Paixões, Asneiras e Tristezas finalmente publicado


Jamais usei este blog para promover minha vaidade (que simplesmente não existe, por questões meramente técnicas e não por inclinação emocional, é claro). Tanto que, quando uma crônica deste blog (A foda sagrada de Drukpa Kunley) foi ao ar, na primavera de 2011, com direito a comentários efusivos e sacanas de mais de meia hora em programa noturno da KFK, rádio web de meu amigo Barata Cichetto, não dei a notícia aqui.

Mas este velho livro de poemas foi tão maltratado nas tentativas feitas, no século passado e neste, pelas editoras nacionais, que sua autopublicação no site da multinacional Amazon (em versões e-book e impressa) e no nacional Clube de Autores (versão impressa sob encomenda que pode ser paga com boleto), merece o registro neste blog, no qual seus poemas foram integramente publicados.

Não há no livro, portanto (com exceção da profunda revisão ortográfica e gramatical) grande novidades para os leitores do Bira e as Safadezas, além do possível prazer de ter os poemas reunidos num único volume impresso ou num prático e-book.

Mas, para que a frustração não seja completa, reproduzo abaixo alguns trechos da biografia constante no final, que mencionam alguns fatos ainda não mencionados neste blog sobre a “República” do Alemão Valdir no bairro Petrópolis, em Porto Alegre:

“Com a chegada do sobrinho de Valdir, Rogério Seibt, de Santa Rosa, que se hospedou no apartamento para realizar o curso pré-vestibular, em abril de 2002, se constituiria, no Edifício Morumbi da Rua Amélia Telles, a lendária “República do Alemão Valdir” (que durou até janeiro de 2004, quando o alemão retornou a Santa Rosa), frequentada, entre outros, por Alexandre Vorpagel (o “Gordo Ale”), amigo e conterrâneo de Rogério, que cursava Radiologia na capital, e por Luiz Miranda Pedreira do Couto Ferraz (o “Baiano Luiz”), emigrado de Salvador, formado em Física e Filosofia e emérito boêmio, blogueiro e colecionador de falenas, que Valdir conhecera no Hotel Elevado, na Avenida Farrapos, quando viera morar em Porto Alegre, em 1996, e se tornaria parceiro de cachaçada, boemia e sacanagem de Bira e Valdir na sauna La Luna, na rua Barão do Amazonas.

Aí, na “República” (como Valdir constatara se parecer o apartamento, numa súbita inspiração num almoço de domingo), os fins de semana, e às vezes os dias úteis, eram agitados pelas infindáveis conversas, anedotas e histórias rocambolescas dos frequentadores, sempre devidamente regadas à cerveja, com exceção do “dono da casa”, que mantinha, desde 2001, tratamento com antidepressivos e raramente bebia. Às vezes, na ausência do Luís, em noites entediadas, muitos poemas amorosos deste livro vieram à tona pela primeira vez na internet, nos “chats” do alemão Ale com suas namoradas virtuais, enquanto Bira os lia em voz alta. E aí nasceram uns quantos poemas datados de Porto Alegre, aqui publicados, como “!” , Amargo Mate da Amargura , Embriaguez e Menestrel Equívoco.”

Ubirajara Passos

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DO ÚLTIMO BLOG DO ALEMÃO VALDIR, NUNCA DIVULGADO: “Santa Rosa e as Missões Jesuíticas: impressões sobre a utopia atávica no coração da América do Sul”


 

