O BRASIL FASCISTA DO LULA


 

O que distingue o fascismo dos demais sistemas políticos autoritários é que, enquanto as ditaduras capitalistas tradicionais se contentam em monopolizar o poder, mantendo o povo calado e subjugado sob as patas de seus patrões (ou “donos”) respectivos, e garantir a continuidade da dominação de classes, os fascistas pretendem regulamentar, vigiar, fiscalizar e manter sob estrito controle cada aspecto da vida de seus “súditos”. Não lhes basta que os corpos retorcidos, famintos e mal-tratados dos trabalhadores sirvam ao doentio fausto e ao luxo fútil dos senhores, mourejando de sol a sol na produção dos meios para a vadiagem chique, em troca de migalhas.

Perfeita, estranha e dialética síntese do cristianismo salvacionista teocrático e fanático (que já teve seus tempos dourados na Companhia de Jesus e andou “incorporando”, ainda que com algum arejamento, nos padres da teologia da libertação) e do marxismo “científico”, determinista, estatista e autoritário, o fascismo acalenta, com o mais doloroso e intenso enlevo, o dia em que os homens não serão apenas escravos assalariados, envoltos na precária situação de dominados por estarem impregnados do servilismo e da covardia milenares, ou por se iludirem na possibilidade de, pisando as cabeças de seus companheiros, a serviço da classe burguesa, compartilharem do privilégio de seus dominadores (ainda que no campo imaginário do “status” que garante o tênis Nike ou o celular de último tipo) .

O fascista quer mais! Ele almeja o gozo supremo (e se esporra todo só de imaginar) de ver a multidão de desgraçados profundamente impregnada de sua cartilha, não apenas sendo obediente às determinações e regras do sistema, mas o apoiando ativa e sinceramente. O paraíso dos Hitleres e Mussolinis é aquele em que cada vagabundo ou puxador de fumo da esquina, que seja, se empenhe por livre, espontânea e tesuda vontade em vigiar as atitudes do vizinho, puni-lo ou denunciá-lo às supremas autoridades (as “mães” severas do sistema) caso esteja usando o penico de “maneira errada”, o que pode acarretar a desgraça coletiva da classe e da nação.

O caráter totalitário do fascismo (tanto o capitalista assumido, quanto o vermelho) é sub-produto da própria sociedade de classes (para cuja existência se faz necessária a existência da “autoridade” e a supressão, mais ou menos majoritária, da liberdade) e representa o ânimo profundo de milênios de repressão ao prazer e de sadismo sofisticado dos dominadores. E não por acaso surgiu no campo fértil da pequena burguesia, a camada de peões tradicionalmente encarregada do papel de feitor ou “formatador” da mentalidade de seus irmãos escravizados, que para tanto goza de melhores condições materiais do que estes (ou seja, é provida de migalhas maiores do resultado do trabalho humano, pela burguesia). E justamente na pequena burguesia “marxista”.

Mussolini no auge do poderMussolini era filho de operários, foi ele também peão, e passou fome na infância. Mas seu pendor demagogo e vaidoso, seu sentido abastardado de revolução ou reforma do mundo o levaram a se destacar no Partido Socialista Italiano, a ponto de se tornar o redator-chefe de seu jornal, o “Avanti”, para depois se tornar o pai do fascismo (a peste emocional politicamente organizada). E com ele se plasmaram as características clássicas do regime: culto à personalidade do chefe, envolvimento voluntário das massas, com ênfase na doação do indivíduo ao “coletivo” (que no seu caso não é a classe trabalhadora, mas a pretensa “nação” e as diferentes “corporações” profissionais), ditadura do “partido único” (pois não basta o ditador pairar acima do Estado, é preciso que os defensores do regime estejam organizados e presentes em tudo, através de seu clube político específico) e apelo à mídia massificante (que foi aperfeiçoada por Hitler e, mais tarde, pelos yankees pretensamente “democráticos”).

E, como receita subjacente e fundamental, sua cartilha se nutria, sobretudo, do “respeito” à tradição e aos “costumes” da velha moral patriarcal, o que mantinha os italianos dóceis aos privilégios da classe rica e, ao mesmo tempo, iludidos na suposição de participarem de uma pretensa revolução moderna, anti-capitalista e anti-comunista e defensora da “nação”, da “família” e seus “valores”. Enquanto os camisas negras suavam na vigilância mais estrita aos pândegos e comunistas do bairro (é hilário, mas a ditadura de 1964, liderada em boa parte por ex-integralistas, os “fascistas tupiniquins”, na sua histeria paranóica, também misturava, no discurso, comunistas e produtores de pornografia!), os banqueiros italianos curtiam a “gandaia” da “gente de bem”!

