De como não assisti ao show do Zé Ramalho


Houve uma época, nos velhos tempos da República do alemão Valdir, que, tendo o Rogério Seibt retornado a Santa Rosa, e o baiano Luiz, se casado (e se afastado dos amigos), os frequentadores do apartamento de Petrópolis se restringiram ao próprio Valdir, a mim e ao alemão Ale, com o qual eu costumava varar as madrugadas de sábado para domingo enxugando um litrão de fanta com uma vodka de garrafa plástica (que era o máximo que nossos escassos reais permitiam), enquanto o Valdir (na época se tratando com a Dileusa e com pisquiatra e, portanto, se mantendo abstêmio) roncava solenemente.

Pois nestes dias em que a minha carteira andava mais vazia que cabeça de periguete fanqueira, mesmo assim me cotizei com o Alemão Valdir e compramos ao salgado preço (para a época) de R$ 100,00 por cabeça os ingressos para o show exclusivo, de uma hora de duração, que o Zé Ramalho daria no auditório Araújo Viana, numa sexta, em Porto Alegre, incluindo além dos nossos o do Ale.

Durante uma semana inteira, entusiasmado, eu não falava em outra, perturbando à farta o ouvido dos estagiários da Contadoria Forense com o fato de que eu iria a um show do “Raul Seixas” (apesar de me policiar, trocava a cada vez o nome do cantor), ouvindo de volta a informação de que para tanto só fosse à mesa branca, pois este há mais década já passara por outro lado.

Quando, finalmente, chegou a noite esperada, entretanto, o Valdir e o Ale (que embora cursasse radiologia na época já manifestava os pendores culinários que o levariam à futura profissão fora do Rio Grande, ao invés de agilizarem-se, resolveram, justo próximo da hora do espetáculo (que se iniciava por volta das 9 h) fazer uma senhora janta, com dinheiro a porco assado, sob os meus protestos – contestados com a frasezinha: “show de rock sempre atrasa!”.

Assim, quando os glutões inveterados já haviam satisfeito sua “larica” sem maconha, e cedendo aos meus rogos, e chegamos ao Araújo já eram quase dez horas da noite e o resultado foi darmos com a massa do público saindo port’afora, um amigo do Ale escorado na saída, dizendo que o show (que já havia pontualmente terminado) estava muito bom.

Na volta, ainda tentei recuperar a noite e convidei a dupla para fazer algo de útil e prazeroso na extinta Sauna La Luna (puteiro da Barão do Amazonas), mas diante da recusa, tive de me contentar em sorver algumas long neck de Brahma Extra, compradas em qualquer posto de gasolina no caminho.

Foi assim que, por causa do porquinho gordo (e quem sabe por vingança do gaiato fantasma do roqueiro), não pude estar presente ao show do Zé Ramalho e, de certa forma, “assisti ao show do Raul Seixas”, que sendo realizado por fantasma ninguém viu mesmo!

Ubirajara Passos

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O indiferente


O sujeito seria um buda, não fosse um desleixado completo, nem estagiário de repartição brasileira  falida do presente século.

Despreocupado com a vida, nada o abalava, ao ponto de dormir em pleno expediente (fora flagrado pelos colegas uma vez no corredor de um arquivo e outra em pleno setor, em transe “meditativo” bastante barulhento em frente ao computador). Mesmo a repreensão mais cabeluda da chefia, com direito a uma chuva de impropérios e involuntária cusparada, não lhe causava a menor reação.

Quem quer que pretendesse demovê-lo de seu satori cínico estava fadado a enfartar, surtar a ponto de sair correndo pelado e gritando como doido ou simplesmente ir parar no manicômio.

Podiam tentar lhe romper a inação com todas as afirmações e sustos mais abstrusos, desde o tradicional “a casa está pegando fogo”, “olha a cobra aí no teu pé”, até o “vi tua namorada se arretando com um negão ali na esquina agora mesmo” , ou destratá-lo com todas as ofensas possíveis e imagináveis que a máxima reação era um dar de ombros acompanhado de um esgar característico.

A única coisa que lhe entusiasmava e o fazia abandonar a imobilidade de múmia do Egito era uma vocação bastante incomum e, diriam os membros do MBL, terrivelmente repreensível! O rapaz era dado a escrever contos pornográficos dos mais sádicos e cretinos. E inspiração não lhe faltava. Qualquer velha perneta ou coleguinha tonta e desenxavida era o suficiente para viajar zilhões de quilômetros na sua imaginação pérfida e bolar as mais enlouquecidas situações, de fazer corar Restif de La Bretone, Apolinaire e o próprio Marquês de Sade.