Em 5 de outubro de 2010, na sala da casa do companheiro Valdir Bergmann, ao lado da de sua irmã Astri, em Santa Rosa, escrevi o texto abaixo reproduzido, para a sua última versão do blog “O Folhetim”, nunca lançada (e cuja única matéria postada foi este meu ensaio). Nele (que deveria introduzir uma série sobre Santa Rosa e região), além de um pouco da história da minha amizade com o Alemão, pode-se conhecer um dos muitos sonhos que o entusiasmavam nos últimos anos. Embora eu compartilhasse (e desenvolve-se no texto as justificativas, agregando algumas impressões pessoais), a idéia da tríplice fronteira e regiões adjacentes como um país culturalmente diferenciado no coração da América do Sul, com uma base antropológica na presença comum de imigrantes europeus tardios, é dele e demonstra a variedade de interesses que o absorviam depois do retorno ao interior do Estado. Deixo, assim, os leitores na companhia de mais este pedaço vivo do pensamento do saudoso amigo do peito, companheiro de lutas, tragos, alegrias e desgraças, o eterno “alemão Valdir”:

Santa Rosa e as Missões Jesuíticas:
impressões sobre a utopia atávica no coração da América do Sul

Conheci Santa Rosa em 1994, quando, diretor recém-empossado do Sindjus-RS (o sindicato dos trabalhadores da justiça estadual gaúcha), percorri durante uma semana o interior do Rio Grande do Sul, em palestra sobre o ante-projeto de plano de carreira que, na condição de representante da entidade, ajudara a elaborar na comissão para isto designada pelo Tribunal de Justiça. Naqueles tempos heróicos e, de certa forma, ingênuos, mal sabia eu, brizolista de esquerda na casa dos vinte anos, os caminhos e descaminhos que percorreria na seguinte década e meia.

E muito menos imaginava os tantos atalhos, desvios e estradas sem saída que veria o Rio Grande do Sul, o Brasil, e o próprio movimento sindical em que militava, tomar para, finalmente, desembocar no infeliz e tragicômico teatro que faz do pobre palhaço Tiririca o deputado federal mais votado do Brasil, nos dias de hoje, e nós todos palhaços mendicantes a assistir o circo do capitalismo colonial e feudal disfarçado de radicalismo vermelho (o petismo) comandando e desgraçando o cotidiano de 90% dos brasileiros, que cada vez suam mais para ter  direito a menos nos seus bolsos e nas suas mesas (para não falar de carências mais complexas, mas tão imprescindíveis quanto uma vida digna da condição humana).

O referido ante-projeto, por exemplo, acabou tristemente engavetado, e neste ano de 2010, depois de 15 versões, continua a ser “estudado” pela alta administração do Judiciário, que desde então nunca mais admitiu a participação de um representante sindical nas sucessivas comissões elaboradoras, porque a minha atuação foi traumática demais para as autoridades, estranhamente escandalizadas com a garantia de direitos básicos constantes da própria Constituição, até hoje não aplicados, como a isonomia salarial dos servidores do interior com os da capital.

O companheiro que me acompanhava na épica jornada de sete dias entre Caxias do Sul e Pelotas, passando por São Borja, entre dezenas de comarcas judiciais visitadas, embora já demonstrasse alguns pendores pessoais um tanto narcisistas, na época, acabaria por se tornar, anos depois, surpreendentemente, meu desafeto político e hoje ocupa um alto cargo de assessoria burocrática na bancada petista do legislativo, em Porto Alegre.Bem longe, portanto, do afã dos cartórios ou das marchas e manifestações de rua.

Eu próprio já não ocupo cargos na executiva política do sindicato, mas candidato de oposição derrotado, por antigos companheiros, no presente ano, à coordenação geral dele, sou um dos tantos que lidera grupo de ativistas pró-servidores e anti-pelegos, o Movimento Indignação.Continuo tão radical e tão puro quanto então, nos meus princípios e atitudes políticas,mas já não tenho qualquer ligação com o PDT, descaracterizado após a morte de Brizola, na onda do adesismo ao neo-fascismo disfarçado do governo Lula,

