Sagu de merlot


O tédio e uma melancolia pegajosa que me invadiram nos últimos dias (sem qualquer relação com a condenação de Lula, vide minha manifestação ontem no facebook, que será reproduzida na próxima matéria) tem me remetido a velhíssimas e saudosas recordações, de todas as estampas, inclusive caquéticas anedotas, da vida real, como a relatada nesta crônica.

Fato é que, coisa de uns 5 ou 6 anos atrás (já nem me lembro ao certo), o companheiro Carlão (o mesmo que eu havia sacaneado tomando o vinho argentino que lhe prometera, conforme narrado em uma das primeiras crônicas deste blog, em 2006), teve, involuntariamente, a sua vingança daquele fato, sem que saiba até o presente momento, dado o natural constrangimento, e os rogos de minha mulher e sogra, diante dos acontecimentos, que agora já podem ser revelados sem maior impacto.

Tendo se removido, depois de anos como Escrevente em Santo Antônio da Patrulha, para a comarca de Garibaldi, em plena região vinícola do Rio Grande do Sul, o meu velho amigo, colega e companheiro de sindicalismo, foi morar justamente em frente a uma vinícola e assim, tendo acesso na porta de casa, aos mais diversos e refinados vinhos, resolveu me presentear com uma garrafa de um excepcional Merlot que havia degustado, o que me anunciou por MSN ou outro meio de comunicação eletrônica, que na época nem se cogitava do tal zap-zap.

Se encontrando em férias, e eu trabalhando, o camarada deu uma passada uma bela manhã na minha casa (na época eu ainda morava na Rua Barbosa Filho, próximo à casa em que me criei e vivi até casar e à garagem regional da empresa gravataiense de ônibus, a SOGIL), deixando com minha sogra, que andava lá passeando, o valioso mimo. O que me avisou enviando um torpedo para o meu celular.

Passei o dia entusiasmado, ansioso para chegar logo em casa e provar o tão elogiado licor. Mas qual não foi a minha absurda surpresa ao descobrir que, no afã de fazer um agrado para a filha, a velha havia feito um sagu para sobremesa do almoço. E justamente com o meu merlot!

Nem pensei em protestar, pois além de ficar sem o vinho, contrariar a sogra diante da filha me renderia, na certa, uma dor de cabeça pior que ressaca de vinagre, e ainda, a pedido da dupla, agradeci cortesmente ao amigo, quando questionado sobre a qualidade da bebida.

Mas, por óbvio, fiquei puto da vida e mal me consolei com a ideia de, pelo menos, aplacar o paladar comendo o tal sagu. Mas, como diz o velho adágio, desgraça pouca é besteira e nunca vem desacompanhada. E assim foi que, quando me dirigi a geladeira para saborear o fino manjar, descobri que ficara tão bom, mas tão bom mesmo, que a turma comera tudinho e não deixara o menor bocado para um pobre bêbado frustrado.

 

Ubirajara Passos

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“Velho feio da peste!”


Não é de anteontem que o anonimato, ou a própria distância, tem propiciado, na internet, uma imensa sinceridade e autenticidade (muitas vezes um tanto intolerante) nesta sociedade autoritária e hipócrita em que vivemos. Até mesmo nas redes sociais, onde, em tese, todos nos tornamos íntimos e informais. Mas o que me aconteceu recentemente foi simplesmente inédito!

Cansado da antiga (e pretendendo divulgar meu visual de cabelo pintado e cortado a máquina, operações sem as quais os meus 52 verões aparentam a infeliz decrepitude de um ancião centenário), resolvi trocar a foto de meu perfil no facebook e postei, ontem à noite, já sentado na cama (e “fardado” com meu mais vistoso pijama), a “selfie” feita no momento (sem o auxílio de nenhum “pau”) com o próprio celular. Barba por fazer e um certo ar sonolento, o retrato realmente não é nenhum primor, mas, atual, satisfazia os fins que pretendia dar-lhe.

Vários amigos (de colegas a parentes) o saudaram com a tradicional curtida. Uma velha e querida amiga, companheira de militância sindical, postou nos comentários o gif de um cachorrinho abanando alegremente. E um amigo que não vejo pessoalmente há tempos me brindou com o emoticom do sorriso (que muitas vezes se usa para se expressar a risada mesmo), o que já me deixou meio cabreiro.

