Um amor informal


Na sexta-feira, depois do expediente, saiu-me, em meio a pasmaceira de uma semana de muito trabalho, o poeminha que segue, que embora não tenha condições sequer de se qualificar como literatura, aqui vai publicado para sacudir a poeira deste melancólico e abandonado blog:

Um amor informal

Encontravam-se fortuitamente.
E, em cada breve instante em que se viam,
Não havia mundo, nem tempo.
A eternidade
De um segundo lotava o universo.

Não se tocavam. As declarações
Ou promessas eloquentes não haviam.

Eram sorrisos, diálogos banais.
Nada aparente que pudesse denunciar
A intimidade que fluía, natural,
Sem protocolos nem expectativas.

Mas, sem exigências, nem imposições,
Eram velhos parceiros de há pouco conhecidos
E o comezinho, o verdadeiro paraíso.

Gravataí, 20 de novembro de 2015

Ubirajara Passos

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A todos os amantes, neste dia


O amor é uma energia que ultrapassa o desejo. É a comunhão dos seres na totalidade, muito além de simpatias casuais. 

E quando corpos comungam com amor  há uma elevação do ser bem maior do que o prazer individual. Os amantes não são objetos, mas metades da mesma ternura, unidos na intensidade do amor.

Comungando ou não, e mesmo rejeitado, pisado e escarnecido, este é um sentimento verdadeiro que jamais se extingue.

Gravataí, 12 de junho de 2014

Ubirajara Passos

Soneto do Terceiro Dia


Terceiro poema da Heptalogia de Novembro (título sugerido pelo Carlão, ontem à tarde):

Soneto do Terceiro Dia 

Quarta-feira linda,
Velha namorada,
Sol e ventania,
Saias levantadas! 

Suave e esperançoso
Topo da semana,
Faz-nos rir a toa,
Num bater de asas! 

As feiras são feiras,
Mercúrio, o mensageiro,
Entrega-nos cartas de pura bonomia. 

E nosso olhar se perde,
Apesar da rotina,
Nas coxas sedosas daquela messalina. 

Gravataí, 28 de novembro de 2012 

Ubirajara Passos

 

O Verbo e a Virgem


Outro dia, eu comentava com o companheiro Gerson Monteiro que, se antigamente, eu escrevia num jorro só (embora, raríssimas vezes, o resultado eventualmente não fosse o melhor), ultimamente ando precisando de inspiração em fatos do quotidiano e de um certo amadurecimento dos textos, especialmente as crônicas.

Os poemas, entretanto, continuam a sair-me num impulso quase inconsciente.  E foi assim, sentado à beira do lago do Parcão de Gravataí, ontem à tarde, enquanto a minha enteada Larissa se divertia em alimentar tartarugas e patos, que praticamente psicografei o poema que publico hoje. Como em geral, o primeiro verso surgiu meio do nada, apenas com a intenção de retratar o primeiro olhar de um casal.

Era para tratar de quaisquer desconhecidos, com nomes comuns na tradição luso-brasileira. Poderia ser o dos pais do Cristo, José e Maria, mas a inspiração insistiu em colocar João, e a partir daí nasceu o texto, que poderá parecer polêmico a evangélicos, católicos, cristãos e moralistas em geral. Aos quais, desde logo, previno que não tive a menor intenção, ateu ex-católico, de “denegrir” a imagem de sua santa “virgem”, cuja maior e concreta “pureza” foi a de dar apoio, sofrendo ao lado, do mártir revolucionário que cometeu a loucura de desafiar um império só com a palavra, sem armas na mão.

Quis apenas celebrar, num momento de ficção, e a pretexto do episódio em que Cristo entrega seu díscipulo mais amado e sua mãe para que se cuidem mutuamente, o amor real, prazeroso, feliz e transformador, que nasce nos corpos, porque é feito da pura energia vital básica, o átomo do tesão, a que o Mestre Reich chamava orgone. Aliás, creio, que se alguma forma de psicografia se manifestou foi o velho Guilherme (Wilhelm) que “encostou” ao meu lado, enquanto rabiscava o bloco de papel. Seja como for, segue abaixo o poema:

O Verbo e a Virgem 

E eis que João olhou para Maria,
Depois que o Cristo lhe pediu que a protegesse,
E viu não uma mãe, mas uma amante!

E desejou-a tão intensamente
Que surpreendeu-se ao ser correspondido.

Ele, o apóstolo mais obscuro,
Pouco dado a manifestações
De eloquência e entusiasmo,
Mas, apropriadamente,
Depositário dos mais íntimos segredos,
Confessionário ambulante do Messias!

Não poderia crer que a “eterna virgem”
(Naquele tempo uma ilustre cinquentona,
Sofrida mãe de uma meia dúzia

De machos loucos dados à guerrilha,
Dos quais o Mestre era o mais manso nas armas,
Porém o pior questionador no verbo)
Pudesse responder com um sorriso aberto
E com trejeitos de fêmea no cio,
Em plena execução do filho mais amado.