Mas esta crônica não tem por fim contar a minha vida política e muito menos discorrer sobre as eternas mazelas de nossa sociedade. Se, abusando da paciência do leitor, acabei, também, por desviá-lo por outras veredas nada prazerosas e entretedoras, o foi por sestro psicológico inevitável e para dizer que, naquela era, mal passei pela cidade (tão somente o espaço de uma tarde de palestra no foro local ao retorno ao hotel em Santo Ângelo, à noite), como mal falei, em Caxias do Sul (pólo sindical a que pertencia a comarca de São Francisco de Paula, onde ele trabalhava) com aquele cuja amizade se tornaria, anos depois, o pretexto das inúmeras visitas que tenho feito a esta cidade da Região Missioneira do Rio Grande do Sul, o companheiro Valdir Bergmann. Foi na companhia dele que aqui voltei dois anos depois, em nova caravana de reuniões mobilizadoras pelo interior, agora somente sobre o centro, o norte e o oeste,que duraram semanas. Nesta nova ocasião a visita foi mais intensa, mas não passou do churrasco na casa da mãe do companheiro, da noite no hotel Rigo e da madrugada no bordel Replay.

Somente em 2004, quando o ex-diretor do Sindjus, Valdir deixava Porto Alegre (em que residiu por quase dez anos) para retornar à sua querência adotiva (filho de Cerro Largo), é que passei a visitá-lo freqüentemente e, coisa de uma a três vezes por ano, a conviver profundamente com Santa Rosa e com a Região das Missões e Noroeste do Estado. E fui mesmo além, incursionando duas vezes pela vizinha província argentina de Misiones, que, juntamente com a região gaúcha referida, constitui, desde o século XVII, um mundo a parte no cenário sul-americano, diferenciado de Brasil e Argentina, e aparentado da raiz nativa do vizinho Paraguai, em pleno coração do continente.

Desde então tenho conhecido mais e melhor um país que parece destinado a espelhar de forma concreta e silente, em meio às mazelas da sociedade capitalista moderna, as utopias ancestrais do Novo Mundo. Aqui se encontram as mais diversas etnias convivendo lado a lado, do imigrante europeu germânico, eslavo ou italiano aos recentes palestinos, e aos descendentes dos índios guaranis e mestiços de luso-brasileiros e da castelhanada. E aqui, a centenas, quase milhares, de quilômetros de Porto Alegre, de São Paulo, Brasília, Santiago do Chile ou Buenos Aires ainda é possível, mesmo a um estrangeiro como eu, ao passar pela rua, ou adentrar a fruteira e o boteco, ser recebido com aquele sorriso aberto, claramente espontâneo e acolhedor, com aquela empatia básica de um ser vivo por qualquer outro e manter, sem qualquer conhecimento prévio com o intelocutor, o mais despreocupado diálogo sobre o tempo, o preço da soja ou mesmo a malfadada política, o que só acontece após aquele cálido e simpático bom dia, boa noite, boa tarde…

Ao contrário das grandes metrópoles, muito raramente se vê um missioneiro andando pelas ruas com o ar preocupado, a cara fechada, o olhar esbugalhado e furibundo de um cachorro louco. O típico paulista ou porto-alegrense neurótico, entorpecido da fumaça das surdinas, pode até mesmo acabar por ter um ataque fulminante de tédio ou surpresa ao se deparar com um povo autêntico e de bem com a vida, embora nada apartado do trabalho duro e dedicado que formam o estofo da alma imigrante e de seus antecessores.

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Roberto Seibt, Ubirajara Passos e Valdir Bergmann a bordo da balsa, na travessia do Rio Uruguai entre Porto Mauá (Rio Grande do Sul, Brasil) e Alba Posse (Misiones, Argentina)