E foi justamente uma lambisgoiazinha destas que um dia deu com galante texto do mancebo sobre a mesa e, caindo na gargalhada mais estrepitosa, ía chamando a atenção de todos, quando o iluminado Diógenes juvenil, saltou-lhe como um doido furibundo, não conseguindo reaver a peça, pois a lépida moçoila se escapou de um salto e pôs-se, insolente, na pose mais arrogante de quem tem nas mãos a vida alheia.

O nosso famoso cínico explodia em desespero e prometeu de tudo para que lhe entregasse o comprometedor papelzinho. Daria até o salário inteirinho nas mãos dela. Faria todo o serviço, o dela e o dele (que não fazia mesmo) com a maior agilidade e maestria, podia botar-lhe uma coleira ao pescoço e levá-lo a passear em praça pública com a bunda de fora, pintada de vermelho, e cara de palhaço (tinha realmente uma imaginação bizarra!), mas lhe entregasse o conto!

A sirigaita, entretanto, ouviu cada proposta e rogo feito aos gritos, no meio de intensa choradeira (quase se caga e mija de tão apavorado), fê-lo prometer mais trezentas cretinices, até casar com ela, e, ao fim respondeu dando de ombros e com um sarcástico muxoxo.

Ubirajara Passos

 

 

Um e-mail das Arábias


Era a milésima vez que recebia por e-mail aquelas versões “internacionais” do golpe do bilhete, do tipo “tenho uma grana enorme que não posso aplicar em meus país conflagrado no Oriente Médio e sei que o senhor pode me dar dicas de investimento em seu país”.

Mas, agora, a coisa era completamente diferente. Viera em português. É bem verdade que num português sofrível, capaz de injuriar o próprio Inácio dos Nove Dedos (e sua sucessora, a “presidenta” aclamadora de mandiocas – na qual a mídia e o aparato institucional da direita explícita andam ultimamente querendo enfiar de vez a mencionada raiz) ou mesmo o patrício de mais estropiado sotaque emigrado do Líbano ou da Palestina. O texto dizia o seguinte: 

“Respondi Urgente Para Investomento!!!
Lamento se meu e-mail incomodá-lo, eu decidi entrar em contato com você, porque eu sinto que você vai me entender melhor ..Estou realmente precisando de sua ajuda,    pois requer uma resposta urgente de você. Por favor, esta é uma mensagem pessoal para você, eu preciso de algumas directivas de você para investir algum dinheiro ou de capital no seu país, EU e meu marido era industrial e um membro do conselho de empresários de petróleo síria em Damasco, Síria. Devido a matanças,decapitações bombardeios e conflito crise guerra em Síria que milhares de civis relatados fugindo como batalha por Aleppo, Síria,intensifica à medida que a guerra se intensifica a partir de hoje, eu não posso investir o dinheiro aqui na Síria isso é quando eu entrar em contato com você E ver como podemos parceria no negócio e intensificar complexo multinacional.
Responder-me explicar melhor para voce nesta e-mail: aishaalrashid1@qq.com

Sra.Aisha Al.Rashid

Por breves e imbecis instantes, o nosso herói quase caiu na asneira de levar a sério a coisa e responder a mensagem da forma como solicitada, já sonhando com a fortuna que poderia abarcar com o tesouro do milionário árabe. Ficou imaginando a imensa e infinda farra que faria num harém particular, contratando as mais gostosas e safadas “odaliscas” dos mais chiques (e também dos mais fuleiros, desde que tivesse aquele rostinho sem-vergonha e aquela malícia ronronante que põe qualquer leão furioso desvairado mansinho como gato de madame) da capital, na qual poderia acabar, literalmente, morrendo de trago e gozo.

