Estava o guaipeca no seu lugar… vieram os gatos lhe incomodar!


2017-08-08 21.30.32

Este sujeito aí de cara invocada é o Vagabundo (ilustre gato da Isadora que poderia ser meu, tamanha é a devoção que me dedica, dando-se, inclusive ao trabalho de seguir-me e entrar junto comigo em casa quando retorno ao trabalho e se acha na rua) e só se encontra solitário na foto porque não encontrei nenhuma de seu primo e parceiro de estripulias, o Luba, com o qual cometeu a façanha que deu origem a este post.

Nascido em novembro de 2014, em plena cama, quando a Janaina descansava numa tardinha de domingo, na mesma época em que o seu tio e pai de seu parceiro (o Mel)  desapareceria pela Vila Natal a farrear, para voltar quase um ano depois para casa, completamente estropiado, e aí morrer, o bichano aí, assim como o primo (parentesco que lhe foi atribuído pela semelhança com seu pretenso pai angorá, quando surgiu por casa há mais ou menos um e nos adotou como seus “donos”), foi castrado faz um tempo, o que não o fez ficar mais caseiro, nem menos macho.

E, outro dia, no final de uma bela manhã de sábado, andavam ele e o Luba pela calçada de casa, com aquele ar modorrento de boêmio recém chegado da esbórnia, quando uma dupla de assustadores e valentes cães de rua (que na Vila Natal os há de todo tipo, tamanho, pelagem e atitude, alguns tão atrevidos a ponto de formar gangue e nos cercear o passo pela rua, a ladrar e ameaçar como militantes do MBL) se postou, ar de ameaça e determinação típicos, capazes de botar a correr muita beata ou moleque desavisado, em frente ao portão do vizinho do lado, pronta julgava eu, para dar um corridão na gataiada.

E eis que, para minha surpresa e confirmação definitiva de que estamos no fim do mundo e as coisas andam todas fora de ordem, mesmo para o mais empedernido anarquista questionador e contestador do mundo, a dupla de gatos é que os pôs a correr, mas não com uma carga de unhadas e miados histéricos e esganiçados, como suporá o leitor.

Juro que é a mais absoluta verdade, assim como é o episódio em que peguei o gato Luba com uma trufa (que minha mulher havia feito para arrecadar fundos para a festa de sua formatura em Técnico em Enfermagem, ocorrida mês passado) na boca, embalagem aberta por ele mesmo, que ele sacara da mesa para o chão, pondo-se a correr a minha chegada, no que ninguém em casa me acredita. Mas os gatos se mantiveram impávidos, sem dar um mio, e retesando o corpo com aquele olhar de mafioso pronto a fuzilar, botaram a correr a jaguarada com esta simples e muda ameaça, movendo-se apenas um único passo a frente.

Não se sabe se é efeito da guerra de facções do tráfico de drogas que anda pela cidade – trazendo novidades do “caveirão” à execução de uma dupla forçada a cavar a própria cova e nela se deitar para, depois de uma saraivada de balas (boa parte ‘perdidas” pela má pontaria), virar churrasquinho e protagonizar vídeo em pleno facebook – ou da onda de estripulias fascistas que corre o Brasil,  mas o fato é que, num lance nunca visto, os meus caros gatos, que até o episódio jamais haviam manifestado esta pose de mafiosos de filme americano, parecem estar provando para muita gente que, bem mais do que espalhafato e o uso físico da violência, muitas vezes a determinação e a postura é tudo.

O que corrobora a minha velha tese, exposta aqui neste blog faz uns quantos anos, de que, para derrogar o regime vigente de dominação a que vivemos nós, pobre peonada trabalhadora, submetidos, não é necessário nem o uso do fuzil, mas simplesmente virar as costas para a burguesia, como diria o falecido Valdir Bergmann, e, entrando em greve permanente, mandá-la à puta que pariu, tomando nós mesmos a condução de nossas vidas e da administração e geração dos meios de sua manutenção.

Pois, por valente e perigosa que pareça, a tropa de choque encarregada da manutenção da ordem vigente (e até aquela, não encarregada, que pretende empestear ainda mais nossas vidas com sua censura e falso moralismo) é tão poderosa que há de desmontar-se ao menor gesto de enfado e desfaçatez diante de sua ruidosa fúria!