E neste ponto é interessante, até para encerrar esta idílica descrição, citar as casualidades aparentes e curiosas que fizeram desta a minha segunda querência e que perpassam a sua história. Nasci, vivo e trabalho em Gravataí, cidade no entorno metropolitano de Porto Alegre, distante quase seiscentos quilômetros desta Região,  com seus 300.000 habitantes descentes de portugueses açorianos (sendo eu, inclusive, um deles, ainda que meus pais sejam originários das margens do Rio Rolante, em Fazenda Passos, antigo município de Santo Antônio da Patrulha) e, desde os anos 1970, migrantes das mais diversas regiões do extremo sul do Brasil. Afora a amizade com o alemão Valdir, e as eventuais visitas da minha atividade político-sindical não haveria, aparentemente, qualquer outro fato que me ligasse à Santa Rosa, São Borja, Santo Ângelo, as ruínas de São Miguel, a Ijuí, Posadas, Oberá ou Encarnación de Paraguay. Nem nada justificaria a minha paixão pela região e por Santa Rosa, além de suas características próprias e do encantamento imenso da beleza de suas mulheres. O detalhe, entretanto, é que Gravataí surgiu originariamente como um aldeamento de índios guaranis trazidos à força pelos portugueses como resultado da primeira guerra entre o imperialismo europeu ibérico e a nação diferenciada e autônoma, formada pelos padres jesuítas nos campos que correm o continente desde o norte do rio Paraguai até além da margem oriental do Uruguai, entre os índios locais. Eu, filho de migrantes destinados originariamente, também, por Lisboa a colonizar o Território das Missões Jesuíticas(o que nunca se realizou), depois de evacuado pelos índios guaranis, nasci no pé da Serra Geral, justamente na cidade onde se deu o encontro destes dois mundos: os rechaçados e enjeitados filhos das Missões Jesuíticas e os filhos do Açores, ambos com o destino ligado às terras regadas pelo centro-norte do aqüífero guarani e das bacias hidrográficos dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai.

A outra coincidência, que não diz respeito a mim mas à história da civilização ocidental dos últimos séculos, é o destino destas terras. Abrigando secularmente os guaranis, se tornaram pela ação protetora e aculturadora dos padres da companhia de Jesus o berço da primeira, e talvez a única legítima, concretização da utopia comunista, numa época em que nem o avô de Marx era nascido, e em que as manifestações contestatórias da peonada trabalhadora européia se reduzia a umas quantas revoltas de camponeses. Neste país, ainda que vinculado ao império espanhol, sob a inspiração e supervisão dos padres, os índios criaram as primeiras cidades planejadas, hierarquizadas é bem verdade, mas que garantiam a cada um de seus membros condições materiais e espirituais de uma vida instigante e prazerosa, de trabalho sim, mas também de aplicação das mais refinadas e exigentes técnicas intelectuais, artísticas e laborais da época, que hoje se manifestam nas ruínas, na estatuária, nos restos arqueológicos da metalurgia e da música remanescentes, que podemos encontrar nos museus da região.

Este povo, que vivia para si e por si, foi atingido, de um dia para outro, no século XVIII pelo resultado das disputas gananciosas e narcísicas do imperialismo e das nobrezas decadentes de Portugal e Espanha,envoltas no jogo de poder europeu, e, após mais de meio século de guerras, foi desarraigado de seu torrão e espalhado na Argentina, Paraguai, Uruguai e Rio Grande do Sul, como massa de enjeitados por seus territórios, humilhados e reduzidos a gado como todo o povo de tais nações.

O irônico é que uns 80 anos depois da passagem do último furacão político-militar pela região (por ocasião da guerra de independência do Uruguai, ocasião em as sete cidades guaranis gaúchas foram esvaziadas pelo tacão caudilhesco, tomando o destino definitivo de ruínas), na década de 1910, os mais enjeitados dos enjeitados tardios do Ocidente imperialista, os imigrantes europeus de segunda e terceira geração trazidos para as metrópoles de ambas as margens do rio Uruguai, vieram aqui se estabelecer, e recriar, na honrosa categoria de enjeitados do mundo, uma nova civilização, bem mais humana que a Europa e seus sucessores anglo-americanos (que, para igualar-se àquela primeira república guarani só necessita ver embandeirando seus campos o autêntico e humano socialismo), mesmo que sob o domínio das potências sul-americanas que dividem em três países formais esta nação original, trabalhadora e alegre que são os Povos Jesuíticos da América do Sul.