Mas, antes que as mãos digitassem apressadamente o que seu cérebro de asno ditava, o zé pelintra que o acompanhava soprou-lhe ao ouvido a tremenda encrenca em que ia se metendo e, ao invés de simplesmente deletar o e-mail, como fizera com os outros tantos, resolveu se divertir e devolveu a tentativa da golpe da maneira mais sacana que encontrou:

“Não se preocupe. Você enviou este e-mail para a pessoa certa. Eu e meu amigo baiano, dr. Luisinho Sugacheca, não temos um único puto na carteira, mas conhecemos todas as putas de Porto Alegre, capital do Sul do Brasil, onde prolifera o negócio mais rentável deste país: a putaria. E moro justamente  na cidade periférica da Região Metropolitana daonde provém a maior parte destas putas!
Podemos, tranquilamente, investir os petrodólares de seu marido num FANTÁSTICO PUTEIRO GIGANTE, com direito a 2 torres gêmeas de 14 andares, cada qual destinado a shows e práticas públicas e privadas de boquete, streap-tease, sessenta-e-nove, sexo anal, vaginal, oral, nasal, umbilical, espanhola, ucraniana e polaca, sexo bizarro com cães, vacas, ovelhas, camelos, gordas, velhas, ciganas e mães de santo em pleno transe da pomba gira kadija al-sacanidi, bem como diversos gays de barba grisalha e com um dedo a menos na mão esquerda (perdido no cu do povo brasileiro), especializados em fuder nações e continentes inteiros como o Brasil e a América Latina.
Para construirmos esta mega instalação e contratarmos os profissionais e a logística adequada necessitamos tão somente da módica quantia de 24 trilhões de euros!

Favor enviar esta grana para a Caixa Beneficente das Putas e Gays do Brasil, agência 024, conta 694324 – titularidade da senhora Dilma-Ahma-Mandyioca-Emmet Abanananopovo.

Aguardamos com muita ansiedade e entusiasmo a sua resposta.

Assinado: Salym Al-Assad-Ocudosviga-Ristasimeim-Becys”

Pelo que se sabe, até hoje, passados uns 3 meses, muito embora nosso amigo, contra os próprios hábitos, acorde de madrugada e salte da cama como um cabrito embrigado para conferir em seu computador, até hoje não recebeu a minima resposta.

Ubirajara Passos

Pero Vaz de Caminha e a Buceta índigena


Nada como tratar, em plena véspera de Natal e após o frustrado “fim do mundo”, de assunto sério e paradisíaco, relacionado profundamente com os destinos e a formação do Brasil.

Se o leitor caiu de pára-quedas neste blog, num vôo cego e acidental pela internet, a partir de tags sisudas e sem graça, como política ou história e (apesar da advertência constante em sua barra lateral) resolveu se embrenhar nesta mata literária, provavelmente tomará por sacanagem e invencionice pura o tema desta crônica (para ele) cretina, apelativa e despropositada.

Se veio parar aqui a partir de indexações do tipo putaria, velhinhas trepando com jegue fogoso e outras asneiras que, devido ao erudito vocabulário deste cronista, acabam por conduzir a este blog, certamente estará mais indignado ainda por não encontrar os vídeos ou contos pornôs de pobre imaginação e precária construção verbal que, infeizmente, costumam povoar a pornografia internética padrão, reduzida, como a pornografia em geral, ao estilo cru e “analfabético” dos piores funks globalizantes do sadismo sexual imbecil e sem imaginação.

Mas o tema deste post não é gaiatagem minha, muito menos invencionice, e nos dá, de certa forma, uma palha da predestinação do caráter brasileiro, a partir da informalidade, bom humor e plena desenvoltura mental dos primeiros portugueses que aportaram por estas terras e, concretamente “seduzidos” por sua natureza edênica, lhe acrescentaram a pimenta da malícia ibérica, que mais tarde a padralhada trataria, em conluio com o sadismo bandeirante, de maltratar, ao ponto de quase extinguir, debaixo do carrancismo moralista de um catolicismo imperialista histérico e opressor.

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É bem verdade que os invasores lusitanos, nesta parte da América Latina, não foram menos funestos que seus vizinhos espanhóis e fizeram dela, no correr dos séculos, como dizia o saudoso companheiro Darcy Ribeiro, um moinho de gastar gente pra adoçar a boca de europeu. Na fornalha de sua fome sádica e furibunda por enricar e viver à forra, nossos “colonizadores”manietaram, escravizaram, torturam e torceram, com o mesmo entusiasmo da inquisição religiosa na peninsula, mas com o objetivo bem mais concreto e paupável do enriquecimento ao custo do sofrimento e embrutecimento alheio, os corpos e almas de multidões de índios e negros, cujo sofrimento forjou a riqueza de europeus e o cadinho de um país enorme e rico, mas ainda submetido à lascívia estrangeira sádica, e, apesar de tudo, pontilhado por uma alegria de viver e um estilo despachado que haverão de garantir, no dia em que nos fizermos donos de nosso próprio destino, o verdadeiro paraíso na terra.

