Paixões, Asneiras e Tristezas finalmente publicado


Jamais usei este blog para promover minha vaidade (que simplesmente não existe, por questões meramente técnicas e não por inclinação emocional, é claro). Tanto que, quando uma crônica deste blog (A foda sagrada de Drukpa Kunley) foi ao ar, na primavera de 2011, com direito a comentários efusivos e sacanas de mais de meia hora em programa noturno da KFK, rádio web de meu amigo Barata Cichetto, não dei a notícia aqui.

Mas este velho livro de poemas foi tão maltratado nas tentativas feitas, no século passado e neste, pelas editoras nacionais, que sua autopublicação no site da multinacional Amazon (em versões e-book e impressa) e no nacional Clube de Autores (versão impressa sob encomenda que pode ser paga com boleto), merece o registro neste blog, no qual seus poemas foram integramente publicados.

Não há no livro, portanto (com exceção da profunda revisão ortográfica e gramatical) grande novidades para os leitores do Bira e as Safadezas, além do possível prazer de ter os poemas reunidos num único volume impresso ou num prático e-book.

Mas, para que a frustração não seja completa, reproduzo abaixo alguns trechos da biografia constante no final, que mencionam alguns fatos ainda não mencionados neste blog sobre a “República” do Alemão Valdir no bairro Petrópolis, em Porto Alegre:

“Com a chegada do sobrinho de Valdir, Rogério Seibt, de Santa Rosa, que se hospedou no apartamento para realizar o curso pré-vestibular, em abril de 2002, se constituiria, no Edifício Morumbi da Rua Amélia Telles, a lendária “República do Alemão Valdir” (que durou até janeiro de 2004, quando o alemão retornou a Santa Rosa), frequentada, entre outros, por Alexandre Vorpagel (o “Gordo Ale”), amigo e conterrâneo de Rogério, que cursava Radiologia na capital, e por Luiz Miranda Pedreira do Couto Ferraz (o “Baiano Luiz”), emigrado de Salvador, formado em Física e Filosofia e emérito boêmio, blogueiro e colecionador de falenas, que Valdir conhecera no Hotel Elevado, na Avenida Farrapos, quando viera morar em Porto Alegre, em 1996, e se tornaria parceiro de cachaçada, boemia e sacanagem de Bira e Valdir na sauna La Luna, na rua Barão do Amazonas.

Aí, na “República” (como Valdir constatara se parecer o apartamento, numa súbita inspiração num almoço de domingo), os fins de semana, e às vezes os dias úteis, eram agitados pelas infindáveis conversas, anedotas e histórias rocambolescas dos frequentadores, sempre devidamente regadas à cerveja, com exceção do “dono da casa”, que mantinha, desde 2001, tratamento com antidepressivos e raramente bebia. Às vezes, na ausência do Luís, em noites entediadas, muitos poemas amorosos deste livro vieram à tona pela primeira vez na internet, nos “chats” do alemão Ale com suas namoradas virtuais, enquanto Bira os lia em voz alta. E aí nasceram uns quantos poemas datados de Porto Alegre, aqui publicados, como “!” , Amargo Mate da Amargura , Embriaguez e Menestrel Equívoco.”

Ubirajara Passos

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Um e-mail das Arábias


Era a milésima vez que recebia por e-mail aquelas versões “internacionais” do golpe do bilhete, do tipo “tenho uma grana enorme que não posso aplicar em meus país conflagrado no Oriente Médio e sei que o senhor pode me dar dicas de investimento em seu país”.

Mas, agora, a coisa era completamente diferente. Viera em português. É bem verdade que num português sofrível, capaz de injuriar o próprio Inácio dos Nove Dedos (e sua sucessora, a “presidenta” aclamadora de mandiocas – na qual a mídia e o aparato institucional da direita explícita andam ultimamente querendo enfiar de vez a mencionada raiz) ou mesmo o patrício de mais estropiado sotaque emigrado do Líbano ou da Palestina. O texto dizia o seguinte: 

“Respondi Urgente Para Investomento!!!
Lamento se meu e-mail incomodá-lo, eu decidi entrar em contato com você, porque eu sinto que você vai me entender melhor ..Estou realmente precisando de sua ajuda,    pois requer uma resposta urgente de você. Por favor, esta é uma mensagem pessoal para você, eu preciso de algumas directivas de você para investir algum dinheiro ou de capital no seu país, EU e meu marido era industrial e um membro do conselho de empresários de petróleo síria em Damasco, Síria. Devido a matanças,decapitações bombardeios e conflito crise guerra em Síria que milhares de civis relatados fugindo como batalha por Aleppo, Síria,intensifica à medida que a guerra se intensifica a partir de hoje, eu não posso investir o dinheiro aqui na Síria isso é quando eu entrar em contato com você E ver como podemos parceria no negócio e intensificar complexo multinacional.
Responder-me explicar melhor para voce nesta e-mail: aishaalrashid1@qq.com

Sra.Aisha Al.Rashid

Por breves e imbecis instantes, o nosso herói quase caiu na asneira de levar a sério a coisa e responder a mensagem da forma como solicitada, já sonhando com a fortuna que poderia abarcar com o tesouro do milionário árabe. Ficou imaginando a imensa e infinda farra que faria num harém particular, contratando as mais gostosas e safadas “odaliscas” dos mais chiques (e também dos mais fuleiros, desde que tivesse aquele rostinho sem-vergonha e aquela malícia ronronante que põe qualquer leão furioso desvairado mansinho como gato de madame) da capital, na qual poderia acabar, literalmente, morrendo de trago e gozo.

