A uma parceira, infeliz, controladora


Poema auto-explicativo parido há pouco:

A uma parceira, infeliz, controladora:

Não me discipline.
Não mate o melhor que existe em mim.

Não me reduza a um rol de atividades,
A um cronograma insípido e impessoal,
Porque sou terrivelmente ineficaz
Como autômato de carne e osso.

E a vida instigante e arrebatadora
Jamais te fará perder o chão
E girar, livre, num terrível torvelinho,

Jamais te agitará o sangue,
Te arrebatando do sacórfago em que vives,
Se não deixares que, ao teu lado,
Eu respire intenso, livre, solto e incontrolável
Como o gelado e imprevisível minuano.

Gravataí, 20 de agosto de 2011

Ubirajara Passos

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O duplo trote


Atabalhoado em meio ao trabalho na repartição pública falida, o sujeito estava bom de dispensar qualquer um que insistisse em lhe interromper “por motivos fúteis”, mas a estranha solicitação do colega, feita pelo MSN corporativo, o sacudiu do transe dos cálculos e o colocou em estado de completa disponibilidade, digna de matrona fofoqueira de arrabalde.

Afinal pra que diabos o cara queria saber se havia orelhões no caminho que fazia até em casa,  no intervalo do meio-dia, para baratear o custo do almoço (que até mesmo o prato feito de buteco escroto andava proibitivo para seu salário de funcionário encalacrado)? E, o que era pior, porque queria que lhe ligasse para o celular justamente quando estivesse passando pelo orelhão?

Imbecil o velho amigo e colega, removido para a região do planalto há alguns anos, depois de ter passado pela campanha(com o que se achava longe de Gravataí há uma década) não era. Logo havia alguma matreirice, alguma sacanagem extremamente sofisticada naquela história. A coisa devia ser, além de inusitada, saborosa e instigante.

Mas a reina rotineira o impediu de atender às repetidas solicitações, apesar das vãs promessas em fazê-lo. E assim, depois de vários dias sendo xaropeado (e se esquivando, disciplicentemente), não teve jeito. Se viu forçado a anotar o número que o camarada teimava em lhe fornecer (um banal telefone residencial em Gravataí) e, aproveitando o primeiro telefone público à vista, em frente ao hospital Dom João Becker, sob o testemunho sonolento de um sol de inverno a “meio pino”, cumpriu as instruções.

Ligou para o telefone indicado e deixou tocar para que a criatura desconhecida do outro lado da linha imaginasse que o seu colega se encontrava na cidade, como o tipo  lhe explicara para justificar a coisa toda  (como ela poderia imaginar que se tratava dele, ainda que possuísse identificador no aparelho, e justamente vendo um número gravataiense qualquer era um mistério que se encontrava relacionado, com certeza, ao horário do telefonema e a outras circunstâncias bastante suspeitas e imagináveis).

Lá pela 4 h da tarde, na hora do outro intervalo, em que costumava empurrar um sanduíche na correria do expediente, quando perguntou, em meio ao relatório do fato, se o alvo da ligação era uma mocréia ou uma gatinha (afinal podia ser a mãe ou até uma tia velha), o amigo reagiu “indignado”:

– Porra, mas tu é foda! Eu te falei pra dar somente um toque. Como é que liga a cobrar, deixa atender e ainda faz a pessoa arcar com o prejuízo de um trote mudo! Ah, ah, ah, ah! Deve estar doida! Tava muito braba?

– Não. Pelo tom da voz creio que te perdoou. Mas vem cá, que negócio é este de marcar encontro com amante em pleno meio-dia? E que senha braba é esta? Ligar de orelhão em hora fixa? A cobrar ainda por cima? A gostosa acredita que tu é tão miserável que não tem nem um celular sem chip e te dá pelo simples prazer ou é alguma velha que te alcança uns cobres?

– Tu é espertinho, hein? Já tá querendo saber demais. Mas é uma gatinha! E ronrona que é uma maravilha! Ainda mais quando senta no colinho e ganha um presentinho. Isto de dar toque de orelhão faz parte do sigilo. É pra evitar encrenca. Não da minha parte, que morando fora da cidade a minha jararaca não tem a menor possibilidade de desconfiar. Mas ela tem um corno brabo, um piazão babaca, nada manso o guampa torta! Não gosta dele (o guri é “precoce”), mas atura por causa da exigência da família. E, não fosse pobre, nem precisava lhe dar nada. Já disse, a ingênua, que,  se um dia enricar, paga o motel pro cavalo véio aqui, que prefere o meu trote experiente que a cavalgada estabanada do potrinho crivado de espinhas.

– Ah, tá! Imagino! – E, enquanto desviava o assunto para velhas anedotas de mais de uma década, o nosso herói sorria, sarcasticamente, com aquele ar de gato mirando passarinho. O amigo cheio de cuidados era apenas mais um de uma lista interminável de ilustres trouxas, todos temerosos do fantasmagórico namorado ciumento e incompetente, que frequentavam a alcova da coisinha linda mediante o oferecimento espontâneo de um considerável mimo. Assim lhe revelou a loirinha  mignon, fogosa e doidinha por uma cerveja, em meio à sacanagem na banheira de hidro-massagem do motel, dando boas gargalhadas, quando ele, malandro velho, lhe contou as precauções misteriosas do amigo.

Não só havia deixado a guria atender, como havia encetado longa e sinuosa conversa mole ao telefone, e o resultado fora uma tarde de imenso e intenso prazer com o objeto da paixão extra-conjugal do colega metido a sedutor.

Ubirajara Passos