Se o bandeirante ou o colono luso posterior era violento e carrancudo, entretanto,o fato é que os primeiros patrícios a aportar por aqui, a maioria degredados deixados na costa em navios como o de Cabral, tinham um estilo bem mais sutil e malandro, típico do esteréotipo nacional posterior. Tratavam de se enfiar no meio da indiarada e, gozando de institutos culturais estabelecidos como a poligamia e o cunhadismo (noção de que todos os membros de uma aldeia são parentes de quem se casar com uma índia dela e, como tal, tem obrigação de auxiliar o “cunhado”) se fartaram na utilização das bucetas, e dos braços masculinos, para prover suas necessidades de diversão e mantimentos, se tornando verdadeiros barões tropicais, felizes e poderosos,com um exército de solícitos e ingênuos índios, dispostos a satisfazer seus menores desejos materiais, com toda bonomia de seu caráter naturalmente empático e solidário. Eram terríveis malandros estas criaturas, como João Ramalho e Caramuru,que, infelizmente, acabaram por se fazer auxiliares do imperialismo brutal, que mais tarde transformaria o éden tropical num inferno,pleno de choro e ranger de dentes, por muitos séculos, até conformar o Brasil que conhecemos hoje.

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Mas, antes que o leitor me mande à puta que pariu pela tagarelice historiográfica e antropológica, vamos ao assunto principal do texto. Está lá, na certidão de nascimento do Brasil, inscrito em todas as letras, o olhar embevecido e lúbrico, desatinado de tesão, surpresa, e até de uma certa ingenuidade, do escrivão da armada cabralina, logo no início de sua carta a El-Rei, dando o tom de admiração e apaixonamento diante daquele mundo perfeito de corpos nus e folgazões, dedicados ao prazer, ao trabalho e à caça, sem qualquer grilhão que os obrigasse a uma rotina obrigatória, opressiva e sofrida sob o tacão do dominador.

Na transcrição de Sílvio Castro (L & PM, Inverno de 1985), o embasbacado burocrata lusitano, descreve com todo o gozo de um êxtase místico, a cena maravilhosa que tinha à sua frente (depois de semanas terríveis, chacoalhando entre maremotos e calmarias, cercado de machos,no infecto navio), na inimaginável praia baiana:

“Ali andavam entre eles três ou quatro moças, muito novas e muito gentis, com cabelos muito pretos e compridos, caídos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos vergonha nenhuma”.

“Vergonha”, para quem não conhece a gíria quinhentista, é buceta mesmo. E “cerradinhas” quer dizer fechadas. A pena do Pero Vaz,prova, portanto que, nossos “descobridores” europeus podiam ser doidos por ouro, escravos e riqueza, mas, ao contrário de seus irmãos peninsulares, não desprezavam,mas antes admiravam profundamente o que era bom e apreciavam bem a maior riqueza já produzida pela natureza.

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Em outro trecho, adiante, comenta, entre irônico (“vergonha – que ela não tinha!”) e admirado, sublinhando o vivo contraste entre as índias e as portuguesas:

“E uma daquelas moças era toda tingida, debaixo a cima, daquela tintura; e certamente era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha – que ela não tinha! – tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais feições, provocaria vergonha, por não terem as suas como a dela.”

E os espertos portugueses, forjados no sangue celta e mouro, enfastiados com as raras e terríveis visões das “aranhas” européias (cuja contemplação implicava numa série de aventuras perigosas,prenhas de percalços e, no mais das vezes, fadadas a levar à breca o infortunado aventureiro – fosse na perda de seus patacões ou da própria vida) não eram nada bobos e trataram de aproveitar a exposição gratuita e inédita e entusiasmante da buceta raspadinha brasileira.

O descobrimento ficou imortalizado em quadro que retrata a “primeira missa”.Mas podem ter certeza que, naqueles dias, muito mais do que a arenga devota do latinório clerical, o que aproximou mais a marujada e a fidalguia da expedição cabralina do céu prometido por Cristo foi a visão absolutamente surpreendente e imprevista do paraíso terreste na buceta índigena!

Ubirajara Passos

Tinha uma pedra no meio do caminho


Sempre achei extremamente abstrato o famoso poema de Drumondd. E a interpretação costumeira de sua genialidade sintética e simples diante do fenômeno universal e onipresente dos obstáculos, nos mais diversos locais e circunstâncias possíveis, sempre me pareceu muito óbvia e pouco provável.