Mas, antes que as mãos digitassem apressadamente o que seu cérebro de asno ditava, o zé pelintra que o acompanhava soprou-lhe ao ouvido a tremenda encrenca em que ia se metendo e, ao invés de simplesmente deletar o e-mail, como fizera com os outros tantos, resolveu se divertir e devolveu a tentativa da golpe da maneira mais sacana que encontrou:

“Não se preocupe. Você enviou este e-mail para a pessoa certa. Eu e meu amigo baiano, dr. Luisinho Sugacheca, não temos um único puto na carteira, mas conhecemos todas as putas de Porto Alegre, capital do Sul do Brasil, onde prolifera o negócio mais rentável deste país: a putaria. E moro justamente  na cidade periférica da Região Metropolitana daonde provém a maior parte destas putas!
Podemos, tranquilamente, investir os petrodólares de seu marido num FANTÁSTICO PUTEIRO GIGANTE, com direito a 2 torres gêmeas de 14 andares, cada qual destinado a shows e práticas públicas e privadas de boquete, streap-tease, sessenta-e-nove, sexo anal, vaginal, oral, nasal, umbilical, espanhola, ucraniana e polaca, sexo bizarro com cães, vacas, ovelhas, camelos, gordas, velhas, ciganas e mães de santo em pleno transe da pomba gira kadija al-sacanidi, bem como diversos gays de barba grisalha e com um dedo a menos na mão esquerda (perdido no cu do povo brasileiro), especializados em fuder nações e continentes inteiros como o Brasil e a América Latina.
Para construirmos esta mega instalação e contratarmos os profissionais e a logística adequada necessitamos tão somente da módica quantia de 24 trilhões de euros!

Favor enviar esta grana para a Caixa Beneficente das Putas e Gays do Brasil, agência 024, conta 694324 – titularidade da senhora Dilma-Ahma-Mandyioca-Emmet Abanananopovo.

Aguardamos com muita ansiedade e entusiasmo a sua resposta.

Assinado: Salym Al-Assad-Ocudosviga-Ristasimeim-Becys”

Pelo que se sabe, até hoje, passados uns 3 meses, muito embora nosso amigo, contra os próprios hábitos, acorde de madrugada e salte da cama como um cabrito embrigado para conferir em seu computador, até hoje não recebeu a minima resposta.

Ubirajara Passos

Galileu Galinhei


Galileu Galinhei era um gringo tarado do século XVII que não podia ver se movimentar na sua frente qualquer coisa que usasse saias, vestido ou indumentária semelhante, inclusive batinas, sem ficar de pau em riste, esbugalhar os olhos e, babando e relinchando como doido, por-se no encalço do infausto objeto de sua entusiasmada atenção. O que justificava o apelido que acabou por incorporar-se ao nome.

Nascido em Pisa, no século anterior, há quem atribua seu apetite inextinguível a uma mística ligação com o nome da própria cidade cuja torre inclinada se constitui no único monumento fálico meia-bomba do mundo, e seria derivado (segundo os biógrafos falcatruas) de”Piça”.

O fato é que Galinhei, tendo sido coroinha, e aluno preferido na escola dominical, em sua terra natal, afeiçoou-se tanto à batina (e às guloseimas com que o mimava o padre no quartinho escuro, ambos sós, depois das aulas), que quis se tornar monge. Seu pai, preocupado com o interesse incontrolável do filho pelo corpo humano, e temendo vê-lo desencaminhado em sua masculinidade, resolveu mandá-lo estudar medicina na escola local. Flagrado, entretanto, em plena aula de anatomia, pelos colegas, utilizando um instrumento impróprio na dissecação de um defunto, acabou expulso não só da escola, mas da própria cidade (dizem alguns que não em razão do bizarro incidente, mas por influência do padre Pedrinho, muito apegado ao estudante, e que se sentira abandonado por Galinhei, quando este foi forçado a desertar do seminário). 

Exímio nas quatro operações, o jovem sátiro, divertia-se, nos raros intervalos em que lhe permitia o tesão imenso, com cálculos “inúteis” e consta que foi, nas aulas práticas de medicina, quando treinava a cura da histeria em algumas jovens aldeãs, por métodos nada convencionais, que, observando o vai e vem das tetas das colonas gringa, ao cavalgá-lo em pelo, notou que a extensão deste movimento no ar não dependia da fartura ou magreza dos seios, mas era igual conforme o seu comprimento (diga-se, de passagem, que as conterrâneas de Galinhei não pareciam ser exatamente as gringas mais favorecidas pela “lei da gravidade”, descoberta pelo judeu londrino Isaque, se celebrizando por serem bastante caídas). Foi assim que inventou o pêndulo.

Com tais pendores, acabou matriculado pelo pai em uma escola de Matemáticas em Pádua, aonde descobriu que a velocidade da queda não depende do peso, ao fazer umas experiências com suas bolas em plano inclinado sobre o lombo das putas do mais famoso cabaré da cidade. Fossem gordérrimas ou verdadeiros esqueletos, todas íam abaixo, despencando sobre o catre do bordel, exatamente no mesmo tempo, quando o Galinhei safado retirava sua enorme régua de seus receptáculos dianteiros e a cravava fundo em sua bunda.

Caindo na besteira de incluir na tal experiência a marafona preferida de um nobre, acabou corrido a pauladas e foi se refugiar em Florença, onde se achava, no início dos anos 1600, se dedicando pachorrentamente a suas duas distrações preferidas: a putaria e os números.