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aqui a indigitada foto que rendeu o comentário, para apreciação dos leitores

Até aí tudo bem. Nada além do previsto, e até tedioso, nestas ocasiões. Mais eis que, do nada, sabe-se lá a que pretexto e por que diabo inspirado, um sujeito, que não conheço, mas ainda assim cumprimentei por ocasião de seu aniversário, e que só aceitei no meu rol de amigos do facebook por ser amigo comum de uma colega de Judiciário (que também não conheço pessoalmente, não é da minha comarca, mas foi aceita em razão da minha militância e liderança sindical, cuja popularidade deve tê-la levado a me solicitar amizade), resolveu lascar o seguinte comentário: “VELHO FEIO DA PESTE”!

Confesso que, apesar de libertário e desassombrado (embora um tanto destreinado da histórica malandragem aprendida na política e na boemia), levei um susto tão grande que, não estivesse, agora de manhã, deitado em plena cama, teria caído para trás. Já vi de tudo, até xingamentos homéricos e descabelados em razão da intolerância ideológica que anda pautando fascistas de direita e de “esquerda” no Brasil pós-golpe de 2016, inimizando velhos camaradas e dividindo famílias a pretexto das mais infelizes questiúnculas, artificiais e sem graça, acerca de questões de gênero, raça e parceria sexual. Mas esta de brindar, sem nenhuma intimidade gaiata que o justifique, uma simples foto de perfil com tão jocoso comentário não havia visto ainda.

Depois de meditar por um bom tempo, diante do inusitado, me decidi e postei a seguinte resposta ao meu irreverente amigo (que estampava antigamente a imagem de um corvo, mas agora nenhuma em seu perfil do face):

“Muito obrigado pelo comentário. Vou me lembrar de postar um semelhante quando o companheiro (que deve ser meu colega no qualificativo estético) tiver coragem de colocar sua foto no próprio perfil!!!”.

Até agora, infelizmente, não recebi nenhuma réplica.

Ubirajara Passos

 

De como não assisti ao show do Zé Ramalho


Houve uma época, nos velhos tempos da República do alemão Valdir, que, tendo o Rogério Seibt retornado a Santa Rosa, e o baiano Luiz, se casado (e se afastado dos amigos), os frequentadores do apartamento de Petrópolis se restringiram ao próprio Valdir, a mim e ao alemão Ale, com o qual eu costumava varar as madrugadas de sábado para domingo enxugando um litrão de fanta com uma vodka de garrafa plástica (que era o máximo que nossos escassos reais permitiam), enquanto o Valdir (na época se tratando com a Dileusa e com pisquiatra e, portanto, se mantendo abstêmio) roncava solenemente.

Pois nestes dias em que a minha carteira andava mais vazia que cabeça de periguete fanqueira, mesmo assim me cotizei com o Alemão Valdir e compramos ao salgado preço (para a época) de R$ 100,00 por cabeça os ingressos para o show exclusivo, de uma hora de duração, que o Zé Ramalho daria no auditório Araújo Viana, numa sexta, em Porto Alegre, incluindo além dos nossos o do Ale.

Durante uma semana inteira, entusiasmado, eu não falava em outra, perturbando à farta o ouvido dos estagiários da Contadoria Forense com o fato de que eu iria a um show do “Raul Seixas” (apesar de me policiar, trocava a cada vez o nome do cantor), ouvindo de volta a informação de que para tanto só fosse à mesa branca, pois este há mais década já passara por outro lado.

Quando, finalmente, chegou a noite esperada, entretanto, o Valdir e o Ale (que embora cursasse radiologia na época já manifestava os pendores culinários que o levariam à futura profissão fora do Rio Grande, ao invés de agilizarem-se, resolveram, justo próximo da hora do espetáculo (que se iniciava por volta das 9 h) fazer uma senhora janta, com dinheiro a porco assado, sob os meus protestos – contestados com a frasezinha: “show de rock sempre atrasa!”.

Assim, quando os glutões inveterados já haviam satisfeito sua “larica” sem maconha, e cedendo aos meus rogos, e chegamos ao Araújo já eram quase dez horas da noite e o resultado foi darmos com a massa do público saindo port’afora, um amigo do Ale escorado na saída, dizendo que o show (que já havia pontualmente terminado) estava muito bom.