Ubirajara Passos

 

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Bodisatva


Faz uns quatro anos, às vésperas do “fim do mundo”  do calendário maio, comprei meu atual notebook (de que,  embora “ultrapassado” nos conceitos modernosos, não me livro de jeito nenhum, pois, com suas 15 polegadas de tela, possui um raríssimo teclado numérico lateral, independente do teclado alfabético) e desde então adiava a organização dos arquivos de downloads, documentos, fotos… o que somente me animei a fazer hoje, em meio à folga do recesso judiciário.

E, agora há pouco, percorrendo os arquivos de poemas para movê-los a uma pasta específica dos documentos, dei com o sonetinho mal composto, abaixo, que aqui vai publicado para encer a murcilha do Bira e as Safadezas, sem necessariamente encher a paciência dos leitores (assim espero):

 

Bodisatva

De gatos e invernos
A existência
Alimentava no longo rio dos tempos.

E, sob o olhar túrbido do poente,
Flanava entre espessos sonhos,
Fluía em pensamentos soltos,
Ao som espiralado da torrente.

Sua alma era vasto campo
Onde chocavam-se os mais etéreos ventos
E, na umidade absoluta das tormentas,
O olhar vagava, impávido e absorto.

Era colosso em meio à cólera das vagas,
Esfinge na erosão dos séculos
E terno magma ante o entusiasmo de qualquer criança.

Gravataí, 29 de março de 2013 

Ubirajara Passos

 

 

 

 

 

“Recuerdos”


No tempo em que as luzes nasciam no fogo
Em que os candieiros ardiam encharcados
Na embriaguez da querosene,

As noites guardavam profundos mistérios
E as sombras espessas abrigavam, gratuito,
Em capotes pesados os velhos “assombros”.

No tempo em que a música nascia nos dedos
Dos menestréis rústicos, vibrando nas cordas,
Em que o sopro das flautas fazia dueto
Com o minuano gélido que nos arrepiava

Tudo era menor
E o tempo, mais lento,
E vivíamos mais próximo da essência de nós mesmos.

Gravataí, 3 de janeiro de 2016

Ubirajara Passos

Conto de um Velho Tempo


Após a derrota do Movimento Indignação nas eleições para a direção do Sindjus-RS, em maio de 2010, decidi que iria escrever “literatura para ganhar dinheiro”, como andava me recomendando o companheiro Régis Pavani, e um belo dia resolvi participar de um concurso de contos.

O detalhe é que o texto não poderia ter menos de 20 páginas e tinha exatamente um mês para escrevê-lo. E, passados uns vinte dias, eu havia redigido no máximo os sete primeiros parágrafos e o poema que o segue. Comentei, na época, com o alemão Valdir este meu projetinho de conto e ele, para variar, se entusiasmou e me disse que, a pretexto do que já havia escrito, poderíamos aproveitar para discorrer sobre as mais diversas questões filsóficas e políticas, parindo um verdadeiro conto de tese!

No embalo da euforia bergmanniana (não do sueco escandinavo, mas do “alemão” sul-riograndense descendente de imigrantes), escrevi os parágrafos 8º a 23º, mas então já estávamos em 13 de setembro (o conto havia sido iniciado em 10 de agosto), e o prazo de envio para o concurso já se havia ido.

O conto ficou engavetado e tempos depois acabei por copiar um diálogo meu com o companheiro Valdir no msn que pretendia aproveitar nele e simplesmente esqueci-o.

Semana passada, indo revê-lo, tive o maior susto ao dar com a cópia da conversa no final do texto, de que já não me lembrava, e, acrescentando os 6 últimos parágrafos (no qual cometi um certo anacronismo na fala final do “Fausto” em relação ao ano em que passa a conversa no texto) e, trocando os nomes, aproveitei-a na íntegra, até para homenagear o velho amigo, dando o conto por finalizado e deliberando publicá-lo aqui.

Saiu-me, infelizmente, um texto bastante sofrível, cheio de discussões e devaneios filosóficos, mas até por recordatário, resolvi publicá-lo. Ao leitor que tiver a coragem de emaranhar-se nesta selva literária, garanto que, apesar da forma, não perderá de todo seu tempo, desde que tenha a devida paciência. Segue o texto:

Conto de um Velho Tempo

Naquela manhã, pouco antes do nascer do sol, levantou-se, na penumbra, sob a luz quase morta da lamparina, vestiu a toga e foi andando lentamente até a ampla porta envidraçada que dava acesso ao balcão.