E foi lá que deu o azar, até então inédito, de ver-se rejeitado. Galinhei, além de fogoso e mestre em cálculos, era o típico sedutor italiano e não havia mulher, virgem ou puta, solteira, casada ou qualquer coisa similar, que resistisse ao seu verbo (embora haja quem diga que ele era mesmo um chato:  as gringas acabavam lhe dando para não terem de suportar mais suas barrocas arengas). Seja como for, lá Galinhei encontrou a mulher mais gostosa e interessante de todo seu vasto repertório. E justamente ela, por que daria a vida para ao menos ver nua, não queria nada, e fugia do próprio Galileu como o capeta de católicos e protestantes, naquela época de guerras religiosas  em que ambas as correntes se digladiavam até a morte para ver quem enviaria mais fiéis da seita inimiga ao inferno na ponta de suas espadas, nos instrumentos de tortura e nas chamas do “amor divino” (em cujas fogueiras a igreja católica era imbatível).

Pirado e emputecido, Galinhei não pensava em outra coisa e até largou das putas, das viúvas e das vistosas esposas dos camponeses dos arredores, para se dedicar exclusivamente à sua obessão platônica. E foi em meio à esta crise existencial que chegou-lhe às mãos um dos primeiros exemplares importados de uma novidade que veio  a calhar aos seus propósitos: o  telescópio. Durante noites e madrugadas Galinhei, pendurado nos galhos de uma árvore fronteira espionou as janelas do quarto da amada, com o artefato em punho, tentando enxergar-lhe a loira e voluptuosa nudez sem sucesso! E, finalmente, naquela sexta-feira de lua cheia, em pleno outono, conseguiu o intento. Branca e redonda, enorme, surpreendemente, estava lá se sacudindo, enquanto subiam pelas pernas as calçolas, aquela entusiasmante bunda, quando Galinhei, num movimento falso, perdeu o precário equilíbrio (pois segurava o telescópio com uma mão enquanto a outra fazia o serviço solitário, se apoiando no tronco com as coxas) e foi ao chão, dando uma tremenda cabeçada!

Colhido por um transeunte, o professor devasso foi levado ao hospital, onde, se acordando na manhã, seguinte, instado pelos amigos sobre o acidente, e ainda meio tonto, possivelmente delirando pronunciou a famosa frase, se referindo à bunda da gostosa: “i por si muove!”

Padre Pedrinho, seu antigo mestre, que andava na cidade, sabendo da história (que não havia ninguém mais popular na pátria do mais famoso poeta do amor platônico, que Galinhei naquela época), tratou de intrigá-lo e foi correndo a Roma fofoquear que o matemático havia dito que a Terra se movia sozinha, sem a intervenção de Deus, e, o que era pior, não era o centro do universo (parece que Galinhei, meio sonolento ainda, falara mesmo no hospital que a Terra girava ao redor da cobiçada bunda, quando interrogado sobre a estranha frase que recém berrara), mas andava ao redor do Sol!

Enrolado involuntariamente nas intrigas ideológicas e políticas da padralhada, por pouco Galinhei não perdeu a vida  na festa de São João do Papa. Conta-se a boca pequena que se salvou da fogueira não negando publicamente uma afirmação que, efetivamente, jamais fizera, mas mostrando ao papa (que comungava com ele, como era moda naqueles tempos entre os supremos mandatários da igreja,  a admiração por belas donas “boas” – como se dizia nos anos sessenta do século XX) um retrato que da formosa bunda, que lhe fizera, por encomenda e conforme as indicações de suas recordações, o neto de um pintor gringo famoso, também ele pintor, ainda que medíocre, o qual compartilhava com o avô o nome, e um epíteto que lhe simulava o sobrenome: o Leonardo Dá Vinte!

Ubirajara Passos

Isaque, o nihil tom, e a puta força!


Isaque era um professor judeu de meia-idade. Para ser exato, um quarentão cabaço, terrivelmente excêntrico e distraído.

Sua excentricidade incomum principiava na própria condição étnica. Pois sendo um judeu, filho de um comerciante judeu, e (agravante indefensável) judeu inglês, cuja família se encontrava radicada na ilha há séculos, negou-se terminantemente a suceder o pai no bolicho londrino, dedicando-se ao infausto, mal quisto, mal visto e mal remunerado ofício de mestre-escola de meninos burgueses, numa época em que ser burguês era coisa equivalente à ralé de nossos dias (ao menos para os falidos e soberbos nobres de então).

Jacó, seu pai, havia percebido, que o rapazinho, desde novo, tinha um ar e uns hábitos estranhos. Ao invés de correr as guriazinhas goens do vilarejo, preferia andar, ensimesmado, pelos obscuros becos, com a cabeça na lua e os pés tropeçantes, como se pisasse sobre um colchão de penas de ganso e não sobre a terra dura e fria.

Suspeitava mesmo que o filho era veado e só não o levou ao rabino, para as devidas admoestações, porque o estranho piá, apesar do ar fresco e abestalhado, também não chegava perto de guris. Preferia passar o dia a conversar sozinho nas esquinas.

Crescido, já o pai morto, Isaque liquidou o comércio da família e, para decepção de sua mãe, irmãs e primos, abriu aula pública para filhos da nascente burguesia mercantil-marítima, garantindo algumas vagas, custeadas pelos cobres herdados, a ranhentos filhos da ralé suburbana, que diferiam dos demais alunos por sua compleição física um tanto avantajada e rudes hábitos zoófilos.