Santa Rosa, 5 de outubro de 2010

Ubirajara Passos

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 7


No último dia na Argentina (terça-feira de carnaval), saímos de Posadas já passado das 10 h (o originalíssimo relógio “Orenete” do Valdir marcava 9 h 30 min…) e, deixando para fazer as compras em Oberá, nos deparamos, a cada passo, com a inflexível instituição da “siesta” (que começa ao meio-dia em ponto e se estende, durante a semana – pois no domingo é píor) até as 4 horas da tarde.

Tanto no shoping de roupas Oscar, quanto no Supermercado “El Condor” (que fecha à 1 hora da tarde) fomos praticamente corridos por um atendimento impaciente e carrancudo, o que não me impediu de comprar uma camisa e uma bermuda argentina na loja e alguns livros do Nietzsche e uma coletânea de autores anarquistas em castelhano.

Mas o cúmulo da intolerância, da falta de acolhimento e da cretinice se deu no restaurante do Cassino. Estávamos nos servindo (cerca de 1 h 45 min da tarde, pois a “siesta” do Cassino fecha às 14 h), quando nos interpelou um garçom para nos avisar que o estabelecimento fecharia logo e que tínhamos quinze minutos para comer! Não, não me entendem mal os leitores: não é que o bifê fosse recolhido em quinze minutos e tívessemos tempo de, servidos, almoçar sem preocupações. A afirmação significava aque, chegadas as 14 h, tendo ou não terminado de almoçar, teríamos de sair correndo.

Invocado com o autoritarismo burocrático do “estabelcimento”, quando fui ao banheiro, fiz questão de mijar na pia. E, tendo contado o meu ato ao Rogério, este, por sua vez, mijou no cesto de papéis higiênicos. Estava vingada a honra brasileira e rio-grandense do desaforo castelhano. Uma hora depois retornávamos ao Brasil (Santa Rosa, Rio Grande do Sul) e, então, nos parecia que não havia passado apenas três, mas várias semanas fora de casa.

 

Ubirajara Passos

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 6


Na terça-feira de carnaval, após beber todas durante a madrugada, o alemão Valdir ainda pretendia se despedir de Posadas a caráter: enchendo a cara na calçada do restaurante mais fino da cidade. E assim, oito horas da manhã, marchamos, heróicos bêbados desafiadores do moralismo local (onde já se viu tomar cerveja logo de manhã cedo?), rumo ao café com nome francês.

Sentados com toda pompa na rua, o garçom castelhano nos recebe com a contida cordialidade local, que logo se esvai em estranhamento e censura quando pedimos uma Quilmes. O sujeito olha para o relógio e nos responde que só servem cerveja após nove horas da manhã! Putos da vida, fomos procurar um posto de gasolina para adquirir umas latas do produto redentor e demos de cara com uma lona preta sobre a porta do freezer onde ficava a cerveja.

Ainda assim, julgando se tratar apenas uma questão de costume “austero” da castelhanada (chegamos a supor que o garçom se recusara a nos servir para não deixar o estabelecimento “mal-falado” – os pequenos-burgueses de Posadas poderiam se escandalizar ao ver dois bêbados “imorais” tomando porre na calçada de um restaurante “familiar de classe” logo cedo), não tivemos dúvida e íamos retirando as latinhas, quando o dono da loja de conveniência nos intercepta, porque “no se puede vender bebida alcoólica en la via pública antes de las nueve: es ley de la municipalidad”!