Na volta, ainda tentei recuperar a noite e convidei a dupla para fazer algo de útil e prazeroso na extinta Sauna La Luna (puteiro da Barão do Amazonas), mas diante da recusa, tive de me contentar em sorver algumas long neck de Brahma Extra, compradas em qualquer posto de gasolina no caminho.

Foi assim que, por causa do porquinho gordo (e quem sabe por vingança do gaiato fantasma do roqueiro), não pude estar presente ao show do Zé Ramalho e, de certa forma, “assisti ao show do Raul Seixas”, que sendo realizado por fantasma ninguém viu mesmo!

Ubirajara Passos

O indiferente


O sujeito seria um buda, não fosse um desleixado completo, nem estagiário de repartição brasileira  falida do presente século.

Despreocupado com a vida, nada o abalava, ao ponto de dormir em pleno expediente (fora flagrado pelos colegas uma vez no corredor de um arquivo e outra em pleno setor, em transe “meditativo” bastante barulhento em frente ao computador). Mesmo a repreensão mais cabeluda da chefia, com direito a uma chuva de impropérios e involuntária cusparada, não lhe causava a menor reação.

Quem quer que pretendesse demovê-lo de seu satori cínico estava fadado a enfartar, surtar a ponto de sair correndo pelado e gritando como doido ou simplesmente ir parar no manicômio.

Podiam tentar lhe romper a inação com todas as afirmações e sustos mais abstrusos, desde o tradicional “a casa está pegando fogo”, “olha a cobra aí no teu pé”, até o “vi tua namorada se arretando com um negão ali na esquina agora mesmo” , ou destratá-lo com todas as ofensas possíveis e imagináveis que a máxima reação era um dar de ombros acompanhado de um esgar característico.

A única coisa que lhe entusiasmava e o fazia abandonar a imobilidade de múmia do Egito era uma vocação bastante incomum e, diriam os membros do MBL, terrivelmente repreensível! O rapaz era dado a escrever contos pornográficos dos mais sádicos e cretinos. E inspiração não lhe faltava. Qualquer velha perneta ou coleguinha tonta e desenxavida era o suficiente para viajar zilhões de quilômetros na sua imaginação pérfida e bolar as mais enlouquecidas situações, de fazer corar Restif de La Bretone, Apolinaire e o próprio Marquês de Sade.

E foi justamente uma lambisgoiazinha destas que um dia deu com galante texto do mancebo sobre a mesa e, caindo na gargalhada mais estrepitosa, ía chamando a atenção de todos, quando o iluminado Diógenes juvenil, saltou-lhe como um doido furibundo, não conseguindo reaver a peça, pois a lépida moçoila se escapou de um salto e pôs-se, insolente, na pose mais arrogante de quem tem nas mãos a vida alheia.

O nosso famoso cínico explodia em desespero e prometeu de tudo para que lhe entregasse o comprometedor papelzinho. Daria até o salário inteirinho nas mãos dela. Faria todo o serviço, o dela e o dele (que não fazia mesmo) com a maior agilidade e maestria, podia botar-lhe uma coleira ao pescoço e levá-lo a passear em praça pública com a bunda de fora, pintada de vermelho, e cara de palhaço (tinha realmente uma imaginação bizarra!), mas lhe entregasse o conto!

A sirigaita, entretanto, ouviu cada proposta e rogo feito aos gritos, no meio de intensa choradeira (quase se caga e mija de tão apavorado), fê-lo prometer mais trezentas cretinices, até casar com ela, e, ao fim respondeu dando de ombros e com um sarcástico muxoxo.

Ubirajara Passos

 

 

Um e-mail das Arábias


Era a milésima vez que recebia por e-mail aquelas versões “internacionais” do golpe do bilhete, do tipo “tenho uma grana enorme que não posso aplicar em meus país conflagrado no Oriente Médio e sei que o senhor pode me dar dicas de investimento em seu país”.