Mas Isaque não era um professor comum. Apesar de sua propensão ao pouco lucro e, contrário à sua raça, à ingenuidade própria dos mais imbecis otários, Isaque, como todas as gerações que o antecederam, era exímio em cálculos, e bastante criativo. O que não lhe favorecia nem um pouco a ilustre condição de bocaberta. Era famosa em toda a Londres do final do século XVII a anédota sobre o dia em que foi cronometrar o tempo necessário ao cozimento de um ovo no forno à lenha e introduziu neste  o relógio, ficando a segurar o ovo (por motivos bem mais puros e precários do que poderiam supor seus maledicentes vizinhos, cuja diversão preferida era espionar o jardim de sua chácara, quando nele se reunia a pequena multidão de mancebos em idade púbere).

Ermitão esquisito,  com fama de puto,  portanto, Isaque, surpreendentemente, tinha por melhor amigo um sujeito enfronhado na pior ralé do baixo meretrício da antida Londinium. E foi por sua insistência, heróica e veemente, que um dia resolveu abandonar  quadro negro e estrado, dando-se à futilidade de ir percorrer, em plena e apavorante madrugada, a zona da capital bretã.

Como convém a todo chato intelectual burocrático e moralista, Isaque era abstêmio. E, herança maldita que integrava a essência da índole herdada, tão recalcitrante (apesar da rejeição voluntária), era pão-duro. Assim, quase bota a perder a vantagem do amigo, que o levava ao cabaré do Peter em troca dos favores gratuitos das ilustres falenas rubras, justificado apenas na valorização que a fama da presença do ilustre mestre haveria de trazer à casa, situada às margens do então cristalino Tâmisa. Chegado às dez da noite, eram três horas da manhã e, entediado e bocejante, o seco professor não havia se disposto a pagar uma única dose a qualquer das dadivosas e dedicadas girls e já começava a causar rebuliço entre o plantel de pinguanchas, exasperadas com a chatice e a inexistência da clássica porcentagem sobre o vinho, ainda que obrigadas pelo rufião-proprietário do bordel a sentar-se à mesa do urubu narigudo, todo vestido  de preto (com olhar parado e turvo de sádico dominador).

O homenzinho, além de empolado e discursante (de uma conversa enigmática, pedante e enjoativ) era brocha. As putas desdobravam-se na maior loucura, se esfregavam em pelo no colo do infeliz, bolinavam-lhe e lhe lambiam a cara e NADA!

Mas eis que chegado próximo ao encerramento da função noturna, apavorado, o pobre amigo tratou de fornecer-lhe, sem aviso, uma estranha erva no cachimbo, e o qüera, enlouquecido, pôs-se sobre a mesinha circular, completamente nu, com o tarugo em riste, a cantar e gesticular, desafinado, se esvaindo em gargalhadas.  Num giro histérico, foi deitar o olhar justamente na Clotilde, a mais rechonchuda e desvalorizada camareira do lugar, que naquela hora passava pelo salão com um rolo de lençóis entre o único quarto e a tina de lavar.

Doidão como estava, não houve quem pudesse convencer Isaque, jegue emaconhado, a largar mão da tia e grudar uma mariposa nova e bonitinha. E assim foi, saltitante, histérico, aos gritos e relinchos, para um infecto cubículo, onde, à luz cambaleante do candeeiro, Clotilde, entusiasmada (que fazia uns bons vinte anos nem cego ou marinheiro torto se dispunha a lhe ralar as carnes) sacou as roupas de um único e arrebatado coice. Apavorado com o enorme e esburacado traseiro, que mais parecia um queijo (ou a lua, como o professor a vira ao telescópio), Isaque ficou sóbrio num segundo e, vendo aquela coisa molenga e pesada lhe pender sobre o caralho, agora falecente, entrou em transe matemático, e, num insight histórico, formulou a clássica e irrefutável teoria que explica o funcionamento do universo.

Havia uma força muito grande, absurdamente séria e preocupante, que o havia conduzido ao sujo catre  e fazia aquela colossal buzanfa flácida pender sobre o seu púbis e lhe esmagar os ovos magros, sem apelação, fazendo-o esbugalhar os olhos num movimento reativo da cabeça de baixo ao topo da de cima. Não sabia como explicá-la, embora pudesse calcular em detalhes o impacto e a trajetória. E sendo tão grandiosa e infelicitante, num lance genial, a denominou, diante da situação periclitante, de FORÇA DA GRAVIDADE!

Ubirajara Passos

Os assaltos que sofri em Porto Alegre – 1


Noite “alta” (para bem dizer a verdade, madrugada), a cabeça mais altíssima ainda que a mais longínqua e friolenta estrela, sigo, passos meio incertos, a imitação de maleta em vinil traçando elipses pendulares na escuridão, pela rua da Praia, madrugada adentro.

Entupido de álcool e de putas, regurgitando cerveja e sacanagem, avisto, na obscura esquina da Marechal Floriano, um sujeito que me parece familiar. Todo sorrisos, um olhar abobalhado, e aquele ar bonachão de mãe às vésperas de dar o peito, o cara grita, com um entusiasmo digno do Sílvio Santos em programa domingueiro, nos tempos em que era apresentador na Globo, uns trinta e tantos anos atrás, todo simpatia:

– Meu baixinho!

E eu, completamente imbecilizado pela orgia etílico-putanheira, vou me achegando ao personagem, como totó que avistou osso na mão do dono. Assim que paro em sua frente, ouço a frase fatídica e cretina, proferida agora no tom mais seco e impositivo possível:

– Me dá um dinheiro aí, tio!