Em 1945, entretanto, na onda do avanço aliado sobre a Europa nazi-fascista, os “partigiani” (os guerrilheiros socialistas e anti-fascistas da “resistência” italiana) foram à forra e tiveram o prazer de enforcar o “Benito” e sua amante de cabeça para baixo, em praça pública, e treinar chutes de gol com sua ilustre cabeça.

O problema, porém, é que, conforme a clássica frase de Karl Marx, a história está se repetindo no Brasil, não como farsa (a hipótese mais comum), mas como tragédia.

O governo de um “ex-operário”, eleito em nome da pretensa redenção da peonada (mas cujo discurso partidário se esmerava, há mais de dez anos no pior moralismo beato, sob o apelido grandiloqüente de “ética”), mantém a grande maioria do povo acomodada pela esmola oficial (da “bolsa- família” às burocráticas “farmácias populares”, que são antes escritórios de demagogia que farmácias), pelo  ativismo “coletivista” e pretensamente revolucionário de seus agentes (os petistas, que aparelharam cada associação bairro ou sindicato deste país, com raras exceções). E simultaneamente prepara as “reformas” que deverão aprofundar ainda as  mais possbilidades da sanha da burguesia local e multinacional de enfiar suas garras sobre nós, até extrair a última gota de sangue e suor dos trabalhadores brasileiros, para maior honra e glória do pederasta enrustido George Bush, das orgias cocainadas de seríssimos “empresários” americanos e europeus e seus lacaios brasileiros!

Tudo isto, fundado no mais perfeito esquema de condicionamento psicológico do povão, oferecido pela mídia da quarta maior rede de televisão do mundo (a testa de ferro Rede Globo – nome por que atende no Brasil o grupo yankee Time-Life), que, não por acaso, foi o sustentáculo cultural do regime gorila e fascista de 1964.

E, para coroar a situação, não falta nem o “partido único”. Com exceção do PSOL, PSTU e PCB (dos três apenas o primeiro possui alguns parlamentares no Congresso Nacional), “todos” os demais partidos, burgueses ou pretensamente socialistas, governistas ou pretensamente oposicionistas, idolatram e apóiam os projetos do Inácio, sob o incentivo convincente dos mensalões ou empregos no governo!

Enquanto isto, banqueiros nacionais ou associados Lula, o Duce caipira(a maioria) aos grandes grupos financeiros mundiais curtem a maior farra de agiotagem da História do Brasil, e negros famintos, no Haiti, conhecem o poder da repressão das armas do imperialismo brasileiro de empréstimo, que lá faz o serviço sujo para o fascista “republicano” George Bush”‘ (o que tem medo de “Bin Laden” de brincadeirinha)!

Vigora ainda a Constituição de 1988. Mas cabe perguntar, diante dos fatos: estamos ou não em uma ditadura fascista?

Ubirajara Passos

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CANÇÃO DO ANDARILHO


Me perdoe Gonçalves Dias, mas o tédio, hoje, me inspirou a paródia da sua Canção do Exílio, de 1847, a moda do que já havia feito com as “Ilusões da Piça” (paródia à “Ilusões da Vida” de Francisco Otaviano). Com o que também satisfaço a fama de “pornográfico” do blog e homenageio meu amigo xupaxota, que, por mais que goste dos cabarés de Porto Alegre, curte suas saudades dos bordéis baianos (especialmente da “Tia Cleusa”). Deliciem-se os leitores, se puderem – pois, como o original, a paródia me saiu meio sem graça. Mas a culpa é do maldito tédio, que nem a primavera amenizou, pois o inverno, que havia sumido há vários dias, resolveu, após o equinócio de 23 de setembro, provar que ainda existe, aqui no Rio Grande do Sul.

Canção do Andarilho

Minha terra tem puteiros,
Onde tanta puta dá;
As chinas, que aqui puteiam,
Não puteiam como lá.