Mas assim foi e se abraçaram ambos,
Com as bênçãos do pastor trintenário,
E se afastaram, de mãos dadas, enlevados
Num encanto mútuo, andando sobre as nuvens.

Uma delas, cinzenta,
Lhes barrou o caminho
E se voltaram, pesarosos, para o Cristo.

Mas eis que o Salvador, quase morrendo,
Gritou com o último fio de voz que lhe restava:
Vai em paz, mãe, sejas feliz e faças
A este irmão e filho meu feliz.
Vos alcançastes
O supremo grau de elevação do ser humano!

Que o amor do Pai frutifique em vossos corpos
E vossa mente possa ser a chama
Que resgate a humanidade do pecado
E a liberte da culpa, da dor e do sadismo.

E assim morreu, enquanto ía
O novo casal rumo ao futuro do amor vivo!

Gravataí, 19 de fevereiro de 2011

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Inquietude Infinda


Poema que compus, hoje de tardinha, enquanto ía do foro à casa do meu falecido pai (que herdei) pegar o presente de Natal que minha irmã, Dirce, deixou para a Isadora, na mesa da cozinha:

Inquietude Infinda

Depois que te mirei o olhar,
Que te beijei, sentindo o mundo desmanchar-se,

Depois que tre provei o fruto
Aveludado que escondes entre as pernas,

Que gargalhei contigo,
Novamente uma criança de dois anos,

Com entusiasmo, de qualquer besteira;

Depois que ouvi a tua voz suave,
Que afagaste, descuidada,
Num gesto terno e solto,
Os meus cabelos,

Desde então o mundo se tornou exílio
E onde esteja sinto-me ao largo.

Faça o que faça, na maior paixão,
Se não estou contigo sou incompleto,

E, nos mais pungentes devaneios,
Um travo amargo me comprime o íntimo.

Sofro de um tal fascínio que o desejo
É infinitamente maior até que o estar contigo

E só encontro cura no nirvana
De um cósmico amplexo mudo
Testemunhado pela luz das três marias.

Gravataí, 23 de dezembro de 2010

Ubirajara Passos

À minha mãe ida, mas sempre presente


Não sou dado a manifestações emotivas em datas de comemoração “obrigatória” e padronizada, que atendem muito mais à ganância do mercado capitalista do que às memórias afetivas coletivas. Mas, hoje de manhã, em meio às peripécias finais da campanha eleitoral como candidato a Coordenador-Geral do Sindjus-RS, acordei com uma nostalgia antiga e dolorida, que o arvoredo de fundo de pátio, em pleno outono de frio, nuvens e ventania, para que dá a janela do meu quarto, tratou de reforçar, e acabei parindo o poema abaixo:

À minha mãe ida, mas sempre presente

Já faz bastante tempo que partiste
Para a longínqua estância do eterno,
Deixando-me pra sempre desmamado.

Quando tu fostes de volta ao pó da terra,
Mais do que alguém que carregou-me nove luas
No edênico berço do teu ventre,
Perdi uma amiga, uma das raras almas
Que compreendia-me profundo e desnudado
Dos atavios de adágios e discursos.

Perdi uma parte irrecuperável de mim mesmo,
Mas conservei, pulsante e permanente,
Uma ternura por tudo é quanto frágil,
Um cuidado preocupado e extremoso
Com a vida nova que se agita entusiasmada
E inconsciente da perfídia deste nosso mundo.

Eu que privava da tua intimidade,
Mas fui, contraditório, parco de palavras
Pra te dizer o quanto tu eras tudo,
Hoje compreendo, pai que sou de uma filhinha
O que inspirava as intromissões,
Que sufocavam meus ímpetos de potro,
Já bem crescido e senhor de si.

Hoje, conservo, em meio ao fogo da batalha
Pela transformação da sociedade
Em justa e solidária comunhão de peões,
Sempre uma ponta de intranquilidade,
Quando distante da minha menininha,

E, sempre que posso, jogo longe a armadura
E sento ao chão, criança revivida,
Para com ela ser bebê de novo,
Me arrebatar com o mais simples brinquedinho
Rindo à toa, com ela, o olhar cúmplice,

E lhe dar o que trago de mais caro,
Bem fundo, no mais íntimo de mim,
Que é o carinho que de ti restou-me,
Como relíquia sagrada e sem medida.

Gravataí, 9 de maio de 2010.

Ubirajara Passos

Vem!


 

Por que não vens ao meu encontro, então?
Por que não perder tarde e noite sem roteiros?
Esquecer o imediato, o necessário, o rotineiro?

Vamos quebrar esta barreira insossa do desconhecido
E misturar nossas carências e desejos
Até que vórtice sem freio da loucura

Que atende por “tesão emocionado” nos conduza
De volta ao rotineiro, ao chato, ao sem sentido
Da existência, distantes, lado a lado!

Porto Alegre, 16 de março de 2009

Ubirajara Passos