Pronto! Em dois anos de putaria isto nunca me acontecera. Acostumado a fazer o caminho entre o Bagdá Café, no final da lomba da Marechal, e o final da linha do Gravataí, na Chaves Barcelos, junto à Praça Osvaldo Cruz (caminho este que incluía subir,rumo centro, sob o viaduto da Borges), em plena madrugada velha, há  muito perdera meus temores, porque o máximo que me ocorria era tropeçar nos mendigos que dormiam, estirados nas calçadas, ou ter de dar uma nota de um real pro pingunço malandro de plantão, como o Nego Apolo.

Mas agora a coisa é diferente. Otário metido a malandro, é a hora da estréia. Não há nem o que pensar. É um assalto! O cara não tem arma (nem um reles canivete de 2 centímetros como aquele que brandi para um taxistas imbecil uma vez na frente do hotel Elevado, acompanhado do Mílton Dorneles, história que contarei outro dia), mas pelo tom, na madrugada morta, está mais evidente que se trata de um assalto! Não estivesse completamente bêbado, e não tivesse convencido a mim mesmo há alguns anos do valente personagem boêmio que sou, me borraria todo!

Estou “pra lá de Bagdá” tanto espacial quanto mentalmente e não sei se caio na risada ou levo a sério a triste e cômica situação. Mas diante da emergência e “gravidade” do momento, disparo, com o ar mais sério e circunspecto, sem alterar a voz (dentro do que me permite a língua, que insiste em se enrolar na boca, numa caimbra estranha, talvez seja o resultado das 3 ou quatro bucetas chupadas na orgia paga):

– Ô meu tio, as putas me levaram tudo! Gastei no cabaré o que podia e o que não podia, só me restam seis reais!

O idiota a minha frente, tentando manter a pose do seu malogrado papel de ladrão, cambaleando e enrolando a língua um pouco menos do que eu, tenta fazer um ar de brabo e perigoso facínora e vai me anunciando:

– Baixinho, nós te conhecemos! Tu tem dinheiro sim, vai despejando aí! E não te fresqueia, que acabamos de fugir do Presídio Central!

Sem nem prestar atenção na pessoa do verbo, avisto, na esquina em frente,  um outro tipo, alto, loiro, cara amarrotada e um pouco menos abestalhado que o nanico de bigode que tenta me amedrontar e, amortecido pelo álcool que  eu estava, sem bravata, nem medo, mas simplesmente indiferente, o chamo:

– Ô rapaz, o teu parceiro acha que eu tenho dinheiro! Vem aqui me revistar! O que tu achar pode pegar!

– Olha lá, hein! Se tu tiver mais grana do que disse nós vamos te moer a pau – ameaça o gordinho bigodudo.

Com a maior preguiça do mundo, o comprido vem até a mim, enfia as mãos no meu bolso e, encontrando um destes suportes para moedas com molas (em que se distribui em buracos de tamanhos distintos os valores), que na época se vendia às pencas em lojas de “um e noventa e nove”, me “sangra” os últimos três reais e pouco que tenho além dos seis em cédulas (que já saquei da carteira e passei para o seu valente líder).

Preocupado em como vou chegar em Gravataí, afinal tenho de pagar a passagem do ônibus, e tenho de ir para o trabalho de manhã, suplico, transtornado, aos dois assustadores assaltantes que me devolvam pelo menos uns dois reais e recebo um deboche carregado de bafo de cachaça nas fuças:

– Não te preocupa que ela vem linda!

Uma quadra e meia depois, resolvo remexer na maleta (lembram dela?) e constato que, além do talão de cheques e do cartão bancário magnético, que não me servem pra nada a estas horas, ainda tenho uns bons vinte reais em moedas no seu fundo.E vou, contente e admirado, me rindo por dentro, para a parada do Sogil. Meus terríveis ladrões realmente eram dignos de pena. Ou haviam tomado umas tantas mais que eu (que mal me aguentava em pé) ou eram simplesmente uns incorrigíveis amadores!

Ubirajara Passos

O Causo da Vodka


Fazia já algum tempo que eu não via aquela puta amiga (que na verdade era uma amiga puta), que conheci nos velhos tempos de diretor executivo do Sindjus (para ser exato, nas primeiras expedições ao extinto Bagdá Café, em 1996), e desde aquela época era moradora de Gravataí.

Assim, não a reconheci, quando, da mesa em que bebericava uma cerveja com meu companheiro de executiva municipal do PDT (na época), Gerson Monteiro, num bar próximo da praça de São Geraldo, na parada 72, avistei aquela morena bonita cuja voz me parecia familiar, sem que atinasse de quem se tratava.

Foi somente na hora de ir embora que, passando por sua mesa, reconheci ser a “M” (preservo seu nome, justamente por se tratar de uma digna profissional do amor e não uma destas patricinhas pequeno-burguesas arrogantes, metidas a devoradoras de homens, na reprodução do antigo papel dos machos cafajestes).

Rapidamente, enquanto o Gerson pagava a conta no caixa, me contou que havia largado do Le Boheme, na Pinto Bandeira, Centro de Porto Alegre e se encontrava na feliz condição de dona do próprio “bar”.