No bordel tem mais “sereias”,
Nas suas alcovas mais fodas,
Nos seus boquetes mais línguas,
Nas suas línguas mais sabores.

Em punhetear, só, à noite,
Nenhum prazer tenho cá;
Minha terra tem puteiros,
Onde tanta puta dá;

Em minha terra há amores,
Que não me deixam broxar;
Nem punhetear, só, à noite;
Só prazer encontro eu lá;
Minha terra tem puteiros,
Onde tanta puta dá;

Não permita Deus que a porra,
Sem que eu “monte” espirre já;
Sem que eu sugue os clitóris
Frementes que há por lá;
Sem qu’inda aviste os puteiros,
Onde tanta puta dá.

Gravataí, 28 de setembro de 2007

Ubirajara Passos

O “anarquista” Jesus Cristo


Um dos grandes arquétipos da minha formação, para chilique dos libertários e ateus “cartilhescos”, foi nada mais, nada menos que o pobre profeta doidão chamado Jesus, em cujo nome se consubstanciou a mais perfeita e feroz antropologia autoritária, elitista e avassaladora da consciência humana, só desbancada pelo pseudo-hedonismo do capitalismo pós-segunda guerra mundial, o Cristianismo.

E Yeshua, ou Issa, seus nomes hebraico e indiano, apesar do misticismo chapado de “filho de deus” (cuja precária existência histórica concreta pouco me importa, uma vez que se tornou personagem “real”, vivo e presente do imaginário do Ocidente), possui, no texto dos Evangelhos, mesmo com toda a censura e filtragem do poder imperial da igreja, profundas e evidentes características libertárias.

Além de apelar para a consciência individual, e não para o comportamento padronizado e legalista do judeu “médio” da sua época, que combate violentamente, denunciando a hipocrisia da “moral manifesta” (é célebre o trecho em que compara os “santarrões” fascistas e corruptos de então – apegados à etiqueta religiosa e social, através da qual exerciam a exploração e a opressão impune – a túmulos caiados, bonitos e pintados de branco por fora, mas que por dentro só são imundície e podridão de mortos), o personagem Jesus Cristo assume postura tipicamente contestadora e revolucionária, ao mandar à merda os ditames da legislação teocrática judaica, como a cláusula que proíbe trabalhar aos sábados (mais tarde ressucitada, em relação ao domingo, pelos “paulinistas” da aristocrática igreja medieval). E ao condenar abertamente a classe “proprietária”: em nada resolveria ao jovem rico ter cumprido os mandamentos clássicos da moral religiosa – não matar, não cometer adultério, não furtar, não dar falso testemunho, honrar pai e mãe -, se não vendesse tudo o que tivesse e o desse aos pobres, ou seja abdicasse de sua condição de “senhor”.

Cristo freqüentava a pior espécie da “ralé” e dos “imorais” de então, como os cobradores de impostos para Roma (o equivalente dos traficantes, oficialmente condenados pela moral explícita, mas co-participantes do lucro e do poder de políticos e membros “respeitáveis” da burguesia nacional e internacional), além da gente de “segunda categoria” do mundo mediterrâneo antigo (escravos e mulheres, com que dialoga, e cura com seus poderes para-normais, de igual para igual). E, apesar da interpretação sacerdotal clássica que identifica a virtude à submissão e ao altruísmo babaca, lançou verdadeiros brados rebeldes, anti-poder e anti-dominação, no “Sermão da Montanha”, onde, segundo Lucas, afirma textualmente: “Bem-aventurados, vós os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem aventurados os que agora chorais, porque rireis. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem por causa do Filho do homem. Alegrai-vos nesse dia, e exultai, porque será grande a vossa recompensa no céu; porque era assim que os pais deles tratavam os profetas. Mas ai de vós, ó ricos! Porque tendes a vossa consolação (na Terra). Ai de vós que estais saciados, porque vireis a ter fome. Ai de vós os que agora rides, porque gemereis e chorareis. Ai de vós, quando os homens vos louvarem! porque assim faziam aos falsos profetas os pais deles.

