carne e osso
Restou somente o eterno enlevo do momento.

Gravataí, 19 de julho de 1999.

Ubirajara Passos

MUSA


Segundo Carl Jung todo homem possui em sua mente uma “mulher” interior, que encarna os valores da sensibilidade e da subjetividade, e que é uma ponte entre a consciência e o reino da fantasia e dos arquétipos (personagens interiores constituídos de padrões universais de energias emocionais e padrões de comportamento específicos comuns ao imaginário inconsciente de toda humanidade).

Embora tenha lido o primeiro livro junguiano (“We – a chave do entendimento do amor romântico”, de Robert A. Jonhson) em 1993, ao escrever o poema seguinte não me dei por conta, na época, do quanto ele retrata esta “personagem interior”, a Anima. Agora que já torrei a paciência dos leitores com a minha explanação psicológica “caipira”, vamos ao poema:

MUSA

Na invernal noite, de séculos de idade,
Perdida vive minha fantasia:
Um vento gélido na praça iluminada
E, esvoaçando às inquietas rajadas,
A capa vermelha de uma adolescente.

Bela, intrigante é sua face clara,
Por negras madeixas adornada,
E, cintilando mais que a claridade
Das lâmpadas de forma globular,
Uma sensibilidade embriagante
Escapa de seus olhos e ofusca
Todo o arvoredo sob um mar de esmeralda.

Todo seu vulto, me meio à pétrea praça,
Respira um ar terno de fragilidade
E, simultaneamente, nos transmite
A determinação inquebrantável
De um ser que é pura rebeldia e liberdade.

Na maciez rubra de seus lábios cálidos,
Emoldurando-lhe o níveo sorriso,
Vibra o ímpeto mal-contido de paixões,
Fundido à leve e delicada poesia.

Esta musa estelar de pura ficção
É toda a obessão de minha alma.
Nela, o próprio pensamento apaixonado,
Está a fonte que há de saciar
De sua vã e eterna busca o meu espírito:
A poesia da interioridade.

Gravataí, 9 de abril de 1995

Ubirajara Passos

O TRAVECO VIOLENTOOO!!


O sujeito é estagiário de Direito em uma repartição forense e, embora metido a esperto e gozador, é uma das figuras mais lerdas e bocabertas (literalmente) que já conheci na vida (se lhe questionarem o que é “Agravo de Instrumento” é capaz de responder que se trata do som emitido por uma flauta rachada). E é, também, notável a fantástica circunferência de sua cintura, cuja massa correspondente é a responsável por cada cadeira giratória quebrada existente no setor.

Seus tantos “atributos” físicos e intelectuais e a contraditória arrogância sarcástica lhe valeram, por parte de seus companheiros, o apelido de “Peruca”. Mas, apesar das gozações de colegas de trabalho e faculdade, o “Peruca” é um cara impassível, de uma tranqüilidade inabalável, e mantém a pose amarelada do deboche.

Pois o “Peruca” andava pelo Centro, uma noite destas de novembro, praticando seu esporte favorito, dirigir sem rumo certo, quando deu com aquela gata. Coisa igual nunca havia visto, nem em viagem de chá de cogumelo. Era a própria esposa do “Tinhoso”. Loira, gostosa, de curvas “estonteantes” (se é que o “Peruca” podia ficar mais tonto do que era), usando uma micro-minissaia, sapatos de salto alto e bico fino e um bustiê cujos seios estouravam. E o que era mais fantástico: um mulherão (devia ter uns dois metros de gostosura naquele corpo), de voz rouca e sensual e ar decidido.

E tudo aquilo, aquela “Disneilândia dos Tarados” ambulante estava ali, na frente do “Peruca”, fazendo beicinho e o chamando por “meu gato”. O roliço camarada não teve dúvida: mandou pro inferno os xis-burgers gigantes que pretendia “traçar” no “Super Dog” e chamou a “moça” pro interior do carro. Hoje era o seu dia! Ia se fartar naquela carne dura! Mas “dura” mesmo foi a situação em que o “Peruca” logo viu-se.

Quem poderia imaginar o acontecido? Aquela coisa linda e “meiga”, vibrando e transpirando loucura pelos poros, ali, vivinha de carne e osso, ao alcance da sua mão… Bem que o “Peruca” estranhou quando a puta lhe deu um safanão com força, quando ele apalpou-lhe as coxas, mas pensou que era manha de puta gostosa (pois ela logo encheu a mão no caralho do “Peruca”, que, de emocionado, quase cai, e com o outro braço foi lhe enlaçando o pescoço).

A esta altura o “Peruca” andava nas nuvens (bem mais do que o costumeiro) e chegou a sentir um calafrio na nuca. Foi então que, lhe empurrando o “trinta e oito”, o travecão lhe disse, com voz cavernosa: “toca pro banco, meu babaca, que lá eu vou te fazer gozar bem gostoso!”

Na agência do Bradesco, o “Peruca” chegou a ver estrelas, não de prazer, mas de umas trinta coronhadas. Já eram nove horas, o máximo que podia sacar eram uns cinqüenta “paus” e o travesti bandido, nada versado na rotina bancária, não deu mole. Queria os R$ 600,00 de limite acusados no extrato! Após muita insistência e federal pauleira, o “veado machão” se convenceu e deixou o “Peruca” ir embora de cuecas, depois de lhe esvaziar a magra carteira (o “prejuízo” total foi de uns noventa).

Mas, dizem as más línguas, que o traveco cumpriu o prometido: não deixou o “Peruca” ir-se sem “levá-lo ao orgasmo”. O único problema é que o “Peruca” teve de gazear o serviço por uns bons dez dias: não conseguia sentar-se e, desde então, sofre de hemorróidas!

Ubirajara Passos

DOIS POEMAS “EXISTENCIAIS”


Assim como não só de política vive este blog, não só das emoções concretas, mas também das divagações mais etéreas se faz a minha poesia. Os dois poemas hoje publicados são um testemunho destes momentos de pura emoção e puro afluxo do inconsciente, das impressões mentais desligadas do imediato do dia-a-dia que nos tomam sem mandar aviso.

Canção Onírica

Antiga e azul madrugada que não tive,
De que escaninho da memória universal
Se desprendeu até mim tua fragância
De pungente e inefável poesia?

De que ancestral fogueira desgarrou-se
A dolorosa luz de tuas estrelas
E o vinho rubro, o canto de teus galos
A romper, tristes, os céus
Na evocação
De uma saudade infinita?

Donde hão vindo
As alvas ondas a correr, no horizonte,
O mar de Iemanjá na escuridão

Vila Palmeira, madrugada de 6 de junho de 2004

Ubirajara Passos

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Infinitos

Vaga-me à mente um desejo de amplidões,
Areias infindas dos desertos das Arábias,
Imemoriais planícies de horizonte
Aberto, mares sem limites.

Sentir a brisa rebelde das estepes,
Uma sibéria de tardes solares,
Gélidas e ofuscantes!

Navego, louco, pelas ilhas prístinas
Da mais remota, arcaica fantasia.

Por que não ser um nômade no mundo,
A palmilhar as emoções como possível,

Por que não içar velas no oceano
Do inesperado, do absurdo, do desconhecido.

Correr, sem os freios banais da vida rotineira,
Os já batidos cantos da cidade
E encontrar neles o desconhecido,
O novo a instigar a descoberta
De refinados e exóticos prazeres?

Porto Alegre, 27 de janeiro de 2003

Ubirajara Passos