Por ironia do destino, eu acabaria reencontrando-a alguns anos depois novamente na Cláudia Bar Drink, na Marechal Floriano, de volta à função de simples puta, já entrada então na segunda metade da década dos trinta. Mas naquele dia em Gravataí, ela que era a mais constante e uma das melhores amigas da madrugada que tive (e que “conheci” no sentido literal e bíblico nos três principais bordéis que frequentei ao longo de minha carreira de boêmio: Bagdá Café, Cláudia Bar Drink, Le Boeheme e Cláudia Bar Drink, novamente, da última vez que a vi, há uns dois anos), vivia sua  lua de mel com o destino, dona de bar e dignamente casada com um ex-cliente, o Djalma.

Como eu não me lembrasse do sujeito, o que ela achava impossível, tratou de me lembrar de fato sucedido na Cláudia Drink há coisa de uns 11 onze anos atrás (9 anos no dia da conversa), do qual me esquecera por completo, mas era um dos mais legendários do pequeno cabaré “familiar” (como o caracterizara o taxista baixinho, gordinho e bigodudo que eu apelidara de Teixeirinha, que havia se tornado meu amigo), onde, nas noites de sábado se realizava de tudo, de festa de aniversário e casamento de puta com garçom a churrasco, e eu pontificava de “intelectual” que “lá ía buscar um amor que não existe”, como um dia me definiu, completamente bêbado, um professor da UFRGS (assim auto-identificado, do que não duvido até hoje), aí por 1999.

Anos mais tarde a Cláudia se tornaria evangélica e aí o cabaré, infelizmente, não abriria mais aos sábados, o que frustrou as primeiras tentativas que fiz de levar meu amigo Luiz Ferraz (emérito putanheiro baiano) a conhecê-lo, lá por 2003.

Mas, voltando ao causo, “M”, bastante surpresa com minha falta de memória (afinal a história ficara gravada em letras maiúsculas nos anais do bordel), tratou logo de avivar as lembranças, que então vieram-me à tona como se fossem daquelas que deletamos ao ter uma amnésia pós-alcoólica e se tornam vívidas algum tempo depois que um amigo trata de nos trazer à baila:

“Ô Bira, o Djalma é aquele  que apostou contigo quem entornava maior número de copos altos de vodka antes de cair e acabou perdendo para ti. Até hoje ele fala nisto”. O detalhe é, comparativamente ao meu um metro e cinquenta e cinco centímetros de altura (e aos cinquenta e um quilos que pesava na época), o Djalma, era um sujeito de “peso” de quem se esperava tivesse maior resistência aos efeitos da manguaça que o magricela e mirrado “intelectual” da safadeza putanheira aqui.

Ubirajara Passos

Lula e a Burocratização da Putaria


O assunto já é um tanto passado do ponto, tendo sido explorado na imprensa eletrônica brasileira há alguns anos e, não fosse o Brasil ainda uma sociedade autoritária e profundamente marcada pela opressão coisificante e preconceituosa, não deveria render maiores polêmicas.

O fato é que o Ministério do Trabalho mantém em seu site na internet um espaço próprio para divulgação da Classificação Brasileira de Ocupações (a CBO), que instrumentaliza, entre outros, as estatísticas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) a respeito das diversas áreas do emprego dos trabalhadores no territério nacional, esmiuçando, na linguagem mais “culta”, “científica” (o que equivale a dizer “higiênica” e “isenta de apreciações subjetivas e emocionais”) e padronizada as diversas características de cada atividade laboral exercida entre o extremo norte de Roraima e o Arroio Chuí.

E, pasmem!, logo no início de 2003, primeiro ano do mandato do Inácio dos Nove Dedos, um gaiato qualquer da grande imprensa fuçando na insípida e abestalhada lista oficial de ocupações deu com o “escandoloso” e hilário verbete, codificado na “família” (grupo) 5198, sob título de “Profissional do sexo” (sub-código 5198-05) – que significa, em boa e popular fala: “puta”!

A descrição era, então, extremamente pormenorizada e explícita, a tal ponto que o órgão, interpelado pela mídia, além de reduzi-la, atribuiu ao governo de Fernando Henrique Cardoso sua implantação na CBO, mas a manteve, entretanto, com todas as características “picantes” e imbecilmente oficialescas, que nos permitem, hoje ainda, ler o negócio sem saber se rimos, choramos ou zurramos tresloucadamente!

Não é preciso que o leitor seja um experiente ex-putanheiro como eu, um balbuciante e tímido rapazola recém-iniciado nas manhas da sacanagem paga (que vários ainda há por aí afora) ou uma aprendiz rebelde de meretriz admiradora da vilã/mocinha da atual novela do horário nobre da Rede Globo (a gostosíssima e insossa Clara/Chiara, precária enganadora do “Totó idiota de língua de fora por buceta nova”) para morrer de rir e calejar a mão… de tanto bater… na própria própria perna (ou no  braço da cadeira) diante da besteira suprema que constitui o “tratado governamental da ocupação laboral ligada ao prazer do corpo dos cidadãos”.

Já na introdução (que atende pelo nome de “Descrição Sumária”) o negócio carrega nas tintas da fantasia mais cretina e cruel possível, primando pela mais falcatrua das inocências (similar àquela que justificou a continuidade de Lula no governo sob o  pretexto de seu “desconhecimento” completo do esquema mensaleiro).