E é esta mesma figura, o profeta cujos primeiros seguidores, após sua morte, viviam, segundo o “Ato dos Apóstolos”, em regime de auto-gestão anarco-comunista (“Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e os seus bens, e distribuíam o preço por todos, segundo a necessidade que cada um tinha. Todos os dias freqüentavam o templo, e, partindo o pão pelas casas, tomavam a comida com alegria e simplicidade de coração“) que iniciaria sua vida pública em homenagem ao prazer e à alegria, tendo como seu primeiro ato de profeta a transformação de água em vinho, em uma festa. Bem diferente, portanto, da religião do sofrimento e do suplício. Do “cordeiro” sacrificado “pela salvação da humanidade” – que, aliás, segundo a própria Bíblia, quando da execução na cruz, reclamou dela, gritando “meu deus, por que me abandonaste?”.

Pessoa histórica real ou produto do imaginário de escravos e plebeus do Império Romano, sincretizado com uma rebelde seita judaico-oriental, o contraditório “Homem de Nazaré” (em cujo nome o Cristianismo condenou o prazer , e sustentou, durante milênios, a ignorância e subserviência popular em prol da dominação de classes) demonstra, nos trechos menos empolados e messiânicos dos evangelhos oficiais admitidos pelo Vaticano, uma vocação digna de um anarquista clássico, ou, no mínimo de um adepto radical da contra-cultura, um hippie com dois milênios de antecipação.

Ubirajara Passos

PEQUENO DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO SOCIAL – 3


Sofrer: pra variar, deriva do latim, sufferre, termo pelo qual os velhos romanos designavam quem estava “sob ferros”, acorrentado, submetido à força (fosse escravo ou prisioneiro).

Ou seja, a origem do nosso popular “sofrimento” – palavra pela qual melhor se traduz, em português, a infelicidade contínua e intensa e, no momento em que ocorre, irremediável, é justamente o vocábulo que designava a opressão, a submissão, a situação da criatura submetida ao poder de outrem, que como coisa, ou “ferramenta”, padece de todos os infortúnios capazes de lhe “ferir” (machucar) corpo e alma.

De onde se deduz o que era óbvio para os nosso antepassados súditos do grande império e se tornou oculto pra a maioria de nós, hoje em dia: o “sofrimento” é, no lindo mundo humano que habitamos, resultado, na absoluta maioria das vezes, não de nossas atitudes, decisões ou pensamentos, mas da ação violenta do “outro” sobre nós, das imposições do poder e da opressão que nos é exercida em nome dos interesses dos “senhores”.

“Sofrer”, portanto, é, antes de mais nada, estar submetido, escravizado, usado e abusado. E sua origem etimológica nos dá a pista, surpreendentemente, para a solução de 99% dos males da humanidade: a revogação do sistema de classes, o exercício da “liberdade” e a extinção do capitalismo! Se a nossa desgraça deriva, fundamentalmente, da situação de meros objetos a serviço das taras alheias (os “poderosos” – não os políticos, meros intermediários entre a “ralé” e os dominadores, mas os “senhores burgueses de alto coturno”), o estabelecimento do seu contrário, a felicidade, o conforto e a saúde só pode vir da liberdade, da rebeldia, da capacidade de pensar por si mesmo, agir segundo seus próprios sentimentos e inspirações e sacudir longe as algemas, a canga e o chicote do opressor fútil que nos esmaga para maior alcance do seu prazer sádico, como Nero compondo uma canção idiota, harpa à mão, enquanto incendiava Roma.

É bom lembrar, porém, que o “submetido” (o sofredor) é, antes de “sofrer” o poder do seu “senhor” (ou dono, palavra que traduz melhor a realidade), um “submisso”. Aquela criatura incapaz de viver a própria vida, que se acomoda aos ditames impostos e, medrosa e incapaz, se recolhe à mera “função” de criação, membro de um rebanho, cuja própria existência só se justifica, na concretude da nossa sociedade, pelo lucro e luxo do patrão!

Ubirajara Passos

O “PORRE NOSSO” DE CADA DIA


Minha amiga “K” – que conheço bem melhor, de ler seu blog, do que certas figuras com quem convivo há anos – comenta, no último post aqui publicado, que os meus episódios de porre para espantar o tédio são bem freqüentes na média das nossas vidas, modernosas e petulantes criaturas humanas (não foi literalmente o que ela escreveu, mas me permito misturar ao seu comentário a minha opinião). E, citando o seu próprio caso (o do vinho às três da tarde, narrado no “Incompletudes”), arremata: “o que você me diz? sou alcóolatra?”.