Voltamos para o City Hotel revoltados. Que cretinice é esta do Estado de controlar a vida das criaturas humanas a ponto de regulamentar os horários em que podem embriagar-se e criminalizar quem bebe de manhã cedo (pelo que nos disseram, poderíamos ser presos se fôssemos pegos na rua com uma lata de cerveja antes das 9 h). Qual a diferença entre encher os cornos, e eventualmente fazer uma arruaça (esta deve ser a preocupação do prefeito) às oito e meia ou às dez horas da manhã. E se o “imoral gambá arruaceiro” quiser comprar a sua vodka antes do horário interditado e tomá-la, saindo para aprontar todas na rua entre meia-noite e nove horas, qual o efeito que tem a “educativa lei”?

Narramos aos atendentes da portaria do Hotel a nossa desventura e, quando fomos tomar um café na copa (que não serve nem almoço, mas apenas pão e café com leite), já passado de las nueve evidentemente, qual não foi a nossa surpresa: a administração do Hotel, pesarosa com a infelicidade dos turistas brasileiros (e temerosa de perder eventuais clientes futuros) havia mandado comprar um litro de Quilmes especialmente para nós. E na sacada do City Hotel, em plena praça principal da capital da Província de Misiones, a irreverência escandalizou e rompeu os estritos canônes do autoritarismo tacanho do lugar: dois gaúchos anarquistas e safados sorviam, com o ar da maior pompa possível, uma cerveja em local onde nem Coca-Cola se bebe, para espanto dos seríssimos clientes que tomavam seu café!

Ubirajara Passos

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 5


De volta a Posadas, na tarde de segunda-feira, tive, na calçada do café mais “chique” da cidade um destes raros momentos em que o espaço se abre à nossa frente e nos vemos lançados numa dimensão fora do tempo. Tomando uma Quilmes, mais uma vez, com o alemão Valdir, me dedicava a um dos meus esportes preferidos (espreitar mulher boa na rua), quando dei com aquela moreninha, de cabelos negros e nariz afilado, simplesmente linda e misteriosa como uma esfinge (possivelmente mestiça de índios e espanhóis), num vestido bege que lhe desenhava perfeitamente o corpo esguio e saboroso.

A deusa descida na terra ia caminhando junto à vitrine do café, a minha direita, e para sorte dos meus olhos, acabou por sentar-se na mesa onde estava a “espiã” no outro dia. Encarei-a e, quando menos esperava, ela, se levantando, me olha pergunta, se dirigindo para uma mesa à minha frente: “eestá ocupada”. Quase desmaiei e lhe respondi laconicamente no meu precário castelhano um “no”, para ouvir daquela voz paradisíaca um “muchas gracias” e lhe responder “no sea por eso”.

Este foi o formal e seco diálogo que mantivemos, mas o simples fato daquela criatura apaixonante falar comigo me deixou doido. A morena sentou-se e puxou do que pensei ser uma revista (mais tarde, quando já havia ido embora, fui até a mesa e verifiquei que eram prospectos de uma loja), e imaginei que iria se repetir a cena da loira do dia anterior. Mas logo chegou uma amiga e sentou-se à sua mesa.

É evidente que não despreguei os olhos da gatinha e tive a ocasião de vê-la mencionar-me à amiga, que voltou-se para trás, me espiando, umas duas vezes. Lá pelas tantas a coisinha linda foi ao interior do restaurante e, voltando com uma caneta, começou a escrever. O idiota aqui imaginou que iria receber um torpedo, mas conversaram mais um pouco e se mandaram, as duas, depois de uns vinte minutos.

A gata era tão impressionante, tinha um rosto tão decidido e enigmático, além do corpo voluptuoso, que cheguei a viajar e imaginar um romance ambientando em Posadas, a um passo do Paraguai, no qual o personagem principal, um jornalista desempregado, encontra a guria e acabava se envolvendo em mil peripécias, com direito a uma trama de espionagem e guerrilha. Quem sabe um dia eu o escreva. Mas o fato é que, diante daquela caboclinha, a capital de Misiones transfigurou-se e eu de repente vi uma cidade aprazível, numa encruzilhada internacional do mundo, ao mesmo tempo provinciana e populosa, na qual bem gostaria de morar. Viva o romantismo sem concerto.