Depois de nominar e “sinonimar” (como diria o Odorico Paraguaçu) a atividade de Profissional do Sexo ou Garota de programa, Meretriz, Messalina (pobre imperatriz romana de saudável tesão sem preonceitos!), Michê, Mulher da Vida, Prostituta, Trabalhador do sexo”, a cartilha petista (que, se eventualmente não foi elaborada pelo fascismo luliano, tem todo o estilo dos filhos da sacristia salvacionista autoritária), declara, em tom programático e pomposo, e como se tratasse de texto de edital de concurso público, que o cargo almejado (e tido por desejável e incentivável) se constitui no afã de pessoas que Buscam programas sexuais; atendem e acompanham clientes; participam em ações educativas (grifo nosso) no campo da sexualidade. As atividades são exercidas seguindo normas e procedimentos que minizam a vulnerabilidade da profissão.” E arremata, listando como pré-requisitos do ingresso em tal dignificante e auto-relizadora carreira que Para o exercício profissional requer-se que os trabalhadores participem de oficinas sobre sexo seguro, o acesso à profissão é restrito aos maiores de dezoito anos; a escolaridade média está na faixa de quarta a sétima séries do ensino fundamental” e que os agraciados pelo esforço e pela sorte  terão o privilégio dos que “Trabalham por conta própria, em locais diversos e horários irregulares. No exercício de algumas das atividades podem estar expostos à intempéries e à discriminação social. Há ainda riscos de contágio de dst, e maus-tratos, violênia de rua e morte.”

Não tenho, como bem sabe o leitor contumaz e atento deste blog, a menor implicância contra a putaria profissifonal, a que sou, inclusive, muito grato, pois sem ela jamais teria vencido a minha timidez e adentrado no mundo do sexo e da boemia, gozando um pouco dos raros prazeres que o mundo humano filho da puta propicia sobre a superfície do Planeta Terra. E muito menos acho indigno o ganha-pão das (ou dos) que possibilitem o supremo prazer dos corpos aos excluídos do mercado amoroso/sexual por serem possuidores de parcas qualidades estéticas ou comportamentais tidas por  pré-requisito ao seu usufruto, na cartilha da mentalidade padronizada do capitalismo cretino em que vivemos.

Cansei, inclusive, de defender (com a gaiatice suficiente para não ser motivo da gargalhada geral da malandragem, é claro), nas minhas noitadas nos cabarés de Porto Alegre, a organização do sindicato das putas e o reconhecimento legal da profissão. Que é terrivelmente sofrida, pelo próprio caráter intrinsecamente coisifante de suas profissionais – que veem-se na circunstância de exercer como “trabalho”, atividade compulsória, fria e cheia de regras (até certo ponto…), o que é normalmente fonte peronsalíssima  e viva de prazer para ambos, ou vários, participantes, mas, no caso da prostituição, com raríssimas exceções, se restringe à “clientela”. Somado a isto, a  exploração de donos de maloca e cafetões de rua,  e  a clandestinidade decorrente da “ilegalidade” da putaria intermediada por patrões, torna a coisa tão infeliz e terrível quanto a escravidão formal. O bordel é um ambiente instigante e feliz até o p0nto da fantasia de seus freqüentadores (e, eventualmente, de suas trabalhadoras), mas, em regra, é o local do exercício de um dos trabalhos mais estressantes, mal-remunerados e impregnado de assédio moral, também.

Agora, convenhamos, daí a tratar a prostituição como uma espécie de “carreira” desejável e incentivável para qualquer mulher ou gay, omitindo as opressões e frustrações que levam tanto “profissionais” como clientes ao mercado do sexo explicitamente remunerado (que, mesmo espúrio, porque alienado, guarda ainda alguma emoção e prazer genuínos e válidos para seus participantes diante de suas versões informais: o casamento burguês tradicional e compulsório e o casamento ou o relacionamento baseado no interesse financeiro ou sócio-hierárquico informal dos nossos dias) é o fim da picada!

Vivêssemos num mundo de plena liberdade e autenticidade das criaturas, sem quaisquer limitações e subjugamentos a papéis artificiosos e sofridos e não haveria problema nenhum em tal espécie de “atividade econômica”. Mas em pleno capitalismo desumano, desintegrador e espezinhador dos corpos e das mentes da massa da peonada submetida ao tacão patronal, a putaria empresarial nada mais é que o pérfido efeito colateral da transformação da grande maioria da humanidade em infeliz objeto sem direito a dispor de si própria nem a qualquer conforto e prazer legítimos e genuínos.

Mas o manual da boa puta do Governo Lula não se contenta com as definições e regulamentações genéricas imbecis e fora de contexto, descendo a detalhes de recomendação que (por sua própria pretensa ingenuidade e desconhecimento concreto da realidade) parecem se destinar a incentivar a jogar outros tantos milhares de criaturas, além das que já vivem-na, nos sofrimentos sem nome do negócio ou simplesmente fazer de conta que é possível se prostituir de “forma segura e não submetida às piores violentações físicas e psicológicas”, legitimando-as pela recriminação oficial indireta.

Assim é que, assumindo ares de programa de “qualidade total” de “departamento de gestão de recursos humanos” de multinacional badalada ou repartição pública de porte, a listagem de “atividades envolvidas no labor da putaria” publicada pelo Ministério do Trabalho Brasileiro  tem a capacidade de fazer constar asneiras do tipo:

Atividades:

1) BUSCAR PROGRAMA:

Agendar o programa; produzir-se visualmente; esperar possíveis clientes; seduzir o cliente; abordar o cliente

2) MINIMIZAR AS VULNERABILIDADES (sic!):

– Negociar com o cliente o uso do preservativo (imaginem um estivador musculoso do cais porto, bebão, ou um burguesão drogado até o cu de êxtase, parlamentando com toda a polidez, paciência e “delicadeza” sobre a necessidade de usar camisa de vênus!);