Na clareira em frente, os primeiros raios pálidos do dia se esgueiravam, preguiçosamente, rompendo a semi-escuridão povoada de sombras esquivas e fugidias.
Enquanto a brisa úmida e gelada lhe roçava o rosto, sorveu a taça metálica com vinho e sentiu a estranha presença.

Não. Não se tratava do espírito mensageiro daquela estranha seita oriunda dos confins do Oriente, cujo apelo místico-histérico e escatológico era tão forte que se espalhara como um rastilho de pólvora pelo Mediterrâneo ao ponto de entusiasmar a própria mãe do Imperador, que a ela aderira e convencera seu filho a dar-lhe alguma proteção.

Nem era Lídia, desperta de um profundo sono, povoado de sonhos maravilhosos e envolventes, que vinha, lânguida e doce, lhe entusiasmar o corpo com um devoto e apaixonado beijo na tábua do pescoço e suas mãos a percorrer-lhe o peito, sob a túnica, num afago enternecido e provocante.

Mas era uma vibração profunda e densa, dotada de uma luminosidade arrebatadora, convincente e entusiástica como a carne fresca da mais dedicada, espontânea e excitada amante. Não havia naquela ante-manhã qualquer ruído além do farfalhar das folhas e do bater de asas abrupto e veloz da última das aves noturnas a largar de seus afazeres e ir buscar o repouso nos braços de Morfeu. Porém, era como se o próprio Pan estivesse, absorto e inspirado, a tocar melancolicamente a sua flauta, no encerramento da farra dos elementais.

O mergulho nas ondas edênicas do inconsciente rompeu-se, então, importuno e inesperado. Um galho seco estalou no chão, no canto sudoeste do jardim, e surgiu, diáfano como um espectro habitante do Hades em viagem entre os mundos, a figura de um velho ancião, cuja postura ereta, intensa e decidida contrastava com as melenas brancas, que desciam, pródigas, desde o topo da cabeça, engrossando e confundindo-se na barba espessa, como uma branca e espumante cachoeira. O aspecto revolto e volumoso, agitado no verbo do poderoso arquétipo feito carne, lhe dava exatamente esta impressão: a de uma corredeira veloz e violenta a romper em meio a um declive coberto de plácida e densa relva.

E, tronitoante e metálica como o a cachoeira, irrompeu a voz, que dizia:

“Sou o espírito do tempo,
No espesso breu dos confins do universo
Eu dormitava, imóvel,junto ao pólo
Do setentrião, enquanto os homens se agitavam
Nos afazares vãos e iguais de todo dia,
Até que tua mente despertou-me
Com um ruído que rompeu a aurora!”

– Maldito vinho é este que me faz ver sombras falantes no primeiro gole, e, ainda por cima, esnobes e metidas a eruditas, a fazer discurso em tom declamatório?

– Não é o vinho, meu caro amigo. Não te preocupes que não estás delirando, mas mais sóbrio do que nunca! Vives, todo dia, tua vida em quase absoluto sonho, inciente e heterônimo, e agora despertaste, em meio às estranhas e acidentadas fronteiras entre a escuridão prateada e a dureza pétrea da claridade!

– E, além de intelectual almofadinha, é metido a poeta de quinta! Puta que pariu! Se não é o delírio do princípio do envenenamento (sabe lá o que Lídia não anda pretendendo – tanta espontaneidade na entrega e tanta doçura é de desconfiar mesmo!) é loucura, com certeza! Pelo visto as minhas engrenagens mentais se desarranjaram de vez e ando pior que os adeptos do tal Nazareno!

– Se delírio fere, experimenta isto então! – E o vetusto vulto, deslocando-se em uma velocidade instantânea, veio bater-lhe com um bastão no cotovelo, provocando aquela sensação de choque elétrico, que na época devia ter outro nome, o que lhe fez desconfiar que – talvez – estivesse bem acordado e senhor absoluto dos seus sentidos.

– Muito bem, meu camarada, se não és o produto da minha pobre mente insana (que diabo é isto? estou eu mesmo, agora, a falar em tom empolado e declamatório!), que diabo fazes aqui e o que pretendes?

– Como te disse sou o espírito do sempre, o presente absoluto, que, paradoxalmente é limitado e eterno! E, já que me rompeste o imensurável descanso, vim te mostrar algumas coisas que te farão perder a tranqüilidade pelo resto de teus dias, mortal impertinente!
– O tempo é sádico, então?