Confesso que tive cócegas de lhe responder por e-mail, ou comentário no próprio post. Afinal já manifestei, em outros artigos (como a “Cachaça Revolucionária”) e no poema “Embriaguez” (publicado no post “Três Poemas e Alguma Boemia”), grande parte da posição que o álcool ocupa na minha vida. Mas a verdade é que o assunto merece uma manifestação pública e específica, por mais desinteressante que possa parecer aos leitores.

Não direi, a moda do velho Vinicius de Morais, que “o uísque é o cão engarrafado”, até porque, como não sou grande admirador de cachorros, o bicho seria o gato, cuja típica atitude livre, individualista e imprevisível se ajusta mais ao ilustre portador de DDA (distúrbio do “deficit de atenção”) aqui, do que a proverbial “fidelidade” e tediosa utilidade do “melhor amigo do homem”.E a bebida, antes um conhaque ou uma boa cachaça de Santo Antônio da Patrulha – a cidade gaúcha que produz a melhor pinga do Sul do Brasil.

Mas o fato é que o trago tem me acompanhado desde que tive grana o suficiente para comprar o primeiro garrafão de vinho, pretensioso e jovem “intelectualóide” obscuro (não mudei muito desde então) metido a teórico político, poeta e revolucionário. E o bom porre já esteve presente nos mais diversos lances (para horror dos beatos e chatos defensores da vida “sóbria”, em todos os sentidos). Dos insights geniais de conversa de bar às ações políticas irreverentes e desafiadoras, aos mais apaixonados encontros, terríveis fossas, ou, como é comum a todo gambá de vez em quando, às mais tresloucadas e “incovenientes” explosões de entusiasmo ou raiva (devidamente bloqueadas pelo inconsciente, até um amigo nos lembrar as besteiras, na velha amnésia do dia seguinte).

Houve mesmo época em que uma oferenda a São Goró se fazia necessária quase todo dia (fosse no almoço ou antes da janta), sem que eu jamais me considerasse um “alcoólatra”. Até porque chego, volta e meia, a curtir semanas sem beber todas, no máximo aquele traguinho de leve. E, sinceramente, as melhores amizades que cultivei até hoje, embora se mantenham e cresçam no estado “sóbrio”, foram estabelecidas ou aprofundadas na “comunhão” sacana da missa profana em mesa de buteco.

A não ser pela ressaca e as conseqüências de longo prazo sobre o corpo (a mais inocente é aquela maldita barriguinha de cerveja), não vejo nenhum problema em encher a cara a qualquer hora, assim como não creio que se deva ter horário “certo” para o prazer, seja ele intelectual, culinário, ou uma fantástica foda!

O problema, cara “K” (e todos os demais leitores que já se viram em situações semelhantes), não está em tomar uma bela “carraspana” (nome por que atendia a bebedeira no século XIX) no meio do dia, mas nos motivos que nos levam a ela, e continuam a nos acompanhar durante e após o “inebriamento” (termo chique pra porrão inspirado).

Quando o tédio, a mesmice, a solidão, a falta de sentido, e o desconforto consigo mesmo nos tomam, a coisa está feia, mesmo no mais perfeito, “socialmente aceitável”, comportado e racional estado de “lucidez”.

Nós, bichos humanos, não fomos feitos pela natureza (embora a consciência elimine qualquer possibilidade de “finalidade existencial” obrigatória) pra servir de máquina, ferramenta ou “animal de criação”, numa existência oca e sem prazer (ou mesmo sem direito ao mais genuíno e pessoal dos sofrimentos – coisa aparentada da paixão) em nome de idéias, superstições, interesses ou privilégios externos ou auto-impostos.

Somos irmãos do vento, dos relâmpagos, dos trovões, do sol, das ondas doidonas e enormes, da chuva e das neves; do pôr-do-sol, da cerração, da lua e das madrugadas; do fogo e do impetuoso cio de cães, gatos, cavalos e toda espécie de existência auto-animada. E temos de nos dar o direito (pois a coisa está em nós, apesar dos opressores – e opressões abstratas) a, pelo menos, tentar uma válida e com alguma graça.

Porém, até agora, não descobri como fazer isto na prática!

