Meditação Vadia


Poema escrito após um cansativo e tedioso domingo “familiar”:

Meditação Vadia

Um interlúdio mudo e preguiçoso
À sombra da paineira secular,
Uma mateada solitária junto à curva
De um esbraseado alvorecer, no arrepio
Da brisa frouxa, tranqüila e vagabunda,

Um pouco de rotina,
Sonolento
Espairecer, na penumbra da sacada,
Num fim de tarde qualquer, enquanto arde
Na rua continuamente insone
O infinito fogo dos conflitos,

É o meu ideal absoluto e desejado
Frente ao berreiro falso e inócuo
De noticiários e fofocas quotidianos,
De ficções novelísticas e segredos
De traições profissionais ou amorosas
Que embala o sono desperto, os sobressaltos
De todo dia do rebanho humano.

Gravataí, 29 de novembro de 2010

Ubirajara Passos

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A meu pai, morto em 7 de novembro:


Ao baixares à cova para o sempre
Choro por ti,
Por mim, e por nós todos,

Porque passaste a vida,
Sério e dedicado,
Cheio de agruras,
Levando sobre os ombros
O peso de um lar a ser provido.

Porque, a teu modo, creste e militaste
Nos ideais de redenção da peonada
E hoje transpões o negro umbral da morte
Sem ver, sequer, eles serem defendidos
Na antiga oratória falsamente radical.

Porque, compenetrado e cioso de teus filhos,
De tua mulher, que, como tu, viveu
O padecer do “paraíso” da família,

Foste mais um,
Como tantos de nós, trabalhadores,
Que consumiu a vida no labor
Cansativo e incessante,
Abrançado com entusiasmo,
Sem ter conforto ou nenhuma recompensa.

Se em alguma instância qualquer
Tua consciência tiver continuidade
E encontrares minha mãe por lá,
Que seja possível aos dois se divertirem
E rirem, serenos, dos trabalhos
Porque continuamos a passar neste planeta,

Dos nossos vãos esforços em fugir
Da labuta obrigatória e entediante,
Buscando um mínimo de originalidade
E de prazer em cada gole de cerveja,
No sorriso espontâneo de uma menininha,
Na brisa solta de cada primavera,
Nas madrugadas insones do amor dos corpos
Ou na tertúlia boêmia de amigos,

Porque, por mais que procuremos
Avidamente o bem-estar,
Sempre caímos
De volta à vala compulsiva das neuroses.

Gravataí, 19 e 24 de novembro de 2010


Ubirajara Passos

Vivendo “de quatro”


Hoje amanheci de saco cheio e, para espairecer , resolvi latir um pouco. Comecei sem muito estímulo, tresnoitado e zonzo que estava.

Afinal, a farra fora boa! Passei a noite e a madrugada fazendo um sexo animal com umas quatro parceiras. Uma de cada raça. Eram todas umas cadelas! Adoravam dar de quatro e, depois, ficar grudadinhas, bem encostadinhas no cara, durante horas.

Mas, voltando ao assunto dos latidos, aos poucos fui me entusiasmando. Quanto mais alto e forte acoava mais energia sentia e o barato da noradrenalina tomou conta de mim quando meus vizinhos resolveram participar da brincadeira e improvisar um concerto de latidos na quadra lá de casa.

Foi aí, no auge dos ganidos festivos, que me surgiu a Rosimeri, furibunda, espumando pela boca, e começou a me comer de porrete, esbravejando: “cala a boca, seu guaipeca desgraçado, que eu quero dormir!”.

Não reagi, evidentemente, diante da fúria destruidora e implacável dela, e me encolhi num canto, ruminando os sentimentos contraditórios de ódio e amor que ela me inspira.  Que megera temperamental, compulsiva e bi-polar! Ultimamente não larga do meu pé e, cada vez que saio à noite, a dar umas voltas fora de casa, ameaça me botar coleira. Uma vez me pegou, já madrugada, mijando no muro e não adiantou eu lhe fazer festas, nem abanar o rabo, que continuou a ralhar comigo, com aquele nariz de bruxa torcido!

Em contrapartida, quando está de bom humor, me cobre de carinhos, me bota no colo, afaga minha cabeça, me dá comida na boca e até já me botou na cama com ela e o Lourival. Este é um pobre coitado. Trabalha como louco pra sustentar a mocréia, nunca sai de casa, nem pra tomar uma cerveja com os amigos, mas só leva bronca.

No dia em que fui pra cama com os dois, o sujeito reclamou, com toda razão, do meu bafo forte, dos meus pés embarrando os lençóis e do linguão de fora, e acabou expulso pela desgraçada, a ponta-pés (como nunca ela sequer fez comigo), tendo de ir, todo encolhido, pro sofá. Por pouco a cretina não o manda ir dormir no fundo do quintal, na minha casinha!

assinado: Totó da Madame

Tertúlia de Compadres em Fundo de Quintal


Segue abaixo publicado um pobre poema que escrevi hoje à tarde, entre o vento varredor compulsivo e a simpatia fascinante e as gracinhas de minha filha Isadora, que, nos seus profundos e espontâneos dois aninhos, encarna  um buda embriagado no epicurismo (toda feita de sorrisos e travessuras que, indagada sobre o que está fazendo, responde, entusiasmado que é “arte!”):

Tertúlia de Compadres em Fundo de Quintal:

A tarde corria
Embalada no vento,
Ao sussuro da aragem,
No arrepio da brisa.

Na tépida sombra
Do arvoredo antigo,
Refrescando a alma,
Aquecendo os corpos
A vetusta garrafa
De “São João da Barra”.

E o leal compadre,
Comparsa de eras
De boemia e trago,
Entre um gole e outro,
Lhe recomendava,
Por falta de assunto:

Companheiro velho,
Não te atires tanto
Na paixão da noite,
Desmanchando-te todo
No fogo do afago,
Na graciosidade
Das lindas tigresas
De pelo macio e tesão ronronante,
No vulcão do gozo,
No riso picante
E na sutil ternura
Dos salões sacanas.

É (clichê antigo)
Uma perda de tempo,
Um desgaste inútil,
E, acima de tudo,
É pura ilusão!

E o parceiro, inspirado
Pelo sagrado conhaque,
Redarguiu, entusiasmado:


Caríssimo amigo,
Sei que tens razão
Em tudo que me dizes,
Mas prefiro ainda
À realidade dura
E sem sal dos lares
Pequeno-burgueses,
Da opressão doméstica,
Uma gostosa e lúbrica ilusão!

Gravataí, 13 de novembro de 2010

Ubirajara Passos