–  usar preservativos; utilizar gel lubrificante à base de água (só se for puta suíça para ter dinheiro e tempo para andar catando o sofisticado produto);

–  participar de oficinas de sexo seguro (esta é de cravar: para  o governo toda puta deve ser petista, intelectualizada e politicamente correta);

– identificar doenças sexualmente transmissíveis (dst);

– fazer acompanhamento da saúde integral (se for pelo SUS – sistema único de saúde – oficial, está perdida: a consulta por uma simples gripe demanda o agendamento com um mês de antecipação em qualquer posto de saúde público do país!);

– denunciar violência (pobre puta! numa sociedade em que qualquer peão é gente de segunda categoria, ela é tida por de terceira e é mais fácil ficar presa na delegacia de polícia que ter sua queixa registrada, e, além do mais, quem vai fiscalizar a proibição da pancadaria? o conselho regional das meretrizes?);

– denunciar discriminação (pra quem, mesmo?);

– combater estigma (sem comentários!);

– administrar orçamento pessoal (este item, além de desfocado da realidade, é a pedra de toque do fascismo vermelho aplicada à putaria profissional: não contentes em encher o saco da prostituta com as outras recomendações impossíveis de serem praticas, ainda pretendem regulamentar sua própria vida pessoal!)

3) ATENDER CLIENTES: (ou, manual burocrático da qualidade total do amor remunerado para a puta burra!)

– Preparar o kit de trabalho (preservativo, acessórios, maquilagem) (é puta ou modelo de desfiles de moda? o que, aliás, normalmente não faz muita diferença…);

– especificar tempo de trabalho (está-se tratando de sexo pago ou de empreitada de obra de construção civil?);

– negociar serviços (já imaginaram marafona e cliente discutindo os itens da obra antes da execução?);

– negociar preço; realizar fantasias sexuais (capaz?);

– manter relações sexuais (mas, afinal, está no cabaré “pra fuder ou pra conversar”?);

fazer streap-tease (quem sabe vai trepar vestida?);

– relaxar o cliente (que deve estar muito tenso mesmo! trepar com puta petista burocratizada é mais perigoso que levar injeção na bunda feita por enfermeira nazista!);

acolher o cliente (como?);

– dialogar com o cliente (e se for muda?)

4) ACOMPANHAR CLIENTES: (cartilha da puta de luxo para deputados governistas)

Acompanhar cliente em viagens; acompanhar cliente em passeios; jantar com o cliente; pernoitar com o cliente; acompanhar o cliente em festas

5) PROMOVER A ORGANIZAÇÃO DA CATEGORIA: (manual da puta petista militante e policitamente correta)

– Promover valorização profissional da categoria; participar de cursos de auto-organização (no MST – Movimento Sem-Terra?);

– participar de movimentos organizados (se filiar ao PT?);

– combater a exploração sexual de crianças e adolescentes;

– distribuir preservativos (é puta ou agente sanitário do posto de saúde?);

– multiplicador  de informação (em que programa de “qualidade total” mesmo?);

– participar de ações educativas no campo da sexualidade


Para o exercício do vasto e estafante programa de atividades o site governamental prescreve uma de lista de Competências Pessoais que, além das mais toscas obviedades e do tom militante e politicamente correto, chega até a recomendações (como a última) que devem ter sido inspiradas na falta de discrição do denunciador do mensalão, o mensaleiro Roberto Jeferson:

demonstrar capacidade de persuasão; demonstrar capacidade de comunicação;

– demonstrar capacidade de realizar fantasias sexuais; demonstrar paciência; planejar o futuro;

– demonstrar solidariedade aos colegas de profissão; demonstrar capacidade de ouvir;

– demonstrar capacidade lúdica;

– demonstrar sensualidade;

– reconhecer o potencial do cliente;

– cuidar da higiene pessoal; manter sigilo profissional.

Por fim, a coisa se encerra da forma mais fordista possível. Como se se tratasse da execução um trabalho industrial, eminentemente mecânico e robotizado, figura, sob o título Recursos de Trabalho, uma linda e cretina lista de ferramentas e utensílios necessários à atividade:

guarda-roupa de trabalho;

– preservativo;

cartões de visita (por acaso é advogado ou corretor de ímóveis?); documentos de identificação (pra quê, mesmo?);

– gel à base de água; papel higiênico (!);

–  lenços umedecidos (eu, hein?);

acessórios; maquilagem;

álcool (não quero nem imaginar o que a profissional do amor vai fazer com isto!);

celular e agenda (este tipo de “empresária” deve ser muito “ocupada”, mesmo!).

Não estivéssemos vivendo os tempos mais surrealistas possíveis da Hístória nacional (em que uma ex-guerrilheira e um ex-líder estudantil radical disputam pra ver quem vai ser o melhor capacho do imperialismo burguês no Palácio do Planalto) e seria inacreditável que a imbecilidade burocrática do fascismo petista tivesse chegado ao minucioso refinamento de produzir a cartilha das “Normas Brasileiras de Técnicas do Trabalho Sexual”! Mas a coisa está aí, pra quem quiser ver e zurrar de quatro! Já que a vida do leitor, na média, deve ser de uma atroz e monótona tristeza, aproveite a piada de mau gosto da turma Inácio e ria com a retumbante besteira hierática e compenetrada como “pracinha” veterano da Segunda Guerra Mundial em desfile de 7 de setembro!

Aliás, por que não fazer constar da CBO a profissão de apontador do jogo do bicho ou aviãozinho de tráfico, também?

Ubirajara Passos