Ubirajara Passos

PEQUENOS CAUSOS SEM-VERGONHAS


Infelizmente fui tomado pela modorra do sábado à noite (aquela síndrome que faz os quarentões solteiros, como eu, ficar com cara de bundão e entornar litros de uísque ou conhaque em homenagem a Mefistófoles , que o vinho de Baco é mais apropriado, como a cerveja, às alegrias sacanas do bordéis).

Mas, para que os leitores não sejam acometidos do distúrbio do deficit blogueiro (sem comentários), publico a seguir três anedotas reais que se passaram comigo ou tomei conhecimento (o caso do candidato), que poderão amenizar a noite de algum companheiro que esteja aí do outro lado, bocejando com cara de cachorro que vomitou no sapato Luiz XV da madame, em frente ao computador.

O VELHO ELEVADOR “PÓS-MODERNO”

É comum em viagens internacionais nos depararmos, segundo o arraigado conceito da lógica banal, com os mais estranhos e pitorescos costumes.

Mas o que se passou comigo e o Alemão Valdir na primeira vez em que visitamos Misiones (província do nordeste argentino), no verão de 2006, não tem paralelo nas crônicas de viagem conhecidas.

Recém chegados a Oberá (a segunda cidade da província), nos hospedamos num velho hotel todo construído em madeira, simples mas aconchegante, e, enquanto o resto da turma se acomodava em seu quarto (haviam viajado conosco o irmão e o sobrinho do Valdir, o padre Lourival Bergmann e o estudante Roberto Seibt), resolvemos tomar um mate no saguão, tendo descido até lá nas velhas escadas rangentes.

Mas, quando fomos subir ao quarto para fazer uma sesta (em honra ao hábito nacional dos castelhanos), a preguiça falou mais alto e pegamos o elevador de portas pantográficas, com mais de meio século de idade. Apertado o botão correspondente ao nosso andar, o troço, surpreendemente, após subir alguns metros, estancou à frente da dura e concreta parede de tijolos.

Já nos cagando de medo (pois supunhamos estar trancados entre dois andares), apertamos, por via das dúvidas o botão do andar térreo e, de forma imprevista, voltamos à recepção – onde, por pouco, não descascamos o índio que nos atendia com os mais castiços palavrões gaudérios. E a paciente criatura nos explica, espantado com o nosso alvoroço (e como se fosse a coisa mais natural do mundo) que a porta de saída do elevador fica às nossas costas, quando embarcamos nele, voltados para a porta de entrada.

Retornando, agora devidamente instruídos e treinados no uso do inédito elevador de duas portas, ao nosso andar, demos com o piá Roberto, que, boquiaberto e sem ação, nos vira antes, de costas , reinando no elevador sem sair dele.

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O MARQUETEIRO ECLÉTICO

Dizem que a história aconteceu realmente e se deu numa pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, embora pudesse ter ocorrido em qualquer rincão do Nordeste brasileiro.

Não sei exatamente o município, nem o ano, mas tomei conhecimento do fato num curso de marketing, dado por um deputado do partido, quando me candidatei a vereador pelo PDT de Gravataí, em 2004.

Velho e matreiro “coronel” do lugarejo, o prefeito, na impossibilidade legal de reeleger-se, resolvera assegurar a “continuidade administrativa” (nome por que atendiam o privilégio e a sacanagem do grupelho político dominante na cidadezinha) candidatando nada mais que o próprio filho para a sucessão.

Mas o rapazola era dado à “vida airada” e acabou sendo pego pela oposição em flagrante delito de veadagem explícita, em uma boate gay da capital, a uma semana da eleição (não me perguntem o que os seus oponentes políticos faziam no inocente lugar para encontrá-lo, mas diante do escândalo o chefe da oposição pousava de acusador machão!). Jogada a bosta no ventilador, as velhas cobras do partido situacionista, perplexas e já vendo a derrota iminente, arrancavam os cabelos (dizem que alguns estavam tão nervosos que acabaram por perder a própria condição eventual de cornos, pois junto à melena se haviam ido as guampas, com a força dos puxões) .