Mas, agora, a coisa era completamente diferente. Viera em português. É bem verdade que num português sofrível, capaz de injuriar o próprio Inácio dos Nove Dedos (e sua sucessora, a “presidenta” aclamadora de mandiocas – na qual a mídia e o aparato institucional da direita explícita andam ultimamente querendo enfiar de vez a mencionada raiz) ou mesmo o patrício de mais estropiado sotaque emigrado do Líbano ou da Palestina. O texto dizia o seguinte: 

“Respondi Urgente Para Investomento!!!
Lamento se meu e-mail incomodá-lo, eu decidi entrar em contato com você, porque eu sinto que você vai me entender melhor ..Estou realmente precisando de sua ajuda,    pois requer uma resposta urgente de você. Por favor, esta é uma mensagem pessoal para você, eu preciso de algumas directivas de você para investir algum dinheiro ou de capital no seu país, EU e meu marido era industrial e um membro do conselho de empresários de petróleo síria em Damasco, Síria. Devido a matanças,decapitações bombardeios e conflito crise guerra em Síria que milhares de civis relatados fugindo como batalha por Aleppo, Síria,intensifica à medida que a guerra se intensifica a partir de hoje, eu não posso investir o dinheiro aqui na Síria isso é quando eu entrar em contato com você E ver como podemos parceria no negócio e intensificar complexo multinacional.
Responder-me explicar melhor para voce nesta e-mail: aishaalrashid1@qq.com

Sra.Aisha Al.Rashid

Por breves e imbecis instantes, o nosso herói quase caiu na asneira de levar a sério a coisa e responder a mensagem da forma como solicitada, já sonhando com a fortuna que poderia abarcar com o tesouro do milionário árabe. Ficou imaginando a imensa e infinda farra que faria num harém particular, contratando as mais gostosas e safadas “odaliscas” dos mais chiques (e também dos mais fuleiros, desde que tivesse aquele rostinho sem-vergonha e aquela malícia ronronante que põe qualquer leão furioso desvairado mansinho como gato de madame) da capital, na qual poderia acabar, literalmente, morrendo de trago e gozo.

Mas, antes que as mãos digitassem apressadamente o que seu cérebro de asno ditava, o zé pelintra que o acompanhava soprou-lhe ao ouvido a tremenda encrenca em que ia se metendo e, ao invés de simplesmente deletar o e-mail, como fizera com os outros tantos, resolveu se divertir e devolveu a tentativa da golpe da maneira mais sacana que encontrou:

“Não se preocupe. Você enviou este e-mail para a pessoa certa. Eu e meu amigo baiano, dr. Luisinho Sugacheca, não temos um único puto na carteira, mas conhecemos todas as putas de Porto Alegre, capital do Sul do Brasil, onde prolifera o negócio mais rentável deste país: a putaria. E moro justamente  na cidade periférica da Região Metropolitana daonde provém a maior parte destas putas!
Podemos, tranquilamente, investir os petrodólares de seu marido num FANTÁSTICO PUTEIRO GIGANTE, com direito a 2 torres gêmeas de 14 andares, cada qual destinado a shows e práticas públicas e privadas de boquete, streap-tease, sessenta-e-nove, sexo anal, vaginal, oral, nasal, umbilical, espanhola, ucraniana e polaca, sexo bizarro com cães, vacas, ovelhas, camelos, gordas, velhas, ciganas e mães de santo em pleno transe da pomba gira kadija al-sacanidi, bem como diversos gays de barba grisalha e com um dedo a menos na mão esquerda (perdido no cu do povo brasileiro), especializados em fuder nações e continentes inteiros como o Brasil e a América Latina.
Para construirmos esta mega instalação e contratarmos os profissionais e a logística adequada necessitamos tão somente da módica quantia de 24 trilhões de euros!

Favor enviar esta grana para a Caixa Beneficente das Putas e Gays do Brasil, agência 024, conta 694324 – titularidade da senhora Dilma-Ahma-Mandyioca-Emmet Abanananopovo.

Aguardamos com muita ansiedade e entusiasmo a sua resposta.

Assinado: Salym Al-Assad-Ocudosviga-Ristasimeim-Becys”

Pelo que se sabe, até hoje, passados uns 3 meses, muito embora nosso amigo, contra os próprios hábitos, acorde de madrugada e salte da cama como um cabrito embrigado para conferir em seu computador, até hoje não recebeu a minima resposta.