 

Ubirajara Passos

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 4


Na passagem da ponte entre Posadas (Argentina) e Encarnación (Paraguai), a burocracia revela a completa falência do Mercosul e nos dá a noção do caráter autoritário e irracional do Estado. Têm-se de aguentar filas homéricas, de uma hora e meia, para ir de uma margem à outra e, ainda que não se leve mercadoria de um para outro país, se submeter ao ritual de apresentação de documentos e interrogatório da polícia de ambos os lados.

Para entrar no Paraguai tivemos de entregar nossos vistos de entrada e identidades no posto argentino e depois obtermos novos vistos no posto paraguaio (na passagem Brasil argentina tudo é feito no posto de Alba Posse). Aí até que os burocratas foram ágeis. Mas na volta há dois postos paraguaios de identificação sucessivos, a fora o posto de legalização de mercadorias compradas (pelo qual não passamos, pois tudo que possuíamos era coisa de pequeno volume e, ou colocamos no porta-luvas, ou viemos usando) e a inspeção prévia do porta-mala. a impressão é de que nos encontramos em algum campo de concentração nazista.

No último posto paraguaio da volta um cartaz oferece uma recompensa vultosa em guaranis para quem der informações de um bandido internacional, provavelmente traficante ou contrabandista, que atende pelo nome de “Gardelito”. Aí, vendo um cinqüentão qualquer que se achava na fila, nos divertimos com a idéia de “denunciá-lo” às “otoridades” para ganhar uma grana.

Encarnación nos pareceu bem mais provinciana que Posadas, ainda que seu povo possua um típico humor descontraído e sacana de brasileiros. O Paraguai é uma espécie de sub-colônia cultural do Brasil, onde a atitude e a mentalidade mais povão se manifesta radicalizada. Na “zona baja” (o mercado informal, situado na várzea do Rio Paraná, de um calor úmido insuportável) os camelôs com mesas na calçada (nem tendas ou barracas existem, lá o governo ainda não resolveu “civilizar” o comércio da muamba, como no Brasil) são os mais sofisticados. Pois a regra é o andarilho, que percorre a rua com suas quinquilharias, abordando veementemente cada estrangeiro, ou raro nacional desavisado que por ela circula.

Foi com um destes que o companheiro Valdir acabou comprando um relógio de “primeira” pela bagatela de uns cinqüenta reais, com a minha influência, pois além de achar barato o produto, acreditei na lábia do paraguaio e lhê afiancei o qualidade e autenticidade do belo relógio “Oriento” que lhe era oferecido. Só no dia seguinte, quando íamos de Posadas a Oberá, voltando para o Brasil, e o alemão deu com um atraso de vinte minutos no relógio a pilha, em relação aos nossos relógios, é que fomos examinar a marca dele e descubrimos que era um produto autenticamente nacional. O tal “Oriento” (comprado junto com um fajuto “Ray Ban”, que outro ambulante conseguiu passar ao alemão, na mesma ocasião) não passava de um “Orenete” original… do Paraguai!

Ainda quando visitamos a “zona baja”, tive a ocasião de divertir-me, e me esquivar de gastar meus pesos argentinos (há em Encarnación, não sei porque, uma certa preferência pelo dinheiro platino em relação ao Real), quando um índio gaiato, mais ou menos da mesma idade e compleição física do matuto de Posadas, na praça principal, horas antes, me oferecia aos gritos, e com um sorriso maroto, uma “faca para matar la sogra”. Confesso, que se não tivesse me livrado do arremedo de semelhante parente, que possuí na época em que me enredei com o grande amor da minha vida, teria certamente pago até o dobro do preço para adquirir tão útil objeto.