Foi aí que o marqueteiro contratado pelo júnior (contra a vontade dos velhos quadros do partido, que não viam graça nenhuma nessas novidades modernosas – parece mesmo que o assessor era freqüentador do Bar Ocidente em Porto Alegre) teve a idéia luminosa. Se a coisa era indesmentível (o encontro entre os partidos, na “alegre” boate, degringolara em pancadaria séria e virara machete policial da Zero Hora), o negócio era aproveitar o fato e, lhe distorcendo o sentido, capitalizá-lo em favor do candidato. E o slogan foi logo bolado (rendendo uma estrondosa vitória para o “filhinho” – que quase faz o dobro da votação de seu pai na eleição anterior): “dar o cu não é defeito, vote no filho do prefeito”!

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A ESCADA ASSASSINA

A coisa aconteceu comigo e até hoje me dói quando o tempo tá pra chuva!

Um belo dia, lá por outubro de 2003 (quando a república do Alemão no bairro Petrópolis vivia seus últimos meses), aproveitando uma tarde de folga, fui dar uma trepada com a gata preferida no motel Sevilha, indo pousar depois (pois estava morando em Santo Antônio da Patrulha e o último ônibus passava às sete horas da tarde) na casa do Valdir.

Já na banheira, peladão com a gata, eu (que na época andava metido a fumante – onda que curti por uns dois anos) fui ter a idéia idiota (feliz que estava ali, embolado naquela gostosa nua) de ir ao quarto pegar um cigarro.

Só que, à semelhança do poema do Drumond, no meio do caminho tinha uma escada. E, apesar da recomendação “maternal” da gata (pela própria natureza, não seguida) de “bota o chinelo, que tu pode resvalar”, lá fui eu, trintão metido a garoto, pés molhados, pensando que era cavalo de carreira, à toda velocidade, atrás do tal cigarro.

Mas a escada de granito polido não gostou da história e me vi arremessado, em câmera lenta, frente a um indiscreto espelho, de costas sobre a maldita, num tombo de tirar o fôlego, a ponto de só conseguir gritar depois de uns dois minutos!

Infelizmente eu não havia ainda feito “aquilo”, e curtindo a maior dor da minha vida, em nome da própria “honra”, e do estado de tesão (e tensão!) em que deixara a gata, a comi em pé, ela deitada na beira da cama, com suas pernas para cima!

Mas, chegado à república (cujas cópias da chave naquele dia estavam comigo) curti boas horas de tremendo sofrimento até o Valdir chegar e me levar, sob protestos (tamanho é o meu horror de médico e hospital) para o HPS (Hospital de Pronto-Socorro). Depois de uma hora sem atendimento eu ainda me retorcia, enquanto as macas de esfaqueados e acidentados íam chegando às pencas ao hospital. Resolvidos a ir embora, fomos indo para a porta, quando nos detém um burocrata guarda fascista da administração petista: mesmo que tivesse um filho, aguardando sete horas sem me ser ministrado o mais simples analgésico, eu não poderia sair antes de ser atendido!

Protestei, perguntando se estava “preso”, e fui retido pelo “longo braço da burocracia”. O alemão não deixou pra menos e já ia, ele e o guarda que pensava ser um “comissário para a segurança da saúde” da Rússia estalinista, levantando os punhos em posição apropriada ao início da pancadaria. Era só o que me faltava: além de rebentar-me com a rasteira de uma escada invejosa, em plena casa do prazer, eu ainda iria, todo torto (e quem sabe quebrado) ser premiado com uma noite no xadrez!

Mas consegui, com o auxílio de outro guarda, sensato e menos bronco, demover os pugilistas amadores, e, jogado o prontuário pelo Valdir, com um safanão, nas fuças da recepcionista (todo o problema do bronco burocrata, ficamos sabendo então, não era a minha saída, mas a papeleta que eu ía levando comigo), fomos para o Hospital da PUC.

Lá, com o pagamento de meros onze reais, fui prontamente atendido e, feito o raio x e constatado não ter quebrado ou rompido nada na queda, devidamente medicado. Como estava há horas sofrendo, ao descrever o meu problema para o médico, quis fazer uma gracinha e contei que me estrepara na escada do motel Sevilha. O doutor “piá” (não devia ter mais de uns vinte e quatro anos), demonstrando a maior impassibilidade, e nem um pouco impressionado, me responde: “Eu tava lá, também, hoje à tarde, com a minha namorada. Banheira de louça, escada de granito… é um motel bem chique, né?”.

Ubirajara Passos

A MALDIÇÃO DO SANTO PUTANHEIRO


Em janeiro de 2004 o alemão Valdir deixava Porto Alegre para trás, indo trabalhar no Foro de Giruá e morar em Santa Rosa (cidade onde sua mãe viveu as últimas décadas de vida e ainda moram três de seus irmãos).