– E tu tens alguma dúvida sobre isto? Basta olhar ao teu próprio redor e terás as provas mais banais, óbvias e esclarecedoras! O velho Cronos é extremamente cruel e tosco, e tem o mau hábito de seguir sempre na mesma direção, e nunca pára por nada, nem ninguém! Além disto é surdo, senão dissimulado, e não adiantam rogos, nem lamentos. Nem mesmo espinafrações. Por mais que o mandem tomar no cu ou o ameacem, ele que é o próprio fiofó do universo, jamais volta atrás! E pior de tudo, é que, além de teimoso e rabugento, tem um oceânico humor negro. Basta que uma peça de qualquer coisa saia fora de seu próprio lugar que, se deixares a coisa por conta do Tempo, vão outras se perdendo, e a coisa vai se desmontando e desfazendo numa bagunça infinda, da qual não há volta e nada sai de útil e organizado. Ou quem sabe pensas que é por acaso, ou culpa exclusiva de forças como a gravidade, que tudo aquilo que vive pendurado, e no início aponta para cima, com o andar do Tempo, vai cansando, perdendo as forças e pendendo para baixo até cair e, muitas vezes, arrojar-se ao chão e apodrecer! E tudo quanto é liso ou brilhante e belo, mesmo a cara ou a bunda da mais culta e fogosa hetaira, fatalmente acaba por enrugar-se, desbotar e transformar-se num horrendo monte de ruínas, qual mocréia palaciana ou escrivã cristã? Ou te iludes que é a ação do vento, do sol, ou o desgaste do uso repetido que faz as coisas que crescem e aceleram irem depois diminuindo e se tornando vagarosas e, por fim, mortas e paradas? Porque não crescem, se tem dentro de si o tesão do aumento da estatura e do movimento, para sempre e acabam chochas, moles e sem graça? A culpa toda é do tempo!

– Me desculpe, sábio e calculista mestre (que medes muito bem o teu discurso, como fosses senador), mas não lhe parece que esta força da Natureza deveria, como um dos criadores deste mundo, agir segundo propósitos racionais e organizados e não por uma vontade arbitrária e temperamental, qual deus grego reinento e vingativo?

– Meu caro e ilustre “pupilo”, não concluas do que falo que ele é pérfido e maldoso! O Tempo possui lá os seus, por mim nominados, defeitos, mas são particularidades da constituição de sua personalidade e de seu temperamento, não o resultado de decisões sacanas e propositais! Se os seios de uma princesinha cheirosa, cheia de mimos e maliciosas e birrentas vontades nocivas, (como aquela gostosa e exótica dançarina da nobreza colonial da periférica Palestina, que atendia pelo apelido meio italiano de Salomé), acabam por perder suas cores, sua tepidez e se transformam num nauseante monte de rugas caídas, ou se um garboso e arrogante escravo reprodutor, forte e imbecil como Peruca Camargorum, acaba por se tornar um raquítico, cambaleante e inofensivo ancião, sem serventia nem prazer nenhum, certamente a culpa não é do velho Tempo. Há um outro deus, cretino por princípio este, de nome Genes, que se diverte à custa dos mortais e lhes amarra os pés na caminhada sem volta nem desvio por que os leva Cronos, e, depois de alçá-los ao cume dos montes, se acaba todo em gozo e gargalhadas (as mais doidas e agudas dos infernos) ao jogá-los ao mais profundo e pantanoso abismo!

– Que tenha um cúmplice safado se admita. Mas convenha, meu nobre “Senhor” (com todas as prerrogativas do termo, que parece que és mais teimoso ainda que o próprio asno, ou o tal gladiador de serviçais bucetas), nestas coisas de levar ao absoluto dano tudo quanto tem um mínimo deslize há sem-vergonhice pura, pensada e caprichosa!