No almoço, ocorrido antes da visita ao mercado popular, foi que descobrimos, com o garçom, o significado de “panceta” (gordura da barrica do porco, ou, conforme os “grandes irmãos” – the big brothers – yankees, bacon) e do próprio do estabelecimento: Carumbé – que, conforme o simpático caboclo paraguaio, “es la tortuga”. Vendo que o gaúcho idiota de ascendência açoriana, e de velhos portugueses lagunistas, aqui não entendia, apesar de lhe perguntar em castelhano, me traduziu de imediato: “tartaruga”.

Mas a grande sensação da expedição ao Paraguai foi o guaraná local, de marca “Simba”. Seu sabor simplesmente passa a milhões de quilômetros adiante dos nossos guaranás aguados e açucarados. É o mesmo dos extratos medicinais de guaraná em pó, com o sabor acentuado da fruta. E a multinacional que o produz no Paraguai, e no Brasil vende água açucarada, é a mesma Coca-Cola yankee de cada dia. Apaixonados pelo sabor, quase trouxemos alguns litrões de contrabando.

 

Ubirajara Passos

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 3


Na manhã de segunda-feira de carnaval, finalmente tivemos contato com a alma de Posadas. Percorrendo a praça principal, lotada de barracas de artesanato e de guaranis desempregados a perambular, vendendo alguma bugigana ou simplesmente vagando, alguns dormindo bêbados ao pé dos monumentos, tivemos a ocasião de constatar o conflito subjacente de um povo cujo coração da capital ostenta homenagens em pedra ao opressor portenho que subjugou, na Guerra do Paraguai, uma região pertencente ao Paraguai e, anteriormente, fora parte da vasta república (informal) guarani estabelecida pelos jesuítas.

A seriedade provinciana patriarcal do branco descendente de espanhóis pesa, naquelas latitudes, como o próprio calor sufocante, sobre o mudo sofrimento dos filhos da terra. E, em nenhum lugar vi, até hoje, atitude tão refratária à curiosidade “religiosa” de dois ateus safados. Valdir, entusiasmado com o templo católico secular que se erguia no fundo da praça, se dirigiu a uma ilustre “señora” da cidade, que dele saia, perguntando-lhe: “que iglesia es esta?” E a “madame”, que mais parecia a mulher de um “don” que uma beata, na faixa dos quarenta anos, nos responde secamente: “la iglesia catedral!” Nada de informação sobre o santo de invocação nela cultuado ou sobre a história da catedral. A mensagem sub-reptícia era óbvia: o que querem estes brasileiros curiosos e irreverentes? Esta aqui é a casa sede da nossa rotina ossificada e necessária e está acabado. Aqui é a casa em que o supremo poderoso abençoa os poderosos cá da terra em nome da ordem imutável e nada de firulas, senhores turistas “devassos”.

Mas apenas a algumas dezenas de metros à direita, junto à rua lateral onde se ergue o palácio do governo provincial (velho palacete de um único andar, construído com pátio interno à moda das antigas sedes de fazendas da América espanhola, e com uma arquitetatura mais de quartel que de sede de governo) tivemos o absoluto contraste com a castelhana seca.

Perguntamos à algumas índias que casa era aquela e, como ninguém sabia nos responder, questionei um velho colono, destes de chapéu de palha e calça remendada (verdadeira figura de caipira ou matuto na região nordeste do Rio Grande do Sul) se aquele era o palácio do governo. E o velho, com um sorriso maroto, atravessado por um palheiro típico, nos respondeu: “Es la casa del cabeza grande”. Eu, encontrando naquela figura algo familiar a um roceiro brasileiro, resolvi fazer graça e lhe respondi: “dicen por la calle que él (o governador, o ‘cabeça grande’) también es cuerno!” E o velho, entre sarcástico e socrático, me devolveu: “Se es casado este es un regalo que hace parte”.

 

Ubirajara Passos