Até que há coisa de um mês e meio atrás, tive uma dura e concreta experiência. Uma pedra atravessada no canal do ureter, grande o suficiente para não arrastar-se aparelho urinário abaixo, depois de semanas de sofrimento e investigações médicas infrutíferas acabou por me levar a uma  das aventuras que mais temi na vida, a cuja extinção supunha pudesse me levar: uma cirurgia para sua extração, mediante uso de ultra-som, introduzido justamente pela uretra. O que significa que, além de passar pela sempre temida operação, ainda fui “comido”, isto é sofri a introdução de um corpo estranho dentro de mim,  através do meu próprio pau. Coisa no mínimo bizarra e, depois de passada a anestesia e a sedação, tão sofrida quantos os ardores e dificuldades dos primeiros dias do pos-operatório.

Mas todo este papo meio hipocondríaco, que deve estar fazendo os meus costumeiros leitores bocejarem e gritarem altíssimos “Bira vai à puta que pariu” (não necessariamente simultaneamente nem nesta ordem) é apenas para (tentar) justificar a minha ausência deste blog no período, que espero seja devidamente remediada e absolvida a partir de hoje. Houve muitos outros pedregulhos a causá-la, é bem verdade, mas a partir de agora espero que possamos, eu e os pacientes leitores, fazer uma sopa com a sua poeira.

Ubirajara Passos

O duplo trote


Atabalhoado em meio ao trabalho na repartição pública falida, o sujeito estava bom de dispensar qualquer um que insistisse em lhe interromper “por motivos fúteis”, mas a estranha solicitação do colega, feita pelo MSN corporativo, o sacudiu do transe dos cálculos e o colocou em estado de completa disponibilidade, digna de matrona fofoqueira de arrabalde.

Afinal pra que diabos o cara queria saber se havia orelhões no caminho que fazia até em casa,  no intervalo do meio-dia, para baratear o custo do almoço (que até mesmo o prato feito de buteco escroto andava proibitivo para seu salário de funcionário encalacrado)? E, o que era pior, porque queria que lhe ligasse para o celular justamente quando estivesse passando pelo orelhão?

Imbecil o velho amigo e colega, removido para a região do planalto há alguns anos, depois de ter passado pela campanha(com o que se achava longe de Gravataí há uma década) não era. Logo havia alguma matreirice, alguma sacanagem extremamente sofisticada naquela história. A coisa devia ser, além de inusitada, saborosa e instigante.

Mas a reina rotineira o impediu de atender às repetidas solicitações, apesar das vãs promessas em fazê-lo. E assim, depois de vários dias sendo xaropeado (e se esquivando, disciplicentemente), não teve jeito. Se viu forçado a anotar o número que o camarada teimava em lhe fornecer (um banal telefone residencial em Gravataí) e, aproveitando o primeiro telefone público à vista, em frente ao hospital Dom João Becker, sob o testemunho sonolento de um sol de inverno a “meio pino”, cumpriu as instruções.

Ligou para o telefone indicado e deixou tocar para que a criatura desconhecida do outro lado da linha imaginasse que o seu colega se encontrava na cidade, como o tipo  lhe explicara para justificar a coisa toda  (como ela poderia imaginar que se tratava dele, ainda que possuísse identificador no aparelho, e justamente vendo um número gravataiense qualquer era um mistério que se encontrava relacionado, com certeza, ao horário do telefonema e a outras circunstâncias bastante suspeitas e imagináveis).

Lá pela 4 h da tarde, na hora do outro intervalo, em que costumava empurrar um sanduíche na correria do expediente, quando perguntou, em meio ao relatório do fato, se o alvo da ligação era uma mocréia ou uma gatinha (afinal podia ser a mãe ou até uma tia velha), o amigo reagiu “indignado”:

– Porra, mas tu é foda! Eu te falei pra dar somente um toque. Como é que liga a cobrar, deixa atender e ainda faz a pessoa arcar com o prejuízo de um trote mudo! Ah, ah, ah, ah! Deve estar doida! Tava muito braba?

– Não. Pelo tom da voz creio que te perdoou. Mas vem cá, que negócio é este de marcar encontro com amante em pleno meio-dia? E que senha braba é esta? Ligar de orelhão em hora fixa? A cobrar ainda por cima? A gostosa acredita que tu é tão miserável que não tem nem um celular sem chip e te dá pelo simples prazer ou é alguma velha que te alcança uns cobres?