– Pois é neste ponto, justamente, que o rio dos sucessivos momentos é mais inocente e poderia, amoral e livre, apesar de seu jeito arredio e sem imaginação, tornar-se o mais brilhante e benfazejo colaborador dos homens! Se ele não pode contra seus irmãos mais poderosos, que respondem pela constituição da essência dos mortais, a estes foi dado o poder, ao qual o Tempo, infelizmente, não tem o menor acesso, de mudar suas atitudes e decisões e de repor ou reparar a peça quebrada ou deslocada, ou reorganizar e mudar o plano todo de suas existências específicas, e o tempo, burro e limitado como é, que segue sempre em frente e para um único ponto, acabará, por guiar as coisas pelos novos rumos determinados pelos pobres tipos humanos, sem nenhuma concessão, até que seus cósmicos irmãos reconduzam os mortais ao atroz e final destino. Nada mudará no final da jornada dos precários animais pensantes. Todos fatalmente serão conduzidos à cova para desfazerem-se como objetos largados ao léu e desaparecem da memória das gerações vindouras, mas, se ao invés de se envolver em minhas lamuriosas e recalcitrantes manifestações, se desviarem do mal enjambrado, do monótono e do repetitivo (da tradição de seus anciões azedos, inclusive), se refizerem seu itinerário como se fosse possível renascer e reiniciar todo dia tudo, terão a mim, Eternidade unidirecional, burra e obediente, por aliado o suficiente para gozar de algum prazer e validade em sua condição precária e provisória!

– Isto de se refazer sempre, como se nada houvesse antes há de tornar-se monótono e besta também! Mas vem cá! Cadê os entes ou fatos inquietantes? Com truques como este do bastão tu prometias bem mais do que este discurso filosófico sem fim! Eu esperava mais ação! Meditações sobre a finitude humana eu as encontro em Sêneca, Heráclito ou em Platão e Sócrates… Pra um espectro elemental és um tanto humano! Quem te mandou aqui pra me encher o sac…

Não terminou a frase e, previsível e obedientemente (para nós que acompanhamos as acompanhamos de longe) as coisas começaram a mudar. Árvores, a casa, o céu, o chão, todo o cenário começou a girar como uma esfera, a trocar de lugar, a se desfazer e misturar como uma aquarela borrada. Tivessem aparecido aquelas luzinhas coloridas logo no início e suspeitaria ter fumado um daqueles estranhos cigarrinhos de hachiche que eram fabricados no Oriente, lá pelas bandas de origem dos tais nazarenos, que só podiam viver no barato da tal erva para seguirem ao sacrifício no Coliseu, direto à boca dos leões, com o olhar esbugalhado, cantando, alegres,como uns loucos. Isto até a Imperatriz-Mãe Helena adotar seu culto e resolver protegê-los. Pois agora tudo andava se invertendo em Roma, também, e os ex-perseguidos começavam a ocupar postos de poder e a oprimir por sua vez, igualmente.

Mas não vira qualquer luz diferente flutuando a sua frente. Simplesmente o mundo parecia estar se dissolvendo e revolucionando por si e por todo lado. O que reavivou suas suspeitas de envenenamento. E, antes que pudesse iniciar a ladainha de auto-piedade paranóica e hipocondríaca, viu-se projetado num novo mundo, estranho e barulhento, tremendamente sujo e tão ou mais agitado que a turba no espetáculo previsível e horrendo das arenas de jogos.

Não mencionarei aqui as surpresas de Lucilius (que este era o nome de nosso protagonista, se não o citei antes foi por estilismo frívolo e a fim avivar no leitor alguma inquietação mental no meio desta monótona e arrastada narrativa) com as tecnologias incompreensíveis (para os seus olhos, sobrenaturais) e as sutilezas excêntricas do novo cenário. Isto para nós é óbvio, além de ser um discurso narratório extremamente surrado. Cabe apenas mencionar que, excetuando-se alguns comportamentos de bizarra especificidade, os dramas e rotinas da vida conjunta entre os homens não diferiam absolutamente daqueles com que nosso personagem encontrava-se acostumado, uns 1600 antes, no amanhecer do casarão rural, Pois, como efeito do vórtice em que se viu envolvido, dera um pulo de mais de um milênio e se encontrava em 2003. Para ser exato, num sábado qualquer do mês de agosto, numa esquina da rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre, metrópole do extremo sul do Brasil, a maior população das nações de então das que nasceram da miscigenação dos soldados da velha Roma com os povos do Ocidente bárbaro europeu.

Bárbaro, aliás, era aquele desgrenhado e brusco germânico que gesticulava agitado, e bradava violentamente, a sua frente, contra a putaria política e social em que viviam. Ele, Lucilius, surpreendentemente, se deu conta de que não fora transportado ao futuro nem como espectro, nem como a si próprio em carne e osso, mas agora era outro (como um avatar indiano) e ali se encontrava semi-bêbado, em meio àquela dúzia de garrafas de cerveja que enfeitava a mesa que dividia com o seu amigo. E ambos partilhavam da rebeldia e da indignação com o mundinho estreito e filho da puta em que viviam. Muito embora reconhecessem que não podiam viver sem a fumaça dos velozes automóveis na rua, a barulheira das conversas em voz alta e o tilintar de garrafas e copos que enchiam o velho bar, o Alfredo, espécie de taverna em plantão permanente, que varava as madrugadas de portas abertas, e só fechava aos domingos.