Foi necatedral de São Miguelssa época, nos últimos dias da “República” da Amélia Telles (o apartamento do Alemão em Petrópolis) que me tornei amigo de seu irmão caçula (que é apenas um ano mais novo que eu), o Mauro Bergmann, convocado para executar o encaixotamento dos badulaques e organizar a mudança. Irreverente e prático, nossa identificação foi imediata e, desde então, sempre que vou visitar o Valdir em Santa Rosa, Mauro e sua família são figuras obrigatórias e presentes nas minhas estripulias na cidade.

Pois foi com os irmãos Bergmann (Valdir e Mauro) que, no carnaval daquele ano, visitei pela primeira vez as ruínas de São Miguel (na cidade do mesmo nome, próxima a Santo Ângelo), que foi apia matismal no Museus das Missões capital dos Sete Povos das Missões (a “República Guarani”, organizada em regime de auto-gestão comunista, antes do comunismo surgir como ideologia no mundo, na primeira metade do século XVIII, pelos padres jesuítas no Noroeste do que viria a ser o Rio Grande do Sul, à margem esquerda do Rio Uruguai).

Naquele dia, além de percorrer as ruínas da catedral, o terreno onde se localizava o antigo pomar, o cemitério e as oficinas industriais dos índios, visitamos o “Museu das Missões”, construído na entrada do antigo povoado com pedras remanescentes das próprias ruínas, onde se abrigam, além de antigas pias batismais em pedra esino missioneiro do século XVIII um sino de bronze (em que se vê inscrita a data “ANNO 1776” e um sol estilizado: um círculo com um globo maciço no centro, de onde saem oito raios ondulados), imagens de santos, esculpidas e pintadas em madeira pelos índios guaranis.

Há nele, resgatados das ruínas e preservados, ícones de todo tipo, de tradicionais crucifixos até um San Izidro gaudério, vestindo bota e chiripá (a antecessora da bombacha). Mas já estávamos percorrendo a última sala do museu, antes de partir para o pátio da catedral, quando dei com a imagem mais imprevisível e “fora da ordem” possível! Ajoelhado, vestido com uma espécie de “bombacha indiana”, um barbudo santo, nu da cintura para cima (com as típicas feições de um ibérico descendente de mouros, inclusive o enorme nariz aquilino) se inclina para a frente, cabeça gacha e braços levantados em paralelo à altura do peito, numa postura própria de um “filho de santo” incorporando um orixá na terreira!

em primeiro plano o Senhor dos Passos

A minha reação foi à altura da inusitada figura, que fui apontado para os meus companheiros aos gritos de “olha só que santo safado, com cara de putanheiro e cachaceiro velho, até parece que tá ‘baixando o santo”. Mauro, que ladeava a escultura, me respondeu com o ar mais debochado possível: “Mas Bira, é teu parente, olha aqui” – apontando para etiqueta de identificação,que constatei, pasmo e entusiasmado, fazia constar que se tratava de “Nosso Senhor dos Passos”, casualmente o santo católico que deu origem (como mais tarde eu descobriria) ao sobrenome da minha família paterna, no Portugal medieval. Além de ser uma espécie de versão iconográfica de mim mesmo (putanheiro, místico e irreverente), o santo estava ligado historicamente ao meu sobrenome (ao menos foi o que apurei nos sites de genealogia na internet).

Catedral de São Miguel vista à noite

Naquele dia, tanto a máquina fotográfica mecânica de Mauro quanto a digital de Valdir falharam, e o resultado é que, mesmo ambos pedindo em voz alta a bênção e a autorização do Senhor dos Passos, perdemos todas as fotos feitas em São Miguel , que simplesmente velaram ou desapareceram dos registros da máquina digital (uma “web can” portátil a pilha).

Somente no ano seguinte, quando retornei às “Missões”, consegui fotografar as ruínas e o meu arquétipo psicológico, e “padroeiro” familiar, o Nosso Senhor dos Passos que virou tema de poema de putaria do companheiro xupaxota anos depois, e que, no carnaval de 2004, talvez invocado com a minha gozação, amaldiçoou-nos as fotos lá feitas.

Ubirajara Passos