– Tu é espertinho, hein? Já tá querendo saber demais. Mas é uma gatinha! E ronrona que é uma maravilha! Ainda mais quando senta no colinho e ganha um presentinho. Isto de dar toque de orelhão faz parte do sigilo. É pra evitar encrenca. Não da minha parte, que morando fora da cidade a minha jararaca não tem a menor possibilidade de desconfiar. Mas ela tem um corno brabo, um piazão babaca, nada manso o guampa torta! Não gosta dele (o guri é “precoce”), mas atura por causa da exigência da família. E, não fosse pobre, nem precisava lhe dar nada. Já disse, a ingênua, que,  se um dia enricar, paga o motel pro cavalo véio aqui, que prefere o meu trote experiente que a cavalgada estabanada do potrinho crivado de espinhas.

– Ah, tá! Imagino! – E, enquanto desviava o assunto para velhas anedotas de mais de uma década, o nosso herói sorria, sarcasticamente, com aquele ar de gato mirando passarinho. O amigo cheio de cuidados era apenas mais um de uma lista interminável de ilustres trouxas, todos temerosos do fantasmagórico namorado ciumento e incompetente, que frequentavam a alcova da coisinha linda mediante o oferecimento espontâneo de um considerável mimo. Assim lhe revelou a loirinha  mignon, fogosa e doidinha por uma cerveja, em meio à sacanagem na banheira de hidro-massagem do motel, dando boas gargalhadas, quando ele, malandro velho, lhe contou as precauções misteriosas do amigo.

Não só havia deixado a guria atender, como havia encetado longa e sinuosa conversa mole ao telefone, e o resultado fora uma tarde de imenso e intenso prazer com o objeto da paixão extra-conjugal do colega metido a sedutor.

Ubirajara Passos

 

Galileu Galinhei


Galileu Galinhei era um gringo tarado do século XVII que não podia ver se movimentar na sua frente qualquer coisa que usasse saias, vestido ou indumentária semelhante, inclusive batinas, sem ficar de pau em riste, esbugalhar os olhos e, babando e relinchando como doido, por-se no encalço do infausto objeto de sua entusiasmada atenção. O que justificava o apelido que acabou por incorporar-se ao nome.

Nascido em Pisa, no século anterior, há quem atribua seu apetite inextinguível a uma mística ligação com o nome da própria cidade cuja torre inclinada se constitui no único monumento fálico meia-bomba do mundo, e seria derivado (segundo os biógrafos falcatruas) de”Piça”.

O fato é que Galinhei, tendo sido coroinha, e aluno preferido na escola dominical, em sua terra natal, afeiçoou-se tanto à batina (e às guloseimas com que o mimava o padre no quartinho escuro, ambos sós, depois das aulas), que quis se tornar monge. Seu pai, preocupado com o interesse incontrolável do filho pelo corpo humano, e temendo vê-lo desencaminhado em sua masculinidade, resolveu mandá-lo estudar medicina na escola local. Flagrado, entretanto, em plena aula de anatomia, pelos colegas, utilizando um instrumento impróprio na dissecação de um defunto, acabou expulso não só da escola, mas da própria cidade (dizem alguns que não em razão do bizarro incidente, mas por influência do padre Pedrinho, muito apegado ao estudante, e que se sentira abandonado por Galinhei, quando este foi forçado a desertar do seminário). 

Exímio nas quatro operações, o jovem sátiro, divertia-se, nos raros intervalos em que lhe permitia o tesão imenso, com cálculos “inúteis” e consta que foi, nas aulas práticas de medicina, quando treinava a cura da histeria em algumas jovens aldeãs, por métodos nada convencionais, que, observando o vai e vem das tetas das colonas gringa, ao cavalgá-lo em pelo, notou que a extensão deste movimento no ar não dependia da fartura ou magreza dos seios, mas era igual conforme o seu comprimento (diga-se, de passagem, que as conterrâneas de Galinhei não pareciam ser exatamente as gringas mais favorecidas pela “lei da gravidade”, descoberta pelo judeu londrino Isaque, se celebrizando por serem bastante caídas). Foi assim que inventou o pêndulo.