– Puta que pariu, seu Lúcio! Me dá uma raiva! Ontem a noite a Vivo não me concedeu crédito nem para mandar um simples torpedo. É outra máfia que necessita pau perene!

– Olha, camarada Fausto, estas companhias telefônicas, os agiotas de luxo regulados pelo Banco Central, a nova burguesia petista, isto é tudo cria da mesma cadela: a sociedade de classes, melhor descrita como sociedade verticalizada, em que uma piça do tamanho do mundo desce desde das alturas olímpicas da burguesada pra arrombar o rabo do povo tacanho e lambe-cu.

– O pior é a gente saber que com alguns cartuchos dá pra conceder o descanso eterno a essa máfia e ficar aqui, bebendo cerveja, parados no meio do mundo, sem fazer o mínimo gesto que pode por fim a tudo: puxar o gatilho!

– É muito fácil acabar com o sofrimento. É só ganharmos coragem. Vivemos num regime de dominação. O cara monta no teu lomba e tu carregas ele. Nessa condição, “negociar” politicamente significa: não chicoteie tanto. Ou chicoteie com menos força. Mas continue chicoteando, ó meu amo e senhor! Pra sair deste maldito brete, o gesto é muito simples: é só sacudir bem as costas e jogar o safado que está montado, de patas pro, no chão duro!

– Duro é ter saco pra aturar esta putaria disfarçada de “ética”. Lúcio, acho que vou pro mato! Me enchi o saco disto tudo aqui. Tem um amigo meu de Giruá que está criando cavalos crioulos no interior do município. Me propôs uma sociedadezinha.

– Com o que, o companheiro pretende, então aburguesar?!

– Aburguesar um caralho! Se enrico tenho como comprar as bombas necessárias pra explodir esta safadeza toda. E o rincón é um belo lugar pra se fazer um treinamentozinho básico de guerrilha…

– Lá isto é. Mas espera aí que vou ao banheiro.

Nosso herói saiu cambaleando rumo à porta ao estilo saloon nos fundos do bar e, lá chegando, naquele modorrento sábado a tarde, enquanto tirava água do joelho e admirava-se, velho Narciso, ao espelho, quase rachando o pobre vidro de susto, simplesmente adormeceu, acordando novamente em seu solar rural, na velha Roma.

A alvorada se transformava, então, em dura manhã de sol escaldante. Lídia continuava a dormir e por perto não se via nada além dos passarinhos e da cachorrada que latia, distante, na vizinhança. De nada tinha certeza, mas parece que, num estranho transe, por alguns instantes, havia entrado numa nesga do futuro, numa nova Roma, tão conflituosa e precária quanto a velha capital do Mundo. Por alguns instantes ficou imaginando como se os tais cristãos não tinham alguma razão. A morte na boca de um leão, em plena arena, não seria, afinal bem melhor que esta sarabanda eterna em que se agita a vida, fazendo mil desvios pela estrada, rodando infinitamente para, por fim, terminar sempre no mesmo ponto? Desceu a escadaria e tratou de ir à cantina, entornar um vinho logo cedo, que tomar um porre, no momento, lhe parecia o mais lúcido e razoável a fazer.

Ubirajara Passos

 

Agourento 2014, tende piedade de nós!


Conforme a nossa vida vai avançando, a morte vai se tornando mais e mais nossa parceira.

Não apenas pelo fato de nos aproximarmos crescentemente dela, enquanto decrescem os anos que nos restam, numa equação em que pouco importa o valor inicial do termo (o número de anos da vida), variável a cada instante – conforme nossas decisões e atitudes – e em que a razão da progressão pode aumentar ou diminuir a vontade, mas cujo termo final é uma constante absoluta, fria e terrível, por mais complexas que sejam as expressões intermediárias entre o início e o final, que é sempre igual a zero.