Ubirajara Passos

Pero Vaz de Caminha e a Buceta índigena


Nada como tratar, em plena véspera de Natal e após o frustrado “fim do mundo”, de assunto sério e paradisíaco, relacionado profundamente com os destinos e a formação do Brasil.

Se o leitor caiu de pára-quedas neste blog, num vôo cego e acidental pela internet, a partir de tags sisudas e sem graça, como política ou história e (apesar da advertência constante em sua barra lateral) resolveu se embrenhar nesta mata literária, provavelmente tomará por sacanagem e invencionice pura o tema desta crônica (para ele) cretina, apelativa e despropositada.

Se veio parar aqui a partir de indexações do tipo putaria, velhinhas trepando com jegue fogoso e outras asneiras que, devido ao erudito vocabulário deste cronista, acabam por conduzir a este blog, certamente estará mais indignado ainda por não encontrar os vídeos ou contos pornôs de pobre imaginação e precária construção verbal que, infeizmente, costumam povoar a pornografia internética padrão, reduzida, como a pornografia em geral, ao estilo cru e “analfabético” dos piores funks globalizantes do sadismo sexual imbecil e sem imaginação.

Mas o tema deste post não é gaiatagem minha, muito menos invencionice, e nos dá, de certa forma, uma palha da predestinação do caráter brasileiro, a partir da informalidade, bom humor e plena desenvoltura mental dos primeiros portugueses que aportaram por estas terras e, concretamente “seduzidos” por sua natureza edênica, lhe acrescentaram a pimenta da malícia ibérica, que mais tarde a padralhada trataria, em conluio com o sadismo bandeirante, de maltratar, ao ponto de quase extinguir, debaixo do carrancismo moralista de um catolicismo imperialista histérico e opressor.

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É bem verdade que os invasores lusitanos, nesta parte da América Latina, não foram menos funestos que seus vizinhos espanhóis e fizeram dela, no correr dos séculos, como dizia o saudoso companheiro Darcy Ribeiro, um moinho de gastar gente pra adoçar a boca de europeu. Na fornalha de sua fome sádica e furibunda por enricar e viver à forra, nossos “colonizadores”manietaram, escravizaram, torturam e torceram, com o mesmo entusiasmo da inquisição religiosa na peninsula, mas com o objetivo bem mais concreto e paupável do enriquecimento ao custo do sofrimento e embrutecimento alheio, os corpos e almas de multidões de índios e negros, cujo sofrimento forjou a riqueza de europeus e o cadinho de um país enorme e rico, mas ainda submetido à lascívia estrangeira sádica, e, apesar de tudo, pontilhado por uma alegria de viver e um estilo despachado que haverão de garantir, no dia em que nos fizermos donos de nosso próprio destino, o verdadeiro paraíso na terra.

Se o bandeirante ou o colono luso posterior era violento e carrancudo, entretanto,o fato é que os primeiros patrícios a aportar por aqui, a maioria degredados deixados na costa em navios como o de Cabral, tinham um estilo bem mais sutil e malandro, típico do esteréotipo nacional posterior. Tratavam de se enfiar no meio da indiarada e, gozando de institutos culturais estabelecidos como a poligamia e o cunhadismo (noção de que todos os membros de uma aldeia são parentes de quem se casar com uma índia dela e, como tal, tem obrigação de auxiliar o “cunhado”) se fartaram na utilização das bucetas, e dos braços masculinos, para prover suas necessidades de diversão e mantimentos, se tornando verdadeiros barões tropicais, felizes e poderosos,com um exército de solícitos e ingênuos índios, dispostos a satisfazer seus menores desejos materiais, com toda bonomia de seu caráter naturalmente empático e solidário. Eram terríveis malandros estas criaturas, como João Ramalho e Caramuru,que, infelizmente, acabaram por se fazer auxiliares do imperialismo brutal, que mais tarde transformaria o éden tropical num inferno,pleno de choro e ranger de dentes, por muitos séculos, até conformar o Brasil que conhecemos hoje.