Com tais pendores, acabou matriculado pelo pai em uma escola de Matemáticas em Pádua, aonde descobriu que a velocidade da queda não depende do peso, ao fazer umas experiências com suas bolas em plano inclinado sobre o lombo das putas do mais famoso cabaré da cidade. Fossem gordérrimas ou verdadeiros esqueletos, todas íam abaixo, despencando sobre o catre do bordel, exatamente no mesmo tempo, quando o Galinhei safado retirava sua enorme régua de seus receptáculos dianteiros e a cravava fundo em sua bunda.

Caindo na besteira de incluir na tal experiência a marafona preferida de um nobre, acabou corrido a pauladas e foi se refugiar em Florença, onde se achava, no início dos anos 1600, se dedicando pachorrentamente a suas duas distrações preferidas: a putaria e os números.

E foi lá que deu o azar, até então inédito, de ver-se rejeitado. Galinhei, além de fogoso e mestre em cálculos, era o típico sedutor italiano e não havia mulher, virgem ou puta, solteira, casada ou qualquer coisa similar, que resistisse ao seu verbo (embora haja quem diga que ele era mesmo um chato:  as gringas acabavam lhe dando para não terem de suportar mais suas barrocas arengas). Seja como for, lá Galinhei encontrou a mulher mais gostosa e interessante de todo seu vasto repertório. E justamente ela, por que daria a vida para ao menos ver nua, não queria nada, e fugia do próprio Galileu como o capeta de católicos e protestantes, naquela época de guerras religiosas  em que ambas as correntes se digladiavam até a morte para ver quem enviaria mais fiéis da seita inimiga ao inferno na ponta de suas espadas, nos instrumentos de tortura e nas chamas do “amor divino” (em cujas fogueiras a igreja católica era imbatível).

Pirado e emputecido, Galinhei não pensava em outra coisa e até largou das putas, das viúvas e das vistosas esposas dos camponeses dos arredores, para se dedicar exclusivamente à sua obessão platônica. E foi em meio à esta crise existencial que chegou-lhe às mãos um dos primeiros exemplares importados de uma novidade que veio  a calhar aos seus propósitos: o  telescópio. Durante noites e madrugadas Galinhei, pendurado nos galhos de uma árvore fronteira espionou as janelas do quarto da amada, com o artefato em punho, tentando enxergar-lhe a loira e voluptuosa nudez sem sucesso! E, finalmente, naquela sexta-feira de lua cheia, em pleno outono, conseguiu o intento. Branca e redonda, enorme, surpreendemente, estava lá se sacudindo, enquanto subiam pelas pernas as calçolas, aquela entusiasmante bunda, quando Galinhei, num movimento falso, perdeu o precário equilíbrio (pois segurava o telescópio com uma mão enquanto a outra fazia o serviço solitário, se apoiando no tronco com as coxas) e foi ao chão, dando uma tremenda cabeçada!

Colhido por um transeunte, o professor devasso foi levado ao hospital, onde, se acordando na manhã, seguinte, instado pelos amigos sobre o acidente, e ainda meio tonto, possivelmente delirando pronunciou a famosa frase, se referindo à bunda da gostosa: “i por si muove!”

Padre Pedrinho, seu antigo mestre, que andava na cidade, sabendo da história (que não havia ninguém mais popular na pátria do mais famoso poeta do amor platônico, que Galinhei naquela época), tratou de intrigá-lo e foi correndo a Roma fofoquear que o matemático havia dito que a Terra se movia sozinha, sem a intervenção de Deus, e, o que era pior, não era o centro do universo (parece que Galinhei, meio sonolento ainda, falara mesmo no hospital que a Terra girava ao redor da cobiçada bunda, quando interrogado sobre a estranha frase que recém berrara), mas andava ao redor do Sol!

Enrolado involuntariamente nas intrigas ideológicas e políticas da padralhada, por pouco Galinhei não perdeu a vida  na festa de São João do Papa. Conta-se a boca pequena que se salvou da fogueira não negando publicamente uma afirmação que, efetivamente, jamais fizera, mas mostrando ao papa (que comungava com ele, como era moda naqueles tempos entre os supremos mandatários da igreja,  a admiração por belas donas “boas” – como se dizia nos anos sessenta do século XX) um retrato que da formosa bunda, que lhe fizera, por encomenda e conforme as indicações de suas recordações, o neto de um pintor gringo famoso, também ele pintor, ainda que medíocre, o qual compartilhava com o avô o nome, e um epíteto que lhe simulava o sobrenome: o Leonardo Dá Vinte!

Ubirajara Passos