Mas, pela simples consequência matemática e biológica dos fatos, é verdade estabelecida que é possível medir intuitivamente o quanto estamos “ficando velhos” pela proporção de parentes, amigos ou conhecidos que vemos partir a cada ano, que naturalmente vai aumentando até que chega o dia em que nos vemos quase que completamente solitários no mundo, em que já não resta muita gente, além de nós próprios, que se lembre mesmo daquela célebre atriz de Hollywood, gostosíssima, de olhos eloquentes e nariz estranho (e, por isto mesmo, chamativo e sensual).

A oito meses de completar meu primeiro meio século (que espero realizar, apesar do trago e da mania de me desgastar lutando contra este nosso mundinho opressivo e infelicitante, o sonho do meu avô – e de 99,99% da espécie humana – de atingir pelo menos cem anos), não estou exatamente no caso extremo, mas, assim como todo mundo que conheço, nunca vi um ano tão absurdo, com tantas mortes de celebridades, ou mesmo de pessoas próximas, no espaço de um único giro da Terra ao redor do Sol.

Algumas, previsíveis, são daquelas que apenas confirmam que estamos, inapelavelmente, nos aproximando da velhice e que (contra a maldita convicção de nossa mente, que é desementida a cada manhã, sem muito resultado, pelo espelho) aqueles personagens quotidianos que nos pareciam eternos já estão necessariamente no momento de partir.

Foi o caso da Shirley Temple (a eterna garotinha prodígio), da Virgínia Lane (e a eterna beleza das pernas mais belas do Brasil), Marelene (a eterna Rainha do Rádio) e de Gabriel García Marquez (autor de livros eternos, como Cem Anos de Solidão e O Amor no Tempos do Cólera). Além do poeta Manoel de Barros, da atriz Lauren Bacall,  o escritor Rubem Alves; Max Nunes, Marcelo Alencar, Antônio Ermírio de Moraes, Adib Jatene e  Mãe Dinah (que não tinha a menor previsão a respeito de seu passamento).

Outras já, embora possíveis, nos surpreenderam e chocaram, como foi o caso de Ariano Suassuna e Hugo Carvana.

Mas quando se foram, sem mais nem menos, figuras como José Wilker,  Jair Rodrigues, Nelson Ned, João Ubaldo Ribeiro, Robin Willians, Eduardo Campos (que tinha minha idade – sendo a mais badalada morte do ano), começamos a nos preocupar seriamente e chegamos à conclusão que, ainda que as estatísticas possam apontar para um certo padrão de mortes anuais de famosos, dentro dos quais os falecimentos citados estariam incluídos, nunca se viu, um mês após o outro, tantas mortes relevantes em tão pouco tempo.

Quando morreu Nico Nicolaiewsky, no início de fevereiro, li  a dolorida entrevista de seu parceiro na vintenária comédia Tangos e Tragédias, Hique Gomez, e fiquei imaginado como seria a minha vida política, literária e pessoal sem a presença do meu irmão gêmeo de ideias, lutas, trago e atitudes, o companheiro Valdir Bergmann.  Mas jamais imaginei que ele viria a compor o mais doloroso e irremediável item das mortes imprevistas e absurdas deste ano apoliptico, morrendo de uma pancreatite aguda dois dias antes de completar seus jovens 57 anos.

Só que a coisa não parou por aí e já havíamos nos convencido de que 2014,  embora não tenha testemunhado a deflagração de nenhuma guerra mundial como seu irmão do século passado, era um ceifador cruel e inveterado de almas, quando velhos amigos de minha família, e meus, com presença importante em pontos capitais da minha biografia, como Juarez Vargas e o colega Adroaldo Rocha, morto tragicamente em acidente automobilístico, praticamente às vésperas das festas de final de ano, foram-se também.

Assim é que chegamos ao último dia de 2014 erguendo as mãos por ainda estarmos aqui  o esconjurando e nos ajoelhando e erguendo as mãos perante tão nefasta entidade para pedir: “Agourento 2014, tende piedade de nós!”

Ubirajara Passos

A todos os amantes, neste dia


O amor é uma energia que ultrapassa o desejo. É a comunhão dos seres na totalidade, muito além de simpatias casuais. 

E quando corpos comungam com amor  há uma elevação do ser bem maior do que o prazer individual. Os amantes não são objetos, mas metades da mesma ternura, unidos na intensidade do amor.

Comungando ou não, e mesmo rejeitado, pisado e escarnecido, este é um sentimento verdadeiro que jamais se extingue.

Gravataí, 12 de junho de 2014

Ubirajara Passos