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Mas, antes que o leitor me mande à puta que pariu pela tagarelice historiográfica e antropológica, vamos ao assunto principal do texto. Está lá, na certidão de nascimento do Brasil, inscrito em todas as letras, o olhar embevecido e lúbrico, desatinado de tesão, surpresa, e até de uma certa ingenuidade, do escrivão da armada cabralina, logo no início de sua carta a El-Rei, dando o tom de admiração e apaixonamento diante daquele mundo perfeito de corpos nus e folgazões, dedicados ao prazer, ao trabalho e à caça, sem qualquer grilhão que os obrigasse a uma rotina obrigatória, opressiva e sofrida sob o tacão do dominador.

Na transcrição de Sílvio Castro (L & PM, Inverno de 1985), o embasbacado burocrata lusitano, descreve com todo o gozo de um êxtase místico, a cena maravilhosa que tinha à sua frente (depois de semanas terríveis, chacoalhando entre maremotos e calmarias, cercado de machos,no infecto navio), na inimaginável praia baiana:

“Ali andavam entre eles três ou quatro moças, muito novas e muito gentis, com cabelos muito pretos e compridos, caídos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos vergonha nenhuma”.

“Vergonha”, para quem não conhece a gíria quinhentista, é buceta mesmo. E “cerradinhas” quer dizer fechadas. A pena do Pero Vaz,prova, portanto que, nossos “descobridores” europeus podiam ser doidos por ouro, escravos e riqueza, mas, ao contrário de seus irmãos peninsulares, não desprezavam,mas antes admiravam profundamente o que era bom e apreciavam bem a maior riqueza já produzida pela natureza.

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Em outro trecho, adiante, comenta, entre irônico (“vergonha – que ela não tinha!”) e admirado, sublinhando o vivo contraste entre as índias e as portuguesas:

“E uma daquelas moças era toda tingida, debaixo a cima, daquela tintura; e certamente era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha – que ela não tinha! – tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais feições, provocaria vergonha, por não terem as suas como a dela.”

E os espertos portugueses, forjados no sangue celta e mouro, enfastiados com as raras e terríveis visões das “aranhas” européias (cuja contemplação implicava numa série de aventuras perigosas,prenhas de percalços e, no mais das vezes, fadadas a levar à breca o infortunado aventureiro – fosse na perda de seus patacões ou da própria vida) não eram nada bobos e trataram de aproveitar a exposição gratuita e inédita e entusiasmante da buceta raspadinha brasileira.

O descobrimento ficou imortalizado em quadro que retrata a “primeira missa”.Mas podem ter certeza que, naqueles dias, muito mais do que a arenga devota do latinório clerical, o que aproximou mais a marujada e a fidalguia da expedição cabralina do céu prometido por Cristo foi a visão absolutamente surpreendente e imprevista do paraíso terreste na buceta índigena!

Ubirajara Passos

Tinha uma pedra no meio do caminho


Sempre achei extremamente abstrato o famoso poema de Drumondd. E a interpretação costumeira de sua genialidade sintética e simples diante do fenômeno universal e onipresente dos obstáculos, nos mais diversos locais e circunstâncias possíveis, sempre me pareceu muito óbvia e pouco provável.

Até que há coisa de um mês e meio atrás, tive uma dura e concreta experiência. Uma pedra atravessada no canal do ureter, grande o suficiente para não arrastar-se aparelho urinário abaixo, depois de semanas de sofrimento e investigações médicas infrutíferas acabou por me levar a uma  das aventuras que mais temi na vida, a cuja extinção supunha pudesse me levar: uma cirurgia para sua extração, mediante uso de ultra-som, introduzido justamente pela uretra. O que significa que, além de passar pela sempre temida operação, ainda fui “comido”, isto é sofri a introdução de um corpo estranho dentro de mim,  através do meu próprio pau. Coisa no mínimo bizarra e, depois de passada a anestesia e a sedação, tão sofrida quantos os ardores e dificuldades dos primeiros dias do pos-operatório.

Mas todo este papo meio hipocondríaco, que deve estar fazendo os meus costumeiros leitores bocejarem e gritarem altíssimos “Bira vai à puta que pariu” (não necessariamente simultaneamente nem nesta ordem) é apenas para (tentar) justificar a minha ausência deste blog no período, que espero seja devidamente remediada e absolvida a partir de hoje. Houve muitos outros pedregulhos a causá-la, é bem verdade, mas a partir de agora espero que possamos, eu e os pacientes leitores, fazer uma sopa com a sua poeira.

Ubirajara Passos